After Party

2 O cara do carro vermelho


Notas iniciais
Ao sair da festa, frustrado, Cláudio é confundido com um garoto de programa e toma um breve susto...

Ele não ia mais mentir para si. Aquela festa tinha sido horrível. Procurou os amigos, mentiu dizendo que não se sentia bem, que exagerara na bebida, e precisava ir para casa, ouviu algumas piadinhas infames, mas, por fim, conseguiu escapulir.

Já fora, respirou fundo.

Era impressão sua ou o papel em seu bolso pulsava?

Que ridículo. Eu vou embora, isso sim.

E desceu as ruas desertas à procura de um táxi.

— Bosta – resmungou. O que estava acontecendo com ele?

Meninas são difíceis, essa é a questão. Elas o deixavam nervoso, com seus lábios pintados, os seios pontudos e os corpos delgados e aquele jeito desafiador. Elas o intimidavam... Mas... seria apenas isso?

Por que de repente Cláudio se sentira tentado a seguir aquele estranho para fora? Por que olhara para sua bunda enquanto ele lavava as mãos? Por que os lábios de Marcos pareceram mais atraentes que os das garotas para quem ele bancou drinks e cervejas naquela noite?

— Grrr!! Aahhh! – ele gritou, chutando algumas lixeiras pela rua.

Eu não sou gay... Ele nunca manifestara algo assim... Não seria do nada que começaria a duvidar de sua sexualidade.

Mas será que ele conhecia realmente sua sexualidade? Nunca a colocara a prova. Sempre fora um menino retraído, tímido, que fugia das garotas e não sabia partir para cima de ninguém.

Acreditava, porém, que não seria agora que descobriria algum fato novo sobre ele mesmo. Afinal, já tinha 17 anos!

Estava tão concentrado em seus pensamentos que não viu um carro preto se aproximar e parar um pouco à frente.

— Ei, parceiro. Perdido?

Cláudio levou um susto.

— Oi? Não, não. Tô só esperando um táxi.

Um homem calvo, meio gordinho baixou o vidro e o olhou da cabeça aos pés. Tinha um bigode ridículo e vestia camisa xadrez.

— Você mora longe daqui? Posso te deixar em casa, sem problemas. Entra aí...

— Ah, não obrigado. Meus amigos já estão vindo aí atrás. Eu vim na frente para pegar logo o táxi, sabe.

— Ah, sim. Pensei que você... Mas não tem certeza? A essa hora é uma pouco perigoso sair por aí. Eu te levo...

— Não, não. Eu tava numa festa aqui perto. Qualquer coisa eu ligo para o meu pai. – O coração de Cláudio retumbava no peito, mas o homem não retrucou. Deu de ombros, levantou o vidro e partiu.

Meu Deus! Fui confundido com um garoto de programa!

Tinha deixado a festa tão desnorteado que não se tocou que andando na rua sozinho, àquela hora, e com a aparência que devia estar, certamente não passaria uma boa impressão.

Droga! Preciso pegar um táxi antes que eu seja estuprado.

Acelerou o passo. Mas as ruas estavam vazias. Cláudio começou a ficar com medo. Assalto, bala perdida, tarados em carros escuros... riscos que só ruas desertas às 3 horas da manhã podiam oferecer.

Então, ele foi interpelado uma segunda vez.

Cláudio dobrava uma esquina quando outro carro, dessa vez um sedã vermelho, parou ao seu lado e uma voz masculina exclamou:

— E aí, gatinho? Quanto custa sua companhia neste início de sábado? A noite é uma criança.

Cláudio já ia fingir que não ouviu, talvez começar a correr, gritar, ou o que desse na telha, caso o homem o forçasse a entrar no veículo, quando, traído pela curiosidade, lançou um olhar de relance para o dono da voz e se surpreendeu ao descobrir quem o conhecia.

— Mário? É você?

O homem congelou na mesma hora.

Mas, bem debaixo da luz do poste, a poucos metros de Cláudio, não havia erro: aquele era o sócio do seu pai, Mário Fernandes, um homem bonito, de olhos caramelados, cabelos claros e barba dourada.

— Ah, C-Cláudio, meu amigo! Peguei você! Haha – disse ele, fazendo um gesto de reconhecimento na direção do garoto. – Eu vi você de longe e resolvi dar esse susto! Te peguei, não?

Mentiroso! Cláudio não acreditava no que estava vendo: Mário todo nervoso e constrangido, corando visivelmente diante dele, tentando fingir que pegara o garoto na sua brincadeirinha.

— E aí? Para onde você tá indo? – ele perguntou, se esforçando ao máximo para disfarçar seu embaraço, e, no entanto, revelando-se totalmente.

— Eu acabei de sair de uma festa. Tô procurando um táxi.

— Ah, então entra aí, cara. Até parece que vou deixar o filho do patrão assim, à mercê de qualquer um nessa madrugada. Vamos, eu te deixo...

— Eu não estou atrapalhando você? Digo, com certeza você ia para algum lugar, não é? Eu me viro. Nem conto para o papai que nos encontramos.

— Não, quê isso. Tava só dando um rolê pela cidade para abstrair.

É, procurando garotos novinhos na rua para transar, safado enrustido...

— Então tá. Não vou desperdiçar a carona. – E Cláudio entrou.

— E por que você não ligou para o seu pai? – quis saber o outro, puxando conversa.

— Ah, não gosto de preocupa-lo. Quero mostrar que sei me virar sozinho. Eu já ia pegar um táxi.

— Essas ruas são perigosas, Cláudio. Semana passada uma menina foi assaltada aqui perto.

— E eu fui assediado duas vezes em menos de meia hora.

Mário demorou para respondeu a isso. Deve ter se perguntado se ele fora um dos assediadores.

— E qual era festa?

— Noite de alguma coisa...

— E seus amigos? Por que não veio com eles?

— Eles ficaram bebendo e pegando umas meninas. Preferi sair.

— E você não pegou nenhuma?

Cláudio soltou um muxoxo.

— Não. Não sou muito bom nisso.

— Ah – ele riu. – Também sou péssimo.

— É, mas você é bonito.

Mário virou para ele.

— Você acha?

Cláudio o fitou, de lado. É claro que ele era bonito! Todas as mulheres da empresa em que Mário e o pai de Cláudio trabalhavam achavam isso. O Sr. Fernandes era charmoso, inteligente, tinha um corpão... e, no entanto, pelo que se sabia, nunca pegara ninguém dali. Talvez fosse seu profissionalismo... ou um motivo mais pessoal.

— Bem, é o que ouço nos corredores da firma, né? – respondeu Cláudio, sorrindo.

— Ah, sim. Mas o que você acha?

— Ah, não sei...

— Você me pegava ou não? – A pergunta pegou-o de surpresa. Por que diabos ele estava me perguntando aquilo?

— Acho... que sim.

Era impressão de Cláudio, ou ele estava sendo paquerado pelo melhor amigo do pai? Ele não quis acreditar nisso. Que noite!

Mário sorriu.

— Obrigado... Eu também pegava você, se não fosse o filho do chefe. – E deu uma piscadela para ele.

O coração de Cláudio começou a acelerar. Não, ele não estava enganado: o colega bonitão do seu pai decididamente o paquerava.

Então, a imagem de Marcos, o estranho do banheiro, veio de súbito à sua mente, como uma aparição espiritual, balançando a cabeça, decepcionado.

“Você tem medo de se arriscar”, ele disse. “Por que não segue seus instintos? Você sabe o que quer. Não minta pra você. Isso sim é covardia. A pior covardia que existe é ter medo de ser quem você é”.

— Ai, eu só posso estar louco – ele disse baixinho.

— Oi? Você disse alguma coisa?

— Não, nada. Só um pouco confuso. Acho que foram as bebidas.

— Relaxa. Nada que um bom banho e um café forte não ajudem. – Então, Mário colocou a mão na sua coxa e lhe deu umas palmadinhas.

Eu preciso fazer alguma coisa.

— Você estava à procura de garotos de rua, não era? – disparou deixando de fingimento. Mário recolheu a mão e corou.

— Ahn... Não... Foi uma brincadeira, já disse...

— Tudo bem. Eu não ligo. – E ele colocou a sua mão na coxa dele.

A expressão outrora apreensiva de Mário se amenizou. Ele voltou seus olhos claros para o garoto e o encarou mais atentamente, um pouco surpreso.

— Sério? – ele perguntou, o sorriso voltando aos lábios rosados.

— Sim. E se você aceitar minha companhia... bem, a noite é uma criança, não foi o que disse? Prometo não cobrar caro. – Oh, nossa, o que eu estou fazendo? Mas, embora o sangue corresse gelado e o nervosismo o corroesse, ele sentiu que era aquilo que queria fazer... ou pelo menos tentar fazer e ver até onde a coragem súbita o levaria.

Mário, por sua vez, parecia tão surpreso quanto o próprio Cláudio ao ouvi-lo. Colocou sua mão em cima da de Cláudio e disse:

— Bem, então vamos pra um lugar mais reservado...

Notas finais
Espero que estejam curtindo! Logo logo teremos uma experiência marcante para Cláudio!