Grissom...

Eu caminhava de cabeça baixa, absorto, quando um vulto lá no final do corredor chamou minha atenção. Era ele. O "namoradinho" da Sara.

Meu corpo reagiu antes que minha mente registrasse. Uma onda fria de ciúmes somado a algo mais denso e corrosivo, subiu pela minha espinha. Aquele cara não me descia. E não era só pela dor possessiva de vê-lo ao lado da minha mulher — a mulher que eu teimava em chamar de minha, apesar de certo tempo de término.

Ele vestia uma camisa de botões de corte impecável e exibia um sorriso branco que parecia ensaiado, perfeitamente alinhado com o dossiê que Ian, meu detetive particular, havia me entregue na semana passada.

"Senhor, o cara é limpo. Sem passagem pela polícia ou nada que o manche. É só um editor que mora em um apartamento pequeno, sem os pais, nem irmãos ou outros parentes. Gosta de malhar e tem um hobby estranho de colecionar selos raros," Ian havia resmungado, a voz cheia de desapontamento por não ter encontrado lama.

Mas o dossiê não capturava o aperto na minha mandíbula sempre que eu o via. Ele era limpo demais, polido demais, perfeito demais. Aquele tipo de perfeição que só se encontra em coisas falsificadas.

Eu parei no meio do corredor. Ele, percebendo minha presença, acelerou o passo, o endurecido semblante dele, transformou-se numa máscara de irritação contida.

Ele parou a uma distância confortável de mim, a interrupção do seu ritmo perfeito tão calculada quanto o próprio passo. O perfume dele, uma nuvem sufocante, invadiu minhas narinas, provocando uma náusea imediata que subiu pela minha garganta. Céus! Como Sara consegue respirar perto de um sujeito com um odor tão nauseante?

- Eu estava torcendo para não topar com você por aqui, mas... — disparei, sem completar a frase, encarando o queixo dele, que agora estava travado numa linha tensa.

Ele piscou lentamente. Aquele gesto mínimo expôs um vislumbre da falsidade sob a superfície polida. Seu olhar era gélido, uma indiferença ensaiada que falhava em esconder a aversão mútua. Ele inclinou a cabeça ligeiramente para o lado, um movimento condescendente que ele provavelmente usava para intimidar pessoas menos calejadas que eu.

- O sentimento é, claro, recíproco — a voz dele era um barítono suave, modulado para soar razoável, mas carregado de desprezo. — O que faz aqui, Grissom? Veio perseguir a minha namorada?

O tal Doug ergueu o queixo em um enfrentamento calculado, um gesto que ele provavelmente praticava em frente ao espelho para parecer dominante. Coitado! Não dever dominar sequer uma formiga!

A luz do corredor refletiu em seus cabelos impecavelmente arrumados, realçando ainda mais a artificialidade da cena e daquele sujeito plastificado.

Sorri forçado, um movimento rápido dos lábios que nem de longe alcançou meus olhos, e em tom irônico lhe disse:

- Onde está escrito que eu te devo satisfação sobre o motivo de estar na minha editora?... — Pressionei a palavra "minha", saboreando a forma como ela penetrou sua armadura de indiferença. Notei seu maxilar se apertar em fúria, a pele da bochecha repuxando momentaneamente. — E, outra, antes da Sara ser sua namorada... Ela é a mãe do meu filho. Então...

Ele nem sequer me deixou completar a fala. O verniz de "homem civilizado" que ele tentava manter rachou. Seus olhos, antes meramente frios, agora queimavam com um ressentimento mal disfarçado. Ele disparou, a voz subindo uma oitava, perdendo o controle:

- Quando vai parar com essa perseguição para cima dela? Sara fez a escolha dela. Você é passado. Entenda isso.

Eu não me movi. A única coisa que se moveu foi o músculo sob meu olho, levemente tenso, a única indicação externa do meu próprio vulcão interno. Eu fixei o olhar em um ponto logo acima do seu ombro, uma mancha na parede que era infinitamente mais interessante que seu rosto plastificado, ignorando sua tentativa patética de intimidação. A fúria dele era barata; a minha era antiga e silenciosa.

Só então, com a calma de quem domina a situação, trouxe meus olhos de volta para os dele, permitindo que a frieza do meu olhar encontrasse a raiva descontrolada no dele. Cruzei os braços sobre o peito, uma barreira física e metafórica.

- Entendo perfeitamente, Doug. — Minha voz era um sussurro controlado que o forçou a se inclinar ligeiramente para ouvir, invertendo a dinâmica de poder. — Mas a sua percepção da realidade e a minha realidade factual são duas coisas muito distintas.

O maxilar dele trancou novamente, um músculo pulsando sob a pele bronzeada e artificialmente perfeita. Ele recuou, endireitando a postura, o orgulho ferido evidente em cada movimento rígido.

- Ela não quer mais nada com você. — acusou, tentando recuperar o terreno perdido.

- Será que não quer mesmo?... — Pendi a cabeça para o lado, adotando um ar pensativo e zombeteiro. — Ela te disse isso com todas as letras? Porque quando estou perto dela, sinto a eletricidade, sinto que ela quer, apesar da resistência obstinada que ela tenta manter.

Um vinco profundo formou-se entre as sobrancelhas dele, quebrando a simetria estudada de seu rosto. O verniz de confiança começou a se dissolver.

- Você acha que é inesquecível pra ela, não é Gilbert Grissom?

- Não "acho", tenho certeza, Doug. — A verdade soou na minha voz, crua e inabalável. — Ela não me esqueceu. No fundo, ela me quer e não a você.

- Não é isso que parece quando estamos juntos na intimidade do quarto dela. — A voz dele desceu para um rosnado baixo e satisfeito, a intenção clara de me ferir com a imagem que ele conjurava. E ele conseguiu por alguns instantes.

O ar pareceu rarear nos meus pulmões. Um calor furioso subiu pelo meu pescoço. Cerrei os punhos com tanta força que senti as unhas cravarem nas palmas, uma dor aguda que usei para me ancorar, para não explodir. A imagem dos dois, juntos, em uma intimidade que um dia foi minha, fez meu autocontrole vacilar perigosamente.

Senti o músculo da minha mandíbula travar. Fiz uma pausa, um segundo crucial para dominar o ímpeto violento que me consumia. Quando finalmente falei, minha voz estava perigosamente calma, uma lâmina de gelo contra o seu fogo.

- Será que quando ela diz isso, realmente é você quem ela tá enxergando? — devolvi o afronte, mirando diretamente na sua insegurança, na rachadura que eu sabia existir na fundação daquele relacionamento falso.

O sorriso arrogante de Doug não apenas se desfez; ele estilhaçou. Foi como ver uma estátua de gelo cair em pedaços no chão. Seus olhos, antes faiscando com satisfação maliciosa, estreitaram-se em fendas de pura fúria ferida. Por um instante infinitesimal, a máscara de indiferença, que ele vestia com tanta displicência, rachou, revelando o medo pálido de ser substituído, de ser apenas um reflexo.

Dei um passo lento para trás, não em retirada, mas para saborear melhor o estrago da minha fala com uma satisfação gélida. O corredor pareceu ter encolhido em torno de nós, carregado pela eletricidade não dita e pela memória da mulher ausente que era o real campo de batalha. Meus ombros estavam tensos, mas a sensação de certeza era um escudo inabalável.

Doug recuperou a compostura com um tremor quase imperceptível. Ele avançou, diminuindo o espaço que eu acabara de criar, seus pés arrastando-se levemente no tapete.

- Você se agarra a fantasmas, Grissom. Você se agarra à ideia de que é inesquecível. — Ele sussurrou, a voz tensa e baixa, mas carregada de veneno. — Nós estamos na vida real. E na vida real, ela me escolheu. E isso te destrói.

Eu inclinei a cabeça, o olhar fixo e inexpressivo, recusando-me a lhe dar a reação que ele tanto ansiava.

- Destrói? — repeti a palavra com um escárnio leve, quase musical. — Não, Doug. Me alivia. Alivia saber que, por mais que ela tente, ela não consegue se livrar da lembrança de quem ela realmente quer. Você é só o placeholder* dela. A distração conveniente. E você sabe disso.

O silêncio que se seguiu foi pesado e absoluto. Doug ficou petrificado, a fúria congelada em seus traços.

- Você está blefando, Grissom. Por que não admite que a perdeu e bate retirada? — a voz dele sibilou, mas faltava a convicção inabalável de antes.

Mantive meu olhar firme no dele, sem desviar. A dor aguda das minhas unhas cravando nas palmas das mãos era um lembrete bem-vindo, um foco para a adrenalina que bombeava em minhas veias. A raiva ainda estava lá, um dragão adormecido sob uma fina camada de gelo, mas meu controle se intensificou.

- E você, Doug? O que você está fazendo? Tentando me convencer ou convencendo a si mesmo? — inclinei levemente a cabeça, um gesto calculado para minar sua confiança.

O rosto de Doug se contraiu numa careta de dor e ódio. Sua mandíbula estalou com um som seco, o ataque foi tão direto e preciso que ele não podia mais fingir que não havia sido atingido. Por um momento, vi seus ombros se enrijecerem, o impulso primitivo de me confrontar fisicamente atravessando sua postura. Ele respirou fundo, e o movimento de seu peito foi exagerado, teatral.

- Fique longe dela. — A ordem saiu, mas faltava a convicção de antes. Era a bravata de um homem assustado.

- Ou o quê? — dei um passo à frente, encurtando a nossa distância para quase zero. Aproximei meu rosto do dele, sussurrando para que mais ninguém ouvisse o que se seguiria. — Acha mesmo que tenho medo de um merda de editor de artes, que curiosamente não possui parentes, mora em um muquifo na Washington Heights, faz academia para se sentir o fortão e, ainda por cima, tem um hobby ridículo de colecionar selos raros?

A cor sumiu de seu rosto instantaneamente. Ele vacilou um passo atrás como se tivesse levado um soco físico com aquelas minhas revelações, cambaleando para trás. O choque o deixou sem fala. A "perfeição" dele desmoronou ali, no meio do corredor.

- É, eu sei coisas sobre você, Doug Wilson. — Um sorriso vitorioso e cruel repuxou meus lábios. — Estou na sua cola. Um vacilo e eu vou me aproveitar disso para te tirar da vida da Sara em um estalar de dedos.

Ele não esperou por uma tréplica, ou por mais humilhação. Virou-se abruptamente e passou por mim a passos largos, deixando para trás o rastro denso e enjoativo de seu perfume — uma nuvem sufocante. Era um aroma que grudava nas narinas e nas roupas, tão pesado quanto a certeza que eu já tinha: aquele homem estava escondendo algo, e o cheiro enjoativo não era o único mau sinal de que sua fachada era apenas isso, uma fachada frágil, prestes a desmoronar.

A visão da sua nuca tensa sumindo na curva do corredor serviu apenas para alimentar a chama de desprezo que me subia pela garganta.

- Idiota! — resmunguei, e o sussurro foi um som cortante na quietude opulenta. Levei a mão ao bolso interno do blazer e puxei meus óculos escuros, de aro grosso e lentes escuras como o céu de inverno. Pousados no meu nariz com um clique decisivo, eram a minha armadura, um muro instantâneo entre a fúria que fervia em mim e o mundo exterior.

Com a raiva convertida em propósito frio, virei-me e marchei para o elevador oposto.

***

Absorto no borrão cinza e verde da paisagem que deslizava rapidamente pela janela, eu mal sentia o peso do meu corpo no banco de couro macio do carro. A luz do final da tarde banhava o interior do veículo com um tom melancólico e dourado, enquanto Luke, silencioso e profissional, me conduzia de volta para casa.

O celular na minha mão, antes um objeto inerte, ganhou vida com uma vibração seca e urgente. O susto me fez estremecer, um arrepio elétrico que subiu pela nuca. Meus olhos se fixaram na tela: o nome Hajna, iluminado em letras frias, puxou-me de volta à realidade que eu tentava deixar para trás. O ar escapou dos meus lábios num suspiro lento e pesado, e em seguida, com uma determinação fria que mascarava a dor, balancei a cabeça em negação.

Ela sabia. O combinado era claro, uma regra estabelecida na frieza calculada do nosso último e definitivo encontro de despedida: a partir daquele momento, o silêncio seria absoluto. Sem contato mais.

- Grissom??

A voz de Hajna cortou a música baixa e o cheiro denso de perfume barato e cigarro que pairava no saguão do bordel. As luzes vermelhas e roxas do lugar cintilavam, transformando tudo em veludo e sombra. Hajna, com a maquiagem perfeitamente delineada e um vestido que parecia costurado ao corpo, estava paralisada. A surpresa era evidente no seu rosto — eu nunca a procurava ali; sempre era ela quem vinha ao meu apartamento em Munique, em ambientes mais neutros. Mas hoje, eu viera para um encerramento.

- Podemos conversar?

Tentei manter a voz firme.

- Conversar, conversar? Ou aquele outro tipo de conversa?

O tom de Hajna era uma mistura calculada de diversão e escárnio, o modo como ela mascarava a surpresa e a vulnerabilidade. Ela inclinou a cabeça, um pequeno sorriso provocador dançando nos lábios pintados.

- Não. É conversar mesmo. Sério.

A leveza sumiu do seu rosto. Ela me estudou por um segundo e, compreendendo a gravidade do momento, assentiu e me guiou.

Subimos por escadas desgastadas, o carpete grosso amortecendo nossos passos, até um dos quartos. Era um cômodo pequeno e sufocante, com papel de parede florido e uma colcha de seda amassada que parecia ter testemunhado demais. Hajna trancou a porta com um clique que ecoou, um som final, e se acomodou ao meu lado.

- E aí, o que quer conversar? — ela indagou, a voz agora mais baixa e despojada de qualquer teatralidade.

Respirei fundo, meus olhos fixos no tecido da colcha.

- Meu divórcio saiu hoje. Estou livre da Maryanne. E você sabe o que isso significa, não sabe?

Virei-me para encará-la, o medo de ser mal-interpretado subindo pela garganta. Era o momento de confirmar o preço do nosso segredo. Ela se lembrava do acordo que estabelecemos no início do nosso caso? Que assim que eu estivesse legalmente livre, a nossa ligação, tão secreta quanto intensa, se dissolveria imediatamente também.

Hajna não precisou de palavras. Ela apenas assentiu, os olhos claros fixos nos meus, e naquele gesto, a sentença foi proferida.

- Então chegamos ao fim da linha. Você veio se despedir. — Hajna decretou, a voz neutra, mas a sombra de uma resignação pesava em seus ombros.

Foi a minha vez de apenas acenar com a cabeça. O calor do quarto parecia subir, pressionando contra meus ouvidos.

- Não te verei mais mesmo? Sem contato, nem nada?

- Você sabe que não. Foi o combinado. — Repeti, a frase soando mais dura do que pretendia.

- Nem mesmo a amizade poderemos manter?

O ar de súplica em seu tom foi quase demais. Recuei o olhar.

- Sara não entenderia.

- É, talvez, nem eu entenderia se estivesse no lugar dela. — Hajna sorriu, um sorriso pequeno e doloroso de compreensão. Ela respirou fundo e mudou de assunto, assumindo a pose prática de sempre. — Quando parte da Alemanha?

- Amanhã pela manhã. — A resposta foi curta, definitiva.

Um silêncio denso e estranho se instalou, preenchido apenas pelo ruído distante de vozes do corredor. No fundo, eu daria tudo para manter aquela amizade. Hajna era uma pessoa fora de série, uma alma perdida naquele mundo de fachada e prazeres comprados. Mas para recomeçar minha vida com Sara, eu precisava cortar cada fio do passado.

- Ela é uma mulher de sorte. — Hajna murmurou, quebrando o silêncio e estendendo a mão.

Seus dedos, inesperadamente macios e quentes, envolveram os meus, guardando-os entre os seus em um casulo de pele. Ela apertou levemente, e seu olhar claro encontrou o meu com uma franqueza desarmante.

- Espero, de verdade, que você consiga consertar as coisas com ela, Gil. E que sejam felizes.

- Obrigado. — Sorri, sentindo uma gratidão imensa por aquela benção inesperada. Apesar da nossa relação torta, um caso, na verdade, havíamos construído uma amizade. — E eu espero que você encontre sua felicidade, Hajna. Uma felicidade que não está aqui. Você é grande demais para ficar presa nesse mundo. Tenho certeza que se sair daqui o céu será o limite para você.

- Gil, não é fácil assim. — Havia exaustão na sua voz.

- Eu sei que não. Mas tente pela sua filha. Saía dessa vida. E como um presente ou estímulo, sei lá... — Soltei sua mão e puxei o celular do bolso da calça. A tela fria e iluminada do aplicativo do banco era um contraste brusco com a intimidade do momento.

- O que está fazendo? — ela me perguntou, os olhos curiosos se estreitando, tentando ler a tela.

Concluí a transação, sentindo o alívio imediato da ação. Olhei para ela e disse, a voz cheia de convicção:

- Pegue seu celular.

Hajna se levantou e caminhou até o pequeno móvel de cabeceira onde havia deixado o aparelho assim que entramos no quarto.

- Meu Deus! — ela exclamou, e o som era de choque puro. Os olhos, antes cansados, estavam arregalados e fixos na tela.

- Acabei de transferir uma quantia para a sua conta.

- Eu não posso aceitar isso. — Ela me olhou com um horror sincero. O valor, que para mim representava apenas uma fração insignificante, era para ela uma fortuna, algo avassalador.

- Não só pode como vai. — Minha voz não admitia discussão.

- Grissom, isso é muito dinheiro.

- Na verdade, ainda é pouco.

- Eu vou te mandar de volta.

- Não se atreva. Pegue esse dinheiro e faça uma faculdade, um curso ou sei lá o quê, mas invista em você, no seu futuro, no da sua filha. Não desperdice seu tempo e o seu futuro nessa vida ingrata de prostituição, Hajna. É o pedido de um amigo.

Hajna piscou, o brilho nos seus olhos, misturando a incredulidade com a emoção.

- Pedido? Sei. Tá mais para ordem.

Ela sorriu, e desta vez, o sorriso não alcançou apenas os lábios, mas iluminou todo o seu rosto, enchendo os olhos de lágrimas. Em passadas rápidas, Hajna cruzou o pequeno espaço do quarto e veio até mim. Seu abraço foi apertado e profundo, cheio de carinho e gratidão muda, e eu prontamente retribuí o gesto, envolvendo-a com a mesma intensidade.

- Obrigada, Gil. Por isso.

- Imagina. Só não conte a ninguém, nem mesmo ao Sacha, senão ele vai querer um percentual.

O comentário fê-la rir, uma risada gostosa que sacudiu nossos corpos e quebrou a tensão final.

- Seja feliz. — Desejei sincero, afastando-me um pouco, mas ainda mantendo minhas mãos em seus braços.

- Você também. — ela disse em réplica, desfazendo o abraço. Uma de suas mãos, ainda quente, subiu e tocou meu rosto em um gesto de carinho e despedida. — Quero ter a sorte de um dia encontrar alguém que me ame com essa intensidade e obstinação que você ama a Sara.

- Você ainda vai encontrar sim. Agora preciso ir. — O tempo havia acabado de verdade.

- Ok. — ela disse, e se afastou, deixando espaço para que eu fosse embora.

Eu me virei, o peso da chave de latão na mão. A ponta fria do metal encontrou o buraco da fechadura. Estava girando a chave para destrancar a porta, a respiração presa, quando a voz de Hajna soou, me segurando no limiar.

- Grissom?

Parei, o clique da fechadura suspenso.

- Oi!

Havia uma hesitação no seu olhar, um último fiapo de curiosidade.

- Se um dia, nessas casualidades da vida, a gente se esbarrar por aí e você estiver com a Sara, você falará comigo ou vai fingir que não me conhece?

A pergunta era justa, mas a resposta veio sem esforço, apoiada na amizade que havíamos construído.

- É óbvio que vou falar com você. — Pisquei um olho, um gesto cúmplice, e Hajna sorriu, um sorriso leve e verdadeiro que eu levaria na memória. Finalmente, saí do quarto. A porta se fechou com um baque surdo, e eu saí para nunca mais voltar àquele lugar.

​Sou tragado de volta à realidade pelo novo vibrar do aparelho em minha mão. O som era mais forte desta vez, insistente, quebrando a névoa dourada do final da tarde que ainda banhava o carro. Levantei o celular. O nome Hajna ainda estava lá. Respirei fundo, ajeitei-me no banco. Pela insistência, resolvi atender.

​- Oi, Hajna.

​- Oi, Gil. Desculpa ligar. — A voz dela estava tensa, mas não desesperada, apenas apressada.

​- Aconteceu alguma coisa? — Meu tom era cauteloso.

​- Sim, mas não é nada sério. Sei que combinamos de eu não entrar mais em contato, mas... — ela se apressou em dizer, quase atropelando as palavras. — Eu só precisava compartilhar com você uma coisa que tenho certeza que vai gostar de saber.

​- Diga!

​Do outro lado da linha, ela contou a novidade, e eu senti um calor agradável no peito. Ela havia aceitado minha sugestão, finalmente resolvendo largar a vida de prostituição. Contou que na noite posterior a nossa despedida, havia conversado com Sacha e acertado todas as suas contas, livre.

​- Estou aqui na estação de Munique, Grissom. O trem deve chegar a qualquer momento para eu ir embora para Budapeste. — Havia um alívio e uma euforia palpáveis em sua voz. — Vou ver minha filha e começar uma nova vida.

​Um sorriso sincero se abriu em meus lábios. Luke, no banco da frente, olhou rapidamente pelo retrovisor, percebendo a mudança na minha expressão.

- Que bom, Hajna. Fico feliz por isso. Que seja o começo de um novo e feliz capítulo que você começa a escrever na sua história.

​- E graças a você. Obrigada mesmo, Grissom. Por tudo.

​- Imagina.

​- Agora vou desligar. — A voz dela soou suave, final. — Adeus, Gil.

​- Adeus.

​O clique seco e metálico do outro lado da linha veio rápido, cortante — um som que agiu como um veredito, selando o fim de tudo. Soltei o ar que estava prendendo, não num suspiro, mas num longo e silencioso esvaziamento, e o peso glacial de uma grande responsabilidade simplesmente se dissipou dos meus ombros.

​O polegar tocou levemente a tela. Não bastava desligar; era preciso apagar o vestígio. Como quem incinera a última prova ou corta o último fiapo da corda que me prendia a um abismo, deletei o número do contato de Hajna. Eu estava livre. Hajna estava livre. E lá fora, o asfalto deslizava sob os pneus, o carro seguia firme, um casulo de metal me levando para casa.

***

Sara...

O sol da tarde espremia-se pelas frestas da persiana na sala, pintando listras alaranjadas no chão de madeira. Sentada em minha cadeira, eu ouço meu assistente murmurar:

​- Ainda não consigo acreditar que estive assim cara a cara com Gilbert Grissom. — Ela dizia com o olhar completamente perdido.

​Doug, recostado ao lado de Morgan no sofá e esperando eu finalizar um email importante para irmos, folheava uma revista de capa brilhante com um desinteresse ostensivo. Ele soltou um suspiro pesado, que carregava uma dose de crítica.

​- Grande coisa. Um cara desse arrogante, Morgan, não merece esse seu suspiro. — A voz de Doug era cortante, com um tom de quem acabou de desarmar uma bomba.

- Doug, que comentário mais desnecessário. — chamei a atenção do meu namorado ao lançar um olhar de repreensão pelas palavras desmedidas.

- Desculpa, Sar, mas eu só disse a verdade.

- Você não o conhece para falar assim. — rebati o encarando por cima das lentes do óculos que usava para trabalhar. ​- Grissom não é uma má pessoa. Ele pode ser arrogante, ter um ego maior que o mundo e o complexo de superioridade gigantesco, mas ele é um bom homem.

​Um tempo mais tarde, enquanto eu dirigia para casa e Doug ia no banco do carona, a luz dourada do crepúsculo tingindo o interior do carro com tons quentes que desmentiam a frieza crescente entre nós, chamei sua atenção novamente para o comentário desnecessário sobre Grissom lá em minha sala.

​- Doug, não devia ter falado daquela forma sobre o Grissom.

​Ele bufou, cruzando os braços sobre o peito. O gesto era defensivo e hermético.

​- Por que não? Eu não disse uma mentira. Esse cara é arrogante. Um prepotente que acha que pode ficar ameaçando os outros.

​Franzi a testa, sentindo o volante esquentar sob a firmeza de minhas mãos. Aquela fala estava completamente fora de contexto em nosso diálogo.

​- Como assim? Do que está falando?

​- Topei com ele hoje em um dos corredores da editora. E ele todo arrogante me disse um monte de coisas e me ameaçou.

​- Ameaçou?? — Aproveitei que paramos no semáforo e encarei Doug com mais atenção. A sombra sob seu maxilar estava rígida, e ele evitava meu olhar. — Do nada?

​- Ele é louco.

​- Doug, o Grissom não ameaça do nada. Eu o conheço.

​- O conhece muito bem, né?

​O cinismo em sua voz me atingiu como um tapa. Meu peito se apertou, não pelo Grissom, mas pela repetição irritante daquela insegurança dele.

​- Sim, conheço. Infelizmente. E o Grissom que eu conheço só ameaça se é coagido ou se sente encurralado. O que disse a ele?

​- Grissom... Grissom... O nome desse cara não sai mais da sua boca, não?

​Ele chiou em descontentamento, virando o rosto para a janela. Vislumbrei seu reflexo na paisagem urbana que corria, o perfil crispado, carregado de ciúme.

​- Doug, eu tenho um filho com ele. Portanto, o nome dele inevitavelmente será uma constância na boca e na minha vida. Agora, será uma constância também o seu xilique toda vez que ouvir o nome dele? Porque se for vai ser um veneno para a nossa relação.

​Exasperei, a voz baixa, mas carregada de uma fadiga que ia além do dia de trabalho. Não era apenas uma ameaça; era uma fronteira que eu precisava estabelecer. Se ele não pudesse lidar com a realidade da minha vida, a relação estava condenada.

​Ele hesitou. O semáforo abriu, e precisei acelerar, a conversa suspensa no ar pesado da cabine.

Doug então rompeu o silêncio pesado com uma ponta de mágoa na voz.

​- Não é xilique, Sara. É que... você ultimamente só defende esse homem. Parece que até esqueceu que ele mentiu e te magoou.

​O volante rangeu levemente sob minha mão enquanto eu fazia uma curva. Eu senti a ponta afiada de sua acusação, mas recusei-me a desviá-lo do ponto principal.

​- Não esqueci não. Mas ele já explicou que mentiu para me proteger e proteger a minha família. E quanto a me magoar, eu também fiz isso com ele. Portanto, estamos empatados nesse quesito.

​O tráfego diminuiu um pouco, permitindo-me um breve relance em sua direção. Ele exibia um sorriso fino, quase imperceptível, carregado de escárnio.

​- Você comprou mesmo essa história dele de que mentiu para te proteger, né? — O peso do ceticismo dele fez meu estômago revirar.

​- Por que acha que é mentira dele? — Minha voz soou mais alta e tensa do que eu pretendia, a defensiva ativada não por Grissom, mas pela maneira como Doug tentava minar minha percepção da verdade.

​Ele se ajeitou no banco de forma brusca, o movimento ecoando o desconforto que sentia em admitir o que pensava. A única resposta foi o som da respiração controlada de Doug e o suave zunido do motor que nos levava para casa. Mas então, ele olhou diretamente para mim. Havia malícia e talvez uma sombra de pânico no fundo de seus olhos.

​- O pai dele está vivo para confirmar essa história?

​Suspirei. Um suspiro longo, que vinha da base do diafragma, carregado de uma certeza gelada que varreu toda a fadiga anterior. Minha atenção se voltou inteiramente para a estrada, o perfil de Doug ao meu lado se tornando irrelevante.

​Então lancei um rápido olhar, frio e definitivo, em sua direção. No primeiro desvio à frente, com um puxão seco no volante que fez os pneus cantarem baixo e o cinto de segurança de Doug tensionar, tomei a esquerda, pegando o retorno. O movimento foi inesperado, agressivo.

​- Por que está voltando? Sua casa é para lá — ele me olhava confuso, o pânico sutil agora mais evidente em sua voz. Ele apontava para o caminho que tínhamos acabado de abandonar.

​Eu mantive o olhar fixo no painel e na linha branca da estrada, a voz surpreendentemente calma, mas dura como pedra.

​- Vou te deixar na sua casa, Doug. E depois vou para a minha casa, sozinha.

​A frase pairou no ar, cortando o calor aconchegante do carro. Não era uma discussão, era uma sentença. A respiração de Doug engatou no silêncio que se seguiu, o único som sendo o motor, agora um testemunho mudo da decisão irrevogável que acabava de ser tomada.

Notas finais
*placeholder: significa que uma pessoa está ocupando um lugar ou uma posição de forma temporária ou simbólica, servindo como um substituto até que a pessoa ou coisa "real" ou permanente chegue. Mais tarde posto mais dois