After Separation - Livro 2
67 Capítulo LXV
"A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar."
(Rubem Alves)
****
Eu fixei o olhar no buquê de rosas, admirando o delicado tom de rosa claro, e senti um sorriso involuntário florescer no canto dos meus lábios. O ar da sala estava completamente saturado pelo perfume inebriante das flores, que me envolvia por inteiro. Enquanto me perdia naquele aroma, as palavras do cartão ressoavam em minha mente, fazendo meu coração palpitar em um ritmo acelerado.
Com as mãos trêmulas pela emoção, peguei o pequeno envelope branco para reler a caligrafia que eu reconhecia tão bem. "Você é a minha primavera," dizia o texto, tão simples e, ao mesmo tempo, capaz de desarmar qualquer resistência. Senti o calor subir ao meu rosto; a sala inteira parecia agora brilhar com a promessa de um sentimento que se expandia com a força de um vendaval.
Eu precisava ligar para ele. Precisava, finalmente, agradecer por aquele presente.
Faz quatro dias que Grissom viajou para a Alemanha e, em todos os dias subsequentes à sua partida, um buquê de rosas chegou pontualmente à minha sala na editora. Cada um era de uma cor diferente, e os dizeres nos cartões eram um mais apaixonante que o outro. Os presentes chegavam religiosamente às nove da manhã. E, até ontem, eu não havia mandado sequer um agradecimento por eles, nem mesmo por mensagem.
Mas hoje, faria isso. E não por texto, mas sim por ligação de voz.
Peguei o celular de cima da mesa e disquei o número dele. A linha chamou uma, duas vezes, e a cada toque, uma onda de nervosismo e excitação percorria meu corpo. Eu esperava que ele atendesse, mas, ao mesmo tempo, preparava-me para a possibilidade de cair na caixa postal, dado o fuso horário de Frankfurt e talvez suas ocupações por lá.
No terceiro toque, a voz dele, levemente rouca e risonha, atendeu:
— Pensei que você nunca ligaria para agradecer.
Fiquei sem fala por um instante, completamente pega de surpresa pela ironia divertida. O cheiro das rosas pareceu ficar ainda mais forte.
— Grissom, bom dia. Como você sabia que eu ligaria hoje? — perguntei, sentindo meu sorriso se alargar.
— Digamos que eu estava na contagem regressiva — ele respondeu, e pude ouvir, do outro lado da linha, o tilintar de uma colher agitada em uma xícara de café. — O buquê de hoje era o meu coringa. Está gostando da cor?
— Sim. Por acaso, está tentando transformar a minha sala em uma floricultura, Grissom? — brinquei, incapaz de esconder a diversão em minha voz.
A resposta que veio em seguida me atingiu em cheio, desarmando-me por completo. A voz dele, agora mais séria, embora ainda carregada de afeto, afirmou:
— Na verdade, estou tentando reconquistar o amor da minha vida, no caso, você. Transformar sua sala em uma floricultura é apenas um detalhe, honey.
Fiquei em silêncio absoluto. A confissão era direta, inesperada, e poderosa. Senti a respiração falhar enquanto o peso daquelas palavras se instalava no ar entre nós, abafando até mesmo o perfume das rosas.
— Como estão as coisas aí na fria Alemanha? Muitos compromissos? — mudei a rota da nossa conversa abruptamente, precisando de um momento para processar a bomba que ele acabara de soltar.
— Bastante — ele respondeu, aceitando a mudança de assunto com um suspiro. — Sei que deixei pessoas capacitadas e da minha inteira confiança tomando conta das coisas por aqui, mas como diz o sábio: "o olho do dono é que engorda o gado". Nada melhor do que a presença e o acompanhamento atento do proprietário em um negócio para obter melhores resultados.
— Isso é verdade — concordei, a voz ainda um pouco tensa.
— E, por aí? Você e nosso filho? — ele perguntou, devolvendo o foco para a minha vida.
Toda vez que Grissom pronunciava as palavras "nosso filho", uma onda de calor me invadia, uma confirmação silenciosa da solidez do que havíamos construído. A pequena frase tinha o poder de me transportar de volta aos dias em que éramos inseparáveis.
— Estamos bem — respondi, forçando a voz a manter-se estável.
O fio da linha ficou mudo por um instante, um silêncio pesado que parecia carregar todas as palavras não ditas sobre nosso futuro incerto. Eu podia ouvir a respiração dele, irregular, e senti que o foco havia mudado, deixando para trás as rosas e o flerte, e se concentrando na única pessoa que importava de verdade.
— Sinto falta dele... — Grissom começou, e a pausa que se seguiu pareceu durar uma eternidade. Finalmente, a voz dele surgiu, baixa e carregada, completando: — E de você.
Aquela frase me atingiu com uma força diferente, mais suave, mas muito mais íntima. Não era uma declaração de intenção ("tentando reconquistar"), mas sim uma confissão de carência e saudade. Senti um nó se formar em minha garganta, a armadura que eu tentava manter se desfazendo com a vulnerabilidade dele.
Ouvi ao fundo uma voz feminina dizer algo em uma língua que julguei ser alemão. Grissom respondeu apressadamente no mesmo idioma, e em seguida, voltou-se para mim na ligação.
— Vou precisar desligar, Sara. Terei de sair para pegar o jatinho para a Dinamarca.
— O tal fórum — constatei.
— Exato. Em três dias, estou aí para o mêsversário do Benny. Um beijo, Sara. Te amo!
E com essa declaração dita de forma tão espontânea e natural, ele finalizou a chamada em um clique suave.
— Eu também te amo, cretino. E tô sentindo sua falta demais — confessei em um sussurro para o nada, enquanto ouvia o bip da chamada encerrada.
Levei o celular ao peito e me recostei na cadeira giratória, ainda zonza. Mas, neste momento, a única coisa que realmente importava era o peso de sua última frase. "Te amo." A declaração, solta no meio da sua correria e do som de um clique suave, soava mais real, mais definitiva, do que qualquer buquê de flores.
Meus olhos voltaram para as rosas rosa claro sobre a mesa. A quarta remessa. Pensei em todos os dias que viriam: o quinto, o sexto buquê, o sétimo... A reconquista estava em pleno andamento, e a verdade era que eu já estava totalmente rendida.
****
Eu vinha caminhando apressadamente pelo corredor, a caminho da sala de cópias. Foi na dobra da esquina, onde a pressa e a falta de atenção convergiram, que o inevitável aconteceu: um baque surdo e o choque de corpos ao colidir frontalmente com Doug.
O impacto repentino me fez cambalear, a pilha de papéis que eu segurava escorregando perigosamente. Por um instante, senti o pânico do desequilíbrio, a certeza da queda iminente. Mas antes que o chão me recebesse, senti duas mãos firmes, quentes e grandes agarrarem minha cintura, impedindo-me.
— Te segurei — Doug disse, a voz soando rouca e estranhamente próxima. Ele me mantinha suspensa, o corpo ereto, mas a distância entre nós era quase nula. O sorriso dele, aquele sorriso afável que eu conhecia tão bem, iluminava o rosto, mas não alcançava totalmente seus olhos.
A proximidade me atingiu como uma onda. O cheiro sutil e cítrico de seu perfume, inconfundível, invadiu minhas narinas. O calor de suas palmas atravessava o tecido fino da minha blusa, marcando minha pele. Senti um calor incômodo e uma pontada de sufocamento, que me fez prender a respiração por um momento enquanto tentava assimilar a súbita intimidade.
— Obrigada — murmurei, a palavra quase inaudível, forçando-me a recuperar o fôlego e a compostura. Tentei instintivamente me afastar, mas o aperto em minha cintura não cedeu de imediato.
O sorriso dele se alargou minimamente, tornando-se mais cativante, mas manteve-se reservado. Seus olhos, antes focados em me estabilizar, agora me fitavam com uma intensidade que eu não via desde que havíamos terminado.
— Sem problema. Você estava com muita pressa. O que te traz a essa velocidade perigosa para o fim do corredor?
— Eu... eu só estou correndo atrás de umas cópias urgentes para a reunião com um agente literário. — respondi, gesticulando desajeitadamente para a pilha de papéis amarrotados em minhas mãos.
— E sua assistente?
— Morgan está ocupada com outras coisas.
Finalmente, Doug relaxou o aperto, permitindo que eu me firmasse sozinha, mas ele demorou um segundo a mais para recolher as mãos. Rapidamente, tomei a iniciativa de dar um passo para trás, rompendo a incômoda barreira de contato físico.
Um silêncio pesado e estranhamente prolongado se instalou entre nós, preenchido apenas pelo pulsar apressado do meu próprio coração. Era a primeira vez que estávamos tão próximos desde o nosso término há dias, e a tensão era quase palpável.
— Como você está? — Doug perguntou, a voz mais baixa e com um tom genuíno que desarmou minha postura defensiva.
Tive de piscar para desviar do olhar fixo dele.
— Na correria de sempre, você sabe. Muita papelada. — respondi, tentando soar casual e apontando para a pilha de documentos. — E você, como tem passado?
Ele deu um pequeno passo na minha direção, diminuindo a distância que eu havia criado, e seus olhos ganharam uma expressão melancólica, quase de súplica.
— Tentando seguir a vida, para ser honesto. Mas falhando miseravelmente. — Ele parou, respirou fundo, e a confissão saiu em um sussurro intenso: — Simplesmente não consigo tirar você da cabeça.
A revelação me atingiu em cheio. Senti um calafrio desconfortável percorrer minha espinha. Não era apenas a surpresa da franqueza, mas a culpa ardente de vê-lo tão vulnerável, tão abertamente apegado. O nó em meu estômago se apertou. Eu me senti péssima por ser o motivo daquela tristeza evidente.
Meu olhar desviou para a parede atrás dele, procurando uma fuga para a intensidade do momento.
— Doug... — A palavra escapou, cortante e mais firme do que eu pretendia. Recuei um passo sutilmente, restaurando a distância que eu ansiava. — Você precisa seguir em frente.
Ele balançou a cabeça. Um sorriso, triste e fugaz, mal roçou seus lábios.
— É fácil falar, difícil fazer. Especialmente quando você surge assim, tropeçando, quase caindo nos meus braços... — Ele fez uma pausa dramática. — É como se o universo insistisse em esfregar na minha cara o que perdi.
A menção de "cair nos meus braços" trouxe de volta, com um calor súbito, a memória do contato. Meu desconforto se tornou palpável. Eu precisava encerrar aquilo, e rápido.
— Ou, para ser exato, o que eu nunca tive, certo?
A ponta de provocação em sua voz era inegável; uma tentativa nítida de ferir ou, pior, de me arrastar para uma discussão. Eu não lhe daria esse prazer, nem aquele tempo. Mantive minha expressão neutra, determinada a manter a barreira entre nós.
— Eu preciso ir. A reunião é em minutos e estas cópias... — Gesticulei novamente para os papéis, transformando a papelada em meu escudo e minha desculpa inegável. — São importantes, Doug. Com licença.
Dei um passo lateral decidida, sinalizando claramente que a conversa estava encerrada e que minha prioridade era a sala de cópias. Estava prestes a retomar minha corrida quando ele agiu.
— Espera. — A palavra saiu em um sussurro urgente, e senti o contato quente e inesperado de sua mão fechando-se em volta do meu pulso.
A pressão era firme, mas não agressiva; apenas o suficiente para me deter no lugar. A eletricidade do toque me fez prender a respiração de novo. Virei-me lentamente, o rosto dele a poucos centímetros do meu, a expressão agora não mais de tristeza, mas de uma súbita e intensa urgência.
Seus olhos, de um tom familiar, se fixaram em mim. Por um instante, o olhar pareceu obscurecido pela hesitação, como se uma batalha silenciosa estivesse sendo travada contra as palavras que ansiava (ou temia) proferir. O aperto firme em meu pulso se dissolveu gradualmente, transformando-se em um roçar suave, mais um toque íntimo e nostálgico do que qualquer resquício de restrição.
Com a voz subitamente baixa e aveludada, ele abandonou o tom provocativo que marcara o momento anterior, desviando a conversa para algo inesperadamente tão terno quanto uma lembrança.
— Sábado o Benny faz aniversário de mês, não é? — perguntou ele, e a pergunta era um murmúrio quase reverente.
Assenti, meus próprios pensamentos subitamente em suspensão, apanhada pela brusca e bem-vinda mudança de foco. Doug sempre nutriu um carinho inegável e especial por meu filho, e era evidente que a data estaria gravada em sua memória.
— Será que posso passar lá na sua casa à noite pra levar um presente pra ele? Sinto falta daquele carinha.
Um sorriso singelo floresceu em seus lábios, uma curva doce, ligeiramente nostálgica e desprovida de qualquer malícia. Era uma expressão genuína, quase impossível de ignorar, um convite silencioso que parecia brotar de um lugar de pura e profunda saudade.
Fiquei brevemente comovida com a sinceridade que vazava de seus olhos, sentindo uma pontada suave no peito. No mesmo instante, a imagem do convite de aniversário de Benny, que eu tinha hesitado em fazer todos esses dias, ressurgiu em minha mente. A dúvida sobre se eu deveria sequer convidá-lo rondava meus pensamentos como uma sombra persistente. O nó em meu estômago apertou ao considerar a verdade crua sobre nosso rompimento; o fato do nosso término ser tão recente, tão doloroso para ele, e ainda marcado por sentimentos que teimavam em não se dissolver da parte de Doug, tornava qualquer interação "amigável" uma corda bamba emocional.
Eu o observava com uma vigilância cautelosa, buscando qualquer vestígio do Doug impulsivo e irascível que, na noite em que tudo terminou, havia recusado veementemente a aceitar o nosso fim em minha sala de estar. Mas ali, sob a luz suave que banhava o ambiente, estava apenas o homem gentil e carinhoso que dedicava um amor profundo ao meu filho.
— Doug ... Sábado não estarei em casa. Grissom... — A menção do nome fez com que ele franzisse a testa de leve, um movimento involuntário e quase imperceptível, mas que não me escapou. — ... organizou uma comemoração pelo aniversário do Benny.
Fiz uma pausa, preparando-me para o convite arriscado que estava prestes a fazer, mas que viria acompanhado de uma ressalva clara e inegociável.
— Você está convidado e será muito bem-vindo, desde que vá exclusivamente para comemorar o aniversário do meu filho, e não para tirar satisfações ou provocar o Grissom.
O franzir de testa de Doug, que antes era sutil, se aprofundou instantaneamente ao ouvir o nome de Grissom, sua expressão endurecendo como pedra. Um relance rápido de irritação mal contida passou por seus olhos, mas ele se esforçou para controlar a reação. A ressalva que impus pairou no ar como uma ameaça silenciosa, testando os limites de sua promessa de paz.
Ele me encarou, e a atmosfera que havia sido suavizada pela ternura por Benny ficou eletricamente tensa.
— Ah, claro! O Grissom — ele murmurou, e a maneira como proferiu o nome dele carregava um sarcasmo gelado, uma confirmação imediata de que a sua raiva indisfarçável pelo meu ex estava longe de ter se dissipado.
Seus lábios se apertaram em uma linha tensa. Eu conseguia quase sentir a luta interna que o consumia: o desejo premente de ver meu filho, Benny, colidindo violentamente com o desprezo flagrante que sentia por Grissom.
— Será na casa dele a festa? — perguntou ele, a voz ainda um tanto rancorosa.
— Não. Será na casa do irmão do Grissom, que antes era do pai deles. — respondi, mantendo o tom neutro.
— Ok. Você me passa o endereço que eu apareço lá. E pode ficar tranquila, que não vou procurando confusão. Irei pelo Benny, gosto daquele carinha de verdade e por ele, vou me comportar.
A promessa soou solene, mesmo carregada de uma relutância óbvia.
— Ótimo. Eu te passo o endereço depois. Agora, preciso realmente ir. — disse, e lancei um olhar intencional para a sua mão, que ainda me detinha, segurando meu pulso em um último vestígio de contato.
Com um movimento lento, ele liberou meu pulso, e a liberdade do gesto foi quase tão impactante quanto a restrição anterior. Dei-lhe as costas e apressei meus passos para o fim do corredor. Sentia o olhar de Doug queimar a pele da minha nuca, uma presença intensa e inegável, até que eu virasse a próxima esquina, finalmente fora de vista e do seu alcance.
****
Três dias depois...
Eu reli com um sorriso bobo nos lábios, as palavras, impressas no cartão: "O universo é pequeno se comparado ao meu amor por você".
O papel liso e branco do cartão contrastava de forma gritante com a paixão escarlate que me cercava. Era o sétimo buquê que Grissom enviava, e este era o maior e mais opulento de todos: um aglomerado gigante de rosas vermelhas, com pétalas aveludadas em plena floração, exalando um perfume denso e quase sufocante que saturava o ar da sala.
— Ele está mesmo empenhado nessa reconquista, hein?
Lancei um olhar tímido para Morgan. Minha assistente estava toda derretida quando trouxe o buquê, visivelmente encantada ao recebê-lo do entregador, parecendo até que as flores eram destinadas a ela. Morgan balançava a cabeça, admirando o arranjo.
— E como?! — retruquei com um sorriso genuíno, sentindo-me flutuante pela atenção exagerada.
— E a julgar pelo sorriso bobo enfeitando seus lábios e o brilho nos seus olhos só de ler esse cartão, ele tá conseguindo, não é chefe? — ela completou, um toque de malícia divertida em sua voz, enquanto me observava inquiridoramente.
Apenas sorri, o calor da lisonja colorindo minhas bochechas, e respondi com outra pergunta, desviando um pouco do foco:
— O que eu faço com esse homem, Morgan?
— Case-se com ele, chefe! Porque se o Memo me manda um buquê desses, eu o arrasto na hora para o altar.
Caí na gargalhada, sendo acompanhada pelo riso aberto de Morgan. E antes que eu pudesse fazer qualquer comentário sobre a intensidade da declaração dela, meu celular reverberou alto sobre a mesa. Na tela, a foto e o nome de Lewis piscavam insistentemente.
— Oi, Lewis! — atendi, enquanto Morgan, com um aceno, sinalizava que voltaria ao seu posto. Assenti, e ela saiu da sala, fechando a porta com um clique suave.
— Sara, você conseguiria sair mais cedo da editora? Preciso de uma mãozinha aqui em casa para os últimos ajustes da festa. Grissom me ligou agora há pouco avisando de um imprevisto em sua vinda para Nova York; ele só chega a noite durante a celebração, não mais a tarde como o previsto para me ajudar.
— Claro, Lewis. Eu consigo sair às duas daqui da editora. Dou uma passada em casa, pego o Benny, as coisas dele e as minhas, e vou direto para sua casa.
— Ai, obrigada, Sara. Te espero então.
Desliguei a chamada, o celular ainda quente na palma da mão, e recostei-me na cadeira de couro, soltando um suspiro misto de prazer e pressa. A felicidade do cartão de Grissom ainda vibrava em mim, mas agora a agenda estava apertada.
Olhei para a pilha de originais à minha frente — os relatórios de vendas que precisavam da minha assinatura, os layouts aprovados para a próxima capa, o e-mail urgente do financeiro. Tinha trabalho para uma tarde inteira, e não apenas para as próximas quatro horas.
Peguei a caneta, mas meus olhos voltaram para o cartão perfeitamente caligrafado que repousava ao lado do buquê extravagante. O perfume das rosas pairava no ar, um lembrete persistente e delicioso do porquê eu estava quebrando o protocolo e saindo mais cedo.
Puxei o telefone e disquei o ramal de Morgan. Minha assistente atendeu no segundo toque.
— Sim, chefinha?!
— Vou adiantar a saída para as quatorze horas. Por favor, transfira a reunião com a equipe de marketing que seria hoje para segunda-feira de manhã. Avise que tive um contratempo familiar inadiável. E peça para deixarem os outros relatórios de vendas na minha mesa, assino tudo assim que chegar.
— Ok, chefe.
— Obrigada, Morgan.
Encerrei a chamada e mergulhei no trabalho restante, tentando resolver o máximo de pendências no menor tempo possível. A urgência da situação acelerou meu ritmo, transformando as próximas horas em um sprint focado e produtivo.
Quando o relógio marcou 13h55, eu já estava de pé, pegando minha bolsa. Parei por um instante na porta. A sala parecia organizada, mas o buquê ainda dominava a mesa. Deixá-lo ali, à vista de todos, seria uma declaração de felicidade que eu não me importava de fazer.
Abri a porta e encontrei Morgan em sua mesa, concentrada diante do monitor.
— Já, chefe? — perguntou ela, piscando um olho com cumplicidade.
— Sim. Indo salvar a pátria do Lewis, Morgan. Grissom chegará só mais tarde e não poderá ajudar o irmão com os últimos ajustes para a festa de Benny. Não posso deixá-lo na mão.
— Claro!
— Te espero lá na festa. Você e Memo.
— Com certeza estarei lá. — ela deu um gritinho empolgado e se abanou, exagerada como sempre.
Balancei a cabeça rindo e me despedi, seguindo para o elevador. As portas abriram e embarquei. O metal fechou-se suavemente, levando-me em direção ao compromisso afetivo que se sobrepunha ao trabalho.
****
Assim que a porta de entrada daquela casa opulenta e imponente se abriu, deparei-me com a figura de Matilde. Seus olhos varreram-me de cima a baixo com uma frieza inquiridora, exatamente a mesma avaliação silenciosa que eu havia recebido um ano antes no apartamento de Grissom.
No entanto, a seriedade pétrea de seu olhar se transmutou num passe de mágica. Foi uma mudança instantânea, como se uma cortina de gelo tivesse sido erguida, assim que seus olhos fixaram-se em Benny. Meu filho estava em meu colo, profundamente adormecido, a cabecinha pesando suavemente em meu ombro e os cabelos roçando meu pescoço. A rigidez de Matilde dissolveu-se na ternura silenciosa que o sono do meu bebê inspirava.
A boca de Matilde, antes comprimida numa linha dura, suavizou-se num quase sorriso. Ela não precisou de palavras para expressar o reconhecimento da vulnerabilidade infantil. Sua voz, no entanto, saiu num sussurro profissional e grave, cuidadosa para não quebrar o sono leve de Benny.
— Olá, senhorita Sara. Pode entrar — disse ela, gesticulando com a mão direita enluvada em direção ao interior da casa.
Antes que eu pudesse responder ou que Matilde prosseguisse com qualquer instrução, Edgar irrompeu no hall de entrada. Ele vinha do fundo da casa com uma energia que contrastava vivamente com o recato da governanta.
— Sara! Que bom que chegou — exclamou Edgar, sua voz naturalmente calorosa, mas imediatamente abafada por ele ao notar a criança. Sua expressão se transformou em alívio. — O Lewis está no jardim, um tanto atolado nos balões — informou, vindo me cumprimentar com um beijo rápido no rosto, tomando o devido cuidado para manter a voz baixa e não perturbar Benny.
— Olá, Edgar— respondi no mesmo tom contido, sentindo o alívio que ele irradiava.
Matilde, por sua vez, apenas observava a cena com a dignidade silenciosa de quem já testemunhou incontáveis entradas agitadas.
— Deixe-me levá-lo para um lugar tranquilo, senhorita. — interveio Matilde, ignorando Edgar com profissionalismo. — O quarto de Will é mais reservado para o descanso do pequeno. Além do mais, a babá pode ficar de olho nele enquanto toma conta de William.
— Ok — concordei, sentindo o peso de Benny adormecido e o alívio de ter a situação logística resolvida.
Edgar se aproximou, oferecendo-se de pronto.
— Vou com vocês. Depois te aponto o caminho mais rápido para o jardim, Sara. Lewis mal pode esperar para te ver.
Edgar parecia elétrico e empolgado, com uma energia contagiante que dissipava a tensão do meu dia de trabalho. Aceitei o acompanhamento, grata por ele estar disposto a auxiliar na logística.
Matilde, sem hesitar e com a eficiência de quem tem total controle sobre a casa, nos guiou pela lateral do hall.
— Por aqui — limitou-se a dizer a governanta.
Seguimos Matilde escada acima. Percorremos um corredor elegante, reservado, que exalava uma atmosfera instantaneamente mais acolhedora do que o mármore do andar térreo. Ao empurrar uma porta branca, deparei-me com um quarto espaçoso e delicadamente decorado em azul. Próximo a um berço, onde presumi que William estivesse dormindo, estava uma mulher com trajes claros.
— Pode colocá-lo aqui — informou Matilde, indicando uma bicama convidativa.
O móvel parecia um convite ao sono. Com extrema delicadeza, e sob o olhar atento de Edgar, Matilde e a babá de William, depositei Benny no centro da bicama. Ele se remexeu imediatamente, mas não acordou; um pequeno suspiro de rendição escapou de seus lábios, enquanto seus cabelos claros se espalhavam pela almofada.
— Samira — a voz de Matilde chamou a atenção da babá. — Você fique de olho também em Benny. Qualquer coisa me avise. — A governanta se voltou para mim, a seriedade ligeiramente forçada. — Pode ficar despreocupada que seu filho está em ótimas mãos, Sara.
— Ok! — Foi a única coisa que consegui responder, ajeitando o cobertor sobre meu menino.
A tranquilidade forçada de Matilde era um veneno lento para mim. Se, antes, a antipatia gratuita que ela não fazia questão de esconder já me era detestável, agora, depois de Grissom ter me revelado que aquela senhora havia sido conivente com as ameaças proferidas por Joseph no leito de morte — ameaças dirigidas a mim para forçar a separação de Gissom —, eu sentia por Matilde um rancor profundo. O fato de ela ter se prestado a tamanha maldade era o cúmulo do mau-caratismo.
Assim que me certifiquei de que meu filho estava seguro e confortável, senti a pressa retornar, forçando-me a focar na missão.
— O jardim, Edgar? Qual é o caminho mais rápido? — perguntei, virando-me para ele com impaciência contida.
— Me siga! — Ele sorriu, o entusiasmo voltando ao seu tom normal. — O Grissom avisou que não chegaria a tempo, e Lewis entrou em modo "super-organizador em pânico". Ele vai ficar aliviado ao te ver.
Edgar me conduziu para fora do quarto e descemos de volta para o andar inferior. Passamos rapidamente pela sala e nos dirigimos para uma ala lateral da casa, passando por uma cozinha industrialmente equipada e silenciosa — evidência de que a equipe de buffet estava em ação — até chegarmos a uma porta de vidro larga.
Ao atravessarmos a porta, fui inundada pelo cheiro de grama recém cortada e pelo som vibrante de uma bomba de inflar balões. O jardim era vasto, e no centro da ação, sob a sombra de um gazebo florido, estava Lewis.
Ele estava sentado no chão, literalmente cercado por dezenas de balões coloridos. Nas mãos, segurava um punhado de fitilhos que pareciam ter virado um nó impossível.
— Lewis! — chamei, aproximando-me com um sorriso pronto para rir da situação.
Ele levantou a cabeça abruptamente, os olhos arregalados, e um brilho de puro alívio a atingiu.
— Sara! Você chegou! Graças a Deus! Não sei mais para que lado virar!
Pelas horas seguintes, mergulhei no turbilhão de fitilhos, balões e arranjos florais, ajudando Lewis a dar forma à decoração da festa. Com a ajuda constante de Edgar, que demonstrava um entusiasmo surpreendente para pendurar enfeites, e de alguns funcionários da casa que executavam as tarefas mais pesadas, a confusão se transformou gradualmente em ordem.
Eu estava achando tudo aquilo um completo exagero. Uma festa tão opulenta, com buffet e decoração temáticas, para uma criança de apenas quatro meses que, convenhamos, mal entendia o que era o próprio polegar, quanto mais uma celebração daquele porte.
No entanto, suspirei, e compreendi: com Grissom, uma simples "festinha" de mesário nunca seria apenas "uma festinha" simples. Grissom era sinônimo de grandiosidade, e o amor dele por Benny se manifestava em um evento que beirava o cinematográfico. Aliás, era a personalidade de Grissom que transformava qualquer reunião casual em um espetáculo inesquecível. Olhei para a vasta mesa de doces, já sendo adornada com esculturas de marshmallow, e sorri.
— Está ficando lindo, Lewis — comentei, terminando de amarrar um laço de fita na ponta do gazebo.
Lewis, agora mais calmo, me deu um beijo no rosto.
— Lindo e absurdamente cansativo! Graças a você, Sara, não teremos balões caindo sobre os convidados.
— Você fez um trabalho maravilhoso. Agora, acho que está na hora de eu dar uma olhada no Benny antes que os primeiros convidados comecem a chegar.
O relógio marcava dezessete horas. A festa estava prestes a começar em uma hora e meia, e meu filho logo acordaria para a sua própria celebração extravagante. Eu precisava subir, checar se ele estava bem e talvez me recompor rapidamente.
Deixei Lewis terminando de orientar um dos floristas e usei o caminho mais rápido de volta ao andar de cima, direto para o quarto azul. Benny continuava profundamente adormecido e Samira, a babá, estava sentada numa poltrona lendo, atenta a qualquer movimento no berço de William e na bicama de Benny. Confirmei que tudo estava em ordem e desci, sentindo-me mais disposta a enfrentar o evento.
Pontualmente às dezoito e trinta começaram a chegar os primeiros convidados.
O hall, antes calmo, se encheu de murmúrios alegres e cumprimentos formais. Eu não fazia ideia de quem era a maioria das pessoas que cruzavam a porta, um reflexo do círculo social vasto e exclusivo de Grissom. Por isso, Lewis permaneceu estrategicamente ao meu lado para recepcionar os convidados, enquanto o verdadeiro anfitrião não chegava para assumir tal incumbência junto comigo.
— Este é o Dr. Álvaro, um dos investidores da minha loja de joias, conhecido do Gil — sussurrou Lewis, apresentando-me a um senhor de terno impecável, que me cumprimentou com uma formalidade polida. — E aquela é Teri Miller, amiga do Gil de muitos anos, inclusive a Teri toma conta da sede da Care aqui de Nova York.
Eu sorria e acenava, tentando memorizar rostos e nomes que, eu sabia, esqueceria em cinco minutos. O mundo de Sarah era vasto e cheio de gente importante.
Fiquei um instante observando a tal Teri, que parecia conversar animadamente com o Dr. Álvaro. Ela tinha uma presença forte, condizente com alguém que gerenciava uma sede importante da Care.
— Grissom avisou que vai chegar... — Lewis fez uma pausa dramática, olhando para o relógio de pulso cravejado. — ...só por volta das dezenove e quarenta. Ele disse que por causa do mau tempo que pegou na Alemanha a viagem atrasou horrores. Mas ele pediu que começássemos a servir os coquetéis e não esperássemos por ele para o ponto alto da festa.
Apesar da leve frustração pela ausência de Grissom, a presença de Lewis me garantia que a recepção estava fluindo com a elegância esperada. O salão estava quase cheio, vibrando com o burburinho de conversas sofisticadas e o tilintar de taças. Eu me preparava mentalmente para a próxima rodada de apertos de mão e sorrisos educados, quando o fluxo de chegadas finalmente diminuiu.
Um tempo depois, quando os últimos convidados haviam sido recebidos, aproveitei a trégua para me afastar um pouco do epicentro da porta. Era o momento de me juntar aos meus convidados — rostos conhecidos e amigáveis com quem eu tinha afinidade e intimidade, um pequeno porto seguro no meio daquela multidão de gente importante.
Localizei-os rapidamente na ala mais tranquila do jardim, perto da cascata de luzes. Lá estavam Morgan e Memo, minha assistente e seu namorado, elegantemente vestidos e já aproveitando o buffet com uma alegria descomplicada. Com eles, vi Dayse que tinha Benny no colo, o distraindo como a boa madrinha que era. Também estavam ali, Owen, Fin com seu filho Cris, e D.B a quem parece ter assumido de vez, e meu ex Doug. Todos do meu círculo mais pessoal e profissional, pessoas que compartilhavam de uma história diferente daquela opulência.
Aproximei-me, e o alívio de estar entre eles foi palpável.
— Finalmente uma trégua! — murmurei, abraçando Morgan.
— Chefe! O jardim está maravilhoso! Lewis se superou — comentou Morgan, pegando uma taça para mim.
— Obrigada, Morg. — agradeci e dei um gole no frisante enquanto me acomodava na cadeira ao lado de Dayse.
Enquanto conversávamos, a atmosfera mudou. Estar com aquele pessoal era como ligar o "modo conforto"; as piadas eram internas, os sorrisos eram genuínos, e a necessidade de formalidade desaparecia. Era um contraste bem-vindo com a superficialidade elegante da recepção.
— E o Grissom, que ainda não chegou? — cochichou Dayse, o tom de voz dela refletindo a curiosidade da maioria dos presentes.
— Chega mais tarde. Dezenove e quarenta, parece — expliquei, mantendo a voz baixa, já acostumada a dar a justificativa do anfitrião.
Neste exato momento, senti o peso familiar e urgente de um corpo pequeno. Benny se atirou do braço de Dayse para os meus. Seus olhinhos estavam um pouco sonolentos, e pelo seu jeito já meio emburrado e impaciente, ele certamente já estava com fome.
— Dayse, me acompanha até um lugar mais tranquilo para eu dar de mamar para o Benny? — murmurei em um pedido de socorro à minha amiga, que assentiu prontamente em concordância.
Dirigi-me então ao restante do grupo na mesa, fazendo um gesto de desculpas.
— Gente, vou só alimentar esse rapazinho aqui e já volto. — informei, já me levantando da cadeira, assim como minha amiga.
Dayse me acompanhou com discrição para longe do barulho do jardim e dos convidados.
— Percebeu que o editor de artes, também conhecido como o seu "ex", não tira os olhos de você? — Dayse comentou, inclinando a cabeça na minha direção enquanto seguíamos para uma parte do jardim onde o movimento era menor, ideal para eu amamentar Benny com mais privacidade.
A pergunta de Dayse me pegou de surpresa, mas não totalmente.
— Percebi. Porque acha que pedi para me acompanhar? Não queria que ele me seguisse.
— Por causa do Grissom?
— Sim. Quero evitar conflitos. Só espero que Doug cumpra o que me prometeu de não criar confusão com Grissom — comentei, a voz carregada de uma preocupação genuína, ao chegarmos a um banco de pedra escondido sob uma pérgula. O recanto oferecia a privacidade que eu precisava. Sentei-me e comecei a ajeitar Benny.
— Também espero, amiga. Mas algo me diz que a serenidade dele vai durar até a chegada do Sr. Gostoso. O editor gato me parece que ainda vai demorar para se recuperar do término de vocês. Acho até que ele ainda te considera "território dele".
Enquanto Benny finalmente se acalmava, encontrando seu conforto no meu colo, meus olhos estavam fixos apenas nele, ignorando deliberadamente a provocação de Dayse para me perturbar.
— Meu "território" está bem aqui, no meu colo — retruquei, a frase servindo como um escudo de maternidade contra o ciúme alheio. — Agora, ajude-me a focar em alimentar esse rapaz, sim? Antes que ele comece a protestar em alto e bom som e chame a atenção de todos os convidados.
O tom de brincadeira mal disfarçava o desconforto sutil que o comentário de Dayse a respeito de Doug me causava. Contudo, ali, naquele recanto verde e perfumado, com Benny finalmente tranquilo e sugando com afinco, eu tinha uma missão mais importante e imediata.
Benny terminou de mamar um tempinho depois e, satisfeito, logo caiu em um sono leve e pacífico, o corpo relaxado contra o meu. O silêncio daquele recanto havia durado o suficiente. Olhei para o relógio: 19h35. Faltava pouco para a hora marcada por Grissom.
— Prontinho. Missão cumprida — suspirei, ajeitando a roupa e embalando Benny contra o ombro.
— Perfeito. Agora, vamos? Antes que o Grissom chegue e você não esteja no centro da recepção para testemunhar a chegada do seu cretino favorito — brincou Dayse, ajudando-me a levantar com cuidado para não despertar o bebê.
— Cretino favorito? — repeti com um sorriso, o termo me agradando pela precisão carinhosa.
— É. E essa produção toda não foi só para a festa, foi para o Grissom, confessa? — Dayse me inquiriu com um brilho malicioso nos olhos, enquanto saíamos do recanto. O barulho da festa nos atingiu novamente.
O jardim estava ainda mais cheio e iluminado, e o ar estava carregado de antecipação. O corpo de Benny aquecia meu ombro, mas o calor nas minhas bochechas era puramente pela pergunta de Dayse.
— Não sei do que está falando, Dayse — murmurei, fingindo inocência.
— Aham. A maquiagem impecável, o cabelo sem um fio fora do lugar e você está usando um vestido que diz: 'Sinto sua falta, e me arrumei assim só para você' — ela me corrigiu, o tom de voz cheio de cumplicidade. — Esse modelito é daqueles em que a gente usa quando quer seduzir alguém.
Eu sorri, incapaz de sustentar a negação por mais um segundo.
— Tá bom. Talvez tenha tido um leve pensamento sobre parecer bem atraente na frente dele — admiti, enquanto voltávamos para a área dos meus amigos.
— Amiga, se você estivesse vestida com qualquer coisa, ele ainda ia te achar atraente. Aquele cretino só falta te comer com os olhos — Dayse resumiu, encerrando o assunto com uma risada que me relaxou um pouco.
Voltamos para perto do nosso grupo e entre papos animados e alguns drinques, os minutos passaram e ao lançar um olhar despretensioso para a o hall de entrada, eu vi Grissom que acabava de chegar. Notei que Lewis se aproximou dele e os irmãos trocaram um abraço. Grissom pareceu perguntar algo ao Lewis e logo na sequência o irmão mais novo lhe cochichou alguma coisa e o olhar daquele cretino varreu o jardim até encontrar o meu. Assim que nossos olhares se encontraram, eu senti o coração disparar feito um carro desgovernado.
Céus! Como ele estava lindo! E como eu sentia a falta dele!, foram duas coisas que pensei enquanto o via vindo em minha direção. A música ambiente parecia ter diminuído de repente, deixando apenas o som dos meus próprios pensamentos em turbilhão.
Ele se aproximava com aquela caminhada confiante que eu conhecia tão bem, os cabelos bem penteados, e um terno escuro que realçava a sua pele. Cada passo que Grissom dava em minha direção parecia levar uma eternidade. Eu estava paralisada, sentindo a mistura avassaladora de ressentimento e uma atração inegável.
Dayse, percebendo a mudança em meu semblante e a direção do meu olhar fixo, seguiu-o e soltou um suspiro.
— Chegou o seu cretino favorito — ela murmurou, me dando um toque no braço. — Respira. Senão vai morrer por falta de oxigênio, amiga.
As palavras de Dayse mal registraram. Meu foco estava totalmente em Grissom, que agora estava a poucos passos de distância. Ele parou, e aquele olhar intenso e penetrante que sempre me desarmava fixou-se no meu. Havia uma tensão palpável no ar, como se o resto do mundo tivesse desaparecido.
— Boa noite, pessoal. Oi, Sara — a voz dele era baixa e rouca, exatamente como eu me lembrava, e o som do meu nome vindo dele causou um arrepio inesperado.
Fale com o autor