After Separation - Livro 2
61 Capítulo LIX
"Tentar tirar um grande amor da cabeça é como tentar apagar caneta com borracha, não importa o quanto você tente, não vai conseguir"
(Desconhecido)
***
O calor residual de Doug espalhava-se pela minha pele, contrastando com o lençol fresco. Sua mão, descontraída e lenta, desenhava arabescos suaves na extensão da minha barriga, um ócio terno e preguiçoso que sucede o clímax. Era um toque leve, quase um sussurro de intimidade.
Seu rosto, repousado contra o travesseiro amassado, ostentava um sorriso de triunfo e satisfação tranquila. Aquela expressão, tão aberta e genuína, cravou uma ponta de culpa no meu peito, misturada a um alívio gélido. A farsa, a performance habilidosa que eu havia encenado, tinha sido, para todos os efeitos, um sucesso esmagador.
O silêncio confortável foi quebrado pela voz rouca dele.
— Eu já te disse que você é linda?
— Umas três vezes, eu calculo. — Forcei a curvatura dos lábios, desenhando o sorriso mais falso e convincente que possuía.
— Só três? Vou precisar reforçar. — Ele riu, o som vibrando em seu peito, e depositou um beijo breve e macio em meus lábios. Retirou-se apenas para apoiar a palma da mão na minha bochecha, o polegar roçando minha pele com adoração. — Sabe... Se eu tivesse que eternizar você em palavras, seu corpo daria uma biblioteca inteira, seu rosto, um livro de luxo, e sua boca... um capítulo inesquecível.
Soltei o ar numa expiração lenta, um som que disfarçava a angústia.
— Você é incrível, Doug. — Minha mão se moldou à curva de seu maxilar numa carícia calculada. — Tão perfeito que às vezes me parece irreal.
A certeza afiada me perfurou: a partir daquela tarde, meu saldo com ele seria sempre negativo. Era uma dívida moral, pesada e insolúvel, que jamais conseguiria saldar.
Ele abriu um sorriso que acendeu um brilho quase febril em seus olhos.
— Perfeito? Não, Sar. Pelo contrário, tenho falhas demais, pode apostar. Mas por você, eu estou reformulando a mim mesmo, tentando ser o homem que seja merecedor de ter uma mulher tão rara e especial como você ao meu lado.
Ouvir aquela promessa me forçou a engolir um soluço áspero, que subiu pela garganta e ficou preso, vibrando em meu peito. A ironia da situação era mordaz: eu havia idealizado que o próximo relacionamento seria a prova da superação do "furacão Gilbert Grissom", algo leve e curativo. Em vez disso, estava imersa naquela experiência complexa, sentindo-me a pior pessoa do mundo, uma impostora de sentimentos.
A culpa, longe de ser apenas um pensamento abstrato, materializava-se como um peso físico, denso e frio, assentando-se sob meu diafragma, misturando-se ao cheiro adocicado e levemente salgado que pairava no ar. Fechei os olhos por um instante, buscando refúgio na luz. Partículas douradas de poeira dançavam nas frestas da cortina, e o sol do fim de tarde desenhava listras mornas e etéreas no lençol amarrotado que mal cobria nossos corpos desnudos; era um contraste cruel com o gelo que se espalhava lentamente pelo meu interior.
Doug, ignorando a tempestade silenciosa que se agitava em minha alma, inclinou-se. Seus lábios eram macios, desarmantes em sua sinceridade, e ele depositou um beijo leve no canto da minha boca. A cada toque casto, a pesada e sufocante máscara da mulher apaixonada parecia se fundir à minha pele.
— O que está passando por essa cabeça linda? — A voz dele era um murmúrio aveludado, baixo e repleto de contentamento, a respiração quente e doce fazendo cócegas na pele sensível atrás da minha orelha. Sua mão, que antes desenhava arabescos na minha barriga, migrou, deslizando com posse suave pelo meu braço até o bíceps, onde a ponta do polegar traçava a curva muscular. — Você parece estar em outro planeta.
Senti um arrepio que não era de prazer. A verdade, nua e crua, era que eu estava, sim, em um universo paralelo: um cosmos gelado onde o fantasma irresoluto de Gil Grissom funcionava como um sol inextinguível, e Doug era apenas uma estrela distante, ofuscada por aquela lembrança incômoda.
— Estou apenas... absorvendo a dimensão de tudo isso — menti, abrindo os olhos e injetando neles uma intensidade ensaiada, que eu esperava que ele confundisse com profunda emoção. — Você, este momento... É muita coisa para processar.
O sorriso dele se alargou em fervor, e ele interpretou minha hesitação como a confusão deliciosa e avassaladora de uma paixão.
— Eu sei. Foi rápido, mas foi absolutamente certo. E eu te prometo, Sar, que vou te dar todo o tempo do mundo para processar. Nós temos todo o tempo do mundo.
Assenti, devagar, sentindo o nó na garganta se transformar em uma rocha áspera. "Nós não temos nada," a voz interna gritava, a voz da honestidade que eu estrangulava para não sair. "Você tem um homem incrível que merece a verdade, e eu estou aqui, roubando a sinceridade dele como um ladrão emocional para tentar fechar uma ferida que outra pessoa abriu."
O peso da dívida parecia ter dobrado, tornando-se insuportável. Enquanto Doug me envolvia novamente, sua pele quente e cheia de vida contra a minha, eu percebia que a coisa mais difícil seria encarar o reflexo da pessoa que eu havia me tornado: uma mentirosa habilidosa, disfarçada de amante, usando a bondade e o amor de um homem decente como um curativo descartável. Eu precisava de oxigênio, precisava sair daquela bolha de felicidade falsa antes que a pressão me esmagasse completamente.
Com uma delicadeza forçada, quase robótica, afastei meu corpo do calor consolador dele. Minha pele reagiu imediatamente, sentindo o choque gélido do ar do quarto, o que fez os pequenos pelos da nuca se eriçarem. Olhei ao redor: o quarto era uma zona de guerra íntima pós-batalha. Peças de roupa, espalhadas como vítimas no chão de madeira escura – a camisa de Doug, sua calça, misturadas ao meu vestido amassado e ao sutiã de renda preta. Uma bagunça que testemunhava algo real para ele, mas era profundamente falso e doloroso para mim. Eu estava sufocando.
— Eu... eu preciso de um copo de água — balbuciei, as palavras saindo secas e apressadas, os olhos fixos em um ponto qualquer da parede, evitando o olhar questionador que, pela primeira vez, começava a quebrar a felicidade nos olhos de Doug.
O movimento brusco de me levantar fez o lençol deslizar, e ele se apoiou no cotovelo, o corpo atlético parcialmente exposto, revelando as linhas firmes e jovens. Havia uma ternura tão ingênua e desarmada em sua expressão que quase me fez desabar em soluços ali mesmo, traída pela própria fragilidade dele.
— Quer que eu pegue? Fica deitada. — A oferta era simples, altruísta.
— Não, eu vou — insisti, a voz carregada de uma urgência que não podia explicar. Já estava de pé, sentindo a vertigem da mudança súbita de postura e o turbilhão da pressão emocional. Agarrei a ponta do lençol para me envolver num casulo improvisado, não contra o ar fresco do quarto, mas como uma barreira desesperada contra a sua visão, contra a verdade que eu escondia.
Caminhei descalça até a janela. Eu precisava da luz, da perspectiva da rua, de qualquer coisa que me lembrasse da existência de um mundo fora daquela cama de culpa e mentiras. Puxei a cortina de linho cru com uma mão trêmula, deixando que o último e implacável raio de sol me atingisse como um holofote no palco de um crime. Respirei fundo, tentando aspirar o ar pesado e parado do ambiente, sentindo a ironia cruel de buscar oxigênio quando era minha alma que estava sufocada pela desonestidade.
Doug me observava da cama, o sorriso que era tão largo minutos atrás agora contido, tingido por uma leve e visível confusão.
— O que está olhando lá fora? — perguntou, a voz doce, mas com um traço sutil de apreensão.
Eu não estava olhando nada. Eu estava me reconstruindo. Reajustando a máscara.
— Nada — respondi, sem conseguir me virar. A luz intensa do crepúsculo ofuscava meus olhos, mas era um alívio temporário comparado à dor excruciante de encarar a face gentil e traída do homem que eu acabava de descobrir que estava usando para fins egoístas.
***
Já era noite, e a despedida na porta de casa se estendia sob a luz amarelada do poste, um momento de quietude e intimidade com Doug. Foi então que o brilho súbito de faróis de LED cortou o negrume da rua, e um carro preto de luxo, silencioso e imponente, deslizou e estacionou a poucos metros da calçada. O reconhecimento foi instantâneo, um choque frio que se espalhou do meu peito para as pontas dos dedos. Eu sabia quem era. A sensação de vulnerabilidade me tomou por dentro, esmagadora e inevitável.
Doug e eu observamos enquanto Grissom descia do veículo. Ele usava um terno escuro e elegantemente estruturado, que era um mundo de distância do look casual que vestia pela manhã. No colo, Benny, dormia profundamente, a cabecinha aninhada no ombro dele. Luke estendeu-lhe a bolsa de Benny com uma reverência quase militar.
Quase que como se desfilasse sobre um tapete invisível, Grissom subiu os dois lances de escadas da entrada. Seu andar era uma declaração: lento, preciso, e os sapatos mal tocavam o chão antes de serem erguidos novamente, um ritmo ensaiado de quem exige atenção. Ele parou, altivo, a um passo de mim e de Doug na porta.
— Boa noite — ele nos cumprimentou. Ao me encarar, notei seus olhos azuis se estreitarem, quase se fecharem, fixando-se em mim como um par de lâminas frias. Engoli em seco, sentindo a garganta apertar.
— Boa noite — respondemos Doug e eu, quase em uníssono, um eco tênue contra o volume da sua presença.
Os lábios dele se moveram novamente, a pergunta, revestida de cortesia, era uma exigência disfarçada:
— Posso entrar para deixar nosso filho no quarto dele?
— Entra, Grissom. — Sabendo que ele não aceitaria um não, minha resposta foi seca, um mero reconhecimento da inevitabilidade.
Ele passou por nós como uma força inabalável, imponente, com passadas firmes que pareciam ignorar o espaço que ocupávamos. O ar se encheu instantaneamente com o rastro sofisticado de seu perfume caro enquanto ele seguia para o interior da casa.
— Quer que eu fique até ele ir embora? — Doug indagou, deslizando a mão por meus braços.
— Não precisa. Vá pra casa. Melhor. Não quero conflitos, Doug.
— Tudo bem — ele concordou, embora sua expressão denunciasse hesitação. Ele segurou meu rosto com ambas as mãos, seus polegares acariciando minhas maçãs, e me beijou demoradamente. — Adorei o nosso dia.
Assenti com um sorriso que esperava que não fosse tão plastificado a ponto de Doug perceber o terror velado em meus olhos.
— A gente se vê amanhã na editora.
— Tá bom. Boa noite — foi o máximo que consegui dizer. Assim que ele desceu as escadas em direção ao seu carro, fechei a porta rapidamente, selando o portão entre o conforto e a hostilidade.
Assim que fechei a porta, o alívio temporário da presença de Doug se desfez, substituído por uma sensação fria de isolamento. O beijo dele, que deveria ter sido um escudo, parecia agora apenas um rastro na boca, vulnerável. Tentei respirar fundo, mas o ar parecia rarefeito.
Caminhei em direção à sala, mas parei abruptamente ao ouvir os passos de Grissom. Não eram passos apressados de quem está cansado e quer descansar o filho; eram batidas lentas e calculadas no piso de mármore do hall de entrada. Cada clac-clac ecoava na casa, não como um som, mas como uma afirmação de presença, de poder e controle.
Grissom parou no arco da sala de estar, onde a luz fraca do abajur lateral realçava o corte impecável do seu blazer escuro — um tecido caro, que caía fluído e sem rugas.
— Ele está tão ferrado no sono que nem resmungou ao ser posto no berço. — Seu sorriso era largo e o brilho nos seus olhos azuis só era a confirmação de que: o dia com o filho havia sido, sim, perfeito, e ele se orgulhava disso.
— Como foi com ele? — perguntei, buscando um ponto de ancoragem na normalidade, um pretexto para não ceder ao silêncio opressor.
— Foi ótimo. Passeamos bastante. — A maneira como ele disse isso, o leve rubor de satisfação genuíno, só serviu para confirmar o sucesso de seu tempo com Benny.
Um breve instante de silêncio se instaurou, preenchido apenas pelo zumbido da casa. Grissom, no entanto, não parecia satisfeito em sair. Seus olhos, que antes me avaliavam, pareciam perfurar a superfície do meu controle.
— Está tudo bem com você? — perguntou ele, a voz suave, como um cirurgião tateando uma ferida com seu olhar estudado.
Apenas assenti, incapaz de formular uma palavra que não fosse uma mentira. Sentia o peso do conflito interno, a dor acumulada, o cansaço e a pressão, ganhar uma força sísmica dentro de mim. O esforço para manter a fachada era insuportável.
— Tem certeza, Sar? — insistiu Grissom, dando um passo à frente, encurtando a distância entre nós. A proximidade física ampliou minha sensação de ser encurralada, e sua voz, agora próxima, foi o estopim.
Sua pergunta final, seguido do uso do apelido carinhoso ao meu nome, foi como se o portal do meu conflito fosse aberto à força. Eu não conseguia mais segurar a onda dentro de mim. A dor acumulada quebrou a barragem. Desabei. As lágrimas vieram com uma força violenta, jorrando sem aviso, queimando o caminho pelas minhas bochechas. Cobri o rosto com ambas as mãos, tentando conter a vergonha e a torrente, mas o choro veio convulsivo, rasgando o silêncio com soluços secos e cansativos, que faziam meu peito doer e minhas costas curvarem-se sob o peso invisível. O som era humilhante, uma rendição total que eu jamais planejei dar a Grissom.
O choque de ver meu desmoronamento fez Grissom hesitar por apenas um milissegundo. Mas logo o senti me envolver em um abraço caloroso e firme. O tecido frio e sedoso do seu terno escuro era um contraste gritante com a aspereza da minha roupa, e o cheiro do seu perfume me invadiu enquanto eu desabava.
— Sara! — ele disse meu nome em um sussurro urgente e grave, e foi como se a torneira das lágrimas fosse aberta até o seu limite máximo. Os soluços vieram mais fortes, descontrolados, o ar escapando dos meus pulmões em ruídos dolorosos. Fiquei presa em seus braços, afundada no cheiro do seu perfume.
— Eu sou a pior pessoa desse mundo, Grissom — consegui dizer entre os soluços do choro, a voz distorcida e fraca, confessando meu tormento interno enquanto estava presa em seus braços.
Ele me apertou contra seu corpo, com uma força protetora.
— Não! Não diga isso. Você é incrível. A melhor pessoa que eu conheço, Sara.
— Não sou! — Insisti, o peso da minha culpa está sendo exteriorizado em cada soluçar.
— É sim, honey. — A velha intimidade na forma de tratamento escapou sem aviso, a frase dita com a convicção de quem não a havia esquecido.
Grissom me apertou mais em seus braços. Senti o calor do seu beijo no topo da minha cabeça, um toque inesperado, mas que por um instante, me deu algum conforto.
— O que foi que aconteceu, Sar? — Sua voz era agora baixa e desesperada, vibrando perto do meu ouvido. O instinto protetor estava lá nele como sempre. — Aquele filho da puta fez alguma coisa com você?
Neguei com a cabeça contra seu ombro, a resposta abafada.
— Fui eu mesma quem fiz, Grissom. — A confissão saiu trêmula, carregada de culpa.
— O que fez, honey? — ele insistiu, o tom implorando por detalhes.
— Não me chame assim. — O pedido saiu abafado por conta do meu rosto escondido em seu ombro, uma ordem fraca em meio ao meu caos.
— Desculpa... É a força do hábito. — O tom dele era submisso, algo que eu raramente ouvia.
Afastei meu rosto de seu ombro abruptamente, a confusão e a vergonha me impedindo de criar espaço. Havia em seu blazer uma mancha escura e úmida, a marca salgada das minhas lágrimas. Encarei seu rosto bonito e barbudo, tingido de uma preocupação clara e límpida como água cristalina. O contraste entre sua postura impecável e a marca da minha fragilidade era humilhante.
— O que houve, Sara? — A pergunta, agora, era mais uma súplica.
— Eu sou horrível, Grissom. Uma pessoa muito horrível.
— Não é não. Quem disse isso?
— Eu! — A palavra escapou como um grito sufocado.
Ele sorriu, um sorriso suave, que não chegava a ser debochado, mas carregava uma ternura que me atingiu em cheio. Seu polegar roçou meus lábios inchados e salgados pelas lágrimas.
— Você é incrível. Uma pessoa linda e a mais forte que eu conheço, Sara. — A respiração quente de Grissom roçou minha pele quando ele sussurrou, a voz profunda e rouca de convicção. Sua testa repousava na minha, um ímã silencioso que me impedia de recuar. Os olhos, dois pedaços de turquesa, estavam cerrados em um abandono sincero, e um sorriso, tão pequeno quanto perigoso, brincava em seus lábios, agora úmidos de expectativa. — Por isso e por muito mais que eu te amo tanto.
Fechei os olhos, absorvendo sua declaração como um veneno doce, que só fez a mancha da minha culpa queimar mais fundo. Eu era uma traidora, e o peso da minha confissão não dita tornou-se um bloco de mármore esmagando meu peito. Reabri os olhos a tempo de ver Grissom diminuir a última distância entre nós, seus lábios se movendo em direção aos meus. Eu sabia que deveria erguer uma barreira, que aquele contato seria mais um tijolo maciço na minha conta de erro e traição para com Doug, mas eu me mantive paralisada, tensa, o corpo esperando e até ansiando por aquilo que era proibido.
E o contato irrompeu.
O beijo não era doce nem hesitante; foi um ato de posse, faminto e implacável. Grissom me beijava com a fúria de quem recupera algo perdido, e eu o recebia com a desgraça da aceitação. Minhas mãos, quase inconscientemente, se agarraram firmes a lapela de seu blazer caro como garras, amassando-o. Senti as dele se cravarem em minha cintura, apertando com aquela força calculada que eu conhecia e me lembrava ainda tão bem. Meu mundo congelou e o juízo perdeu-se por completo no instante em que sua língua macia e saborosa deslizou sensualmente para dentro da minha boca, em uma exploração profunda e urgente. Assim que nossas línguas se tocaram, um gemido rouco e duplo escapou, uma confirmação inegável do desejo mútuo, que nem o tempo ou a mágoa conseguiu apagar.
Os minutos pelos quais o beijo se estendeu podiam ser transcritos como perfeição distorcida, desejo bruto, desespero e... amor! Um amor quente como a lava de um vulcão que, outrora, sempre nos incendiava.
A exploração íntima de sua boca na minha estava entorpecendo minha mente, transformando a culpa em névoa. As mãos de Grissom subiram pelas minhas costas sob o tecido da camiseta, agarrando-se à minha pele e trazendo meu corpo para ficar inteiramente grudado no seu, sem chance para que uma mísera brisa passasse entre nós. Pude sentir o efeito destrutivo do beijo nele, o atrito urgente revelando a tensão palpável de sua virilidade pulsando firme contra mim, e eu, em resposta, agarrei-me mais ainda, como um náufrago à única tábua no oceano da minha própria traição.
Sua boca se separou da minha, apenas alguns segundos depois, para distribuir beijos curtos e possessivos em meus olhos, nariz, nas maçãs do rosto afogueadas. Em seguida, retornou com propriedade para minha boca, me levando para um abismo de desejo onde os beijos mornos e doces de Doug jamais conseguiriam alcançar.
— Volta pra mim... Eu te amo, meine liebe!
O sussurro final, um fio de voz em alemão trespassou a névoa do êxtase. A palavra agiu como um choque elétrico, não me puxando para ele, mas me arremessando para fora do abismo. Com uma força que brotou do meu desespero e da minha moral estilhaçada, empurrei Grissom, rompendo a gravidade que nos unia de forma abrupta.
— O que foi? — ele parecia genuinamente confuso, o brilho nos seus olhos de turquesa subitamente turvo e os lábios levemente inchados pelo beijo.
— Isso não devia ter acontecido. Jamais.
— Sa...
— Vai embora, Grissom. — disse de modo brusco, a voz rouca e firme, cortando o ar como vidro quebrado.
— Você sabe que a gente vai precisar conversar sobre isso depois, não sabe?
— Não precisamos. Foi um erro, um deslize de sanidade, que não vai acontecer de novo. Ponto final.
Visualizei em sua expressão a confusão inicial se transformando em uma mágoa leve, mas profunda, um espelho que refletia a minha própria e incontrolável turbulência.
— Tudo bem. — ele concordou, e a falta de contestação era algo tão raro vindo dele que a agradeci internamente, porque era a única coisa que eu não queria naquele estado frágil e vulnerável: um confronto com Grissom depois desse beijo. — Fica bem. — ele desejou, esticando o braço e deslizando o polegar pelo meu rosto com uma delicadeza contrastante com seu temperamento, enxugando uma lágrima teimosa que escapou do canto do meu olho direito.
— Vou ficar. — Retruquei, a resposta curta servindo como um escudo.
Ele seguiu em passos lentos e curtos, porém calculados, até a porta de saída. Eu observei suas costas firmes, esperando que a porta se fechasse. Mas ele parou.
— Ah, eu já ia esquecendo... — Grissom disse ao abrir a porta e se virar para mim, mantendo a suavidade da voz. — Lewis disse que vai te ligar amanhã para marcar de irem escolher o terno de casamento dele. Ele quer sua ajuda. Confia no seu gosto.
— Ele já marcou a data? — perguntei surpresa e enxugando o rosto ainda úmido pelas lágrimas recentes, a notícia funcionando como um desvio bem-vindo da minha miséria.
— Vinte e um de dezembro. — A confirmação veio rápida.
— Um mês. — exclamei com espanto, processando a rapidez da decisão.
— Está bem em cima, é verdade. Mas ele contratou um organizador de casamento que vai cuidar de tudo.
— Que bom!
— Lewis disse que você será a madrinha dele.
— E você o padrinho. — Completei, um sorriso genuíno despontando pela primeira vez na noite.
— Sim. — Grissom sorriu, um brilho travesso e nostálgico acendendo em seus olhos. — Estaremos os dois juntos no altar. Não será bem do jeito que eu imaginava, mas ainda tenho esperanças de um dia ser possível nós dois no mesmo altar... não como padrinhos, mas sim como os... Noivos!
A palavra final pairou no ar, carregada de um desejo não resolvido. Ele sustentou meu olhar, seu sorriso se transformando em algo terno, e um calor perigoso se espalhou pelo meu peito, a lembrança de um futuro que havíamos planejado, mas desfeito no passado.
— Boa noite, meine liebe. — A despedida em alemão, o antigo e íntimo apelido, foi a flecha final.
E então ele saiu. O som pesado da porta se fechando reverberou pelo hall. Fiquei paralisada no centro da sala, a mão ainda no local onde Grissom havia me beijado, e o coração apertado pela culpa não resolvida e pela promessa impossível que ele acabara de deixar para trás. Eu não sabia se a declaração era um ataque, um consolo, ou a verdade brutal que continuava a nos ligar.
Fale com o autor