After Separation - Livro 2
59 Capítulo LVII
Assim que entrei na minha sala no dia seguinte, fui interceptada por um perfume suave e fresco, uma fragrância que não pertencia ao ambiente formal. A luz da manhã, que entrava pela janela, realçava um ponto de cor vívido sobre a minha mesa de mogno. Lá estava: o buquê de tulipas que Morgan mencionou. Aquela era a surpresa.
O arranjo era de tirar o fôlego: dezenas de tulipas vermelhas, de um tom profundo e aveludado, misturadas com algumas hastes brancas imaculadas, simbolizando paixão e pureza. Elas repousavam num vaso de cristal elegante, mas simples, que desconfio que foi minha assistente que arrumou e o ajeitou ali.
Aproximei-me, a curiosidade agora misturada com uma antecipação nervosa. Preso à fita de seda que amarrava as flores, havia um envelope em papel creme. Meus dedos roçaram a textura fina, e então meus olhos identificaram a forma familiar das letras. O meu nome estava escrito com aquela caligrafia inclinada que eu conhecia: Doug.
Puxei o cartão, desdobrando o papel com um cuidado quase reverente. A mensagem, escrita à mão, dizia:
"Sar,
Sei que meu ciúme me fez agir de forma errada ontem. Não tenho desculpas para a minha insegurança, mas tenho muito amor no meu coração por você. Essas flores simbolizam a pureza dos meus sentimentos e o meu sincero desejo de pedir perdão. Prometo trabalhar nisso e quero muito a chance de consertar as coisas.
Me perdoa, por favor.
Com todo meu carinho, Doug."
O canto dos meus lábios se puxou em um sorriso sutil. Larguei o bilhete sobre a mesa e toquei um botão de tulipa sua textura era suave, quase aveludada, e a cor, um vermelho intenso e vibrante, parecia absorver toda a luz da sala. O esforço. Pela primeira vez desde que a porta bateu, consegui ver além da raiva e da decepção, enxergando apenas a honestidade e a vulnerabilidade naquelas palavras manuscritas. "Prometo trabalhar nisso." Não era apenas um pedido de desculpas, era uma promessa.
Puxei o vaso de vidro cristalino para mais perto, inalando o perfume discreto e terroso. A mágoa, embora real, não era páreo para a onda de carinho que me inundou. A discussão parecia subitamente pequena e distante.
Doug tinha dado o primeiro passo, e um passo importante, admitindo sua falha e prometendo mudança.
Peguei meu celular. Desbloqueei a tela e abri a conversa dele. Meus dedos pairaram sobre o teclado por um momento, mas decidi não complicar com palavras longas ou explicações. A resposta precisava ser tão clara e direta quanto o gesto dele.
"As flores são lindas, Doug. E sim, eu te perdoo."
Enviei a mensagem e, em seguida, tirei uma foto rápida do bilhete e das tulipas juntas, enviando-a com um emoji de coração vermelho. Guardei o celular, sabendo que a resposta viria em instantes, e fui me acomodar em minha cadeira para começar mais um dia de trabalho.
Acomodei-me, mas minha mente estava longe das planilhas que começavam a carregar na tela à minha frente. Havia uma quietude nova dentro de mim, um silêncio pós-tempestade onde as águas finalmente baixam e deixam ver o chão firme novamente.
Olhei para o celular virado para baixo na mesa. Ele parecia pulsar com energia potencial, um objeto inanimado agora carregado de significado. Eu sabia que, a alguns corredores e andares de distância, Doug estaria lendo aquelas palavras curtas. Podia quase visualizar a expressão dele — o relaxar dos ombros, talvez aquele meio sorriso que sempre aparecia quando ele percebia que tudo ficaria bem.
O trabalho me chamava, as notificações de e-mail começavam a pipocar no canto do monitor, exigindo atenção imediata e foi o que fiz: trabalhei pelas horas subsequentes.
A luz do meio-dia, filtrada pelas persianas meio cerradas, desenhava listras douradas sobre a madeira polida da mesa e iluminava os grãos de poeira suspensos no ar estagnado da sala. Eu estava de pé, o blazer já pendurado na cadeira, as chaves na mão e a bolsa a tiracolo, sentindo a ponta de um sorriso teimar em surgir nos lábios. Era o horário sagrado do almoço, um breve armistício entre as demandas do dia.
De repente, a batida na porta. Três toques secos e formais que fizeram o ar parado vibrar.
— Entre! — autorizei, a voz ligeiramente mais alta do que o habitual, a surpresa desfazendo o leve torpor.
E assim que a porta de carvalho abriu, vi Doug surgir pela fresta. Ele não invadiu o espaço; ele o ocupou com uma hesitação calculada. Sua figura alta preencheu a moldura da porta, emoldurada pela luz mais intensa do corredor.
Seu olhar encontrou o meu instantaneamente. Ele deu um passo à frente, fechando a porta com um clique suave, transformando a sala em um refúgio ainda mais privado.
— Já está de saída para o almoço? — A voz dele estava baixa, mas firme, como se estivesse escolhendo cada palavra com cuidado.
Eu suspendi o movimento de colocar a alça da bolsa no ombro, mantendo-a suspensa na mão.
— Sim. E você?
A próxima frase de Doug não foi um pedido, mas uma afirmação que suspendeu o silêncio constrangedor que pairava no ar.
— Vim te chamar para almoçar comigo.
Ele fez o convite. Seus olhos, antes intensos, desviaram-se brevemente para o chão antes de retornar aos meus, e o gesto veio acompanhado por um meio-sorriso nervoso. O convite era um ponto final na tensão.
Eu observei a maneira como ele mexeu o pé, deslocando o peso do corpo, esperando minha resposta como quem aguarda um veredicto. A reconciliação, antes um calor abstrato no peito, ganhava forma, corpo e um convite para o almoço.
— Eu adoraria. — A resposta veio sem hesitação, liberando o ar que eu nem sabia estar prendendo.
A tensão em Doug se quebrou de forma audível, quase como um suspiro silencioso. Um alívio visível relaxou seus ombros e o meio-sorriso se transformou em algo genuíno e franco.
— Ótimo. Vamos.
A breve caminhada até o restaurante, um bistrô acolhedor a poucos minutos da editora, serviu como um tampão entre a ansiedade da manhã e a intimidade que procurávamos restabelecer. O burburinho suave de conversas e o tilintar de talheres criavam um ruído de fundo reconfortante, muito diferente do silêncio pesado do meu escritório.
Sentamo-nos em uma mesa discreta, onde a luz fraca de um pequeno abajur sobre o aparador criava um contraste suave com a toalha de renda imaculadamente branca. O aroma de azeite trufado e especiarias flutuava no ar.
Doug mal esperou o garçom se afastar após nos entregar os cardápios. Ele reforçou seu pedido de desculpas pela cena de ciúmes de ontem. E tentou construir uma defesa, uma explicação para a sua insegurança, recostando-se ligeiramente na cadeira de vime.
— Eu sei que pareci um idiota ontem — ele começou, a voz áspera, mas contida. — Mas você precisa entender que a insistência do Grissom não é normal. Eu sinto que é uma perseguição, e isso me deixa completamente desestabilizado. Não é falta de confiança em você, é medo de que ele crie algum problema que acabe nos separando.
Eu não disse nada imediatamente. Apenas estendi a mão, pousando-a sobre a dele, que repousava sobre a mesa, coberta pela toalha branca. O contato da minha pele foi um choque quente e firme, uma âncora no meio da sua tormenta. Meus dedos se fecharam gentilmente ao redor dos dele, transmitindo a segurança que as palavras não conseguiam.
— Doug, eu estou com você, não estou? — indaguei, a voz calma e sem espaço para dúvidas, enquanto meus dedos envolviam os seus. O calor da minha mão contra a dele era a prova física da minha lealdade.
Ele virou a palma da mão, retribuindo o aperto com uma intensidade quase dolorosa.
— Está. Mas o Grissom...
— Não tem "mas". — o cortei, puxando suavemente sua mão para mais perto. — Deixa o Grissom pra lá. Ele não existe neste almoço. O que existe é o que nós temos. E acabou o assunto. — decretei, encerrando o assunto com uma firmeza que beirava a ordem.
O silêncio que se seguiu era preenchido apenas pelo ruído distante dos outros clientes. Doug não retrucou, mas seus lábios se curvaram ligeiramente para baixo, uma sombra de frustração. Sua mão ainda estava na minha, mas a pressão diminuiu, um sinal de rendição forçada.
Eu sabia que, para ele, a presença de Grissom era mais do que um incômodo; era uma ameaça constante à sua paz. O ciúme vinha de um lugar de vulnerabilidade, não de maldade. E eu entendia isso. Mas, internamente, eu processava a realidade que ele se recusava a aceitar. A verdade é que ele e eu temos um filho nos unindo, um laço de sangue inquebrável, e inevitavelmente teremos que estar em contato por causa dele. Não era uma questão de "deixar o Grissom para lá" permanentemente, mas de Doug aprender a lidar com essa dinâmica complexa da melhor forma possível, separando o passado romântico da necessidade de coparentalidade.
Eu respirei fundo, trazendo minha atenção de volta à mesa, à sensação áspera da toalha de renda sob meu pulso e ao toque sólido da mão de Doug. Ele ainda me olhava, esperando talvez um aceno de compreensão mais profundo.
— Pedimos algo? Estou faminta — sugeri, mudando o foco drasticamente, e sorri para ele, um sorriso suave, mas significativo.
A menção à comida funcionou como um interruptor. A tensão em seus olhos verdes se dissipou aos poucos. Ele soltou minha mão, mas apenas para pegar o cardápio com um movimento mais leve.
— Eu vi um risoto de cogumelos que parece incrível — respondeu ele, a voz voltando ao tom relaxado e habitual.
— Ótima sugestão! — eu disse, adorando a ideia do risoto cremoso, mas acabei optando por um tagliatelle simples com manteiga de sálvia e limão, algo leve, que contrastava com a riqueza da escolha dele.
E em um clima mais leve e de reconciliação, nosso almoço transcorreu de uma boa forma. Evitamos o nome "Grissom" para não estragar o clima. A palavra ficou suspensa no ar como uma nuvem escura que decidimos ignorar, focando apenas na luz daquela trégua.
O garçom trouxe os pratos. O risoto de Doug chegou em um prato fundo e branco, exalando um perfume terroso e rico de cogumelos selvagens e queijo parmesão ralado. Seu vapor subia em espirais lentas, dançando na luz fraca do abajur. Meu tagliatelle, por sua vez, era um emaranhado delicado de massa fresca, banhada por um molho cítrico e salpicado de sementes de papoula.
O ato de comer se tornou o centro da nossa atenção, uma forma de terapia silenciosa. Doug comeu devagar, saboreando cada garfada, e o prazer simples da refeição apagou de vez o rastro de ciúmes e frustração de seus olhos.
A conversa se desviou para assuntos seguros: a dificuldade de encontrar bons revisores de texto, o novo projeto de aquisição da editora, uma anedota engraçada sobre um colega que havia dormido durante uma reunião de pauta. Eram os pequenos detalhes do nosso dia a dia que nos uniam, o familiar e o confortável.
Enquanto falávamos, notei a maneira como ele ocasionalmente parava de mastigar para me encarar, não mais com a intensidade da preocupação, mas com a ternura de quem redescobre algo precioso. Em um momento, sua mão alcançou a borda da mesa e, com um toque rápido, quase furtivo, ele roçou meus dedos antes de voltar a segurar o garfo. Era uma reconexão sutil, feita sem palavras, provando que o calor da reconciliação havia se enraizado.
O almoço foi rápido, talvez uns quarenta minutos, mas pareceu um refúgio de horas. Quando terminamos, a taça de água de Doug estava quase vazia, e meu prato, limpo. O cheiro de café expresso, que o garçom nos serviu em seguida, marcou o fim da pausa.
Doug pagou a conta sem pressa, estendendo o momento o máximo possível. Ao nos levantarmos, ele me deu um sorriso completo, daquele que alcança os olhos e acende seu brilho verde.
— Obrigado pelo almoço. E por me fazer calar a boca — ele brincou, a voz carregada de gratidão.
— Sempre às ordens — respondi, devolvendo o sorriso e lhe dando um selinho, que o fez o sorrir. A saída do restaurante nos trouxe de volta à luz forte e ao barulho da rua, mas agora carregávamos conosco a leveza de um problema resolvido... pelo menos por enquanto.
***
Dias depois...
— Sara, eu estava pensando aqui... — Doug comentou enquanto me ajudava a guardar as louças do jantar. — Amanhã, o Grissom vem buscar o Benny para passar o dia com ele.
— Hum... — resmunguei, lançando um olhar instintivo e protetor para o meu bebê, que dormia tranquilamente em seu carrinho, um oásis de calma próximo à mesa de jantar, enquanto Doug e eu terminávamos nossa rotina de organização pós-refeição.
— Como amanhã não trabalhamos, podíamos fazer alguma coisa só nós dois.
Ele me encarou, os olhos brilhando com uma esperança palpável e cheios de intenções que, eu sabia perfeitamente, não se restringiriam a apenas um passeio simples de namorados.
Ele queria mais. Intimidades.
Me detive por um segundo na tarefa automática de enxugar um prato, o pano de prato macio e absorvente contra a cerâmica fria, e encarei Doug.
Há dois dias, em uma tarde de folga compartilhada, Dayse tinha vindo me visitar. Entre risadas e fofocas triviais, a conversa descambou, inevitavelmente, para assuntos mais íntimos. Acabamos chegando ao elefante na sala do meu relacionamento: o fato de eu ainda não ter transado com Doug. Quase seis meses de namoro e não tínhamos passado dos beijos, amassos ocasionais e carícias castas. Minha amiga ficou a princípio surpresa, com um olhar de descrença que quase me fez rir, mas depois que o choque da descoberta passou, ela caiu na risada, uma gargalhada alta e desinibida, não entendendo porque diabos eu ainda não havia "dado" para ele.
Eu expliquei a cronologia dos fatos: quando começamos a namorar, eu estava na reta final da gravidez, um período de desconforto e inchaço onde a libido era a última das minhas preocupações. Não houve oportunidade, nem desejo real. Depois veio o resguardo, aqueles dias de cicatrização e adaptação à nova realidade de ser mãe.
"E depois do resguardo?", foi o que minha amiga me perguntou, a sobrancelha arqueada em um misto de confusão e curiosidade.
A pergunta ficou sem resposta, porque eu não soube o que dizer. Eu fugi do assunto na época, mas agora, encarando Doug, com seu sorriso gentil e expectativa silenciosa, a pergunta ecoava na minha cabeça com uma clareza ensurdecedora. A verdade, que eu não tinha coragem de admitir nem para mim mesma, era que a barreira agora não era mais física, mas emocional.
Benny choramingou baixinho em seu sono, um som agudo e inocente que quebrou a tensão momentânea do meu devaneio. Desviei o olhar do de Doug, sentindo meu rosto esquentar levemente, o rubor se espalhando pelas minhas bochechas. O que eu diria a ele? A inércia da situação pesava sobre mim como um edredom quente e sufocante, uma mistura complexa de ansiedade, culpa e um medo sutil do desconhecido, da mudança sísmica que aquela "intimidade" traria para a nossa dinâmica.
E, fora que havia Grissom. A sombra de um amor do meu passado pairava no ar, uma presença silenciosa, mas constante, fazendo uma sombra incômoda no meu relacionamento atual. A volta dele à minha vida, sua constante presença, mesmo que fosse apenas para visitar nosso filho e levá-lo para passear ou passar o dia com ele, me deixava intimidada. Havia uma história ali, um terreno minado de sentimentos que eu fingia não ver. Minha insegurança florescia ao pensar nele.
Mas eu estava com Doug. E ele era paciente e carinhoso. Porém eu sabia que o silêncio da minha resposta estava começando a doer nele, tanto quanto a minha própria indecisão estava me consumindo.
Engoli em seco, o prato que eu segurava agora firmemente preso em minhas mãos trêmulas. A intimidade física com Doug significava uma vulnerabilidade que eu não tinha certeza se estava pronta para expor, especialmente com essa comparação silenciosa e imaginária que eu fazia com Grissom.
O silêncio entre nós agora estava carregado, a expectativa de Doug pairando pesada no ar da cozinha. Ele merecia uma resposta, merecia mais do que o meu silêncio hesitante. Olhei para o relógio na parede, como se as horas pudessem me dar a resposta que eu não tinha.
— Doug... — comecei, minha voz, um sussurro rouco, mas fui interrompida.
— Tudo bem, Sar — ele disse, sua voz suave, mas com um traço de desapontamento que partiu meu coração. — Não precisa ser amanhã se você não quiser.
Ele tirou o prato da minha mão com delicadeza e o colocou no armário, os movimentos pacientes de sempre. Mas o brilho em seus olhos havia diminuído, e a culpa me atingiu com força total. Eu estava falhando com ele, com a gente, por causa das minhas próprias inseguranças.
— Não — eu disse, ganhando fôlego, a palavra soando mais alta e firme. — Amanhã é um dia perfeito.
A frase pairou no ar, pesada e definitiva, como o fechamento de um ciclo de meses. Doug parou, no meio de guardar um copo. Sua mão, que momentos antes havia me confortado com o toque no prato, congelou. Ele se virou lentamente, e o desapontamento anterior foi subitamente substituído por um alívio brilhante, quase cego, mas ainda tingido de cautela, como se temesse que eu retirasse o convite. Seus olhos buscaram os meus, procurando a certeza, a promessa que não era apenas uma obrigação.
Senti que precisava manter a compostura. Não sorri, mas mantive as mãos firmes, apoiadas na borda fria da bancada de granito. Não era um sacrifício que eu estava oferecendo; era uma escolha. Um salto para o desconhecido.
Doug soltou a respiração que nem percebera estar prendendo, um som quase inaudível. Ele deu um passo em minha direção, diminuindo o pequeno espaço que nos separava. Ele não apressou as coisas. Simplesmente colocou sua mão grande na minha nuca, o polegar roçando a pele macia logo atrás da minha orelha. Aquele gesto — calmo, não demandante, intensamente íntimo à sua maneira — era tão característico dele que acalmou o tremor no meu estômago instantaneamente.
— Sério, Sar? — ele murmurou, a voz agora mais profunda e um pouco rouca. — Você tem certeza disso?
— Tenho — eu respondi, a palavra saindo com a força de um juramento. — Estou pronta para sair da inércia. E... eu quero muito ir com você.
Aí sim, ele sorriu. Não era o sorriso gentil de antes, mas um que irradiava, iluminando a cozinha inteira. Ele se inclinou e me beijou. Foi um beijo suave, demorado, não de paixão ou de conquista, mas de gratidão e uma conexão profunda. Um beijo que selava um novo e corajoso compromisso.
— Então, amanhã — ele sussurrou, encostando a testa na minha por um longo momento de silêncio compartilhado. — Vamos fazer algo especial, Sar.
Assenti em concordância. A proposta estava aceita. Mas, enquanto eu observava Doug sair da cozinha, com passos mais leves do que antes, empurrando o carrinho de Benny, a imagem de Grissom — lindo, autoconfiante, o fantasma do meu passado — voltou a piscar por trás das minhas pálpebras. Eu tinha feito uma escolha pelo meu futuro, mas o nó complexo no meu peito ainda não havia se dissolvido. Apenas fora empurrado para o dia seguinte. Apaguei a luz, sentindo o silêncio pesado da noite nos envolver, agora carregado com a promessa do amanhã.
***
No dia seguinte Grissom chegou pontualmente às nove para buscar Benny. Trajando roupas casuais: jeans de lavagem clara, de corte reto, que abraçavam sua silhueta de forma confortável, mas elegante. Acompanhava a peça uma camiseta de algodão macio na cor azul bebê, com as mangas curtas dobradas na altura do antebraço, conferindo um ar prático e descontraído. Nos pés, ele calçava um par de tênis brancos de lona, perfeitamente limpos, ideais para um dia de atividades. Seus cabelos grisalhos estavam penteados de modo despojado, em ondas naturais. Os óculos escuros estilo aviador completavam o visual de uma simplicidade estudada, transpirando a funcionalidade e o charme descomplicado de quem estava pronto para a aventura sem perder a elegância.
— Bom dia, Grissom — murmurei e fiz um gesto vago com a mão para o hall de entrada da minha casa.
Grissom deslizou para dentro e retirou os óculos. Seus olhos azuis demorando-se na forma como meu vestido justo se lã e na cor vinho, abraçava o corpo antes de pousar em mim. Ele esperou com uma paciência quase predatória enquanto eu fechava a porta de carvalho, o clique da fechadura soando como um sinal de isolamento. Só então ele tomou meu encalço, mantendo uma distância irritantemente íntima.
— Bom dia, Sara. — A voz dele era rouca e melódica. — Essa produção toda… Vai sair? — A pergunta não era de curiosidade, mas de avaliação.
Apurei o passo pelo corredor, sentindo o calor do seu olhar, pesado e inconfundível, queimando minha pele sob o tecido da lã. A fragrância intensa de seu perfume preenchia o ar, me envolvendo.
— Sim! — confirmei, a palavra saindo mais rápida do que o necessário. — Doug e eu vamos fazer um programa a dois hoje. — Lancei o nome do meu namorado como uma âncora, uma barreira verbal que eu esperava que mantivesse Grissom à distância.
— Hum… — O resmungo dele foi quase um ronronar de desprezo. Grissom não hesitou. Seu tom cortou o ar como uma lâmina de gelo. — Você está linda demais. Uma verdadeira obra-prima que não deveria ser desperdiçada com alguém tão pouco como ele.
O impacto da frase me fez congelar. Eu parei de supetão no meio da sala, obrigando-o a estacar logo atrás. Girei sobre o salto da ankle boot, meus olhos faiscando ao encontrar o sorriso lento e enigmático de Grissom. Não era um sorriso de humor, mas a satisfação de quem acabava de cravar a faca no ponto exato.
— Seu comentário é desnecessário, Gilbert — declarei, tentando manter a voz firme, embora a menção de Doug tivesse falhado miseravelmente como escudo. — Você não o conhece o suficiente para ter essa opinião.
Grissom deu um passo lento à frente, ignorando a barreira que eu tentava impor. Ele estava perto demais, e eu podia sentir a força sutil que emanava dele.
— Não preciso conhecer, Sara — a voz dele era baixa, quase um sussurro cúmplice, mas cada palavra perfurava a minha tentativa de compostura. — Eu conheço você. E sei o que você merece. Ele não chega nem perto de ser o mínimo. É um desperdício flagrante.
Sua mão subiu em um gesto lento, como se fosse tocar minha clavícula. Recuei instintivamente, o movimento brusco rompendo a proximidade sufocante.
— Pare com isso, Grissom — pedi, minha voz agora mais aguda e cortante.
Grissom manteve a mão suspensa no ar por um instante, estudando a minha reação, antes de deixá-la cair lentamente ao lado do corpo. O sorriso enigmático dela se alargou.
— Eu ainda mexo com você. — A fala dele não foi uma pergunta, mas uma afirmação carregada de certeza, que me atingiu como um golpe direto no peito.
O brilho de satisfação e desafio nos olhos de Grissom era insuportável, e eu não podia dar a ele o luxo de uma resposta, o prazer de me ver desmoronar.
— Eu estou com o Doug agora. É ele quem eu quero.
— E eu quero você. — Ele novamente deu um passo à frente, encurtando nossa distância outra vez. A intimidade era esmagadora, e o cheiro do seu perfume me sufocava. — E vou lutar por isso, nem que leve a minha vida toda lutando. Não irei desistir. E sabe por que, Sara? Porque não se desiste de quem se ama. E eu amo você. Pode não ser de um jeito fofo e bonitinho, como seu namoradinho, mas eu amo.
O ar sumiu dos meus pulmões, roubado pela brutalidade e pela crueza de sua confissão. As palavras não eram um pedido, mas uma sentença. Eu cambaleei para trás, mas minhas costas encontraram a parede fria do corredor. Estava encurralada. O desespero nos seus olhos era tão palpável quanto o calor de sua mão que se ergueu, hesitando no espaço entre nós, antes de tocar suavemente meu rosto.
— Você não sabe o que está dizendo. — Minha voz saiu rouca, um mero sussurro de protesto. Tentei inclinar a cabeça para longe do seu toque, mas ele segurou meu queixo com uma firmeza que me paralisou.
— Eu sei exatamente, Sara. E você sabe. — Os dedos dele traçaram o contorno da minha mandíbula, e o seu sorriso sumiu, substituído por uma expressão de dor genuína. — Sei que você ainda sente o mesmo tremor no estômago quando eu me aproximo. E que se eu te tocar, o seu corpo vai se atiçar inteiro desde o último fio de cabelo até o dedo do pé. Não se esconda atrás desse conto de fadas morno. Você nasceu para o fogo, e eu sou o seu inferno particular.
Antes que eu pudesse formular uma refutação, antes que eu pudesse sequer pensar no rosto do meu namorado, Grissom fechou a distância final. Seus lábios se aproximando perigosamente dos meus até parar a milímetros dele, fazendo seu hálito quente e com cheiro de menta bater em minhas narinas.
— Onde está o nosso filho e as coisas dele? — ele sussurrou e se afastou logo na sequência com um sorriso de quem sabia que havia vencido aquela batalha. — Lewis está esperando por nós dois lá no Central Park. — completou com a maior naturalidade e sem tirar o sorriso da cara.
Senti vontade de estapear seu rosto barbudo. O ar estalou, frio e vazio, no espaço que a boca dele acabara de ocupar. Minhas mãos tremiam, não pelo desejo que ele despertou, mas pela raiva crua e humilhante que ele deixou em seu rastro. Grissom não era apenas fogo; era a cinza que sufocava tudo o que eu tentei construir.
— Benny está dormindo no carrinho. — apontei para o centro da sala, tentando me restabelecer daquela tensão toda que Gilbert causou.
Ele foi até onde nosso filho dormia em seu carrinho, um ponto de inocente paz no meio do campo de batalha da sala. Com um cuidado extremo, quase cênico, Grissom pegou Benny, deslizando-o para fora do estofado com a suavidade de uma pluma. Ele nem pestanejou, aconchegado no cheiro do pai. Com a outra mão livre, Grissom apanhou a bolsa do sofá, ajeitando a alça de couro, cuidadosamente desgrenhada, sobre um dos ombros.
E então, como se estivesse em uma passarela europeia, ele veio desfilando de volta até mim. Não era um homem andando, era a personificação de um Deus vingativo em slow motion, o tecido da sua roupa roçando suavemente. Parou diante de mim, a respiração de Benny, quente e láctea, o único som honesto no ambiente.
— Estou indo. Trago o Benny lá pelas sete da noite. Bom passeio com o seu namoradinho, meine liebe. — O sorriso cafajeste seguido de uma piscadela foi a cereja de seu bolo de provocação, uma dose letal de veneno temperado.
O momento em que ele girou para ir embora foi um ato de violência silenciosa. A porta se fechou com um clique seco, mas em meus ouvidos soou como um trovão. O perfume dele persistiu por um instante, zombando da minha solitude recém-instalada, antes de se dissipar no ar estalado.
"Dorme com esse barulho, insolente!", a ridícula voz da minha consciência disse gargalhando alto, e eu ainda pude visualizá-la fazendo a dança da Macarena em forma de zombaria comigo, a cada passo batido lembrando-me da minha incapacidade de revidar à altura. O pior era que ela estava certa. Eu havia me encolhido. Havia dado a ele a vitória, a última palavra, o controle da narrativa.
"Ridícula! Idiota! Reaja, porra!"
O tremor nas mãos finalmente se transferiu para todo o meu corpo. Não me movi por um minuto inteiro. Apenas absorvi o silêncio, a ausência de Benny. Meu olhar caiu sobre o carrinho vazio no centro da sala, e senti um impulso de atirá-lo contra a parede. Em vez disso, chutei o rodapé da estante com toda a força que consegui reunir.
Um gemido abafado e dolorido escapou dos meus lábios enquanto eu apertava o pé. A dor aguda, física e merecida, foi o único contraponto real à agonia emocional que Gilbert havia deixado. Era o lembrete de que eu ainda estava viva, ainda podia sentir, mesmo que fosse só dor.
Eu tinha exatamente vinte minutos para transformar o trapo trêmulo e humilhado que eu era no ser humano calmo e confiante que precisava ser para o encontro com Doug. Olhei para o meu reflexo no vidro da janela, os olhos injetados, e murmurei: "Você não vai estragar isso, Gilbert. Não mais."
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