After Party

1 O garoto do banheiro


Notas iniciais
Cláudio leva um alerta de um desconhecido na boate e começa a rever a razão dos seus problemas com as garotas...

Aquela definitivamente tinha sido a pior festa da vida de Cláudio e ele não entendia por quê.

A mina estava na sua, era bonita, educada, enérgica, mas na hora H ele simplesmente não conseguia fazer nada. Ele chegou nela como os amigos o incitaram, lhe pagou algumas bebidas, bateu papo, dançaram juntos, trocaram piadas, ela veio para cima dele e... puf, ele amarelava. Recuava com educação, fingia que precisava ir ao banheiro e não voltava mais. Nervosismo? Medo? Vergonha? Ele não sabia.

Os amigos riam, zoavam, debochavam dele, de brincadeira, é claro, mas com aquele pingo inevitável de verdade, visível apenas em seus olhos, em seus risos sem graça. Embora ninguém terminasse mais constrangido que o próprio Cláudio.

Cara, qual é o meu problema? É só um beijo! Não vou transar com elas!, ele se perguntava e se repreendia, sofrendo uma agonia silenciosa, corrosiva, deprimente. Desse jeito vou ser o único garoto de 17 anos virgem e que não consegue sequer dar um beijo de verdade em alguém numa festa...

Ele não era mais BV (boca virgem), ainda que só tenha dado seu primeiro beijo graças a uma garota danada da 7ª série e ao seu grupo de colegas que o empurraram e o forçaram a beija-la.

Digno de piedade. Porque repetir o feito agora parecia impossível.

Mesmo em uma boate, cheia de jovens exalando ferormônio, com seus hálitos de bebida alcoólica e cigarro, perfumes fortes e suor, dançando ao som de músicas barulhentas e eletrônicas, ele não agia.

Quando deixou passar a loirinha e perdeu a morena de lápis no olho, além de amarelar com a negra de argola na orelha e depois, já quase agarrado na garota de cachos, inventar uma tonteira para escapar de seus lábios grossos e pintados, ele se tocou que havia algo muito errado consigo.

Caramba, que merda. O que tá acontecendo comigo? São garotas e não vermes sugadores de sangue, se repreendeu, saindo da pista.

No banheiro, ele se encarou no espelho. Parecia pálido e estava suado devido ao calor da multidão. Mas Cláudio não era feio, pelo menos para os padrões de beleza de um garoto de 17 anos da sociedade atual. Tinha cabelos negros, rosto de traços suaves, altura mediana.

Então, não havia dúvidas de que o problema era ele.

— Por que eu não consigo beijar ninguém?! – disse para o seu reflexo, a voz saindo um pouco mais alta por causa da bebida.

— Será que você não tá mirando nas pessoas erradas?

Cláudio tomou um susto tão grande que deixou escapar um gritinho. Pensava que o banheiro estava vazio, mas um rapaz alto, negro, de camisa apertada e calças azuis, acabara de sair de um box e o observava com um riso no rosto.

— D-Desculpa, não sabia que tinha alguém aqui...

O garoto sorriu.

— Tudo bem. Eu que peço desculpas por não urinar no volume máximo. – Ele se aproximou da pia e lavou as mãos, tranquilamente.

Se Cláudio pudesse sumir pelo ralo, com certeza teria feito.

— Calma, não precisa perder as orelhas – disse o outro.

— Como assim?

— Elas estão tão vermelhas quanto um absorvente sujo.

Dessa vez, ele riu, mais constrangido que nunca.

— Não ligue para os caras dessa boate. São um bando de héteros escrotos e mal educados. Se tá procurando alguém como a gente para ficar, você devia ir a uma boate gay, não?

— Ah, n-não, eu não sou... gay.

— Não? – O cara se virou para olha-lo melhor. Então fez um beicinho, como se analisasse Cláudio e não chegasse a mesma conclusão que ele sobre sua sexualidade. – Ah, sim, desculpa então. – Ele pegou uns lenços de papel e enxugou as mãos.

— Por que você achou que eu era? – Cláudio não conseguia entender porque ainda estava ali parado conversando com um estranho. – Digo, eu tenho jeito, sei lá?

O garoto soltou um riso e balançou a cabeça.

— E existe por acaso um jeito unânime de ser e agir para cada grupo social que existe na Terra?

— Como assim?

— Olha, eu só tô acompanhando umas amigas. Mas se você quiser sair pra conversar, sabe... Eu topo. Hoje é sexta. E coisas acontecem nas sextas-feiras.

— Ah, não, eu tô com uns amigos também, não sei. – E por que, por incrível que pareça, ele sentiu uma enorme vontade de topar? De fugir daquela festa ridícula e sair com aquele cara que ele não fazia a mínima de quem era, mas que, de repente, pareceu mais interessante que qualquer menina que ele tenha paquerado naquela festa?

— Ah, entendo. Bem...

A porta abriu e alguns jovens meios bêbados entraram falando alto e abrindo as calças para mijar. O rapaz fez uma careta ao vê-los.

— Bem, meu nome é Marcos. E esse é meu número. – Ele puxou uma caneta do bolso e anotou seu telefone em um pedaço de lenço de papel, antes de oferecê-lo a um Cláudio surpreso e boquiaberto.

— Você sempre anda com uma caneta e distribui seu número para desconhecidos? – disse Cláudio tentando ser engraçado.

— Não. Só fui sequestrado da faculdade por umas amigas malucas e você devia pegar logo esse papel porque não sou de ficar dando meu número assim para qualquer um e só estou abrindo essa exceção porque achei você muito fofo e interessante.

Cláudio agarrou o papel e o enfiou no bolso, nervoso.

— Então – disse Marcos, enquanto os rapazes passavam por eles e voltavam para a festa, sem sequer lavar as mãos – se você quiser me ligar para gente conversar, Sr...?

— Cláudio, meu nome é Cláudio.

— Poisé, seu Cláudio. Eu aceitaria sair e de repente resolver sua leve confusão de personalidade.

— Ok. Vou pensar na ideia. – O que ele estava fazendo?

— Agora eu preciso voltar, ou minhas amigas vão pensar que estou me drogando ou convertendo algum hétero encubado. Boa noite.

— Boa noite.

E ele se foi.

Cláudio o viu partir, a porta abrir e fechar e o perfume levemente adocicado dele ficar para trás, logo encoberto pelo fedor do banheiro.

Ele era até bonito. E tinha uma bundinha. O pensamento foi tão automático que ele se assustou consigo mesmo.

— Ai, meu Deus, eu preciso sair daqui.

Notas finais
E aí, o que acharam?
A noite é uma criança, dizem...
E a madrugada ainda reserva algumas surpresas para o nosso Cláudio...