Era bem cedo quando os telefones ressoavam. Um aqui, outro lá. Todos contando histórias que iam desde o desaparecimento do Tobby – muito querido pelas crianças, um Basset Hound simpático de 11 anos que havia fugido de casa enquanto jogavam o lixo fora – até ocorrências rotineiras de furto no centro da cidade. Olhando até aquele certo instante, nem daria para imaginar que o dia na delegacia seria tudo, menos rotineiro.

Os policiais se preparavam enquanto papeavam perto do balcão que descansava a garrafa térmica. Com os caps em uma das mãos e os copinhos descartáveis de café na outra, alguns esperavam seus colegas enquanto outros estavam ali apenas quebrando o gelo. Os assuntos flutuavam entre o placar do jogo da noite passada e planos de sair para beber mais tarde, já era sexta e uma cerveja no fim do dia não seria um pecado. Riam e falavam besteira. Quando ficavam prontos, iam em direção a porta que dava para garagem, onde pegavam a viatura, seus lugares perto do balcão logo eram preenchidos por outros dos mesmos. Era assim até umas oito horas, horário em que o clima festeiro cessava. Depois que o ponteiro menor atingia o numero oito, os caps retornavam a cabeça e os copinhos logo eram esvaziados. Limpavam as gargantas e coçavam as nucas apressando seus colegas para que logo ficassem prontos. Oito e três a porta da primeira sala se abria e quem ainda estava perto do balcão não hesitava em virar o rosto, como se os escondessem, evitando alguém que viria. Quietos, os policiais agora só ouviam os passos seguros que aqueles sapatos faziam pelo piso de cerâmica da delegacia. Oito e quatro a garrafa térmica era erguida e cuidadosamente o café despejado numa caneca amarela já meio velha e trincada em um de seus lados. Depois de cheia ela subia até a lábios de quem a enchera e ocorria um breve gole, enrubescendo-lhe a face, soltando um suspiro exausto quase silencioso. Alguns policiais com sorte logo ficavam prontos e apressavam-se para seus carros, deixando para trás apenas aqueles que por algum motivo ainda não estariam prontos para os seguir. Alguns minutos se passaram, e depois de três ou quatro goladas o silêncio que seria interrompido é salvo pelos homens que chegam depressa se desculpando com seus companheiros indo direto para seus carros. Agora ele estava ali, sozinho.

"Pelo visto, fugiram de você novo, não é mesmo, Carter?"

O homem se assustou.

Tomou o fôlego e riu baixo o respondendo em seguida no mesmo tom.

"Sempre fogem... Talvez eu seja muito duro com eles, talvez?"

"Se for ser mais brando com eles vai virar um mel de tão doce que será." Ria enquanto tomava a garrafa para encher a própria caneca "Continue como está... Esse respeito é bom." Concluiu oferecendo-lhe um sorriso.

"Obrigado, Hudson." Retribuía o sorriso enquanto o acompanhava voltar para o fim do corredor com o olhar, retornando o semblante pensativo aos poucos.

De fato, austeridade não era uma palavra que pudesse descrever Dean Carter por completo. Diferente do que muitos pudessem esperar, o detetive era um homem bem dócil e tolerante, apesar de sua rigorosidade nata, exigência que não tinha apenas com seus subordinados. De maneira pessoal, Carter também era um homem comedido. Seus sapatos sempre estavam limpos, não importasse o quão forte tivesse sido a chuva do dia anterior. Suas roupas sempre estavam impecáveis: a calça, normalmente de cor escura, atada por um cinto, a camisa social, passada de maneira a não deixar nenhum amarrotado, era arrumada por dentro de suas calcas e tinha as mangas dobradas até a altura de seus cotovelos. A única maleabilidade do detetive ficava em seu cuidado com o visual. Por mais que conservasse um corte de cabelo comportado, era difícil o manter arrumado, o que fazia com que sua franja caísse sobre seu rosto sardento constantemente, quase cobrindo-lhe os pequenos olhos azuis, mas era isso que lhe completava o charme. Ainda assim, mesmo com pequenos toques de rigidez, o detetive não deixava de ser um homem muito flexível.

Limpou a garganta e deu um último gole no café, secando a caneca. Olhou para os policiais ao telefone. Havia cinco deles. Provavelmente atendiam casos de costume: roubo, brigas, desaparecimentos. Mas, pela expressão do que se sentava na mesa – correndo a mão depressa à caneta – algo de bom não estava por vir.

Notas finais
Ei! É bom te ver por aqui! Espero que já esteja gostando :) Até!