After Separation - Livro 2
43 Capítulo XLI
Notas iniciais
"Recomeçar no amor é uma prova de maturidade e de que vale a pena tentar de novo"
***
Berlim, Alemanha...
A manhã me encontra encarando o teto do quarto, e, como um eco suave, a memória dela ressurge. Faz exatamente um ano desde que a conheci na festa de Camille, e, de repente, todas as lembranças vêm à tona. Os bons momentos, as risadas compartilhadas, agora flutuam em minha mente numa série de flashes agridoces, uma perfeita e complexa dualidade entre a saudade e o luto pela ausência.
É curioso como a alegria do passado pode se transformar na causa da dor presente, um paradoxo que se repete. Sinto tanto a falta dela. Sua ausência ressoa como uma canção que não consigo parar de ouvir. No entanto, o que me anima é a certeza de que o tempo que me separa do reencontro com ela só faz diminuir. Esse pensamento converte a saudade em uma esperança renovada, e o tempo, que antes parecia um fardo, agora é um aliado na contagem regressiva para a alegria de tê-la de volta.
— Falta pouco já — murmuro, e um sorriso confiante e esperançoso se esboça em meu rosto. Torço para que esses três meses restantes voem na velocidade de um trem bala.
Permaneço na cama, preguiçosamente, revivendo as lembranças com Sara por mais alguns segundos. Só depois, finalmente, crio coragem para encarar a intragável companhia da minha esposa. Para o meu completo desgosto, hoje é domingo. E, ironia das ironias, não há expediente na Care para me livrar do infortúnio da presença de Maryanne.
Arrastei-me até o banheiro anexo. Momentos depois, saí já de banho tomado, sentindo o peso das longas horas de voo no jatinho de ontem. Chegamos em casa da África às tantas da madrugada, e tudo que me lembro é de colocar Will na cama e desabar na minha.
Na sala, Maryanne está à mesa, um copo de suco de laranja numa mão e o jornal na outra. O fato de ela estar com a atenção vidrada no exemplar dominical me chama a atenção de imediato. Afinal, Maryanne nunca foi fã de noticiários. Algo está errado.
— Você lendo jornal? Que novidade é essa? — comentei, acomodando-me na cabeceira da mesa farta para o desjejum tardio. Já passava das dez.
— Bom dia para você também, Gil. — Maryanne retribuiu, com um tom de voz doce demais, quase açucarado, que me irritou imediatamente.
Nem me dei ao trabalho de responder. Peguei a cafeteira e me servi.
— Wil está com Matilde? — Lancei um olhar rápido na direção de Maryanne, que nem piscou.
— Sim, no terraço — respondeu sem muito ânimo e com um desdém que eu conhecia bem. O ar de enfado, porém, desapareceu em um instante. — Veja! A nossa foto está estampando a coluna social do jornal Bild! A matéria fala sobre o lançamento do seu projeto hídrico em Joanesburgo, ontem de manhã.
Sua voz tagarela, cheia de uma empolgação repentina e exagerada, fez meus músculos se enrijecerem. A alegria súbita dela me soou falsa, ensaiada.
— Não diga? — resmunguei, despejando uma colher de açúcar em minha xícara de café. De amargura, já bastava a minha vida.
— Sim! Veja! — Ela me estendeu o jornal, os olhos brilhando de uma satisfação que me era alheia.
Sem muita vontade, peguei o exemplar de sua mão.
— "Empresário investe em projeto hídrico sustentável que revoluciona o acesso à água" — Embora minha voz soasse seca, por dentro, uma maré de orgulho transbordava ao pensar na felicidade e dignidade que um simples gesto de investimento havia proporcionado a tantas pessoas, transformando o invisível em uma realidade palpável.
O texto detalha a iniciativa que, desde o dia anterior, levava água tratada a comunidades em Joanesburgo. Descrevia as parcerias que eu havia firmado com o governo local, ONGs e outros empresários para financiar o mega projeto, enfatizando o impacto já benéfico na vida da população. Minha imagem aparecia em fotos do coquetel de lançamento, realizado em um centro comunitário, ao lado de Kaluma, o idealizador, e de autoridades.
Fiz questão de que o coquetel de lançamento fosse realizado em um centro comunitário local, na própria área que seria beneficiada. Era um gesto de comprometimento que chocou alguns dos meus parceiros e autoridades, que preferiam a formalidade e a segurança de um restaurante luxuoso. A logística e o trabalho extra eram as desculpas, mas o verdadeiro motivo era o medo de uma proximidade real com a população. Bati o pé. O evento seria ali, aberto, com a comunidade presente. A presença policial para garantir a segurança dos "convidados de honra" foi um adendo que considerei ridículo, mas um mal necessário para evitar a hipocrisia de uma festa em local distante.
O meu olhar se fixou em uma das fotos. Nela, Maryanne sorria amplamente, segurando meu braço. Eu, com um sorriso plastificado, segurava Will no colo. Ele, com sua beleza infantil e um bermuda sarja com camisa pólo azul bebê, parecia genuinamente feliz, alheio ao calor da cidade. A legenda, "Empresário Gilbert Grissom com a esposa e o herdeiro do casal. Uma verdadeira família feliz", era uma ironia amarga. A imagem vendia uma perfeição que não existia. A felicidade era apenas de fachada.
— Estão falando das maravilhas do seu projeto, Gil! E você conseguiu calar a boca de muita gente que te chamava de fanfarrão. Tem matéria em diversos portais de vários países, principalmente daqui da Alemanha, acredita? — Maryanne conta, a voz carregada de entusiasmo.
Solvo um gole de café, os olhos fixos na notícia, e respondo com um resmungo satisfeito:
— Hum...
— Está famoso com seu gesto altruísta, meu amor! — Maryanne exclama, com o entusiasmo de quem acompanha a repercussão.
— A intenção nunca foi ficar famoso, Maryanne — respondo, com tranquilidade. — Foi apenas ajudar quem precisa, bancando um projeto como esse.
— Claro, claro. Mas, da próxima vez, por favor, escolha um lugar melhor. Aquele centro... Sabe, cheio daquelas pessoas... — O rosto de Maryanne se contorce em nojo e eu franzo a testa, quase não acreditando no que ouço. — Ninguém merece.
— Horrível eu já sabia que você era, mas racista? — Me levanto abruptamente da mesa, com a xícara de café nas mãos.
— Aonde vai?
— Ficar com o meu filho, cuja companhia é mil vezes mais agradável que a sua. — cuspo as palavras, sentindo a liberdade de ser genuíno por um instante. Retiro-me da sala, os xingamentos de Maryanne me perseguem, mas perdem força a cada passo que dou. O desprezo que sinto por ela é um luxo que só me permito dentro de casa, longe de terceiros e da obrigação de fingir um casamento feliz.
No terraço, sob a sombra suave do pergolado, a paz me acolhe. Matilde está no balanço, embalando William no colo e conversando baixinho com ele. O bebê responde com resmungos e sorrisos.
— Ei! Estão aqui, é? — chamo, a voz suave, como se a grosseria e o veneno que deixei na sala nunca tivessem existido. A leveza do momento é o antídoto perfeito para a toxicidade que acabei de escapar.
— Olha só quem apareceu, Will. — diz Matilde, girando o pequeno bebê em minha direção. William sorri, um sorriso genuíno que ilumina todo o seu rostinho. Com pouco mais de três meses, ele já me reconhece e demonstra sua alegria. Suas mãos, sempre em busca da minha barba quando o pego no colo, se agitam. A promessa de um carinho inocente.
— Oi, carinha! — A voz me sai macia e melódica, totalmente diferente da acidez de minutos atrás. Eu me agacho ao lado de Matilde, sentindo o piso fresco do terraço. Will, seguro no colo de Tilde, se agita ao me ver, os bracinhos e pernas em movimento. Ele balbucia, um som encantador que só os bebês sabem fazer. O sorriso em seu rosto é contagiante, e é impossível não sorrir de volta.
— Acho que ele quer ir para o seu colo, menino. — Matilde sorri, e a certeza daquelas palavras se reflete nos olhos de Will, cheios de desejo. Deixando a xícara sobre a mesinha de madeira nobre, estendo as mãos, e a transferência é feita com cuidado. O peso bom e familiar de William em meus braços é um alívio, como se uma âncora pesada fosse solta.
— Ei! A minha barba não, carinha. — resmungo, mas sem qualquer aspereza na voz. A mãozinha rechonchuda se estica, determinada a agarrar uma boa porção de fios. William me encara, sério por uns instantes após a pequena bronca. Meus músculos se preparam para um choro iminente, mas então ele sorri, um gesto puro que desarma qualquer tensão. Relaxo o corpo, devolvendo a alegria que ele me oferece.
— Ele te olha com tanta ternura e amor — comenta Matilde, observando a cena enquanto faço caretas para arrancar mais um daqueles sorrisos.
— Acha que ele me ama, Tilde? — A pergunta sai quase como um sussurro, cheia de uma necessidade de confirmação que eu não esperava.
— Com certeza, querido.
— Mesmo que eu não seja seu pai de verdade e não tenhamos nenhum vínculo sanguíneo? — A pergunta ecoa a insegurança que ainda me assombra.
Matilde suspira, a serenidade em seu rosto me acalmando.
— Gil... O amor não se mede pelo sangue, querido. Ele se mede pela capacidade de cuidar, proteger e, acima de tudo, pela decisão de permanecer ao lado de quem se ama. Tanto a verdadeira maternidade quanto a verdadeira paternidade, se constrói com o vínculo emocional.
Assinto lentamente, sentindo o peso das palavras de Matilde. É a verdade mais pura que já ouvi. Olhando para o pequeno em meus braços, percebo que tenho aprendido, dia após dia, o significado real da paternidade. Não é uma predisposição biológica, mas a construção paciente de um laço afetivo que se fortalece com o tempo, a dedicação e a troca genuína de afeto. Meu amor por Will nasceu do cuidado, da presença constante e do instinto de proteção. Ele se aprofundou na intimidade que criamos, na forma como aprendi a respeitar e atender cada uma de suas pequenas e preciosas necessidades.
— Você ficará comigo, quando sua mãe e eu nos separarmos futuramente, carinha. — digo, a voz baixa, quase um segredo compartilhado com o rostinho rechonchudo do meu filho.
— Gil... realmente pretende se divorciar de Maryanne quando completar um ano de casamento? — a voz de Matilde invade a bolha, a pergunta carregada de uma apreensão disfarçada.
— Óbvio. — confirmo, o tom cortante. — O prazo estabelecido foi de um ano e pretendo cumprir. — Beijo a mãozinha de Will que segura meu dedo indicador.
— Presumo que depois vá atrás da prima da Maryanne, a tal Sara? — A forma como Matilde diz "a tal" soa como um comentário disfarçado, um julgamento sutil que me atinge em cheio. Lanço-lhe um olhar duro. O incômodo com a insinuação de que minha vida é um jogo de damas, onde pessoas são peças que se movem a meu bel-prazer.
— Sim, Matilde. — Respondo, a firmeza na minha voz abafando qualquer outra emoção. — Eu irei atrás da Sara, o amor da minha vida.
Matilde abre a boca, mas se cala quando meu celular toca com uma chamada. Olho para a tela e vejo o nome do meu advogado, Joshua, reluzindo.
— Tilde, por favor, pegue o Will por um instante. Preciso atender.
Ela toma William dos meus braços com cuidado e se aninha no balanço, tentando acalmar o bebê que se agita com a súbita troca de colo.
— Alguma notícia boa, Joshua? — perguntei nem me preocupando com as formalidades, e sentindo o nervosismo subir pela garganta.
A resposta de Joshua era a mesma de sempre, mas isso não a tornava menos frustrante.
— Nada de novo. Ele continua se recusando a me receber — disse, a voz do advogado carregada de cansaço.
— Mas que caralho! — deixei escapar, em voz alta demais, a raiva se materializando.
— Gil! Modos! — a voz de Matilde me recriminou.
Sem dar-lhe atenção, virei-lhe as costas, me afastando para continuar a conversa com meu advogado.
— Não é possível que ele seja tão inflexível assim! — exclamei, a voz carregada de incredulidade.
— Talvez devesse desistir, Gil — sugeriu Joshua, a voz cansada.
— Nem pensar! — A ideia me irritou profundamente. — Gilbert Grissom não desiste.
A persistência era minha maior força, mas também meu maior risco.
Joshua repetiu o que já vinha dizendo há meses.
— O sujeito não quer vender. Já sugeri que posso conseguir outra empresa no mesmo ramo.
— E eu já disse que não quero — minha voz, embora firme, já mostrava o cansaço da batalha. — Meu interesse é nessa. Consiga a venda. Ou vai me fazer revogar a promessa do escritório?
O silêncio do outro lado da linha foi a resposta.
— Honestamente, Gil? Estou quase desistindo do escritório. Esse homem não vai vender 51% das ações da empresa dele.
A frustração do advogado me atingiu como um golpe. Ele não podia desistir agora. Aquelas ações eram cruciais. Suspirei, já pensando no próximo passo.
— Faça o seguinte, Joshua. Marque uma reunião com ele. Quem sabe se eu falar diretamente, sem intermediários, consiga persuadi-lo?
— Certo.
— Me avise assim que conseguir.
— Pode deixar. E mais uma coisa, Gil: te mandei o relatório de fusão. Detalhei os termos e condições da operação com o contador e o consultor para a apresentação aos sócios da Care.
— Excelente. Vou ler com calma.
A ideia da fusão com uma empresa de tecnologia — visando expandir o portfólio e a lucratividade da Care Cosmetics — surgiu após esses últimos três meses de estudo e conversas. O plano era apresentar a proposta aos sócios minoritários em duas semanas, e o relatório de Joshua seria meu principal argumento para provar que a iniciativa não era um salto no escuro.
— Qualquer novidade, ligo para você — disse ele, a voz firme.
— Fico no aguardo — respondi, finalizando a chamada e encontrando Matilde me observando.
— Problemas? — a voz dela era um misto de curiosidade e preocupação.
— Não — desconversei, apressada. — Vou para o escritório. Joshua me enviou uns documentos para revisar.
Me aproximei, beijei a testa de Will e saí, evitando mais perguntas.
***
Nova York, Estados Unidos...
A voz de Morgan ecoou na sala, mas minha atenção estava presa na tela do computador de mesa.
— Chefe, em meia hora tem a reunião de editores com o chefe master.
Eu apenas balancei a cabeça, uma resposta mecânica.
— Está tudo bem? — A preocupação na voz de Morgan era palpável.
— Sim — respondi, e me arrependi. A falta de firmeza na minha voz denunciava tudo.
— Você parece estar a quilômetros de distância, presa nessa tela.
— É que... vi uma imagem aqui em um artigo que me pegou de surpresa — justifiquei, com a atenção fixa na tela.
— Que imagem? — ela perguntou, e sua curiosidade venceu a hesitação. — Posso ver?
Assenti. Morg veio para perto de mim e se inclinou ao meu lado para ver.
— Ah! — a exclamação saiu de sua boca. — Eu já tinha visto isso.
— Já? — minha surpresa foi genuína.
— Sim. — com um sorriso sem jeito, Morgan confirmou. — Só não te contei por causa de vocês, né? O passado e tal... Mas isso aí foi o lançamento do projeto hídrico que ele financiou na África. Um gesto bem altruísta da parte dele.
Uma felicidade genuína me invadiu. Lembrei de quando Gil, com determinação, me contou sobre a ideia de levar água potável àquelas pessoas. Ver seu sonho realizado, mesmo à distância, encheu meu coração. Apesar de tudo, foi a única coisa boa que aquele cretino fez que me permitiu sentir um mínimo de orgulho dele no momento.
— Eles parecem felizes — comentei, observando a foto com mais atenção.
O sorriso de Maryanne era radiante, e ela mantinha a mão firmemente no braço de Grissom, como que para mostrar quem estava no comando. Grissom, por sua vez, exibia um sorriso que, apesar de genuíno, me fez sentir uma pontada de algo que não queria nomear.
— Você acha? — a voz de Morgan me trouxe de volta à realidade.
— Pelo menos está parecendo — respondi, com um suspiro silencioso.
A inocência da criança no colo de Grissom prendeu meu olhar. Havia uma parte de mim que queria sentir um rancor amargo, já que sua vinda foi o que, de certa forma, me tirou Grissom. Mas a mágoa que eu tanto alimentava se rendeu ao simples e puro sorriso do bebê. A doçura daquele momento desfez a dureza do meu coração.
— O Grissom ainda mexe com você, né chefinha? — Morgan perguntou, a voz baixa, mas o olhar fixo em mim, como se me estudasse.
O peso da verdade se assentou em minha voz.
— Já mexeu, Morg — declarei. A imagem, tão feliz e completa daquela família, pareceu ser o gatilho que eu precisava. Percebi que, enquanto a vida dele continuava, e de forma tão completa e aparentemente feliz, a minha também deveria seguir em frente. A felicidade dele, por mais que me causasse uma pontada de algo que não quis nomear, me mostrou que eu também mereço encontrar a minha. E, como um capítulo que se encerra, fechei a aba e me preparei para o próximo passo.
***
— Doug! — chamei da porta de sua sala. Ele estava tão concentrado, debruçado sobre a mesa digitalizadora, que o susto foi evidente em seu sobressalto. — Desculpa te assustar — murmurei com um sorriso, notando a careta engraçada que ele fez.
— Aconteceu alguma coisa? — ele perguntou, e o olhar alarmado para a minha barriga era um misto de preocupação e afeto.
— Não, ele está bem — tranquilizei, a mão protetora pousada na barriga, uma reafirmação para mim mesma antes de ousar o convite. — Eu queria te convidar para sair comigo pra jantar amanhã.
A reação dele, um misto de surpresa e genuína felicidade, foi tão evidente que me atingiu em cheio. Naquele momento, vi a confirmação de que ele era a pessoa certa. Era a hora de deixar o passado para trás e permitir que algo promissor florescesse. O jantar não era apenas um encontro, era a promessa de um novo começo.
— Eu aceito, claro — ele respondeu, com um sorriso que se alargava.
— Às oito? — perguntei, a voz incerta.
— Às oito estarei na porta da sua casa.
— Tá bom. Agora deixa eu ir. Tenho uma reunião em instantes com o Owen — anunciei, consultando as horas no celular. Faltavam apenas dez minutos para o início, e eu já podia sentir a adrenalina. — Você não vai?
— Ah, sim. Então a gente se vê daqui a pouco.
Ao sair da sala, o som de um "yes" em comemoração me fez sorrir. Era impressionante como, por trás da sua inteligência, Doug ainda tinha a doçura de um garoto genuinamente feliz, e isso me encantava.
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