"Senhora, eu preciso que se acalme e fale devagar. Não vou poder ajudá-la assim." Pedia o policial para mulher do outro lado da linha.

Ela soluçava e chorava enquanto dizia palavras emboladas. Com um pouco de esforço, algumas delas tornavam-se claras.

Filho.

Sumiu.

Ajuda.

Mesmo assim, ainda era muito pouco.

O policial estava a ponto de estourar.

"Senhora, acalme-se e então retorne para nós. Tenha um bom dia." Conclui desligando.

Corria uma das mãos pelo rosto, mostrando estar irritado.

"O que ela queria?"

Arrastou a cadeira para trás assustado, subindo o olhar para o detetive. Limpou a garganta franzindo a testa. Quando estava prestes a falar, foi interrompido.

"Eu perguntei o que ela queria, não o que acabou de acontecer..."

O policial calou-se e depois de um breve instante, retomou o fôlego começando o discurso.

"Eu não sei. Ela não parava de chorar. Mas, do pouco que ouvi, tinha haver com o sumiço do filho, talvez? Aquelas coisas de sempre. Eu vou ver com os outros de darmos uma olhada no bairro que ele sumiu pra ver se o achamos ou coisa do tipo. Crianças costumam se perder, não é mesmo? São muito curiosas."

"O caso é meu." Sorriu virando-lhe as costas.

O homem à mesa arregalou os olhos levantando rapidamente.

“Como é que é?” Indagou ríspido enquanto seguia o detetive à sua sala. "Não pode sair por aí pegando as ocorrências que bem quer, Carter. Existem coisas que são trabalho dos policiais e que não precisam de um cara como você se metendo no meio. É só um sumiço."

"E é por isso que vocês normalmente não evoluem nos casos..." Refutou. Ainda ameno, prosseguiu. "O Problema, Müller, é que vocês sempre olham coisas como um sumiço ou um roubo... Essa brincadeira é perigosa, não vai demorar muito para entrar na minha sala e falar, ‘Mas, Dean, foi um assassinato’... Entende onde eu quero chegar?”

"Não. E daí?" Rosnou.

"O que eu estou tentando dizer é que...” Suspirou. “É tão óbvio, tão óbvio...” Pensava baixo. “Müller, nenhum caso é mais ou menos importante que o outro. Todos, sem exceções, têm seu grau de gravidade, seja ele um desaparecimento ou um assassinato. Entende?...”

“Isso aqui não é a Disney, Alice.”

“Um pouco de respeito é bom de vez em quando, sabia?”

“Eu tenho. Só que não dá pra acreditar que está tão comovido com um desaparecimento.” Espantou-se por um momento, como se tivesse entendido algo. “Ah, não me diga que está assim porque envolve uma criança.”

“De onde tirou isso? Claro que me comovo por ser uma criança, mas não foi isso que me chamou a atenção para o caso.”

O policial debruçou sobre a mesa, encarando o detetive que se sentava na cadeira.

“O que foi então?”

“Chega, Müller.” Retrucou se aproximando do computador. "Quando ela ligar de novo só a acalme e dê o nosso endereço. Diga que a estou esperando..."

"Por que se interessou no caso?"

“Eu disse, chega, Müller. Posso olhar meu e-mail?...”

“O que você viu, hein?”

O detetive soltou um suspiro apoiando as mãos sobre a mesa, baixando o rosto levemente.

"Vai mesmo me fazer falar?"

"Qual o problema? Eu acho curioso. Curioso?... Talvez interessante. E então?"

Se olharam por um instante, até que o loiro se pôs a falar.

"Ninguém espera virar o dia para correr atrás do desaparecimento do próprio filho."

"Como sabe que ela esperou?"

"Por você."

O policial mudou a expressão. Estava espantado.

“Por mim? Eu nem entendi a história que ela estava contando.”

"Mas o pouco que absorveu foi suficiente. Estava desinteressado. Se tivesse ocorrido a pouco tempo não desligaria na cara dela, ia pelo menos pegar o endereço para dar uma olhada no bairro. Mas foi ontem, então não tem o que procurar. Qualquer suspeito já teria sumido da região e a criança provavelmente já estaria bem longe do lugar do sequestro. Se bem que... Você não pensaria num sequestro pensaria?...” Antes que pudesse responder, o detetive completou. “Pensaria. Por isso não fez nada. Vendo de um outro lado, porém, também considerou a possibilidade da criança ter se perdido por ela mesma e, nesse caso, logo a achariam, então não haveria um porque gastar tempo e viaturas com um caso ‘tão simples’. Só que no fundo todos nós sabemos que a segunda possibilidade é apenas uma desculpa para não resolver o caso. É ganancioso, Müller... Gosta de casos grandes. Não se sujaria com o fracasso de não conseguir encontrar o menino. O que é mais fácil então? Hm, eu diria que fugir...” Falava num tom baixo e sereno enquanto mantinha os olhos fixos à caixa de e-mails, abrindo os que lhe pareciam importantes e imediatos.

Sem reação, Müller afastava-se da mesa o olhando curioso.

“Não é normal quando as pessoas fazem isso.”

“Isso o que?”

“São esquisitas.”

“Eu só... Não sei. Presto um pouco de atenção?... Não foi nada ‘esquisito’. Eu te conheço. É fácil fazer algumas deduções quando se conhece a pessoa...”

“Isso não faz de você um cara menos esquisito.”

“Posso olhar meus e-mails, Müller?...” Implorou.

" bom, só mais uma coisa, sim? Qual a conexão em ter sido ontem e ela ligar hoje? Por que isso faz ser um caso interessante?"

“Eu não posso responder...”

“Isso é ridículo, como não?”

“Porque ainda está muito cedo e... Eu sinto que alguém em breve o respondera com muito mais eficiência que eu o faria.” Concluía Carter com um sorriso.

Afinal, não eram apenas sobre tragédias os e-mails que havia recebido naquele dia.

Notas finais
:) Estamos indo. Até a próxima!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.