Quando Doug chegou com flores e um sorriso bonito, a luz suave da manhã emoldurando-o na soleira da porta, eu me esforcei para tomar o meu controle, o mesmo que Grissom havia roubado momentos atrás com sua presença cortante e seu joguinho perverso.

Eu absorvi o cheiro das rosas, um perfume fresco e inofensivo que parecia querer anular o cheiro da ironia e do perfume que Grissom tinha deixado no ar.

Recebi as flores, o papel de seda verde roçando meus dedos, e ele me beijou. O toque de seus lábios era familiar, seguro, mas a segurança durou apenas um instante fugaz. Inevitavelmente, recordei da proximidade vertiginosa que Grissom impôs; a imagem dele se sobrepôs à de Doug com a nitidez de um raio: seus olhos de tempestade, o hálito quente e perigosamente próximo, a sensação de que o mundo tinha se inclinado. Por um milésimo de segundos, não só pensei que ele fosse me beijar, como a minha pulsação traidora se acelerou para que ele o fizesse.

"E tu bem que ia gostar, insolente!"

A voz perturbadora ecoou na minha cabeça, seca e pontiaguda como um estilete.

"Fora!"

Eu sibilei o comando para o meu próprio pensamento, a boca ainda adormecida pelo beijo morno de Doug.

"A verdade sempre te dói, né?!"

A intrusão mental se riu, e eu apertei o buquê com tanta força que senti os espinhos fincados na palma da mão, usando a dor física para ancorar-me de volta à realidade de Doug, das rosas e da segurança.

— Tá linda! — Doug elogiou-me, o tom dele era leve, alheio à batalha que eu travava. Seu olhar carinhoso, tão diferente do despudorado daquele cretino.

"Mas foi do despudorado que tu gostou."

"Já mandei cair fora!"

— Obrigada. — sorri, um sorriso que esforcei para não parecer forçado. — Você tá bonito também.

Ele usava jeans e uma camisa de algodão cinza de tricô fino que destacava seus ombros largos. A camisa era casual, mas o tecido macio e a cor neutra sublinhava a sua presença sólida e confiável, o exato contraponto à turbulência que Grissom representava. Ele exalava um perfume amadeirado, limpo, que era o oposto do cheiro picante e imprevisível que Grissom parecia carregar. O contraste era reconfortante e, ao mesmo tempo, estranhamente opressor.

Ele me deu mais um selinho rápido, os olhos verdes claros fixos nos meus, procurando algo que eu estava desesperada para esconder.

— Pronta para ir? — Doug perguntou, estendendo a mão para pegar a minha. Eu senti a rugosidade do papel de seda das flores na minha outra mão, o lembrete da dor dos espinhos que me mantinha aterrada.

Eu assenti, lutando para manter o foco na sua expressão gentil. A voz de Grissom parecia ter recuado ligeiramente, mas ainda era um sussurro frio na nuca, como um espectro espreitando no corredor. Vá, fuja para ele. Ele é o teu refúgio covarde. Mas você sabe quem realmente te faz sentir viva.

— Estou pronta — eu consegui responder, e o som da minha própria voz parecia estranhamente frágil e distante. Era hora de sair pela porta e tentar deixar Grissom — e a parte de mim que secretamente respondia a ele — trancado lá dentro, no silêncio forçado da minha casa. E me permitir um dia agradável rumo ao novo patamar na minha relação com o meu namorado.

Doug assentiu, satisfeito com a minha resposta, e segurou minha mão com mais firmeza, guiando-me para a saída. A chave girou na fechadura com um clique final e seco, um som que eu esperava que selasse a porta não só de casa, mas também da minha mente.

Descemos os dois lances de escada. O calor da mão de Doug era constante, uma pressão agradável que prometia estabilidade. Ele abriu a porta do seu carro — um sedã preto e discreto — e o banco de couro fresco ofereceu um contraste imediato com o calor do lado de fora.

Enquanto ele dava a volta para entrar no lado do motorista, eu ajeitei o buquê no meu colo e usei o espelho retrovisor para analisar meu rosto. Eu parecia calma, talvez um pouco pálida, mas sem sinais visíveis da guerra que acabara de ser travada na sala de estar. O passeio de barco no Hudson. O almoço chique com a vista deslumbrante de Manhattan. Doug planejava escapismos perfeitos e eu estava determinada a me afogar na rotina e na beleza previsível que Doug oferecia.

Ele entrou no carro, o motor ronronou baixo, e a música suave de uma rádio jazz preencheu o silêncio. O cheiro de ar-condicionado e couro limpo era mais um lembrete da ordem que ele trazia para a minha vida.

Eu me forcei a observar os detalhes dele – o vinco na lateral de seus jeans, o modo como o cabelo castanho caía sobre a testa – desesperada para preencher cada lacuna sensorial com sua realidade tangível e segura.

Mas no silêncio entre as frases, a imagem de Grissom ainda era vívida: o modo como ele me encarou ao me encurralar contra a parede, desafiador, esperando uma reação, e o brilho úmido de seus olhos que parecia me devorar. Era um fantasma que Doug, jamais conseguiria ver. Eu respirei fundo, forçando-me a focar nos planos do dia ou qualquer coisa banal que pudesse apagar a complexidade ardente que Grissom tinha deixado em meu rastro. A missão era simples: ser a namorada que Doug esperava. A dificuldade residia em calar a voz que dizia que essa namorada havia acabado de traí-lo, mesmo que só em pensamento.

— Algum problema? — ele perguntou, sem tirar os olhos do trânsito ao começar a dirigir. Sua percepção, às vezes, era aguçada demais para o meu conforto.

Eu me virei para ele, com o buquê de rosas pressionado contra o peito, e sorri com toda a sinceridade que consegui reunir, movendo a cabeça para que o cabelo caísse sobre meu ombro, um gesto que esperava parecer despreocupado.

- Nenhum. Só estou animada. Faz tempo que não saio para curtir Nova York de dia.

"Mente que nem sente!"

Ele assentiu com um sorriso. Seguimos para onde Doug disse que pegaríamos o barco. Cerca de uns vinte minutos já estávamos no Pier 83 da Circle Line. A movimentação era intensa: turistas apressados, o cheiro salgado e levemente oleoso do rio Hudson, e o som agudo das gaivotas misturado ao burburinho de diversas línguas. O barco, imponente e branco, parecia um grande palácio flutuante à espera dos seus passageiros.

Segundo Doug, o passeio tem duração de 2,5h e é o mais completo de todos, uma vez que faz uma volta completa por toda a ilha de Manhattan passando por baixo das 20 pontes que dão acesso à ilha. Todos os principais pontos da cidade são vistos, como: Little Island Park, Hudson Yards, One World Trade Center, Brooklyn Bridge, Downtown Brooklyn, Yankee Stadium, George Washington Bridge, Estátua da Liberdade e Ellis Island.

Nós embarcamos, seguindo a fila lentamente. Doug, falante e com a sua cortesia habitual, assegurou-nos dois lugares no convés superior, perto da amurada. O vento chicoteava meu cabelo, e eu respirei fundo, sentindo o salitre na pele. Ali, com a vastidão do rio e o panorama da cidade se abrindo diante de mim, parecia mais fácil respirar.

A sirene grave soou, e o motor principal começou a vibrar. Lentamente, a linha de cais se afastou. A âncora invisível que me prendia aos pensamentos de Grissom parecia ter sido cortada pelo movimento da embarcação. Doug colocou o braço em volta dos meus ombros, e eu inclinei a cabeça em seu peito, deixando-me envolver pela sensação de que, finalmente, eu estava na rota que eu queria seguir ou não. Os arranha-céus, testemunhas silenciosas de todas as complexidades, começaram a deslizar ao nosso lado, uma tela perfeita para a dissimulação da minha paz reconquistada.

Foi um passeio agradável. Tiramos algumas fotos, cliques românticos de casal. O sol já estava alto, espalhando uma luz vibrante que, filtrada pelas copas das árvores, criava um jogo de sombras perfeito para os nossos registros. A brisa suave nos acompanhou até o momento em que o passeio acabou, por volta da uma da tarde. Uma fome discreta começou a apertar, sinalizando que era hora de dar um próximo passo no nosso dia.

Seguimos, então, para almoçar no Manhatta. De mãos dadas, deixamos para trás o silêncio sereno do local do passeio e mergulhamos no burburinho acolhedor da cidade. O caminho até o restaurante foi preenchido com a leveza das nossas conversas, antecipando o sabor e o conforto de um bom almoço.

Ao entrarmos no Manhatta, a primeira coisa que nos envolveu não foi o cheiro de comida, mas a visão panorâmica de tirar o fôlego da cidade que se estendia sob nós. Localizado no topo, o restaurante parecia flutuar sobre Manhattan, oferecendo uma tapeçaria cintilante de arranha-céus e nuvens. O espaço em si era uma ode à elegância discreta: tetos altos, iluminação suave que realçava os tons de madeira escura e veludo, e um burburinho chique e controlado que servia mais como música de fundo do que como ruído.

Fomos conduzidos a uma mesa junto à janela, um pequeno palco privilegiado com vista para o horizonte. Ao nos sentarmos, o toque suave dos guardanapos de linho e o peso dos talheres de prata nas mãos sublinharam a promessa de uma refeição especial. Doug sorriu para mim, um sorriso feliz e animado com cada detalhe local.

O som suave do jazz de salão preenchia o ambiente enquanto examinavamos o menu. Para começar, escolhemos um vinho branco, um Sancerre fresco e mineral, cujas primeiras notas trouxeram um toque cítrico e efervescente ao paladar. O garçom nos serviu com uma precisão silenciosa, e a taça fria em minha mão era um contraponto agradável ao calor do meu entusiasmo engessado.

O almoço começou com a chegada dos aperitivos. Para Doug, vieram as vieiras seladas, douradas à perfeição, repousadas sobre um puré aveludado de aipo-rábano, com um aroma subtil a manteiga de noisette e tomilho. Para mim, uma delicada terrina de vegetais de época e cogumelos selvagens, envolta numa fina folha de alho-poró e servida com um azeite de manjericão esmeralda e flor de sal. Cada garfada era uma explosão de sabor delicado, um equilíbrio que nos fez parar a conversa por um momento de pura apreciação partilhada.

Para o prato principal, Doug manteve-se no mar, optando pelo peixe do dia, um bacalhau glacê com misô, envolta num caldo e umami. O meu foi um risoto de espargos e trufas negras, finalizado com lascas de Parmesão envelhecido. O aroma da trufa subiu sutilmente no ar, uma nota terrosa e luxuosa que combinava perfeitamente com a cremosidade do arroz e o crocante dos espargos.

Entre bocados, as nossas conversas aprofundaram-se. Falamos sobre o passeio de barco e os pontos turísticos que passamos, os olhares longos e cúmplices substituindo palavras quando a vista ou o sabor nos deixavam sem fala. Não era apenas uma refeição; era uma pausa luxuosa no tempo, onde a excelência da gastronomia espelhava a excelência da companhia.

Quando o almoço terminou com um café forte e uma tarte de limão de dar água na boca, o sol da tarde banhava o horizonte. Sentimos uma satisfação confortável e quente pela refeição e o local. O Manhatta não apenas servira uma refeição; havia selado uma boa memória onde a elegância da cidade e a profundidade da sua conexão se encontraram.

De mãos dadas novamente, saímos do restaurante, levando conosco o sabor persistente de um almoço agradavelmente sofisticado e saboroso. O elevador desceu, e em poucos minutos, já estavam novamente no carro, imersos no trânsito suave da tarde. Doug, com a mão ainda entrelaçada na minha, quebrou o silêncio com a proposta que, eu sabia, ia sugerir a qualquer momento:

— Vamos para um lugar onde possamos ficar... mais à vontade, Sar?

Seus olhos tinham um brilho diferente, uma mistura de desejo e expectativa que me era familiar. Eu já imaginava que lugar fosse. Confesso que a ideia me deixou desconfortável. Não pelo lugar em si, que poderia ser o hotel ou motel sofisticado ou o apartamento dele, mas sim por algo mais profundo. E Doug pareceu ler em minha inércia ao responder, que a proposta talvez, não tivesse sido vista com bons olhos por mim.

— Se não quiser ir, a gente pode ir para a sua casa, sem problema. — ele se apressou em dizer, a voz voltando ao tom calmo e acolhedor. — Benny só vai ser entregue à noite, não é?

Assenti, sentindo um alívio imediato. Talvez em casa fosse melhor mesmo. Aquele ambiente era meu refúgio, um lugar onde eu definia as regras e me sentia completamente segura.

— Então vamos para casa. Vou me sentir mais confortável lá.

— Ok. — ele concordou com um sorriso que dissipou qualquer traço de hesitação ou decepção. Agarrando minha mão, plantou um beijo delicado em meus dedos. A jornada de volta foi diferente de um nervosismo para mim e de expectativas para ele que seguia falante e sorridente.

***

Chegamos a minha casa com a luz da tarde filtrando-se pelas árvores da rua. Entramos em um silêncio aconchegante. Assim que a porta do apartamento se fechou atrás de nós, senti o peso do dia, mas também a promessa de intimidade. A casa cheirava levemente a lavanda. Tirei os sapatos e me virei para Doug, cujo olhar era de puro desejo.

Eu não fazia ideia do que fazer ou dizer, me senti mais insegura ali do que na minha primeira vez aos 17 anos, com o quarterback do time da escola.

Doug deu um passo à frente, e o que era apenas a distância de uma respiração pareceu um quilômetro de hesitação. A luz alaranjada e morna do entardecer pintava as linhas do seu rosto, destacando a sombra de barba por fazer e a intensidade calma dos seus olhos. Ele esticou a mão, e eu pensei que ele fosse tocar meu rosto, mas, em vez disso, ele pousou levemente na minha cintura, fazendo um círculo lento e deliberado com o polegar.

O calor atravessou o tecido do meu vestido, e meu corpo reagiu antes que minha mente pudesse processar a insegurança. A lavanda no ar misturou-se com o cheiro de pele e algo levemente amadeirado vindo dele. Minha respiração falhou, presa na garganta. Ele inclinou a cabeça, e seus lábios moveram-se em um sorriso lento, quase imperceptível.

— Não faz ideia do quanto eu te desejo. — ele sussurrou, a voz baixa e rouca como a promessa que pairava no ar.

Resolvi agir antes que minha insegurança me traísse. Fechei a pouca distância restante entre nós, erguendo o rosto para ele, sentindo a textura da sua camisa sob meus dedos. O beijo quebrou o silêncio da casa. O mundo exterior se dissolveu para além das paredes da sala, e só existia a pressão suave da sua boca e a mão dele apertando firmemente minha cintura.

Ele interrompeu o beijo e sorriu. Sua mão agarrou-se a minha e me sentir sendo levada por ele escadas acima rumo ao meu quarto, como quem é levada para a fila do corredor da morte. Péssima alusão, eu sei.

"Para enquanto ainda dá tempo, insolente!"

Mas eu sou teimosa demais para obedecer. Eu queria ir adiante com ele, talvez para provar a mim mesma que eu conseguia, que Grissom era passado.

Os degraus de madeira da escada gemeram suavemente sob o peso combinado dos nossos corpos, um lamento lento e antigo que parecia a trilha sonora da minha própria rendição. A cada passo ascendente, eu sentia o chão sob meus pés se tornar menos sólido, menos o lugar onde eu habitava e mais um trampolim para o desconhecido. O aperto da sua mão não era de força, mas de uma certeza absoluta, firme o suficiente para guiar, mas gentil para não ferir.

O cheiro amadeirado e de lavanda de Doug intensificou-se, engolindo o ar ao redor. Tentei respirar fundo, mas o ar parecia denso, saturado de desejo — do Doug — e da minha própria insegurança. Meu olhar fixou-se na nuca dele, onde alguns fios de cabelo escuro teimavam em escapar da linha do corte, e senti um arrepio que percorreu a espinha, da base do pescoço até a ponta dos dedos que já estavam formigando.

Chegamos ao corredor do andar superior. A luz do entardecer aqui era mais tênue, quase um véu roxo e azul. Ele parou diante da porta do meu quarto, não a empurrando de imediato. Em vez disso, ele se virou lentamente, me encurralando suavemente contra a madeira fria. Seus olhos, antes calmos, carregavam agora uma intensidade quase predatória, mas não cruel — era a fome focada, despojada de qualquer ironia ou dúvida.

Ele ergueu a mão que não segurava a minha e a pousou no meu ombro, deslizando-a de forma lenta e deliberada pelo braço, até o meu pulso. Senti-me inteiramente mapeada por aquele toque, cada centímetro da minha pele despertando sob a sua pressão mínima.

A voz insolente na minha cabeça agora não gritava: Pare!, ela sussurrava, um eco distante e quase inaudível, que eu ignorei.

Doug, sem desviar o olhar do meu, inclinou-se e roçou os lábios na minha orelha. A respiração quente dele fez com que meus pelos da nuca se arrepiassem.

— Desejei tanto esse momento — Ele declarou antes de sua boca tomar a minha em um beijo lento.

Quando nossos lábios se afastaram alguns segundos depois, Doug finalmente abriu a porta com um movimento rápido do ombro.

A penumbra do quarto era quebrada apenas pelas listras de luz do poste que atravessavam a persiana entreaberta, pintando padrões de sombra sobre os lençóis de algodão.

Perto da cama, Doug me abraçou e me beijou. Eu tentei corresponder a altura do que conseguia. Seus lábios desceram para o meu pescoço e Doug murmurou algo ininteligível, um som gutural satisfeito, e apertou o abraço, o hálito quente fazendo cócegas na pele do meu pescoço. O perfume amadeirado dele, uma mistura sutil de cedro e almíscar, preencheu o espaço. E por um instante, um flash me atingiu: o cheiro de notas balsâmicas que Grissom usava, uma fragrância que ainda hoje eu reconheço de olhos fechados quando sinto em alguém.

A memória não foi convidada. Ela se instalou sem permissão, uma sombra sutil e persistente no canto do meu pensamento, manchando a pureza do momento presente.

Doug me despiu do vestido com lentidão e a peça foi abandonada no chão. Sua mão moveu-se suavemente, os dedos longos traçando um caminho leve pela lateral do meu corpo, do quadril à costela. Fechei os olhos com mais força, tentando desesperadamente me concentrar na sensação do agora, no relevo dos ossos dele sob minha mão que repousava em seu peito após lhe tirar a camisa. Mas a comparação começou a se desenhar em minha mente, quase de forma automática, um hábito tóxico que eu odiava em mim mesma.

Os dedos de Doug eram longos, a palma da mão macia, o toque deliberado e gentil, quase reverente. Diferente, pensei. O toque de Grissom era sempre mais urgente, mais firme, uma intensidade que me deixava sem fôlego. Grissom beijava com mais força, com mais fome, um beijo que exigia resposta. O beijo de Doug era doce, paciente, uma promessa.

A comparação começou a se desenhar em minha mente, um mapa mental dos contrastes. Com Doug, eu me sentia protegida, ancorada. Era um rio calmo. Com Grissom, eu me sentia selvagem, elétrica, uma torrente.

Enquanto Doug beijava levemente meu ombro, um beijo que prometia segurança, eu pensei na forma como Grissom me beijava no mesmo lugar, a intensidade que me deixava sem fôlego, a mordida suave que vinha a seguir. Com Doug, era um suspiro tranquilo, um porto seguro. Com Grissom, era um arrepio elétrico, o perigo e a paixão misturados.

Uma onda cáustica de culpa me atingiu, instalando-se como um peso frio no fundo do estômago. Eu estava traindo Doug, não com um corpo, mas com a vividez das minhas próprias memórias. Ele era tangível, honesto, a realidade que eu havia escolhido. Grissom era o passado volátil, uma melodia antiga, vibrante demais, que eu tentava desesperadamente tirar da cabeça, mas descobria, a cada batida do meu coração, que estava falhando miseravelmente.

— Você está bem? — A voz de Doug, grave e aveludada, quebrou a fina casca dos meus devaneios. Havia uma nota de preocupação genuína e desarmante que tornava a mentira ainda mais difícil.

— Sim. — Minha resposta saiu mais como um fio de ar, suave e rouca, um reflexo da tensão interna.

Ele foi a própria gentileza, não insistindo. Apenas assentiu, aceitando minha evasão com um olhar paciente, e voltou a depositar beijos lentos e cuidadosos, subindo pela curva do meu pescoço.

Senti o colchão macio ceder sob minhas costas enquanto ele me fazia deslizar para deitar. Então, ele veio, deitando-se sobre mim em um ajuste perfeito, o peso do seu corpo não sendo opressor, mas acolhedor. A pele de Doug estava quente, quase queimando contra a minha, e senti a textura firme do seu peito contra o meu.

​Doug inclinou-se para finalmente beijar minha boca, e eu correspondi, meus lábios se movendo em uma sincronia que parecia programada para o afeto. Mas meus olhos permaneceram abertos por um instante que durou uma eternidade, fitando um ponto inexpressivo no teto branco, enquanto a imagem do sorriso torto de Grissom, o modo como seus olhos me devoravam, piscava incandescente na minha mente.

​A mão de Doug subiu, a ponta dos dedos roçando a minha bochecha em um gesto de adoração que eu reconhecia e não merecia. Ele me olhou com uma ternura quase dolorosa, os olhos brilhando com uma luz que era só para mim.

​— Você é linda — ele sussurrou contra meus lábios, o hálito quente.

​Eu forcei um sorriso, tentando canalizar o afeto real que sentia por ele para mascarar a ponta afiada da culpa que me perfurava.

— Obrigada — forcei um murmúrio contra a curva do seu pescoço, o cheiro limpo e familiar de Doug, um aroma de conforto que, ironicamente, me sufocava. Tentei afastar Grissom, empurrar sua lembrança para um canto cego da mente, enquanto me ajustava em seus braços, um movimento sutil de desconforto disfarçado de aconchego. Eu ansiava por estar ali, presente no momento, com a mesma totalidade simples que ele oferecia.

​Nascida de um caos interno, de uma urgência fria e de uma audácia envolta nas farpas da incerteza, tomei a iniciativa de um beijo mais profundo. Meus lábios pressionaram os dele com uma avidez quase violenta, uma tentativa desesperada de incendiar o presente e incinerar o passado. Havia decidido: as comparações dolorosas, a mente traiçoeira que insistia em sobrepor um rosto ao outro, seriam ignoradas. Eu ia prosseguir, me entregar a Doug. Talvez não fosse a reciprocidade total e merecida que ele, com sua doçura paciente, esperava, mas seria a minha entrega possível, com tudo o que me restava.

​Fechei os olhos, transformando a escuridão em uma câmera de isolamento. O mundo se reduziu ao toque: o tecido quente da sua pele, o peso firme de seu corpo sobre o meu, o ritmo compassado e vital do seu coração pulsando contra minha costela. Apenas Doug. Apenas agora. Meus lábios deslizaram pelo seu pescoço com mais convicção, enquanto minhas mãos buscavam ancoragem na realidade, percorrendo a extensão tensa de suas costas. Por um instante fugaz, a memória recuou, e eu me permiti cair.

​— Isso, Sar. Venha para mim. Se entregue assim mesmo.

​Sua voz rouca, gutural, perto do meu ouvido, não provocou o arrepio esperado. Foi um choque elétrico que ecoou vazio. A mente me traiu de novo, não com uma imagem, mas com a textura inconfundível de outra voz, uma frequência mais profunda, gravada em meus ossos, que essa sim me desarmava e me arrepiava do jeito certo.

​Senti o calor da traição escorrer pelo meu corpo como algo viscoso. Recriminei-me, ciente de que estava cometendo um erro cruel, enganando a mim e a ele. Era uma traição íntima e abjeta: estar unida ao meu namorado, tentando forçar o prazer, enquanto o nome do meu ex era a única oração que eu conseguia formular mentalmente.

​Mas me lancei na correnteza do ato, deixando o arrependimento para o momento em que a luz voltasse a acender.

​E quando, um tempo depois, a tensão se tornou insustentável e a onda do prazer me quebrou em um milhão de fragmentos, a barreira do meu consciente se estilhaçou. Meu corpo, incontrolável e honesto, gemeu o nome de Grissom com uma intensidade gutural, quase um lamento. A confissão foi abafada pela penumbra e pelos meus próprios lábios, mas a punição veio imediata e líquida: uma lágrima silenciosa, fria, escorregou do canto do meu olho, um pequeno rio de culpa que se perdeu invisível no travesseiro, a única testemunha da minha falha.

Notas finais
Fiquei com dó da Sara nesse final.