Notas iniciais
Salve, salve, meus amores! Depois de dias turbulentos de trabalho intenso, venho trazendo uma pequena maratona de capítulos para encerrar o ano. Simbora e boa leitura.

O sol da manhã, ainda tímido e pálido, espreitava pela fresta da cortina mal fechada da cozinha, desenhando um feixe dourado e empoeirado no chão de madeira. O silêncio era profundo, quebrado apenas pelo chiado suave do aquecedor e pelo som ritmado e hipnótico da sucção de Benny, pesado e morno em meus braços.

​Eu estava afundada na cadeira macia, o corpo exausto de uma noite mal dormida, mas a mente em alerta constante. A caneca de porcelana, com sua borda já gasta, pesava na mão esquerda. O café estava quase escaldante, e o vapor perfumado subia, misturando-se ao cheiro doce de leite e talco que emanava de Benny. Era um contraponto agridoce, o caos interno embalado pela paz daquela rotina matinal.

​Meu olhar estava perdido na estampa desbotada do cobertor que o envolvia, mas minha mente estava presa na escuridão da noite passada. As palavras de Grissom voltaram, não como uma memória, mas como uma pergunta dita de novo, em voz baixa e crua, cheia de uma vulnerabilidade que raramente permitia mostrar. Não eram apenas palavras; eram um ultimato embrulhado em esperança.

​"Se eu lutar, lutar de verdade... Se eu, de fato, provar que posso ser diferente... você... você ainda está disposta a tentar o 'continuar'?"

​A pergunta atingiu-me novamente, gelada e precisa, contrastando com o calor do café que eu tomava. Engoli o gole amargo, sentindo o calor descer pela garganta enquanto um arrepio percorria a pele. Podia ser diferente? Eu queria que fosse diferente. Mas a prova, eu sabia, não era para Grissom. A prova era para mim mesma.

​O que significava "lutar", afinal? A resposta se recusava a ser simples. Não era apenas a cessação da dor, o ato passivo de parar com o que nos feria. Era, sim, o trabalho ativo e incessante de começar a ser o que era bom, o que era estável, o que era merecedor daquela segunda chance. As promessas se tornaram moeda sem valor. Ele não podia mais prometer; ele teria que ser.

​Benny, com a boca cheia de um cansaço doce e satisfeito, soltou o seio com um suspiro profundo e virou a cabeça, aconchegando-se no meu pescoço com aquele peso inebriante do sono. O calor da sua pele era um escudo. Naquele instante de silêncio denso, ouvi as batidas na porta, três toques secos e pontuais.

​Certamente era Lina, a babá. O mundo exterior, com suas demandas, cronogramas, e a fria lógica das escolhas, estava voltando. O tempo para a reflexão pura havia acabado.

​Guardei o seio dentro do sutiã, a textura do tecido um lembrete rude da realidade. Ao me levantar e seguir para a porta, percebi que o "continuar" não era apenas sobre voltar para Grissom. Era sobre reconstruir tudo, tijolo por tijolo, sob o olhar atento e profundamente cético de quem se cansou de promessas não cumpridas. A casa que eu tinha que erguer era sólida, transparente, e não suportava mais mentiras.

​Mas havia Doug.

​Doug era um porto tranquilo. Um bom homem, um companheiro que ofereceu apoio incondicional. No entanto, após a nossa única noite, a verdade permaneceu fria: eu nunca poderia dar a ele mais do que uma performance. Não era alma, nem urgência; era uma dedicação meticulosa, um script de carinho e gratidão, desprovido da eletricidade visceral que só Grissom despertava.

​A equação da minha vida era binária: Doug ou Grissom. Não havia meio-termo, nem fusão amigável. Era uma escolha de anulação mútua. Eu estava disposta a sacrificar a tranquilidade honesta, suave — e talvez até monótona — que encontrei com Doug? Arriscar essa estabilidade para me lançar outra vez na turbulência que Grissom prometia? Gilbert era o meu furacão particular, uma tempestade tropical cujos raios eu conhecia, mas da qual eu jamais desejava fugir. Doug era a doca segura, silenciosa demais.

​Abri a porta. Lina sorriu, a bolsa cruzada no ombro, a imagem da competência discreta.

​— Bom dia. Como ele está? ​— Perguntou ela, a voz um sussurro profissional.

​— Dormiu agorinha. ​— murmurei, e o som do meu alívio parecia distante.

Lina, cuidadosamente, retirou Benny dos meus braços e entrou em casa, assumindo os cuidados com o meu bebê, e o peso da decisão me atingiu em cheio. A estabilidade que Doug me oferecia era um presente imerecido, algo que eu não tinha o direito de corromper com uma mentira carinhosa. A tempestade que Grissom representava era o meu inferno particular, mas era, paradoxalmente, o único lugar onde o meu coração se sentia verdadeiramente em casa.

E a única verdade inegável havia saído dos meus braços e ido com a babá: Benny. Ele era a consequência viva do amor com Gil. E essa consequência exigia que eu não buscasse o caminho mais fácil, mas o caminho mais completo.

​Fechei os olhos. Doug merecia ser livre da minha confusão. Grissom, por sua vez, merecia que eu lhe desse, de verdade, uma chance de tentar, de me provar que as coisas entre nós poderiam ser diferentes.

O medo era imenso, mas a porta de saída para a vida fácil se fechou atrás de mim com um clique seco. Eu não podia mais ficar fugindo do que sentia; eu tinha que permitir que ele lutasse pela nossa reconstrução. A única estabilidade que valia a pena era aquela que ele desejava construir comigo, não a que me era dada de presente por alguém que não me preenchia o coração da forma que me completava.

Peguei o celular e, antes que a coragem se esvaísse, digitei a mensagem.

​Para Doug: Preciso falar com você. Hoje à noite. É importante.

O envio daquela frase curta me custou um segundo de respiração. A alma pareceu subir pela garganta. Quase imediatamente, a tela acendeu, o nome dele piscando:

​"Aconteceu alguma coisa? Você está bem?"

​Li a preocupação imediata em seu texto, a bondade inerente que tornava tudo infinitamente mais difícil. Ele era tão previsível em seu suporte.

​"A noite a gente conversa. Estou indo para a editora," respondi, adicionando a referência ao trabalho como uma barreira necessária.

​Deixei o celular cair sobre a mesa de entrada de casa com um baque surdo, sentindo um alívio imenso e covarde. Ele estava de folga hoje. Eu sabia que se Doug tivesse trabalhando na editora, ele iria correndo me procurar na hora do almoço, querendo resolver o mistério e restaurar a paz. E eu não estava pronta para quebrar a paz de Doug em um intervalo de quarenta e cinco minutos entre discussões sobre o lançamento de um livro que estava bem aí, por sinal.

​Eu precisava do dia, das horas na editora, do foco profissional forçado para reunir a dignidade e a força necessárias para desmantelar a vida que ele havia me ajudado a construir.

Subi os degraus de madeira, o silêncio da casa absorvendo o som dos meus passos. O destino era o quarto de Benny, onde Lina, com sua habitual e louvável discrição, já organizava o espaço. A luz da manhã, ainda pálida, entrava em filetes dourados pela janela, derramando uma quietude quase sagrada sobre o berço.

​— Estou de saída, Lina ​— anunciei num tom que mal quebrou o ambiente sereno, aproximando-me do pequeno santuário.

​O coração apertou no peito ao ver Benny. O rosto estava sereno e rechonchudo, o corpo diminuto imerso num sono profundo e confiante. Curvei-me sobre as grades de forma quase reverente, depositando um beijo leve, mas longo, na testa do meu "gostosão". Ele exalava o cheiro inconfundível e calmante de leite e segurança.

​— Qualquer coisa que aconteça, Lina, qualquer detalhe, já sabe: me liga imediatamente ​— disse à babá, a voz carregada de uma urgência que nada tinha a ver com o bebê, e sim com a missão que me esperava lá fora.

​— Pode deixar, Sara. Sem problema algum ​— Lina respondeu com um aceno tranquilo e firme, sua presença sendo um bálsamo de confiança na minha manhã caótica.

​Saí do quarto e fui até o meu, caminhando diretamente para o closet onde estava a minha bolsa de couro macio. Ao pegá-la, senti o peso familiar dos meus objetos de trabalho. Olhei no espelho e vi o reflexo: uma mulher vestida para enfrentar o dia, mas com uma determinação fria e um medo profundo nos olhos. A jornada de reconstrução começava agora, com o simples ato de sair pela porta.

***

​— Você está certa disso, amiga?

​A voz de Dayse, sempre um pouco alta demais para um microfone de celular, soou carregada de um ceticismo que eu sentia. Seu timbre grave atravessou a pausa do almoço como um alarme, imune à compressão digital.

Eu suspirei, um som longo e pesado que parecia vir da base da alma, tentando expelir toda a tensão acumulada. Estava encostada na vidraça fria do 27º andar, observando a vista medíocre de telhados cinzentos e o trânsito formigante lá embaixo. O silêncio relativo da altura criava o palco perfeito para um desabafo. Minha salada de quinoa intocada jazia na mesa, ignorada em favor da urgência de descarregar o peso das últimas vinte e quatro horas.

​E que vinte e quatro horas! Um turbilhão que me deixou tonta, exausta e, honestamente, perdida. A transa imprudente com Doug havia sido varrida pela eletricidade suave e desconcertante do beijo com Grissom, lá no meio da sala da minha casa. E, culminando o drama, a conversa tensa e esclarecedora da noite passada, no interior escuro do meu carro, com aquele cretino que parecia ter puxado todos os fios dessa confusão.

​— Sim, amiga. Eu o estou enganando, Dayse. E ele não merece. Doug é um cara bacana, gentil, um porto seguro, e eu gosto dele. Ele é bom para mim...

​— Mas ele não arranca seu fôlego, Sar. Ele não te incendeia por dentro. Ele não te dá a taquicardia descontrolada que só aquele cretino sabe instigar. ​— Pude quase ouvir o sorriso afiado de Dayse do outro lado da linha, uma satisfação cínica que eu odiava, mas que, no fundo, eu reconhecia como a verdade mais crua.

​O suspiro que soltei foi um ato físico de rendição à minha própria desordem. Apertei o celular contra a orelha, a confusão pesando como uma âncora fria no peito.

​— Se fosse apenas a chama superficial do desejo, eu a extinguiria. Afogaria essa faísca com responsabilidade e me dedicaria à estabilidade que Doug me estende. Mas isto... isto não é epidérmico. Reside na minha medula, na arquitetura do meu ser.

​— É amor, Sar! O mais puro, e o mais estúpido!

​Engoli em seco, o nó na garganta quase me impedindo de respirar.

​— Como se pode ter o amor tatuado por alguém que foi o meu naufrágio, Dayse? Alguém que me deixou destroços para varrer?

​— Amiga, o amor é assim mesmo. Despreza a lógica, ridiculariza o bom senso e exige sacrifício.

​— Eu daria tudo para conseguir sentir por Doug metade do que ele sente por mim.

​— Mas você não consegue. Seu coração está marcado a fogo com o nome do Grissom. Você tenta desesperadamente se convencer de que o editor gato é o caminho certo, o homem ideal para um futuro sem turbulência. Mas o seu corpo, meu amor... O seu corpo e o seu coração só respondem aquele cretino do Gilbert. Você não gosta do Doug para a vida real. Você gosta dele para a vida que você acha que deveria ter.

​Fechei os olhos. O pensamento me atingiu, não como uma ideia, mas como o golpe seco de uma revelação dolorosa. Soltei um suspiro longo, uma rendição silenciosa. O veredito de Dayse era visceralmente honesto, frio e cirúrgico, rasgando qualquer negação.

​Doug era a brisa previsível da tarde, o conforto sedoso de um tecido macio, a melodia gentil que afaga e não exige nada. Com ele, a risada vinha fácil e a tranquilidade era palpável. Mas Grissom... Grissom era o trovão que racha o céu. Ele era a faísca perigosa, o toque proibido que reduzia a cinzas todas as minhas certezas. Ele era o caos que eu jurava ter domado e que agora ameaçava desmantelar a única moeda que eu havia conquistado com tanto esforço: a minha paz.

​— O sexo morno com o Doug, onde sua mente estava a quilômetros de distância, presa em Grissom. O beijo avassalador que vocês trocaram na sua sala, minutos depois do seu namorado partir... ​— A voz de Dayse se tornou grave, finalizando o resumo dos fatos. ​— Não há mais o que dizer. Seu sentimento genuíno tem nome, tem cheiro e tem um custo emocional altíssimo, e ele não é o Doug. E olha, ainda bem que você tem se prevenido, para além da camisinha, retomando a pílula. Era só o que faltava engravidar de um namorado que você não ama de verdade.

​— É... Seria bem complicado, Dayse. ​— Eu concordei, olhando para o teto.

​Minha médica havia me prescrito a pílula de progesterona, compatível com a amamentação, vinte e um dias após o nascimento de Benny, mais para regular o ciclo hormonal pós-parto. Mas Dayse tinha razão, havia uma camada extra de prevenção ali, um reconhecimento subconsciente de que a estabilidade com Doug era uma areia movediça, e eu precisava de um plano de fuga.

​— Grissom foi muito claro na nossa conversa de ontem: ele disse que vai lutar de verdade por mim. Desta vez, ele realmente vai provar que pode ser diferente. E me perguntou se eu ainda estaria disposta a tentar o 'continuar' entre nós.

​Dayse pigarreou do outro lado da linha. O som foi seco, carregado da seriedade de quem exige uma sentença final.

​— E você? Está disposta a pagar para ver?

​— Uma parte em mim clama por isso. Desesperadamente. Quer a intensidade que só ele tem, quer o encaixe absurdo das nossas almas, o calor do abraço dele. Mas a outra parte... ela está em pânico.

​— Pânico de quê, Sar? — Dayse inquiriu. Ouvi ao fundo o familiar teclar rápido, ritmado. Ela estava trabalhando enquanto ouvia meu drama.

​— De ser a idiota de novo. De ele prometer o mundo, eu jogar fora toda a minha paz e a minha estabilidade por ele, e no fim, tudo desabar exatamente como foi no passado.

​— Mas o cenário mudou, amiga. Grissom teve um motivo na época.

​— Eu sei, mas o pavor de ser a idiota de novo não some. E, principalmente, pavor do estrago que seria agora. — A imagem do rosto confiável de Doug e a vulnerabilidade do meu filho me atingiram com a força de um soco no estômago. — O custo emocional altíssimo que você mencionou não é só meu, Dayse. Tem o Benny. Não é mais sobre o que eu sinto, mas sobre o que faço com o que sinto. Não posso ser impulsiva.

​Apertei o telefone com tanta força que os dedos doeram. O peso daquela decisão era palpável, denso.

​— Você tem razão nesse ponto. Tem o "gostosão" agora. Mas tenho quase certeza de que o Gil também pensa nisso, Sar. Ele sabe que agora a luta dele é maior do que era antes. Ele não está mais brigando só pelo seu coração, mas pelo um futuro junto com você e o filho de vocês. É por isso que ele está tão disposto a "provar com ações".

​— E é por isso que o risco é ainda mais alto se ele falhar — rebati, mas senti um mínimo alívio ao ouvir o peso que Dayse atribuía à seriedade de Grissom. — Se ele errar, o estrago será em todos nós.

​— Mas você também não pode usar o Doug como um escudo, amiga.

​— Eu sei. Não consigo mais fingir para ele, a mentira me sufoca. Mas também não consigo dar o primeiro passo em direção ao Gilbert sem ter uma certeza de que ele será a rocha de que eu preciso.

​— Você precisa de uma prova de amor inegável, então. Algo que anule qualquer dúvida de que, desta vez, ele fica.

​— Exatamente isso.

​— E você pretende baixar a guarda?

​— Sim. Não vou pôr mais empecilhos. Deixarei que ele me prove com ações, como ele mesma disse.

​Houve uma pausa do outro lado da linha, e o som das teclas cessou. O silêncio era uma guilhotina.

​— E quanto ao Doug, amiga? Se vai aceitar que o Grissom se aproxime e comece a provar as coisas... Como fica ele? Você vai terminar?

​— É o certo. — A confissão final soou pesada, quase um gemido, carregada de uma dor genuína pela perda de algo bom, ainda que incompleto. — Ele merece alguém que lhe dê mais do que eu posso oferecer. Alguém por inteiro, Dayse. Não metade.

​— É a decisão mais difícil, mas a mais honesta. Eu confio em você, Sar. Faça o que tem para fazer.

​— Pode deixar. Beijo, Dayse. E obrigada por me obrigar a enxergar o óbvio.

​Desliguei a chamada. O silêncio do 27º andar voltou, mas agora não estava mais preenchido pela tensão, e sim pela clareza gelada do próximo passo. À noite, a conversa com Doug seria a primeira ação real no tabuleiro.


****

A noite chegou, trazendo consigo uma frieza que nada tinha a ver com o clima lá fora. Doug chegaria em breve. Eu havia comprado algo pronto no mercado, um jantar que serviria como pano de fundo para uma decisão difícil. Preparei a mesa com mãos nervosas e sempre de olho em Benny, que dormia, alheio à minha tensão, no carrinho. Cada movimento meu na cozinha era um lembrete do que eu estava prestes a quebrar: a estabilidade, a paz silenciosa que ele me oferecia... tudo seria substituído pela incerteza da minha verdade.

​A campainha tocou, pontual como sempre. Respirei fundo, sentindo o cheiro familiar do perfume dele quando abri a porta. O sorriso de Doug, caloroso e despretensioso, uma caixa de bombons e a garrafa de vinho com laço, tudo me fez sentir uma pessoa horrível. Por um segundo, desejei poder trancar a porta e fingir que a clareza encontrada mais cedo era apenas um pesadelo.

​— Oi, Sar — ele disse, inclinando-se para um beijo suave. — São para você — estendeu-me os presentes. — Como um pedido de desculpas, pelo meu comportamento ao telefone ontem, quando você me disse que o Grissom estava com vocês no shopping. O vinho é com baixo teor alcoólico, porque sei que você está amamentando o Benny.

​Seu cuidado e sua preocupação com meu filho eram coisas que sempre me tocavam profundamente. Ele era bom, incrivelmente bom. Eu sabia que o magoaria, mas, no fundo, ele não era para mim. De forma ilusória, cheguei a acreditar que daria certo, mas não aconteceu. Provavelmente, eu nunca deveria ter começado essa relação. Foi um erro, e agora eu via isso com clareza. Ele merecia alguém melhor, alguém que fosse recíproca cem por cento.

​— Oi, Doug. Obrigada — murmurei, pegando os presentes. — Entra.

​Doug notou a minha tensão imediatamente.

​— Tudo bem? Você parece um pouco pálida.

​— Sim, só um pouco cansada. Vamos jantar, já está pronto.

​Tentamos manter uma conversa normal durante a refeição, mas as palavras morriam na minha garganta. O peso do que eu precisava dizer pairava entre nós, um elefante na sala que só eu conseguia ver. Benny seguia dormindo, e eu agradeci mentalmente por isso. Quando terminamos, Doug, gentilmente, fez questão de limpar a mesa e lavar a louça, mesmo com meus protestos.

​— Você arrumou e preparou o jantar, nada mais justo do que eu tirar a mesa e lavar a louça — ele argumentou com um sorriso.

​— A gente precisa conversar, Doug. Depois eu cuido disso.

​— Nós vamos, mas me deixe fazer isso primeiro. Se quiser, me espere na sala. Já, já conversamos.

​— Ok! — concordei, vendo que não havia alternativa, já que ele estava determinado a cuidar da limpeza.

​Empurrando o carrinho de Benny para a sala, acomodei-me no sofá, o coração aos saltos. A espera foi nervosa e ansiosa, estendendo-se por quase dez longos minutos. Quando finalmente, ele retornou da cozinha, trazia a garrafa de vinho — o pouco que tomamos no jantar — e duas taças limpas.

Suspirei, um pressentimento amargo instalando-se em meu peito. Aquela seria uma conversa longa e, pelo visto, extremamente complicada.

Ele se ajeitou ao meu lado no sofá, serviu o vinho e me entregou a taça. Virei-me para a mesinha de centro, precisando desesperadamente de um segundo para respirar antes de começar, e depositei a taça ali, intocada.

— Ah, droga! — a frustração de Doug quebrou o silêncio tenso da sala.

Quando me virei para encará-lo novamente, o susto foi imediato: sua camisa estava tingida de um vermelho vivo, e a mancha escura já se espalhava rapidamente pela calça. A taça de vinho havia tombado sobre ele.

— Meu Deus, Doug! — exclamei, levantando-me num sobressalto. A conversa séria que teríamos estava, no momento, completamente esquecida.

— Tombou sem querer! — ele se explicou, exibindo um sorriso sem jeito de quem tenta inutilmente minimizar um desastre. — Que sujeira que eu fiz, hein? Desculpa, Sara.

— Não se mexa. Vou buscar um pano na cozinha.

Corri até lá e retornei com um pano de prato úmido e uma toalha pequena. Minhas mãos estavam ocupadas com a limpeza, mas minha mente permanecia em completo turbilhão.

— Deixa eu tentar tirar o excesso — murmurei, aproximando-me dele.

Doug levantou-se, facilitando meu trabalho. Comecei pela camisa, esfregando o pano com delicadeza sobre o tecido escuro, na tentativa inútil de impedir que o tinto penetrasse nas fibras. O movimento era íntimo, quase doméstico, uma coreografia de cuidado que não pertencia a um casal à beira da ruptura. Senti o calor do seu corpo e a familiaridade do seu cheiro, e a culpa me atingiu com força redobrada.

— Não se preocupe, é só vinho. Tem solução — ele disse, a voz suave, como se estivesse me confortando, e não o contrário. — Minha sorte que não atingiu o sofá.

— Eu acho que tenho uma roupa do Sean que ele esqueceu quando veio com meus pais — interrompi, evitando qualquer contato visual que pudesse reiniciar a conversa séria. — Você veste enquanto eu passo a sua roupa na máquina e seco, antes que manche de vez.

— Acho que vou aceitar, então.

Subi até meu quarto e procurei a bermuda que meu irmão, aquele cabeça de vento, havia esquecido junto com a camiseta. Encontrei as duas peças e voltei para a sala.

— Aqui. — Estendi as roupas a ele, que já havia tirado a camisa e estava apenas com a calça manchada.

— Obrigado. Eu já volto. — Ele depositou um beijo rápido no topo da minha cabeça, o que me fez encolher por dentro, e seguiu para o quarto.

​Fiquei parada, segurando a camisa úmida em minhas mãos, com a taça de vinho abandonada sobre a mesinha. A pausa, embora bem-vinda, havia apenas adiado o inevitável, tornando a tensão na sala ainda mais espessa e insuportável. Benny suspirou baixinho no carrinho, mas continuou dormindo profundamente.

De repente, a campainha soou, aguda e insistente, fazendo-me franzir a testa em confusão. Estranhei profundamente aquilo, pois não esperava absolutamente ninguém a essa hora da noite.

Deixei a camisa molhada sobre o encosto de uma poltrona e me dirigi até a porta. Quando a abri, desejei ardentemente não tê-lo feito. Parado diante de mim estava Grissom, segurando um esplêndido buquê de flores.

Ele sorriu, aquele sorriso intenso que sempre me desarmava, e elevou o buquê como uma oferenda ou um troféu.

— Oi, Sara. Pensei que hoje seria o dia perfeito para começar a provar com ações.

Eu estava petrificada. Não conseguia formular uma palavra sequer, meu corpo congelado entre a mentira que eu estava prestes a enterrar (o fim com Doug) e a verdade que acabara de invadir minha sala (Grissom). O buquê em suas mãos parecia um troféu inoportuno de uma guerra que acabara de começar.

— Sar? Quem é na porta? Algum vizinho?

A voz de Doug, vinda do corredor que ligava o quarto à sala, soou alta e perfeitamente audível para Grissom e eu. O som dele fez o sorriso de Gilbert congelar instantaneamente, e o buquê desceu lentamente, como se perdesse peso. O olhar dele, que antes irradiava pura determinação, agora queimava com uma mistura de surpresa, confusão e uma faísca perigosamente próxima da raiva.


Notas finais
Já, já mais...