After Separation - Livro 2
21 Capítulo XIX
Notas iniciais
— Senhor Grissom... A senhorita Miller chegou.
— Deixe que entre! — respondo, encerrando a chamada da secretária.
Em questão de segundos vejo Teri Miller adentrar na sala da presidência da Care, elegante como sempre em seu conjunto social e carregando em um dos braços uma bolsa pasta.
— Gil só você mesmo para me tirar de férias sabáticas em uma pitoresca cidade das colinas italianas e me trazer à este caos da América.
Sua fala sem pausa e em um falso tom de aborrecimento, me faz abrir um leve sorriso enquanto sigo ao seu encontro até, por fim, abraça-la forte.
— Oi, pra você também, Teri! — a cumprimento em um tom baixo, apertando mais ainda os abraços em torno de sua cintura e me sentindo um pouco alegre pela primeira vez em dias.
Teri Miller foi um caso antigo, da adolescência para ser mais exato.
Quando fui mandado por Joseph para um internato na Alemanha, poucos meses após a morte da minha mãe, Teri e eu perdemos completamente o contato. Mas o mundo dá as suas voltas e tem das suas surpresas. E reencontra-la alguns anos mais tarde, em Amsterdam durante uma viajem de farra dois anos atrás, foi uma baita surpresa.
— Oi!
— Como está? — pergunto assim que nosso abraço termina, mas sem largar as mãos de Miller.
— Cansada da viagem. Mas prontíssima para a reunião da sua pose e da minha. — ela sorri de um modo maléfico, exatamente como sempre fazia em nossa adolescência quando estávamos prestes a aprontar das nossas com algum desafeto.
— Meu priminho vai adorar isso.
Sorrio feliz só de já imaginar a cara do Conrad quando descobrir que não o deixarei à frente da empresa matriz como ele acha que será. Quebrarei suas pernas deixando Teri no comando da Care, ao invés, dele.
Seria capaz de deixar qualquer outra pessoa, menos o Conrad. E como ali na empresa sei que a maioria é puxa saco do meu primo e, eventualmente se ele aprontar alguma coisa, farão vista grossa, ou até mesmo, o irão encobrir. Eu então tive a idéia de chamar alguém de minha confiança para tomar conta da empresa. Alguém que sei que é capaz e profissional o suficiente para gerir aqueles negócios tão bem quanto eu faria. Por isso escolhi a Miller. Atualmente, ela estava curtindo ano sabático depois de pedir demissão da empresa onde trabalhava. Cortei um dobrado tremendo para conseguir convencê-la em três dias a aceitar minha oferta de trabalho e, assim, tira-la deste período sabático.
— Você sabe que está colocando a mão no vespeiro me deixando na chefia daqui e tirando esse posto das mãos do seu primo, né?
Assinto, mas não tenho medo. Mesmo ciente que com a minha atitude de não deixar Conrad no controle da empresa, estarei dando mais armas a um inimigo que, possivelmente, pode ser muito mais perigoso e que ficará bem mais na minha cola para provar meu casamento falso.
— Se é assim acho melhor irmos, não? Todos já não estão a sua espera?
— Sim. Vamos lá para o show.
Saímos da sala e pelo caminho já vou deixando a Teri a par de quem são algumas das principais pessoas que estarão na sala de reunião, das quais ela deve ficar esperta e ter seu pé atrás. Não vou atirar uma amiga em um covil sem que ela esteja ciente de quem são as pessoas lá que lhe darão o bote sem pensar duas vezes. Teri é esperta e saberá lidar com a situação, mas deixá-la avisada e ciente, é o mínimo que tenho que fazer.
— A grande maioria do conselho é tudo baba ovo do Conrad.
— O que tornará a minha vida um tanto quanto complicada aqui dentro, certo?
— Certamente, mas não é você que gosta de desafios?
— Você sabe que sim. — ela diz e pisca um olho para mim, estampando um sorrisão.
Aquela ali adora desafio. Ainda mais, quando a situação é totalmente desfavorável para ela. Teri é mestre em tornar o desfavorável em favorável custe o que custar, leve o tempo que for.
Todas as cabeças se viram para nós assim que entramos na sala, que majoritariamente está ocupada por homens. As poucas mulheres que se encontram são algumas secretárias e sócias minoritária da empresa.
— Bom dia a todos! — cumprimento os presentes já me dirigindo para a cabeceira da mesa enquanto sou seguida de perto por Teri. Noto de canto de olho um Conrad taciturno me acompanhando com o olhar e, se bem conheço aquele ali, ele não deve estar gostando nada de ver a presença da Miller comigo. Ele quando a conheceu na mesma época que eu no colégio, se encantou por ela, mas Teri acabou foi ficando comigo mesmo, para raiva do Conrad. — Esta é Teri Miller e sua presença na reunião é de suma importância. Porém vocês só saberão o motivo em breve. — comunico diante dos olhares confusos de muitos enquanto me acomodo na cadeira. — Será que o senhor pode ceder seu lugar a senhorita Miller como a etiqueta manda que um bom cavalheiro faça? — lanço um olhar mortal ao sujeito sentado a minha direita.
— Cla-claro! — o homem diz todo sem jeito já se levantando da cadeira e com isso, Teri se acomoda nela.
— Acho que podemos começar. Todos de acordo?
Em uníssono todos concordam.
— Senhor Grissom... Como sócio mais velho do grupo, gostaria de fazer às honras, se me permite.
Um homem de cabelos brancos que, provavelmente, deve estar beirando a casa dos setenta e poucos anos, se pronuncia ao ficar de pé.
— Vá em frente. — digo não muito satisfeito, porque queria que as coisas ali fossem as mais rápida possível, mas pelo visto não serão bem assim. Paciência!
— Bom dia a todos e todas. — o sujeito saúda os presentes, para então continuar. — Hoje estaremos dando início a um novo ciclo nesta companhia. Depois de muitos anos à frente da Care com muita excelência e maestria, o senhor Joseph, infelizmente nos deixou há poucas semanas. Seu maior legado dentro desta empresa e, principalmente, à frente dela, foi a credibilidade. A grandiosidade da Care se deve muito a história de boa gestão do Joseph. Nunca vi alguém gerir um negócio com tanta maestria e eficiência como ele. Sempre pulso firme, sabendo fazer, na maioria das vezes, escolhas acertadas, ele foi uma presidente e tanto.
Nisso devo concordar com ele. Joseph sabia como ninguém comandar aquela empresa. Talvez a única coisa que herdei de boa dele foi isto. A mão boa para gerir negócios. Ele sempre foi um ótimo homem de negócios, mas um péssimo pai comigo.
— Com sua partida abriu-se uma lacuna à frente dos negócios. Joseph nunca escondeu de ninguém aqui a sua predileção por seu filho mais velho, o senhor Grissom herdar seu posto à frente da Care, quando não estivesse mais aqui. E, creio que hoje sua vontade será atendida.
Mas mal sabe ele e todos ali a que preço esta vontade está sendo atendida. Chantagem, ameaçadas, um verdadeiro capricho que aquele homem me obrigou a cumprir.
— Senhor Grissom... — ele se dirige a mim. — Como um dos sócios que era o mais próximo de todos aqui de seu pai, quero lhe dizer, que é uma grande satisfação tê-lo à frente desta companhia. Sei que é tão competente quanto seu pai foi. Joseph sempre me confidenciou o quão bom para os negócios o senhor é e do quanto estava indo cada vez melhor à frente da filial da Alemanha. E que seria um presidente muito melhor do que Joseph vinha sendo. Dava pra sentir o grande orgulho dele ao me contar isso.
Confesso que fico surpreso com isso, mas nem um pouco comovido. Qualquer coisa de boa vindo de Joseph, se perdeu para mim após a chantagem que ele me fez.
— Sei que ele deve estar muito feliz com o dia de hoje. E, em nome de todos os sócios aqui presente lhe dou as boas vindas e lhe desejo o melhor à frente da Care. E que o senhor nos leve a mais êxitos. Saiba que pode contar comigo para o que quiser, como sei pai contou ao longo das décadas no comando desta companhia.
Uma salva de palmas preenche o recinto por alguns segundos. O sujeito que discursou fez questão de vir de seu lugar até mim e me cumprimentar com um aperto de mão, seguido de um abraço apertado.
— O senhor tem em mim um amigo sempre que precisar. — ele me murmura.
Sei que ali dentro há um covil liderado especialmente pelo meu primo, que está a espera do meu primeiro vacilo, para me tirar da presidência que assumirei. Mas por incrível que pareça, eu senti tanto nas palavras daquele sujeito quanto em seu abraço, que ele está sendo sincero comigo. Entretanto não confiarei cem por cento nele, pode ser apenas uma encenação sua para me comover. O deixarei em "análise".
— Agradeço as palavras. — digo após nosso abraço encerrar. Em seguida me dirijo a todos naquela sala. — Quero que saibam, que o pulso firme continuará e a credibilidade, pretendo torná-la muito maior ainda. Nessa nova gestão que terá início hoje comigo tomando pose da presidência, a ideia é fortalecer e nos manter ainda mais no topo do setor farmacêutico, reforçando nosso papel de protagonistas e conto com a colaboração de vocês para juntos fazermos a Care uma companhia muito maior do que ela já é.
Outra chuva de palmas toma conta da sala. Ainda discurso mais algumas palavras sobre como será a minha gestação, quais meus projetos para levar a Care a um patamar acima do que ela já está. Então chega o momento de contar a minha decisão de deixar alguém ali na matriz, já que pretendo voltar para à Alemanha de onde pretendo ficar à frente da companhia.
— Não é segredo para ninguém aqui que pretendo voltar para Alemanha nos próximos dias e de lá gerir os negócios da Care.
— Uma péssima ideia, primo, porque a empresa matriz é a daqui.
— Conrad, é muito feio interromper as pessoas quando estão falando. — Teri diz ao meu lado. — Tenho certeza que sua mãe lhe ensinou boas maneiras, já que ela costumava ser uma mulher que prezava bastante pela etiqueta.
Aperto os lábios para não sucumbir ao riso pela chamada de Teri. Porém alguns sócios não tiveram a mesma atitude e podemos ouvir risos baixos de alguns cantos da sala.
Lanço um olhar para meu primo e pela sua expressão fechada, deduzo que estava puto e isso me deixa feliz. Ver meu primo insuportável assim é bem satisfatório.
— Senhorita Miller posso saber qual motivo de sua presença nesta reunião? Porque chamar a minha atenção na frente de todos aqui não deve ser, já que faz anos que não nos vemos e não temos mais intimidades para isso.
— Conrad, querido, nunca tivemos intimidade antes, quem dirá agora.
— Grissom pode explicar para todos nós o que esta mulher faz aqui?
— Era o que eu faria antes de você me interromper. — comunico agora de semblante fechado. — Senhoras e senhores... Diante da minha ausência aqui na matriz, deixarei a senhorita Miller à frente da companhia.
— O QUÊ?!
Conrad praticamente berra ao se pôr de pé lá de seu lugar distante de onde estou umas cinco cadeiras.
— Você não pode fazer isso?
— Como é? Não posso, por quê? — fico de pé também e apoiando as mãos a mesa, encaro Conrad com o nariz erguido em sinal de ataque. — Sou o presidente da Care. E posso delegar para o posto quem eu quiser e achar competente para o cargo.
— Eu sou a pessoa mais competente para o cargo. Trabalho aqui há anos. Comecei como estagiário e faço parte da diretoria. Conheço esta companhia melhor do que qualquer um, até mesmo melhor que você.
É muita petulância dele me enfrentar assim na frente de todos, mas eu vou mostrar para ele agora mesmo quem manda e pode mais ali dentro.
— Conrad... Conrad... — digo, ajeitando a minha postura e saindo de trás da mesa, para caminhar devagar até a cadeira onde está o meu primo. A vontade é de proferir cobras e lagartos aquele bastardo, mas preciso ser sensato e mostrar ao conselho e sócios que sou um presidente equilibrado e frio como Joseph era nessas horas de "rebeldia" de seus colaboradores. — Não subestimo sua eficiência e, tampouco, os anos de trabalho aqui dentro. Sei que seria um ótimo gestor, mas preciso de alguém com mais qualificações específica para este cargo do que você. — paro atrás da cadeira dele e apoiando as mãos em seus ombros, os aperto com certa força, atraindo de imediato seu olhar raivoso. — A senhorita Miller para vocês e o meu primo que não sabe...- me pronuncio agora passeando com o olhar por cada pessoa que ali está, sem deixar de apertar o ombro de Conrad. -... é formada em uma das melhores universidades de negócios e gestão, o INSEAD, um instituto de administração na França, um dos melhores do mundo por sinal. Tem PhD na mesma instituição. E trabalhou em grandes companhias, a última uma grande conhecida nossa a Apotheke, nossa maior concorrente no meio farmacêutico. Teri foi CEO desta companhia por dois anos e ainda estaria lá senão fosse seus motivos particulares para sair. Mas apesar da saída de lá ainda assim, têm as melhores recomendações. Como acabaram de escutar, qualificações ela tem de sobra, por isso minha escolha por ela para ficar à frente da matriz da Care. Espero que vocês sejam colaborativos com ela, certo Conrad? — lanço um olhar ao meu primo após um aperto agora mais forte em seus ombros.
— Certo. — ele resmunga com o maxilar trincado e se desvencilhando das minhas mãos.
— Não fique chateado, primo. Mas futuramente sua oportunidade chega.
Se ele pudesse pular em cima de mim e me encher de porrada, ele faria, mas não pode, então se limita a sua insignificância de ficar calado e me fuzilando com os olhos, o que não me abala nem um pouco.
— Senhor Grissom, me desculpe a intromissão na sua decisão, mas Conrad seria a decisão mais sábia. Não desmerecendo a senhorita Miller, que pelo que acabou de listar para nós, é uma profissional muito bem qualificada para a função. Mas ela não conhece a empresa.
— Engano seu, querido. — ouço Teri se pronunciar antes que eu respondesse ao sujeito que se pronunciou. — Posso, Grissom? — ela me olha e eu sei que dará uma resposta melhor que eu àquele sujeito. Sem contar que será a oportunidade perfeita dela mostrar logo suas "credenciais" para aquele povinho todo.
— À vontade, senhorita Miller.
Teri se levanta de sua cadeira e eu me dirijo a minha.
— Passei minhas últimas 24hs estudando esta companhia em seus mínimos detalhes. Sei, por exemplo, que no último trimestre a Care faturou bem menos que ano passado devido aos recentes acontecimentos, sendo um deles, a espionagem do funcionário que vendeu uma fórmula...
— Para a empresa que a senhora trabalhava, que coincidência.
Alguém diz rispidamente e interrompendo Teri. Faço menção de abrir a boca para falar algo, mas o olhar de "não se meta que eu resolvo isso" de Miller, me impede de defende-la.
— Verdade. É uma coincidência mesmo. Mas pode ter certeza que isso não foi na minha gestão, senhor...
— Fischer.
— Pois então, senhor Fischer, eu já tinha saído de lá, quando este episódio lamentável ocorreu. E, saibam que, não compactuo com este tipo de coisa. Gosto de jogar limpo. Na minha gestão não uso de subterfúgios para derrubar meus concorrentes. Prezo pela concorrência leal.
— Mas a senhora sabe que no meio empresarial sempre tem quem jogue sujo.
— Não é porque um faça isso, que vou fazer. Se te disserem pra pular de uma ponte, você pularia, senhor Fischer?
— Não!
— Então pronto. — cubro a boca para não rir. Teri é demais. — Sei que todos aqui tinham como certo que o senhor Conrad assumisse o comando, inclusive o próprio dava como certo isso. Aí, chego eu, uma mulher e desconhecida, e tomo o posto dele. Vocês tem o direito de não gostar mesmo. Mas Gilbert decidiu por mim para o posto e gostem ou não serei a que tocará este barco. E, espero, sinceramente que sejam colaborativos, porque aqui todos queremos ganhar, não é?
— Sim! — algumas vozes respondem em coro.
— Ótimo! Conto com a ajuda de vocês nisso. Obrigada pela atenção.
Depois desse cartão de visita dela. Eu volto a tomar às rédeas da reunião. Assino o documento de legitimidade da minha pose. Enfim, presidente!
Em seguida é a vez de oficializar Teri como a responsável pela gestão da Care matriz, como minha primeira ação de presidente efetivo da Care. Depois faço algumas mudanças de cargos; promovo algumas pessoas e rebaixo outras, que soube que não faziam por merecer o cargo que tinham. O burburinho e revolta é notório, porém ninguém ousa contestar escancaradamente minhas ações. Ótimo! Porque não sei se teria tanta paciência para não entrar em conflito. A coisa com Conrad já me consumiu o bastante.
A reunião ainda se estende por algum tempo até que quase uma hora e meia depois de seu início, ela é dada como encerrada.
— Até mais. — vou dizendo a cada um que passa por mim. Exceto Conrad que não se dignou a me dizer um A sequer ao sair. Ótimo! Não queria suas falsas felicitações mesmo.
Engraçado era ver algumas pessoas saindo dali com sorrisos satisfeitos, enquanto outras carregavam uma carranca que eu estava pouco me fodendo para ela.
— Seu pai tinha razão quando me disse certa vez, que não havia pessoa melhor para sucede-lo que você. — disse o mesmo sujeito que fez o discurso no começo da reunião, ao parar diante de mim e Teri. — Seu modo de comandar é impressionante. E imponente como seu pai. Vocês são muito parecidos.
— Não acho! — retruco, tentando dissimular o meu desconforto com aquela comparação dele. A simples menção de que sou parecido com Joseph me desconforta muitíssimo. Eu não sou como ele. Jamais faria com um filho o que ele fez comigo.
— Não digo no lado físico, mas no jeito de se portar diante das pessoas que saíram daqui. Sabe que sua reunião de posse me lembrou muito a dele?
— Hum...
Aquele papo dele já estava me deixando levemente incomodado e aborrecido. Tanto que lanço um olhar rápido a Teri que me entende na hora.
— Seu pai ainda estava abatido pela morte do sogro que estava à frente desta companhia há anos, mas ele não se deixou intimidar diante dos narizes tortos dos sócios da época que não viam com bons olhos que ele assumisse a presidência. Bem parecido com o que aconteceu hoje aqui. A maioria nesta sala preferia que Conrad assumisse no seu lugar.
— Eu sei disso.
— Mas acredito em você, senhor Grissom. Sei que será competente o suficiente para nos levar a bons caminhos como seu pai levou. E acredito também em você, senhorita Miller. Os dois podem contar comigo.
Dito isso, ele se retirou dali me deixando a sós com Teri.
— Gostei dele. Parece ser gente boa apesar da puxasaquice.
— Pois é. Melhor manter cautela com ele. Fica de olho para ver como ele se comporta com o passar do tempo.
— Ficarei.
— Vamos vê se não estar só fazendo papel de bonzinho assim para...
— Ai, Gil, para de paranóia. Com quem deve se preocupar é com seu primo e o pessoal que você acabou de irritar ao rebaixar de cargo.
— Sei bem disso. E você também. Cuidado com a maioria dessa corja. Vão querer te derrubar.
— E você acha que não sei. Meu bem, sou vacinada contra isso. Na Apotheke, o que mais tinha era gente querendo me derrubar, mas ficaram só na vontade. Aqui não será diferente.
Caímos na risada de sua fala, porém o barulho da porta batendo ao ser aberta abruptamente, nos interrompe. É, Conrad com uma cara enraivecida de revolta que vem em passadas rápidas até mim.
— Seu desgraçado! Isso não ficará assim. Eu que era para ficar neste cargo.
Ele fala cada palavra com um ódio que irradia de seus olhos, mas nem me importo. Esse bosta não me põem medo algum mesmo.
— Você usou bem o verbo. "Era" tempo passado, ou melhor, tempo que nunca foi e nem nunca será possível. Jamais deixarei você no comando da Matriz e muito menos, na presidência da empresa da minha família.
— É minha família também!
— Você não é um Grissom legítimo!
— Escuta aqui seu escroto...
— Tira o dedo da minha cara. — empurro para o lado sua mão com o dedo indicador em riste apontado para mim.
— Eu vou te destruir. Vou provar a todos que seu casamento foi só um golpe para que assumisse a presidência. E, assim vou tira-lo deste cargo.
— Vai em frente.
— Você vai me pagar muito caro a afronta de hoje, Grissom. Guarda o que estou dizendo.
— Coisas insignificantes, eu costumo não guardar, priminho.
— Seu...
— Ei, ei... — Teri se mete na minha frente, ficando entre Conrad e eu como se fosse meu escudo. — Se encostar um dedo nele, eu mando te tirar desta empresa a ponta pés e foda-se que você tenha um cargo na diretoria e seja queridinho dos sócios... Mi-no-ri-tá-rios.
— Você também não ficará atrás. Eu tornarei sua vida um inferno, Teri.
— Ai, que medo! Nossa tô até me borrando... Escuta aqui... — Teri chega perto o suficiente de Conrad para seus rostos estarem a milímetros de distância. — Tá pra nascer homem algum que vai me botar medo com ameaças baratas. Não se meta comigo, porque se você se acha o fodão perigoso, eu te aviso que posso ser muito mais fodona e perigosa que você. Agora, se manda daqui.
— Você não manda em mim!
— Mando sim, porque eu sou sua chefe. Portanto, saía agora mesmo desta sala, porque estou em uma reunião com o nosso presidente, senhor Ecklie.
A firmeza com que Teri se pronuncia só me faz ter mais certeza de que escolhi a pessoa certa para ficar ali. Aquele povo, principalmente o Conrad vão comer miudinho com ela. Eles podem até tentar derrubar e boicotar a Miller mas ela é suficientemente sagaz e perspicaz para não esmorecer diante de macho escroto como o meu primo e alguns outros por ali.
Soltando fogo pela cabeça, Conrad bate retirada dali reforçando sua ameaça de que eu e Teri iríamos pagar pelas afrontas.
— Quê?
Ter me olha sem entender o motivo de eu estar batendo palmas.
— Você foi perfeita. Colocou meu primo pra sair daqui com o rabo entre as pernas.
— Ele vai aprontar, Gil. Esteja preparado.
— Você também!
— Eu já nasci preparada, Gil
***
Sala de reuniões BoB...
A minha primeira experiência de reunião entre editores e o Owen foi bastante intimidante, ainda mais porque parece que sem motivo aparente eu arrumei um inimigo. Jeffrey McKeen se mostrou de cara um sujeito antipático. De início ele foi logo questionando o fato de eu ser nova demais para ocupar a vaga deixada por alguém tão experiente quanto o Fox após Owen me apresentar. Depois como um carrasco fez o possível para sempre descredibilizar cada pouca opinião ou sugestão que eu dava quando solicitada. O cara me detestou e não fez qualquer cerimônia em esconder.
Também notei que alguns outros editores também torceram um pouco o nariz para mim, talvez pelo mesmo motivo de McKeen ou por outro, vai saber. Mas houve quem se simpatizasse comigo também. Um em especial, gostei de cara apesar do nome não me trazer boas lembranças. Arthur Hupert se mostrou um sujeito de uma simpatia ímpar, que por vezes saiu a meu favor em algumas opiniões quando descredibilizadas por McKeen.
Ao final da reunião Arthur e outros dois editores, uma ruiva chamada Louise e um homem de nome Mark vieram falar comigo, porém nem tive oportunidade de conversar direito com eles porque Owen me levou para conhecer o pessoal do setor de criação dos livros. Revisor, Editor de arte, ilustrador, diagramador, fui apresentada a cada um deles entre outros, porque a equipe é grande.
Fiquei ali reunida com eles por um par de minutos interagindo e conhecendo um pouco daqueles profissionais que dariam "vida" aos manuscritos que chegariam a mim. Depois decidi voltar para a minha sala já que tinha coisas para fazer.
Com a ajuda de Morgan que foi me pondo a par das demais coisas que ainda faltavam ser do meu conhecimento, eu mergulhei de cabeça no serviço que até me espantei quando minha assistente disse que precisávamos pausar, porque já estava na hora do almoço.
— Já?
— Sim, chefinha.
— Então vamos almoçar e no retorno continuamos de onde paramos.
Ela assente, fazendo uma continência e me causando risos por seu jeito hiperativo e alto astral.
Morgan é uma figura! Espontânea, falante e super animada, ela me fez rir por inúmeras vezes enquanto estávamos reunidas ali em minha sala trabalhando.
— Onde vai almoçar, Morgan? — interpelo, ajeitando as papeladas na mesa. Não tenho a menor ideia de onde ir. Soube que no prédio há um refeitório em algum andar, porém está em reforma.
— Em um restaurante com meu namorado lindo e gostoso. Hoje fazemos aniversário de namoro e ele vai me levar pra um almoço de comemoração, já que trabalha a noite e não vai dar para sairmos.
— Ah! — digo em um muxoxo.
Minha ideia de convidar Morgan para almoçar comigo vira fumaça.
— Se quiser vir. Sem problemas!
Olho estupefata pelo convite de modo espontâneo que ela me faz, como se fosse a coisa mais normal. Gente, é uma comemoração e ela me chama para fazer parte assim?? Logo eu que ele acabou de conhecer e que, ainda por cima, sou sua chefe?
— Não, Morgan. Que isso?! Vocês vão comemorar. É algo mais íntimo e eu lá vou atrapalhar.
— Imagina, chefinha! Memo não se importa.
— Memo? — de cenho franzido, lanço um olhar confuso a minha assistente que está reunindo os papéis da mesa e os ajeitando em uma pasta.
Morgan explica que seu namorado se chama Guillermo, mas carinhosamente o chama de "Memo". Em seguida de modo todo apaixonada revela que o namorado é lindo, inteligente, carinhoso, um sujeito fora do sério, dentre outros adjetivos que usa para descrever seu "bombonzinho".
— O Memo parece ser um príncipe pelo visto. — comento me levantando da cadeira.
— E é, chefinha. Meu príncipe... Meu bombonzinho... E amor da minha vida! — ela completa suspirando e em um modo totalmente apaixonado, como bem eu conhecia.
Confesso que sinto uma pontada de inveja dela. Porque até semanas atrás, era eu quem estava assim toda derretida e apaixonada, falando deste modo da pessoa que julguei ser o "amor da minha vida".
"Achei que tivesse dito que ia deixar a cretino para lá?!"
— Bom... — pigarro sem saber o que mais dizer e também para afastar a voz insuportável em minha cabeça.
Sorte da Morgan que tem o amor dela e é feliz, porque eu achei que tinha o meu e descobri que a banda não era bem assim que tocava. Aquele cretino me abandonou pela herança do paizinho dele.
"Supera, insolente!"
— Já que você vai almoçar com seu namorado. Então, pode me recomendar um bom por aqui por perto para eu almoçar, Morgan?
— Claro!
Ela então me fala sobre um local que a maioria dos assistentes dali da editora e até alguns editores mais "acessíveis" e não intocáveis como McKeen e outros próximos dele, vão almoçar, o Bistrô Erenice. Segundo Morgan no estabelecimento só tem comida de boa qualidade por um preço "justo". E, ainda acrescenta, que o lugar é um charme a parte.
— Acho que vai gostar dele, Sara.
— Me diz onde é.
Ela então me dá o endereço exato e como chegar no lugar, antes de sair da sala toda saltitante após receber uma mensagem do seu "bombom" avisando que já estava lá na portaria à sua espera.
Sozinha na sala, só me resta apanhar minha bolsa e o celular, para então tomar o mesmo rumo de saída que a minha assistente tomou.
***
— Oi! Posso me sentar com você? É que os outros lugares estão ocupados.
Ergo meus olhos do prato de comida para encontrar o homem que havia se dirigido a mim. É o mesmo sujeito que flagrei por diversas vezes me encarando durante a reunião de mais cedo na editora.
Na ocasião o homem só havia dito seu nome no momento das apresentações. Nome este que agora, ali, eu sequer me recordo. Fora isso, ele não falou mais nada, apenas ficou me encarando ao longo da reunião toda. E toda vez que eu lhe flagrei me encarando, o sujeito desviou o olhar de mim.
— Claro!
Acabo optando por aceitá-lo se juntando a mim para não ser grossa com um sujeito que é meu colega de trabalho. Sem contar também, que eu poderei aproveitar e questioná-lo sobre a razão pela qual ele ficou me encarando tanto mais cedo.
— Obrigado!
Ele sorri em agradecimento e se acomoda na cadeira a frente de mim. Faz sinal para o garçom.
Enquanto o sujeito faz seu pedido, eu me limito a apreciar meu almoço. A comida está uma delícia e o lugar tem um clima agradável.
Assim que o garçom vai embora, o meu acompanhante à mesa se pronuncia.
— Desculpa ter a cara de pau de chegar aqui e te pedir para me sentar com você. Nós acabamos de nos conhecer mais cedo e eu já vim logo pedindo pra almoçar com você. — ele sorri e eu acabo rindo junto. — Mas se não fizesse isso teria que aguardar quase uma hora. E meu horário de almoço tá curto hoje, Sara.
Ele lembra o teu nome e você não lembra o dele, que legal, insolente!
Nem vou te dar confiança!
— Sem problema. — tranquilizo o sujeito, já que ele parece preocupado. Suponho que seja em não querer me passar a impressão de folgado por ter pedido para se sentar comigo.
— E aí como está sendo esse começo na BoB?
Seu olhar azul se foca fixamente em mim à espera da minha resposta, me deixando desconsertada por milésimo de segundos. É um olhar de alguém que parece está lendo a minha alma. E eu tenho receio de que ele realmente esteja fazendo isso e descobrindo o quão despedaçada eu ainda me encontro por dentro.
— Ainda estou me ambientando. — respondo, desviando o olhar dele para meu prato de comida.
— Qualquer coisa pode contar comigo.
Levanto a cabeça e torno a olhar o sujeito. Ele sorri para mim de maneira gentil.
Como é o nome dele mesmo?
Tão nova e já com Alzheimer, insolente?
Ah, vai ver se eu estou lá na esquina?!
Não! Porque tu tá aqui na minha frente, almoçando com um colega de trabalho que conheceu mais cedo e agora não lembra o nome dele.
Ô, bicha chata!
Mas o pior é que ela tem razão. Eu não lembro o nome do meu mais novo colega de trabalho. Droga!
Terei que perguntar para ele. Será bem chato, pois como bem mencionou a voz intrometida, horas atrás tivemos uma reunião e agora eu nem lembro o nome dele. Engolindo a vergonha, questiono:
— Me desculpa a pergunta, mas... Qual é o seu nome mesmo? Eu não lembro agora. — sorrio sem graça.
O sujeito abre um enorme sorriso divertido e me esticando a mão por cima da mesa, se apresenta de novo:
— Sou Doug Wilson, editor de arte.
— Claro, Doug. — repito seu nome enquanto aceito seu cumprimento. — Desculpa. É que eu conheci tanta gente hoje, que a cabeça não guardou todos os nomes ainda. — explico.
— Sem problemas. Super te entendo. Eu também fiquei assim quando cheguei.
Assinto, esboçando um leve sorriso.
— Você trabalha na BoB há muito tempo? — questiono mais para quebrar o silêncio constrangedor de alguns segundos que se instaura depois da fala de Doug, do que propriamente por curiosidade.
— Há dois anos.
Doug passa a me contar sobre sua "experiência" dentro da BoB. Nosso almoço se resume a ele falando sobre a firma e algumas pessoas de lá com o intuito de me deixar mais familiarizada com o pessoal. E eu o escutando, já que não tinha muito assunto para falar.
Em determinado momento a conversa chega na McKeen.
— Ele não foi nada com a minha cara. — comento quando Lucas diz que Jeffrey é um dos editores mais respeitos do "grupinho seleto" da BoB. — Acredito que ganhei sua antipatia de graça.
— Ah, Sara! Não liga para o Jeffrey. Ele é assim mesmo, antipático e amargo que nem açúcar ou mel dão jeito nele.
Sorri do comentário dele.
— Cá entre nós... — Doug se inclina para frente como quem está prestes a confidenciar um segredo ultra secreto. — Ele é incrível como profissional, mas péssimo como pessoa. Tanto que na BoB são raríssima as pessoas que gostam dele, porque o homem é intragável.
A conversa ainda se estende para além do almoço enquanto nós seguimos o caminho de volta para a editora, porém os papos foram outros bem melhores que o "carrasco McKeen".
— Bem... Daqui cada um segue para seu "setor". — Doug diz após entrarmos no prédio da editora. — Obrigado por ter me deixado almoçar com você. E me desculpa também se te incomodei com minha tagarelice.
— Imagina. Você não incomodou nada.
— Mesmo?
— Sim.
— Se você diz... Acredito. — ele pronuncia, tombando a cabeça para a direita e sorrindo. — Agora preciso ir. Tenho coisas a fazer e acredito que você também, portanto não vou tomar mais seu tempo. Até mais, Sara.
— Até.
Ele toma um rumo diferente do que eu.
***
— Sua safada, você já fisgou um carinha?
— Ai, Dayse, não começa com ideia errada, não. — reclamo antes de levar à boca o garfo com uma generosa quantia de massa. No caminho para casa passei em um restaurante e comprei um jantar, porque nem por um decreto eu tinha forças para preparar algo. Meu primeiro dia foi puxado e maçante, mas estou feliz mesmo assim.
— Ideia errada, sei!
Bem que eu devia ter imaginado que ela ia começar a supor coisas quando mencionasse sobre Doug.
Há coisa de meia hora estava em ligação com Dayse. Minha amiga me ligou quando eu terminava de me vestir após um bom e reparador banho depois do dia de trabalho que tive hoje. A intenção de Dayse com o telefonema era uma só: saber EM DETALHES como havia sido meu primeiro dia de trabalho na BoB.
Narrei para ela exatamente como me pediu: em detalhes. Desde o meu encontro com Owen, passando pela reunião de editores — mencionando claro sobre a antipatia que ganhei de Jeffrey e a simpatia de Arthur -, bem como a respeito da minha assistente, e tudo mais, incluindo o almoço com o Doug. Cai na besteira de contar isso também, e agora, essa louca já está com suas suposições a respeito do editor de artes. Mais ainda depois de me perguntar como ele era e de eu lhe dizer com sinceridade que o sujeito é um gato.
— Dayse... Você sabe que eu não estou com cabeça para isso. Não quero e nem pretendo me envolver com alguém tão cedo. Gil me causou um caos enorme por dentro do qual ainda vai levar um tempinho para me restabelecer.
— Eu sei, amiga. Só estava te botando pilha, porque gosto de te irritar. Desculpa!
— Tudo bem. Quero focar no meu trabalho. Ele agora é minha prioridade.
— E faz muito bem!
— Vou dar o meu melhor, Dayse.
— E eu tenho certeza que você irá se sair bem, amiga, porque você é Sara Sidle, a melhor!
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