After Separation - Livro 2
44 Capítulo XLII
O ar da sala era uma paleta complexa: a doçura do papel envelhecido, a pungência de tinta fresca e o calor amargo do café se misturavam numa densa atmosfera. Reunidos em torno de uma mesa, uma ilha cercada por pilhas de manuscritos promissores e edições recém-lançadas, a equipe parecia formal, mas a paixão pela leitura cintilava em cada olhar, no gesto apressado que alcançava um novo rascunho
A discussão, o cerne daquela tarde, ganhou forma quando o primeiro manuscrito foi apresentado. McQueen, como sempre, defendia sua proposta com fervor, Doug, empolgado, esboçava uma capa ousada e o marketing traçava o plano de uma campanha de impacto. As ideias colidiam, eram analisadas e criticadas em um frenético misto de brainstorming e estratégia. A intensidade do debate era contida pelo respeito mútuo da equipe, unidos por um objetivo comum: descobrir a próxima obra-prima, a história que seduziria leitores e garantiria o sucesso.
Ao som de pastas fechando e cadeiras arrastando, o processo complexo e por vezes tenso chegava ao fim. A paixão pelos livros continuava a ser o elo que unia a todos, o que nos impulsionava a buscar a próxima grande história.
— Ei, Sara! — Owen me interceptou na saída da sala de reuniões, o passo largo e o sorriso fácil. — Como você está? Desde que retornei das minhas férias, não tivemos tempo para uma conversa decente.
— Estou bem. E você? Pelo visto, o descanso fez bem. — Respondi, já sentindo o ritmo acelerado de meus pensamentos diminuir um pouco, acompanhando seus passos no corredor.
Ele soltou uma risada baixa, confirmando.
— Foram revigorantes. Estava precisando desse tempo para mim, longe dos prazos e das pilhas de originais. Desde que assumi o posto de editor-chefe, esqueci o que era ter tempo livre.
— Posso imaginar. — comentei, sorrindo e virando o rosto para ele. — Que bom que você conseguiu se desligar de tudo.
— E esse garotão? — Owen aponta para a minha barriga.
Sorrio, confiante, enquanto deslizo a mão pela barriga visivelmente grande.
— Crescendo forte. Em menos de duas semanas, deve estar chegando.
O sorriso de Owen se desfez em uma expressão de perplexidade genuína.
— Isso me faz lembrar de te perguntar: por que você ainda não saiu de licença?
Suspiro suavemente, já esperando a pergunta.
Um dia antes de ele sair de férias, Owen me chamou em sua sala para avisar que, se eu quisesse dar entrada no pedido de licença, já poderia fazê-lo. Mas acabei decidindo que, como a gravidez seguia sem desconforto físico ou riscos, trabalharia até o fim para maximizar o tempo com o meu bebê.
— Optei por tirar somente a partir do nascimento do meu bebê, Owen. Estou bem, e a gravidez tem corrido de forma super tranquila. Não vi necessidade de parar antes do parto.
Ele me encarou, o olhar era um misto de desconfiança e preocupação, como se tentasse decifrar algo além daquelas minhas e de mim.
— Tem certeza? Não quero que você se sobrecarregue na reta final, Sara.
Eu o encaro diretamente nos olhos.
— Tenho, Owen. Honestamente, o trabalho me distrai, me faz bem. Além do mais, já deixei a maior parte das coisas super adiantadas. Os próximos dias serão mais de supervisão e organização, nada que me esgote. Acredite, eu conheço meus limites.
A preocupação em seu rosto cedeu um pouco.
— Ok. Se você diz. Agora, sobre o seu substituto... — Owen começou, mas eu o interrompi, parando abruptamente próximo à porta do elevador.
— Owen, tenho uma sugestão — falei, e ele parou também, virando-se para me encarar. — Não há necessidade de contratar um temporário. Morgan dá conta. É só deslocar um estagiário para auxiliá-la, e assim ela não fica sobrecarregada.
Confiava de olhos fechados em minha assistente. Sabia de sua capacidade e, por isso, a sugestão. Além de ser qualificada, Morg sabe como gosto de trabalhar, nosso timing e gostos são muito parecidos.
— Acha mesmo que sua assistente dará conta? — Ele questionou, com uma expressão que misturava ceticismo e consideração.
— Vai por mim, ela fará o trabalho e tomará as decisões certas tão bem quanto eu. Morgan me conhece, sabe o que eu penso e o que espero. É a melhor pessoa para manter tudo em ordem — garanti, com um sorriso de total confiança.
Owen me avaliou por um instante, ponderando a ideia. A confiança em meu tom pareceu convencê-lo, por fim.
— Então, ela fica no seu lugar. Verei um estagiário para auxiliá-la, mas quero que você faça a ponte e garanta que ela esteja pronta.
— Fechado. Obrigada pela confiança, Owen — agradeci, enquanto as portas do elevador se abriam.
Meu chefe entrou, e antes que as portas se fechassem, ele apontou o dedo indicador para mim, exibindo um sorriso divertido.
— E você me deve um jantar, para me atualizar sobre o garotão, depois que ele chegar.
Assenti com um sorriso antes que as portas de metal se fechassem.
— Por que deve um jantar ao Owen?
A voz de Doug soou atrás de mim, mais baixa e seca. Me virei e o encontrei com um franzido sutil na testa e um sorriso que não alcançava os olhos. Estranho, mas também não me preocupei com isso e expliquei:
— Ah! É que ele me convidou para jantar há um tempinho e na época não deu. Aí, fiquei em dívida com ele.
— Hum... — ele murmurou, a única resposta, enquanto o desconforto parecia pairar no ar entre nós.
— O que foi, Doug? — perguntei, sentindo uma ponta de irritação com a reação dele.
— Nada, não! — ele respondeu depressa demais, os olhos percorrendo o corredor vazio.
— Sei. — resmunguei, nada satisfeita com a resposta e o desconforto aparente dele. Aquele clima pesado era desnecessário. Mudei de assunto, tentando quebrar a tensão. — Agora que lembrei. Podia tê-lo chamado para ir com a gente amanhã, né?
Doug me encarou com as duas sobrancelhas erguidas e uma expressão de genuína surpresa, quase de pavor.
— Estou brincando — disse, sorrindo. A resposta foi instantânea: vi o ar sair dos pulmões dele, um alívio tão visível que quase me fez rir.
— Touché! Você me pegou — ele disse, o sorriso mais gentil e relaxado desta vez. Ele veio até mim e me deu um beijo leve na testa, o gesto aquecendo meu coração.
— Vai ser só nós dois amanhã, Doug — repeti, para reforçar a ideia.
Ele assentiu, seus lábios se esticando mais em um sorriso que fazia seus olhos brilharem.
— Só nós dois amanhã. — ele repetiu como se aquilo fosse a melhor coisa do mundo.
Despedi-me de Doug com um aceno e segui para minha sala, ansiosa para voltar ao trabalho. Mas antes, fiz um desvio até a mesa de Morgan, que estava imersa em uma pilha de manuscritos.
— Morg, posso roubar um minuto seu? — chamei, e ela ergueu a cabeça, os olhos brilhando.
— Claro, chefinha.
— Tenho uma boa notícia — sussurrei, me inclinando em sua direção. — Conversei com Owen, e ele aprovou. Você ficará no meu lugar durante a minha licença. E para que não se sinta sobrecarregada, ele vai deslocar um estagiário para ser seu assistente.
O rosto de Morgan se iluminou de uma forma que fez todo o escritório parecer mais claro. Ela se levantou de sua cadeira e, sem hesitar, começou uma dancinha, mexendo os ombros e os quadris com um entusiasmo contagiante. Era a celebração particular dela para tudo que a deixava feliz.
Ao terminar, ela se aproximou e me abraçou, a alegria genuína transbordando.
— Obrigada, chefe, pela confiança! Não vou te decepcionar!
Retribuí o abraço, sentindo uma ponta de orgulho.
— Por nada. Você soube merecer essa confiança. Espero que não me decepcione mesmo.
Ao desfazermos o abraço, Morgan estava com um sorriso enorme e radiante.
— Pode deixar que te deixarei orgulhosa, chefinha.
— Agora, quero te pedir um favor — digo, mantendo um tom mais baixo e conspiratório.
— O que quiser — ela respondeu de imediato, com um brilho de lealdade e entusiasmo nos olhos.
— Preciso de uma reserva para duas pessoas em meu nome, em um ótimo restaurante e para amanhã às oito e meia. Acha que consegue assim em cima da hora?
— Hum... Consigo sim — ela disse, a voz cheia de confiança. Havia um sorriso malicioso em seus lábios. — Mas vai sair pra jantar, é?
— Sim, com o Doug — contei, e vi seus olhos se arregalar. Comprimi os lábios para não rir da reação exagerada dela. — Decidi me dar a chance de viver algo com ele. Doug é um cara bacana e... gosto dele — confessei em um tom mais baixo, quase uma confidência.
Morgan demorou um instante para processar a informação. Depois, o sorriso malicioso deu lugar a um genuíno, cheio de alegria e afeto.
— Que bom, chefinha! Já estava na hora. O Doug é um ótimo sujeito, e dá para ver que ele gosta muito de você.
— É, eu sei — respondi, o coração se aquecendo com o apoio dela.
— Vocês formarão um casal tão bonito. Se bem que...
— Que o quê, Morg? — a instiguei diante de sua frase inacabada, a curiosidade despertada.
— Deixa pra lá, chefe — ela disse, sacudindo as mãos em nervosismo, como se estivesse espantando uma ideia no ar. — Era uma besteira o que eu diria. Vou já providenciar suas reservas. Alguma preferência de restaurante?
O súbito desvio do assunto não me passou despercebido, mas deixei para lá. O sorriso de Morgan era agora mais profissional do que malicioso, e ela parecia ter voltado a si.
— Mais calmo e intimista, que atenda a vegetarianos e não vegetarianos — respondi, detalhando meu pedido.
— Ok!
— Depois que conseguir, me avisa — pedi, já me virando para ir para minha sala.
— Pode deixar — ela respondeu, já com os dedos voando sobre o teclado do computador
Sigo para dentro da minha sala e por lá fico as horas que se seguem, enclausurada, debruçada em pilhas de manuscritos e deixando acertados os últimos ajustes dos projetos em andamento. Queria que minha assistente tivesse tudo pronto para assumir meu lugar quando eu estivesse de licença.
Em dado momento, Morgan bateu na porta para me avisar que já deu nossa hora e também que conseguiu reservas em um restaurante francês na Columbus Ave, no horário que eu queria.
— Ótimo, Morgan! — digo ao apanhar minha bolsa do cabideiro. — Você é a eficiência em pessoa.
— Obrigada, chefinha linda e maravilhosa — ela faz uma reverência que me faz rir.
— Amanhã estarei de folga, mas qualquer problema pode me ligar.
— Pode deixar.
Me despeço de Morgan e saio da sala. Me dirijo ao elevador e, enquanto aguardo, avisto Finlay e DB, o diagramador, vindo em um papo animado. Os dois estão aos risos. Recentemente, surgiu um boato na editora de que eles estariam de "rolo", algo que nenhuma deles desmentiu ou confirmou.
— E aí, Sara? Já de saída? — Finlay indagou, com a voz desinibida que parecia preencher o espaço após os dois pararem ao meu lado.
— Sim. E vocês? — respondi, observando o homem ao seu lado. — Oi, DB.
O sujeito, mais tímido, respondeu com um aceno de cabeça e um sorriso discreto.
— Já vamos também — responde Finlay, com um sorriso largo. Ela se inclina, falando mais baixo, mas ainda com um entusiasmo audível: — Estou tentando convencer o BD a me acompanhar em um happy hour, já que o Cris está com o pai hoje. Mas tá difícil dobrar esse cara.
— Não é isso, Finlay! — DB intercede, balançando a cabeça em um gesto suave. — Só estou cansado, só isso. — A timidez dele é um contraponto à expansão de Finlay.
Sorrio, entendendo a dinâmica dos dois.
— É que um happy hour de repente é mais forte do que a vontade de descansar, né, DB? — brinco, soltando um risinho leve.
— Exato! — ele concorda.
— Tudo bem, tudo bem — Finlay se rende, erguendo as mãos em sinal de paz, e volta a se dirigir a mim. — Mas e você, Sar, não quer vir então?
— Na próxima, quem sabe — respondo, ajeitando a alça da bolsa no ombro.
O elevador chega e nós três embarcamos. O silêncio momentâneo é quebrado pela pergunta de Finlay.
— Como vai para casa, Sara?
— Estou chamando um carro de aplicativo — digo, com o celular na mão já pronta para entrar no aplicativo em questão. Há algumas semanas, seguindo recomendações médicas, eu havia parado de dirigir. O aumento da barriga dificultava o uso adequado do cinto de segurança e aumentava o risco de trauma em caso de acidentes.
— Cancela aí, que a gente te dá uma carona, né, DB? — Finlay sugere, já com o olhar se voltando para o homem.
— Sim. Te deixamos na sua casa — DB concorda, a timidez de lado por um instante.
— Imagina, gente. Não precisa. Vocês vão desviar a rota de vocês — retruco, agradecida mas preocupada em não atrapalhar.
— Que nada! Te levamos — Finlay insiste, com a voz resoluta. — É mais seguro e rápido. Não vamos deixar você esperando um carro sozinha neste estado. É uma ordem de amiga.
DB assentiu, reforçando a decisão.
Acabo aceitando a carona e descemos para o estacionamento. Nos dirigimos ao carro de Finlay, que era espaçoso e confortável, e nós três seguimos em um papo animado, que naturalmente migrou para a reta final da minha gravidez.
— Já pensou em um nome, Sara? — DB questionou em determinado momento do papo.
— Que nada! — respondi em um muxoxo.
Mamãe tinha me feito a mesma pergunta dias atrás, na mais recente ligação que trocamos. Segundo dona Laura, a escolha do nome do bebê é uma etapa importante da gestação, só não mencionou que fosse tão difícil assim! Já tentei fazer listas, mas persistem muitas dúvidas e dilemas ao tentar encontrar um nome bonito, com um significado especial e que me pegue de jeito a ponto de dizer: "é esse".
— É tão difícil escolher um. Mas chego lá até ele nascer — concluí, na esperança de que a inspiração surgisse.
Finlay, ao volante, sorriu e contou a história do nome do filho dela.
— O nome do meu filho, Cris, foi uma escolha conjunta minha e do pai dele. A inspiração surgiu de uma brincadeira entre a gente, quando Robinson disse que um dia teríamos um filho chamado Cris, em referência ao ídolo dele, o jogador Cristiano Ronaldo. E a brincadeira pegou.
— Homens e esse fascínio por ídolos futebolísticos — comentei com uma careta engraçada.
— Ei, não generalizem. — DB concordou, se defendendo. — Não gosto de futebol .
— Você é do basquete. Grande diferença.
Caímos na risada.
***
Acordei naquela manhã de quinta-feira, um pouco mais tarde, já que estava de folga. Alisando a barriga volumosa, senti o futuro se mover sob minhas mãos, enquanto meus olhos se perdiam no teto, que parecia distante, assim como o tempo que me separava do encontro a noite com Doug. Cada batida do meu coração, cada carinho que eu fazia na barriga, era uma contagem regressiva para a noite especial.
A ansiedade por logo mais me corroía, uma mistura agridoce de medo e expectativa. Eu queria, de verdade, que tudo desse certo, que as peças do futuro se encaixassem perfeitamente. Doug me parecia a pessoa perfeita para ser um novo começo, a resposta suave para todas as minhas dúvidas, e a calma que sentia ao pensar nele era a certeza de que estava no caminho certo.
Um movimento inesperado, uma pequena onda de vida em minha barriga, e eu sorrio. Meu bebê parecia compartilhar comigo essa nova etapa, respondendo à minha ansiedade com uma certeza palpável. Era como se, mesmo de dentro, ele dissesse: "Estamos juntos nessa, mamãe. Fique tranquila." A sintonia entre nós era o meu maior conforto, a prova de que o amor já nos unia de forma inseparável. Aquele pequeno toque me lembrava que, não importava o que acontecesse, eu já tinha o amor mais puro e verdadeiro ao meu lado.
De repente, minha mente me sabota, trazendo a lembrança dele. Um eco amargo da possibilidade de que, por minha culpa, ele está perdendo momentos tão especiais e singelos como este: o bebê se mexendo dentro da minha barriga. A pergunta assombra: qual seria sua reação? Seu sorriso seria sincero? Como seria seu comportamento com tudo isso? Ele se comportaria como um verdadeiro parceiro, ou apenas como uma figura presente? E, mais doloroso, qual seria sua ligação com o bebê? Seria tão forte quanto a minha é com ele, uma conexão inquebrável que nem ele poderia jamais ter? Rapidamente, porém, a onda de insegurança é substituída por uma certeza: este é o meu momento, e o futuro é com Doug. Não há espaço para o passado. Apenas para o presente e para o futuro que pretendo construir junto com ele.
Resolvo levantar, um movimento lento e calculado, que se assemelha mais a uma oração do que a uma simples ação. Com a dificuldade de uma gravidez de quase nove meses, consigo me sentar na cama e, em seguida, arrasto-me até o banheiro. Sob os jatos de água quente, me permito pensar no rumo que pretendo dar à minha vida a partir do jantar com Doug. O vapor enche o ambiente, como um véu que cobre as lembranças amargas do passado. Deixo que a água escorra pelo meu corpo, levando consigo as dúvidas e a culpa. A pele se relaxa, o corpo se acalma e a mente se liberta. Estava prestes a iniciar um novo capítulo, com uma nova pessoa, deixando de vez para trás o passado de um relacionamento que não deu certo. O futuro, que antes era uma incógnita, agora se revela com uma clareza e uma beleza que eu nunca imaginei ser possível.
Um tempo depois, saio do banheiro, com a pele macia e o corpo revigorado pelo banho quente. O aroma do sabonete ainda paira no ar. A ansiedade pelo novo me preenche, uma vibração sutil no peito que se mistura à quietude da manhã. Visto roupas confortáveis para ficar em casa — uma camiseta macia que abraça a barriga e um short de moletom — e desço para tomar um café da manhã tardio. O som da chaleira no fogão, o cheiro de café fresco... tudo contribui para a sensação de paz, como se o novo capítulo estivesse à minha espera, já à mesa.
O restante do meu dia se resumiu em tarefas rotineiras, mas preenchidas por um novo e precioso significado. Falei ao telefone com mamãe, que me acalmou com sua voz familiar e carinhosa nessa reta final de gravidez, um porto seguro para a minha ansiedade. Depois, com Dayse, a quem contei sobre o jantar de logo mais com Doug e dividi a ansiedade doce da expectativa que me preenchia. Ajeitei algumas coisinhas no quarto do meu bebê, dobrando roupinhas minúsculas e sentindo a textura suave sob meus dedos, imaginando o rostinho que as vestiria. Mas a maior parte do tempo, porém, gastei folheando uma lista de nomes, cada um com um significado, cada um com uma possibilidade de história. E, por fim, sorri, sabendo que a escolha era apenas um detalhe, pois o amor que sentia já o batizava.
Depois de muita deliberação, havia conseguido fechar minha lista em três nomes: Benjamin, que significa "filho da felicidade", uma perfeita representação do que ele já era; Matheus, que evoca a ideia de um "presente de Deus"; e Gabriel, o anjo mensageiro da boa notícia, que trazia a paz.
Com a lista de nomes já enxugada, a tarefa de escolher o definitivo se tornou um exercício de imaginação, projetando cada um dos três nomes em um futuro que estava a menos de duas semanas de distância. Foi nessa reflexão que o tempo escapou. Quando me espantei, já passava, assustadoramente, das seis da tarde. Um senso de urgência tomou conta de mim. A pressa me impulsionou a subir para o quarto, revirando o guarda-roupa em busca do modelito perfeito para o jantar com Doug, um momento que marcaria o início de uma nova fase.
Após uma verdadeira revolução no meu guarda-roupa, a gravidez me levou a buscar não apenas beleza, mas também conforto para minhas noites especiais. A escolha perfeita foi um deslumbrante vestido midi de malha, na cor azul, com detalhes em renda que conferem uma sofisticação delicada, com um nó frontal que realça a silhueta de forma elegante. Nos pés, o conforto e a leveza caminham comigo: saltos baixos e blocos, ideais para manter a noite leve e agradável. Para complementar, os acessórios fazem toda a diferença: um colar sutil, brincos que iluminam o rosto e o bracelete, as três peças, Doug me deu de presente de Natal, um conjunto tão especial. A bolsa de mão arremata o visual com um toque final de requinte. Maquiagem e penteado seguem a mesma linha: minimalismo e elegância em perfeita sintonia, provando que menos é mais quando a beleza vem de dentro para fora.
Estava em frente ao espelho, borrifando um perfume de fragrância suave e floral no pescoço. O som agudo da campainha, vindo do andar de baixo, cortou o silêncio da casa, e por um instante, o aroma doce se misturou à deliciosa expectativa da chegada de Doug. Com um sorriso que prometia a noite, deixei o frasco sobre a penteadeira, apanhei a bolsa da cama e saí do quarto, descendo as escadas com a sensação de que a noite estava apenas começando.
Ao abrir a porta, lá estava ele, elegantemente vestido. O terno verde oliva, sem gravata e com a camisa branca impecável, realçava a pele de Doug e parecia intensificar a profundidade e o brilho dos seus olhos. Seus cabelos estavam perfeitamente penteados, e o sorriso que ele me deu fez meu coração acelerar um pouco mais. A visão dele, tão bem arrumado e charmoso, me fez esquecer por um momento o mundo ao redor.
— Uau! — Doug deixou um assobio discreto escapar, seguido por um sorriso genuíno que percorreu todo o seu rosto. — Está querendo me impressionar?
Inclinei a cabeça, um sorriso de lado brincando nos lábios.
— Se for o caso, consegui?
— Completamente! Estou fascinado! — afirmou com sinceridade, aproximando-se e pegando minha mão delicadamente. Seu toque fez um arrepio gostoso percorrer minha pele. — Acho que até esqueci como se respira por um instante.
— Acho que nós dois esquecemos — murmurei, sentindo a familiaridade calorosa de sua mão na minha. — Também estou fascinada com a sua beleza e elegância, Doug.
Ele sorriu, os olhos brilhando intensamente ao me olhar, e o brilho parecia iluminar a noite que se iniciava.
— Então estamos empatados!
Optamos por ir no carro dele. Expliquei a rota, mas a conversa logo tomou o centro do nosso universo. Em um clima leve, embalado por amenidades e risadas, percorremos as ruas de Nova York. A noite estava agradável, com a temperatura amena de meados de junho, a transição perfeita da primavera para o verão, e os dias longos que nos presenteiam com um pôr do sol demorado. A cidade, com suas luzes começando a piscar, parecia o cenário ideal para o início de uma noite mágica. O som do rádio em volume baixo e o burburinho distante das buzinas criavam uma trilha sonora imperfeita, mas encantadora, para a nossa jornada.
Poucos minutos se passaram até que Doug e eu entrássemos no The Consulate, sentindo imediatamente a atmosfera aconchegante que remetia a uma autêntica brasserie europeia. O interior amplo e arejado, com mesas de madeira e cadeiras de couro, prometia uma noite confortável. Olhamos para as mesas ao ar livre, já completamente ocupadas, mas não nos importamos; o interior elegante, romântico e com uma "vibe" agradável, era igualmente acolhedor.
Fomos acomodados em uma mesa especial, posicionada perto de uma janela que oferecia uma vista deslumbrante para a silhueta noturna do Central Park. Um garçom impecavelmente vestido, com um sorriso gentil, estendeu-nos os cardápios e informou que retornaria em instantes para anotar nossos pedidos. Nós assentimos, mas a verdade é que, naquele momento, a comida era o último dos nossos pensamentos.
Entre risos e comentários sobre os pratos que íamos lendo, Doug e eu perdemos a noção do tempo, imersos em nossa bolha particular. A luz suave que emanava do interior do restaurante dançava sobre a paisagem urbana do lado de fora. A cena parecia ter saído de um filme, e a sensação de estarmos vivendo um momento único me invadiu.
— Essa vista é a cara de Nova York, não é? — comentei, observando a miríade de luzes da cidade.
Doug me olhou com uma intensidade que fez meu coração acelerar. Ele segurou minha mão com mais firmeza, com o polegar acariciando a pele da minha.
— A vista é linda, mas a melhor paisagem está bem aqui, diante de mim — disse ele, com a voz baixa e carregada de sinceridade.
Senti um calor se espalhar por mim, e um sorriso genuíno surgiu em meu rosto. Sabia que a noite seria muito mais do que um simples jantar. Seria o início de um capítulo inesquecível. Um silêncio confortável pairou entre nós. Eu o observei, maravilhada com a facilidade com que ele me fazia sentir tão à vontade, tão desejada. Foi então que, vencida pela emoção, decidi revelar o que estava em meu coração.
— Sabia que escolhi este lugar por um motivo? — com um sorriso enigmático, comentei, de repente.
Doug me encarou, curioso. Os olhos dele, cheios de brilho, me encorajaram a continuar.
— Qual motivo? — ele retrucou.
— Porque eu queria que fosse uma noite especial... Em um lugar especialmente elegante... Com alguém especial — respondi, e o silêncio que se seguiu pareceu reverberar em todo o restaurante.
Doug não esperou muito para responder, e suas palavras me atingiram com a força de uma revelação.
— Para mim, já está sendo especial, simplesmente pela sua companhia — disse ele, com um sorriso terno. — O lugar poderia ser o mais simplório ou elegante como esse, mas o que o torna especial é o fato de você estar comigo nele.
Meu coração acelerou. Era uma confissão doce, inesperada e que me desarmou por completo. Percebi que não era apenas o restaurante, a cidade ou a noite que tornavam tudo tão mágico; era a forma como ele me via e a maneira como ele falava, transformando cada frase em uma melodia romântica. Naquele momento, todas as luzes da cidade pareceram se apagar, e o único brilho que eu conseguia ver era o reflexo dos seus olhos nos meus.
O garçom voltou, discreto, mas a nossa bolha não se desfez. Nossos olhos, que não conseguiam se desgrudar, fizeram a maior parte do pedido. Apontamos o que parecia mais apetitoso no menu, mas, na verdade, a comida era um detalhe. A noite era sobre nós, sobre o universo que criamos naquele cantinho em Nova York, com vista para um mundo que, por algumas horas, parecia ter parado apenas para testemunhar o começo da nossa história.
A cada prato que chegava, em meio a conversas que iam do sublime ao divertido, era uma explosão de sabores. A comida era impecável, mas o melhor tempero vinha da nossa conexão. Compartilhamos pequenas histórias e a cada riso, a cada olhar cúmplice, a nossa intimidade crescia.
Após a sobremesa, ainda sentíamos que a noite não poderia terminar. Doug, com um brilho no olhar que eu já começava a reconhecer como o meu momento favorito, estendeu a mão.
— Vamos dar uma volta. Ainda quero mais um pouco de Nova York com você — convidou, com um sorriso de tirar o fôlego.
Eu não hesitei. Peguei sua mão e, juntos, saímos do restaurante. A noite de junho nos abraçou novamente, e enquanto caminhávamos pelas ruas movimentadas, lado a lado, a cidade parecia cantar uma canção especial para nós. Nova York, com sua energia vibrante e beleza caótica, era apenas o cenário. Aproveitando aquele clima todo romântico, e sentindo a coragem impulsionada pela adrenalina da noite, resolvi abrir meu coração para ele, já que durante o jantar a timidez havia me vencido.
— Doug... Eu quero tentar... você e eu... Como um casal — confessei, sem entremeios ou vírgulas, minha mão se movendo hesitantemente até encontrar a dele, que estava a poucos centímetros. Agarrei-a com a firmeza que a minha voz não conseguiu ter. — Você aceita?
A reação de Doug foi imediata e comovente. Ele se virou, postando-se diante de mim e interrompendo nossa caminhada. A surpresa em seus olhos era evidente e logo deu lugar a uma felicidade tão sincera que me desarmei completamente. O sorriso que ele me deu foi a confirmação que eu precisava. Naquele momento, soube que ele era o recomeço que eu merecia, e a ousadia da minha proposta foi o primeiro passo em direção a essa nova felicidade.
— Claro que aceito, Sar — disse, a voz embargada pela emoção. — É tudo o que eu mais quero.
E, ali, sob a luz dourada de um poste, com a sinfonia urbana como trilha sonora, nos beijamos. A princípio, o beijo foi hesitante, um toque incerto que carregava a novidade e a expectativa de um futuro juntos. Minha mão se apertou na dele, buscando segurança naquele contato. Em segundos, a estranheza se dissipou, dando lugar a uma familiaridade surpreendente. A pressão se intensificou, o mundo ao nosso redor desapareceu, e o único som que importava era o nosso respirar ofegante.
Deixei-me levar completamente, sentindo o sabor da nossa noite em seus lábios. Cada movimento, cada toque, era uma confirmação silenciosa de tudo o que havíamos falado. O beijo não era apenas um gesto, mas um começo. Não era perfeito, mas era autêntico, e a imperfeição daquele momento só o tornava ainda mais nosso.
Quando nos separamos, ofegantes, abri os olhos e o vi sorrindo, com a felicidade estampada no rosto. Naquele instante, não havia mais incertezas, apenas a certeza de que estávamos prontos para começar o nosso capítulo. E, com as mãos entrelaçadas, seguimos caminhando por Nova York, não mais apenas lado a lado, mas juntos, em sintonia, rumo a tudo o que o amanhã nos reservava.
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