Adultério
5 Capítulo 5 – Paixão
Notas iniciais
Postando bem antes da data planejada neh? O capitulo 6 provavelmente venha na quarta mesmo se tudo correr bem. Apenas quero poder lhes mostrar o final antes de qualquer coisa acontecer. Nyah deixou uns avisos meio tensos no twitter anteontem então...estou meio receosa de me bloquearem ou excluirem não sei... não queria deixar ninguém na mão e curioso pelo final. Por isso até fds que vem quero estar com a fic finalizada!
=]
Fic feita a pedido da Azumi... que provavelmente irá me bater por postar esse cap sem betagem dela O.O( eu betei e alterei umas coisinhas)
Antes de ler..lembrem-se... eu não tenho nada contra o Uru ok?
=]
Vão na paz...
Azumi-chan:Oiiii gente,eu denovo por aqui,o cap ta ótimo demais!Boa leiturinha ♥
Capítulo 5 – Paixão
Passava um pouco da uma a tarde quando o telefone tocou e eu confirmei com um “É claro que ele pode subir, deixe Takashima-san entrar quando quiser” à pergunta do porteiro daquele período. Provavelmente se fosse o senhor da madrugada já reconheceria Uruha... afinal todas as duas vezes que ele veio ali fora justamente naquele horário, e para retornar um bêbado idiota em segurança para casa...
Sorri em humor e coloquei pause no filme que estava assistindo, me olhando no espelho próximo ao hall de entrada, ajeitando meu cabelo para trás até decidir que estava com uma aparência séria e velha demais. Baguncei meus fios negros completamente, deixando-os mais soltos e balançando a cabeça em negação ao ver o quão ridículo eu parecia em ficar fazendo aquilo.
–Você não tem mais 16 anos Yuu – falei para o meu reflexo, me perguntando como eu podia estar naquela paranoia de imagem apresentável sendo que aquele homem com toda a certeza já havia visto os lados mais feios e deprimentes de mim.
A campainha tocou e eu pareci ignorar toda a minha irritação com minha imaturidade ali mesmo ao correr para a porta como um louco e abri-la quase que ultrasonicamente veloz.
Kouyou arregalou os olhos em surpresa pela minha velocidade e eu abri um sorriso impulsivo ao vê-lo sorrir também.
–Tudo isso é porque a comida acabou? Eu trouxe mais – brincou ao levantar a mão esquerda com algumas sacolas.
As peguei em reflexo, liberando o caminho para que ele entrasse enquanto eu seguia com as compras na direção da cozinha.
–Vamos ter curry para o almoço? – questionei em animação ao reconhecer alguns ingredientes entre as coisas dentro das sacolas assim que as pus em cima da mesa e comecei a fuça-las – Pudim! – vibrei em adoração ao ler o nome na embalagem de sobremesa pronta.
O mirei sorridente, meu sorriso esmorecendo assim que consegui ler o receio e a postura defensiva em seu semblante.
– O que foi? – questionei num tom baixo.
–É que... – ele começou, as íris chocolates indo para os lados em desorientação – não sei... por um momento.... pareceu normal... eu,... eu trazer comida para você e cozinhar... pareceu algo que já fazemos há anos e... é estranho sentir isso...
Kouyou focou seus olhos em mim e mordeu o canto dos lábios de modo involuntário, como se estivesse se refreando de algo.
Por que eu conseguia lê-lo tão bem?
Não fazia a mínima ideia, mas certamente aquilo era algo totalmente fascinante.
–Rápido demais? – perguntei num sorriso compreensivo e ele assentiu.
–Não é uma situação pela qual eu passe normalmente – a voz baixa e grave respondeu, parecendo decidir-se por deixar de lado e caminhar em minha direção, tomando o meu lado ao começar tirar as compras do embrulho.
O observei minuciosamente enquanto ele ia até os armários e procurava utensílios dos quais precisaria, sem saber realmente onde ficavam, mas achando tudo muito rápido.
Dei a volta na mesa e me sentei de frente para ele, apoiando meu rosto em minha mão enquanto o olhava.
–Você tem algum fetiche por ver alguém cozinhar? – ele perguntou ainda de costas e eu sorri, parecia até que nos conhecíamos há tempos...
–Eu acho atraente – respondi – provavelmente seja por eu ser órfão, e ter sido criado com muitos primos, mas ver alguém trabalhando para fazer algo especialmente para mim me deixa mais feliz do que receber aumento de salário ou uma promoção – assegurei, me deliciando com a gargalhada gostosa e controlada que ele deu.
–Tudo bem, não é como se olhar fosse arrancar pedaço – ele assentiu enquanto continuava o que fazia.
–Onde aprendeu a cozinhar? – perguntei ao notar a destreza com a qual ele manipulava tudo.
Kouyou parou de cortar a carne por um segundo, se mantendo em silencio um tempo que julguei longo demais... uma resposta bem clara na verdade.
–Entendo – assenti ao perceber que provavelmente havia tocado em algum ponto delicado – ainda não se sente à vontade para me contar sobre você...
–Desculpe – ele pediu ao levantar o olhar de esguelha para mim e eu apenas afirmei com a cabeça um “Tudo bem”... até por que, apesar de fazer o que faz.... meu coração e minha mente sentiam e sabiam... Kouyou era sem dúvidas alguém por quem valia a pena esperar.
“Parece que a paixão te pegou de jeito Yuu...”
Após o almoço passamos uma tarde maravilhosa assistindo filmes e conversando amenidades.
Eu falei sobre Akira e Takanori e ele me contou sobre suas aulas na faculdade... até se sentir seguro o suficiente para me falar sobre uma amiga com a qual dividia o pequeno apartamento que tinha num bairro pobre da cidade. “Mayumi” foi o nome que ele disse e eu reclamei em notável ciúme ao perceber com quanto carinho ele falava sobre ela. Impulsivamente me deitei no sofá e acomodei minha cabeça em suas pernas como meio de demonstrar minha chateação com aquela confissão dele.
Não foi preciso dizer que aquilo tinha sim me doído um pouquinho dentro do peito.
–Você com certeza é ciumento – ele censurou, abrindo um sorriso lindo, quase conseguindo apagar meu imaturo emburro ao me fazer mirar de baixo o seu rosto. Meus olhos se fecharam reflexivamente ao sentir a carícia dos dedos finos nos fios de minha pequena franja – nós não transamos se esse é o motivo desse bico todo... – ele gargalhou – ela está num momento difícil e eu a acolhi, é apenas isso...
–Hum... – assenti ao me censurar mentalmente, Uruha era certamente uma pessoa bondosa, eu deveria imaginar algo como aquilo – é algo no qual eu possa ajudar?
–Acredito que não.
–Tem certeza?
–Não sei. Por que se interessaria em ajudar uma desconhecida?
–Não sei, por que você se interessou em ajudar um desconhecido bêbado na rua? Ajudar os outros não pode ser algo tão ruim de se fazer – rebati em esperteza e senti seu corpo solavancar numa gargalhada.
–Só quando um certo alguém repentinamente insiste que está apaixonado por você – Revidou em humor.
–Ora, isso não é algo ruim... É?
Kouyou respirou fundo e encostou sua nuca na parte superior do estofado, mais um suspiro e eu sabia que sua feição provavelmente estaria mais séria.
–Mayumi não tem ninguém no mundo, também não tem estudo, tem um corpo frágil e está grávida – sua voz grave e triste se fez presente enquanto seus olhos miravam o teto e seus dedos paravam de se mover em meu cabelo, mas permaneciam ali – o pai da criança foi assassinado quando ela estava com dois meses de gravidez e os bandidos que o mataram estavam atrás dela para que ela pagasse a suposta dívida do amante... – uma respiração ruidosa e pausada – quando ela chegou até mim fazia um bom tempo que não a via por isso mal a reconheci devido aos machucados... felizmente eu conheço pessoas na polícia e com a ajuda dela eles conseguiram prender uma boa parte do grupo deles... normalmente a escondi em minha casa até tudo se acalmar... Mika-chan nasce mês que vem ... – os dedos em minha cabeça voltaram a me acariciar assim que sua voz se tornou menos pesada ao tocar no nome da provável bebê que estava por nascer.
Demorei um pouco até assimilar tudo sem me deixar demonstrar meu total choque com a história.
Até onde ia exatamente toda essa bondade de Uruha para com os outros?
Querendo ou não aquilo de fato parecia ter sido uma situação difícil e arriscada...
Será que eu também só era uma pessoa recebendo sua bondade natural, sem nada especial além disso?
“Ao menos ele está se abrindo para mim...”
Tentei me animar.
–Ela está bem em ficar sozinha? – perguntei, me dando conta de que talvez fosse injusto tentar monopolizar o tempo dele daquele jeito, eu não sabia realmente se ele tinha responsabilidades ou coisas mais importantes para fazer.
–Eu liguei para ela da faculdade, algumas colegas dela foram visitá-las e vão fazer alguma espécie de noite das garotas... como eu ... trabalho à noite peço sempre para uma delas ficar com Mayumi ... ela disse que não se sentia solitária e que eu podia passar a noite fora – ele respondeu numa voz levemente divertida – eu falei para ela sobre você... ela sabe de tudo desde o dia em que você tentou me fazer atropelá-lo...
–Hum... – murmurei em intencional pretensão — ... devo esperar receber esse carinho hoje à noite enquanto durmo então? – perguntei, animado.
–Não... sinto muito – ele cortou ao desencostar a nuca no sofá e balançar a cabeça – eu vou pra casa, me embrenhar no meio das garotas... é muita tortura com você me oferecer para dormir contigo mas não poder te “atender” em nada...
–Quem disse isso? – inquiri – eu que não fui, esse poder de decisão é meu não?
–Eu também não trouxe roupas...
–Eu te empresto – voltei a argumentar.
–Eu não consigo transar com você Yuu... – ele jogou como se aquilo fosse explicar algo.
–Eu não estou te pedindo isso.
–Está rápido demais...
–Pra quem? – questionei ao me colocar sentado no estofado e encará-lo.
Alguns segundos se passaram e ele não respondeu. Puxei meus lábios de lado num sorriso vitorioso.
–Fica – pedi – se sentir melhor, faça isso como a boa ação de hoje – provoquei ao juntar minhas mãos como se implorasse e ele gargalhou, puxando minha nuca com a mão macia e colando seus lábios nos meus num beijo brando e carinhoso.
–Ao menos te beijar eu consigo... – um sussurro contra os meus lábios – desculpe não poder fazer mais...
–Para mim é mais que o suficiente – assenti ao colar minha boca na sua mais uma vez – eu não preciso de mais nada, apenas de que você me ame... se eu conseguir ocupar um lugar especial em seu coração... eu não preciso de mais nada...
–Você já ocupa... – a resposta sussurrada junto aos olhos límpidos achocolatados... um sorriso sincero e um selo doce...
–Então eu já estou feliz... – assenti ao corresponder seu sorriso.
Tentei digitar mais do projeto inacabado da próxima divulgação sob minha responsabilidade, ainda que estivesse dias adiantado, e pela primeira vez não consegui ter cabeça para me jogar no trabalho que eu tanto gostava. Não com o barulho do chuveiro do meu quarto ligado me deixando totalmente consciente de que Kouyou estaria completamente nu ali embaixo.
Coloquei meu laptop para cima do criado mudo e fechei meus olhos. Não era como se eu estivesse com vontade de transar com ele, mas meu membro queria reclamar por uma masturbação.
Idiota eu sei, ainda que ele fosse capaz de ficar íntimo comigo eu provavelmente trocaria uma noite de sexo por um pedido de que Kouyou me deixasse me masturbar pensando nele... odeio admitir, mas o fato de ele ter algo que o bloqueasse a transar com um homem tinha sido até mesmo conveniente visto minha total inexperiência, falta de confiança, receio e trauma em ser humilhado e rejeitado por não saber satisfazer alguém.
“Eu realmente devo ter me tornado alguém muito estranho...”
Me neguei alívio e apenas escorreguei mais meu corpo pela cabeceira, deixando minhas costas encontrarem os travesseiros, voltando a fechar os olhos e ouvindo o som do chuveiro parar.
Muitos minutos depois ele saiu pela porta lateral, os cabelos já secos pelo secador que eu ouvira ligado momentos antes. Meu pijama de cetim azul escuro serviu muito bem nele, já que ficava dois dedos maior em mim. O rosto reto ficava ainda mais masculino sem a fraca maquiagem nos olhos, os fios negros bagunçados ordenadamente para o lado e a parte loira de suas mechas lhe servindo como franja.
Kouyou olhou para mim e eu sorri em reflexo ao seu olhar, abrindo meus braços convidativamente.
–Tem três quartos nesse apartamento, mas eu posso assegurar de que esse é o lugar mais aconchegante da casa – argumentei diante de seu receio de seguir até mim.
–Tem certeza de que não acha torturante? – a voz grave perguntou, tomando coragem para começar a caminhar em minha direção.
–O que? – questionei assim que ele deu a volta na cama e levantou o edredom a fim de se deitar.
–Ficarmos assim... e... eu não poder te ... agradar... – respondeu, se deitando de lado no colchão, lançando seus orbes chocolates para mim.
Sorri e também me deitei de lado, de frente para ele, bem próximo a seu corpo. Passei minha mão por sua cintura e o senti se retesar minimamente com minha ação, porém, eu só queria esconder minha cabeça em seu peito, então segui adiante com minha intenção e encostei minha testa entre seu pescoço e a linha de seu tórax, aliviado com o modo como ele relaxou ao perceber meu inocente propósito de me aninhar em si.
–Eu te disse... eu já estou feliz assim – voltei a afirmar, respirando bem o seu cheio natural misturado ao do sabonete e xampu que eu usava... nele parecia adquirir um odor diferente... e extremamente bom – me mime um pouco, posso não parecer, mas sou muito carente...
–Sinto informar de que desde a primeira vez que te vi soube que você com certeza seria do tipo carente – ele rebateu em gozação e eu segui seu humor ao sorrir junto.
Uruha abraçou minha cabeça com o braço esquerdo enquanto a mão direita acariciava meu cabelo e massageava minha nuca lentamente.
–Ao menos posso te dar carinho... – ele falou mais para si mesmo do que para mim por entre um suspiro e eu acariciei sua cintura castamente com os dedos, traçando a linha de sua coluna por cima do tecido liso ao escorregar os dígitos até ali.
–Eu pensei num jeito de você não ter que trabalhar agradando mulheres e continuar ganhando o suficiente para permanecer com seus objetivos... – falei ao fechar meus olhos e relaxar completamente em seus braços.
–Aé...? – ele questionou – e como seria? Estou nesse ramo há muito tempo, e se houvesse como sair dele e manter minhas aspirações ao mesmo tempo... pode acreditar, eu já teria deixado-o... ninguém vai pagar o que eu ganho com os programas por um cara de trinta anos, sem um curso superior finalizado e com problemas de documentação...
–Eu conheço alguém que está disposto a pagar muito bem por um cozinheiro particular e não exige curso superior ou documentos... – respondi de modo proposital e ele sorriu.
–Eu não vou trabalhar para você.
–Por que não? Eu sou um bom chefe e pago bem, não ache que eu estou tentando te manter dependente em relação à minha pessoa, isso é totalmente conveniente para mim até você terminar seu curso e montar o tal negócio sobre o qual ainda não me falou – argumentei – tome isso como um meio de já ir me pagando pela futura consultoria que eu vou te dar...
–Minha comida não vale tanto...
–Eu decido isso como cliente – o interrompi, se tinha uma coisa que eu tinha aprendido era que sem dúvida aquele cara era esperto em argumentos... mas eu era melhor – não você, me forneça o serviço e fora do horário de trabalho você pode fazer as reclamações que quiser – estatuei num exagerado tom autoritário e ele voltou a gargalhar.
–Não seria triste não ter uma pessoa cozinhando especialmente para você, mas sim um empregado pago para lhe fazer o que comer? – o rebate perspicaz... ele ainda estava anos atrasados para vencer alguém experiente como eu.
“Não vai vencer essa Kouyou”
–Não, porque sendo você eu sei que você dará o melhor de si e fará tudo com amor ainda que seja apenas “por trabalho” – finalizei e sorri vitorioso com o silêncio em resposta – oh... parece que venci... – parei minha gozação assim que senti o aperto de sua mão e seu braço contra mim, forçando mais o meu rosto contra seu peito enquanto uma respiração pesada e lenta era sentida contra o topo da minha cabeça.
Permaneci em silêncio, apenas aguardado e permitindo-o se mostrar frágil perto de mim, ainda que parecesse necessitar me impedir de olhá-lo para isso.
Por que ele parecia segurar e guardar tanto dentro de si?
Por que ele não dividia um pouco?
E foi quando pensei em abrir minha boca para perguntar, ainda que não tivesse esperança de respostas, que a voz levemente embargada por um choro chegou a minha audição.
–Eu também perdi meus pais... – Kouyou finalmente parecia pronto para falar — ... aos dez anos... desculpe ter agido estranho quando me falou sobre você hoje mais cedo, mas... saber que você também conhece essa dor... me chocou um pouco...
O abracei mais forte em retorno, permitindo-o se sentir mais a vontade para continuar a falar.
– Nós estávamos enfrentando alguns problemas, e meu pai começou a beber e jogar muito... acabou contraindo divida com as pessoas erradas e... – um suspiro fundo junto a um soluço contido... não era difícil imaginar o que havia acontecido e porque havia acontecido ali — ... eles iriam matar só o meu pai e levar a mim e a minha mãe como... meios de fazer dinheiro, mas... minha mãe acabou entrando na frente do meu pai quando eles iam cortar a cabeça dele então... apenas eu sobrevivi e... irremediavelmente fui levado como “mercadoria”. Eles queimaram nossa casa, nossas coisas, documentos, tudo.... meus pais também não tinham ninguém no mundo, e qualquer conhecido simplesmente se manteve calado por medo então... tudo foi abafado como “tragédia causada por incêndio” e... eu fui dado como morto junto com eles...
Minha respiração pareceu falhar, meu corpo parecia mais frio e eu não conseguia falar ou fazer nada além de apertá-lo cada vez mais contra mim como se eu pudesse ajudar de algum modo daquele jeito. Pensar que ele havia passado por aquilo era... doloroso...
–Acho que é meio previsível o modo como eles me “faziam” ganhar dinheiro para “pagar” a dívida da minha família que jamais seria quitada por mais que eu ... – mais um soluço e seus dedos tremeram em minha cabeça, seu corpo todo tremulou e eu o segurei, o segurei para que ele soubesse que já tinha passado... que eu estava ali, por mais que eu mesmo estivesse querendo tremer em dor ao ouvi-lo contar sua história — ... no começo foi pior sabe, como eu era novinho acabava atraindo os “clientes” com fetiches ridículos por foderem criancinhas, mas com o tempo foi até se tornando menos humilhante... às vezes eu até chegava a ter paixonites por um cara ou outro que era mais gentil ...– um sorriso melancólico e sem graça. Imaginar a situação em que ele esteve... desejar que eu pudesse estar lá para salvá-lo e ainda assim saber que eu não poderia fazer mais nada era... torturantemente cruel — ... Mayumi também era da mesma “casa” que eu... foi lá que a conheci, ela ... tinha sido vendida pelo próprio pai que abusava dela desde os oito anos de idade para pagar divida de jogo. Não era normal e nem permitido criar amizades lá dentro, mas por algum motivo ainda que não pudéssemos falar um com o outro, a gente sempre parecia ter algumas conversas por olhares quando íamos pro “salão de recepção”, a maior parte do tempo éramos trancados nos quartos então não havia nem como ter muito contato mesmo. – mais uma respiração pesada — ... felizmente eu parecia ter crescido rápido demais e ter perdido o quesito “fofo e frágil” assim que fiz dezoito anos. Eu ficava feliz por ter menos “clientes” para atender, mas o “dono” da casa estava começando a achar que eu estava dando prejuízo, foi quando circulou a noticia de que Mayumi havia conseguido fugir com um dos clientes e o “dono” começou a ser mais rígido com a gente. Eu sabia que logo, logo eles abririam mão de mim e me matariam como faziam com todos os garotos e garotas que haviam “passado” do ponto, eu tinha que arranjar um jeito de sair, foi quando uma “proposta” apareceu...
Um tremor passou por ele novamente, dessa vez mais forte e por mais que eu o apertasse suas mãos e corpo não pareciam parar.
–Kou... – chamei baixinho, e ele se acalmou mais um pouco – se não... – tentei dizer que ele não precisava se forçar mais, porém, ele foi rápido ao me interromper.
–Todos sabiam que aceitar propostas daquele cara era morte na certa, nenhum garoto ou garota que ia com ele voltava com vida, e os que voltavam apenas se matavam depois ou eram mortos por se tornarem dementes e inúteis pro serviço... mas eu já estava condenado a morrer logo mesmo... – mais um sorriso profundamente melancólico — ... o dono “assegurou” de que eu estaria livre se voltasse inteiro, e me mostrou uma identidade com o meu nome e com o nome dos meus pais que havia feito como prova de sua “intenção” em me conceder o benefício... na verdade ele só queria me ver morrer na esperança de sair dali, mas... eu não tinha nenhuma outra chance então eu fui... e... – um suspiro lento.
Kouyou passou segundos longos em silêncio, seu corpo voltando a tremer em intervalos alternados, até ele conseguir estabilizar a si mesmo.
–Talvez você não goste mais de mim ao ouvir o resto... – um sussurro frágil e temeroso.
Meu coração se apertou e eu o apertei contra mim.
Ele teria que aprender que quando eu decidia uma coisa, simplesmente não havia como me fazer voltar atrás. Tentei levantar meu rosto, mas ele não permitiu então eu apenas colei minha face rente ao seu pescoço ao responder.
–Eu amo você... eu amo o Takashima Kouyou, com história, sem história... você é você... é quem eu amo. Por favor, acredite em mim...
Mais um leve tremer e um momento de silêncio... até ele retomar com a voz baixa e assustada.
–Eram muitos... o “cliente” na verdade levava apenas um garoto ou uma garota de cada vez para servir de... – ele voltou a estremecer, ofegando acelerado, mas se acalmando gradativamente por si mesmo... era notável que nada de bom havia acontecido ali... e provavelmente aquele fosse o motivo de seu trauma — ... eu só pedia para sair dali com vida, para ao menos uma vez poder ser livre... acho que foi isso que não me fez desistir por mais difícil, humilhante e torturante que fosse... eu só pedia para conseguir sair com vida...
... e depois de dois dias inteiros amarrado no centro de uma sala no meio daquela... asquerosa “festa”, servindo de boneca inflável praqueles caras eu... fui solto, colocado em um táxi e mandado de volta pra “casa de diversões” – ele sorriu obscuramente em humor negro e de certo modo eu ... estava me sentindo a pessoa mais inútil do mundo por não conhecê-lo e não ter podido ajudá-lo quando algo tão ridiculamente baixo e monstruoso aconteceu a ele. – provavelmente o “dono” tinha planejado me matar se por acaso eu voltasse com vida, mas... acho que quando ele me viu completamente acabado, espancado e rastejando em direção a maldita identidade que ele me prometeu, algum rastro de pena passou pela cabeça daquele maldito e ele mandou que pegassem minha bolsa de pertences e me jogassem num depósito de lixo qualquer junto com a minha tão almejada prova de liberdade. É a mesma identidade que eu te mostrei... ela é meu troféu sabe... não o ganhei de forma honrada, mas... ela é a representação de que eu existo e de que... eu tenho uma vida que é minha então, por mais que me traga memórias dolorosas... ela ainda é o meu troféu...
–Me desculpe... – pedi impulsivamente ao embrenhar minha cabeça em seu peito, sem conseguir refrear as lágrimas que começaram a sair de meus olhos...
–Não há do que te desculpar Yuu, você nem sabia que eu existia na época... – uma voz rouca e educada, tão idiota de minha parte que ele fosse aquele a me consolar... eu ainda era tão imaturo perto dele... Kami... — ... por sorte eu tinha escondido um pouco de dinheiro que eu roubava de alguns clientes dentro de um fundo falso em um porta retrato com a foto dos meus pais, foi como eu consegui tomar um banho, dormir e comer ao menos na primeira semana... Eu tentei arrumar algum trabalho, qualquer coisa, mas... meu estudo tinha parado quando eu tinha dez anos de idade, eu não tinha um corpo forte para trabalhos braçais e... ninguém parecia dar oportunidade para um garoto que só tinha uma identidade como documento, então... naturalmente eu pensei em trabalhar na única coisa que eu sabia, não ia ser muito diferente, ao menos eu ficaria com o dinheiro, mas... eu não consegui... quando o cara veio para cima de mim eu apenas pirei e comecei a tremer, a gritar a me debater... foi quando soube que nem mesmo meu corpo eu conseguiria vender mais... estava completamente inutilizado...
Cheguei a tentar mais duas vezes quando a fome apertou e eu já não conseguia encontrar mais lugar para me aquecer nas ruas... tentei até mesmo esses caras que têm fetiche por estuprar alguém sabe, se ele me forçasse ao menos eu não teria outra escolha, mas o desespero e o medo era tão grande que eu quase acabei matando-o quando me defendi e bati a cabeça dele contra o chão. Foi quando eu acabei me envolvendo com a polícia e fiquei preso alguns dias, até eles descobrirem que tirando minha identidade eu não tinha registro em lugar algum e que aparentemente eu era uma criança que havia morrido aos dez anos de idade num incêndio. Respondi algumas perguntas, dedurei o que eu pudesse dedurar e ainda que eu tenha pedido para ficar na prisão mais um tempo, já que ao menos lá tinha comida, eles tiveram que me soltar, reativaram meu registro de pessoa viva, me deram alguns trocados, mas não podiam fazer mais que isso... não para um puto sem identificação e de tão “má índole” como eu. Eu não os culpei, agradeci os trocados que me asseguraram mais duas semanas de comida e comprei um cobertor para ajudar no inverno. Fiquei feliz só em poder ler alguns meses depois a notícia no jornal de que haviam prendido e exterminado quase que o “grupo” completo dos malditos que mataram meus pais e fizeram aquilo comigo.
Eu sempre tinha servido só homens, então a ideia de que mulheres poderiam procurar serviços desse tipo nunca havia passado por minha cabeça.... foi quando eu conheci a Nansy.
–Nansy-? Questionei ao estranhar o nome.
–Ela era estrangeira, Sueca na verdade – ele respondeu – era viúva, tinha quase cinquenta anos, sem filhos ou parentes... muito solitária... – um suspiro mais calmo, e pelo modo como seu aperto se afrouxou em minha cabeça eu soube que graças da Deus o pior da história havia passado — ... Nansy me viu na rua uma noite e perguntou se eu cobraria muito caro para dar consolo a uma “pobre velha solitária”, foi a primeira vez que eu soube que mulheres também contratavam esse tipo de serviço. Nansy sempre foi muito educada e gentil, então mesmo que precisasse muito do dinheiro eu confessei a ela que nunca havia estado com uma mulher antes e que eu não sabia se eu estava “limpo”, já que antes servia caras e fazia muito tempo que não me submetia a nenhum exame – Kouyou voltou a sorrir obscuramente de lado – eu tinha certeza de que provavelmente eu teria pegado Aids na maldita “festinha” daquele desgraçado, eu só queria saber se eu teria tempo de tentar ser um pouquinho feliz antes de morrer, nem que fosse bem pouco mesmo...
Nansy me levou pra casa dela e me deu comida, no outro dia ela me levou num hospital e pagou um chek up para mim... apesar de tudo eu... me considero um cara sortudo, sabe... tirando duas DSTs mais leves, eu estava completamente limpo e em poucas semanas de tratamento ficaria perfeitamente bem. Quase não acreditei que eu teria o resto da vida inteira para tentar achar um pouco de felicidade, e, Nansy... foi quem fez toda diferença, foi ela quem me ensinou a cozinhar também. Ela não era rica, mas cuidou de mim enquanto eu me recuperava e assim que fiquei melhor eu fiz questão de ela ser a primeira mulher com quem eu transaria – mais um sorriso divertido — ... fui péssimo na primeira vez... mas Nansy disse que eu ficaria melhor e que seria capaz de preencher o vazio e a solidão de qualquer mulher se eu quisesse...Nansy também conseguiu me fazer voltar a estudar, por mais que fosse constrangedor eu frequentar classes para adultos e demorasse aprender as coisas, e ela não se importou quando eu disse que trabalharia como um garoto de programas para mulheres apesar de eu saber que ela me amava de um jeito diferente.... Eu queria tanto ter amado a Nansy como ela me amou, queria tanto ter podido olhar nos olhos dela antes que ela morresse no surto de gripe aviária e ter dito que eu também a amava... mas... ainda que eu pudesse levá-la ao auge do prazer ou cuidar dela, ou fazê-la sorrir eu... sou incapaz de me apaixonar por uma mulher... posso preencher o vazio que elas sentem, posso satisfazê-las, cuidar delas, fazê-las se sentirem queridas e protegidas, mas... amá-las... é impossível para mim.
–Você nunca amou ninguém? – perguntei ainda baixinho, movendo meu rosto um pouco para cima, e dessa vez ele me permitiu olhá-lo, apesar de sua face e seus olhos vermelhos rodeados de lágrimas secas se manterem focados no teto.
Ele suspirou lentamente antes de responder.
–Paixonites, amores platônicos por caras dos quais nunca tive coragem de me aproximar... pra quê? Eu não poderia oferecer nada a nenhum deles ainda que eu pudesse ser correspondido. Recebi declarações de alguns também, e duas vezes cheguei até tentar sair, mas... não deu certo, eu não podia deixar o meu “emprego” ... é o que me pagava o suficiente para terminar os estudos, pagar o aluguel, comer e começar a reserva para começar uma faculdade... – mais um suspiro — ... eu tinha decido que se eu havia tido tanta sorte de não estar com uma doença fatal, de não ter morrido ainda e ter conhecido um anjo como a Nansy, eu deveria conseguir tudo que um dia sonhei quando era pequeno. E... eu sempre quis ser um empresário sabe, desses como você, que andam de terno, parecem importantes, falam na frente de várias pessoas e tomam decisões grandes – um sorriso sem graça e então ele finalmente me olhou — ... mas eu nunca fui um aluno muito inteligente como você, fiquei oito anos atrasado e tenho um problema de déficit de atenção, então não sou capaz de conseguir uma bolsa ou de conseguir aprender algo sem muito estudo. Continuar como garoto de programas pelas noites, ganhar bem e ter as tardes livres para estudar após a faculdade é o mais confortável e adequado para mim, ninguém vai me pagar o que eu ganho hoje por alguém da minha idade e com tanto problemas... com exceção de um certo bêbado suicida pelo visto – sorriu e eu o beijei rapidamente nos lábios.
–Você disse que eu poderia não amar você depois de ouvir tudo ... – comecei a ditar numa feição séria, abrindo um sorriso logo em seguida — ... se eu te disser que te amo ainda mais, que apenas me sinto impotente por não estar lá quando você precisava de ajuda, e que se pudesse mandava matar cada um daqueles que te fez sofrer... o que você me diz?
Uruha voltou a sorrir e limpou os resquícios de umidade nos olhos com as palmas ao retirá-las da minha cabeça.
–Eu diria que .... eu ainda sou muito sortudo... por encontrar alguém como você – ele respondeu e eu tomei sua boca num beijo profundo, mas rápido.
“Céus... como eu amo esse homem!”
–Mas, por favor, não se sinta mal pelo que aconteceu, já passou e você não tem culpa nenhuma nisso... – sussurrou ao descolarmos nossos lábios — ... e não mande matar ninguém, você não é esse tipo de cara... e de qualquer modo, a maioria deles já estão mortos ou apodrecendo na prisão...
–Então a única coisa que posso fazer por você é tentar te fazer a pessoa mais feliz do mundo... – argumentei, olhando suas íris chocolates de perto e sorrindo contra a sua boca — ... deixa vai...
–Não faça promessas desse tipo... – uma voz implorativa.
–Eu posso assegurar que eu posso conseguir... – ditei em confiança — ... enquanto não pudermos transar eu tenho confiança de que posso te fazer acreditar que sou o melhor cara do mundo pra você...
Kouyou gargalhou gostosamente e eu voltei a me aninhar contra ele enquanto ele retomava o carinho em meu cabelo.
–Somos com certeza um par muito estranho... – suspirou em humor — .... nos amamos e ainda assim nenhum de nós dois quer um relacionamento íntimo, dois traumatizados..... – gargalhou.
–Acha que foi destino? – perguntei impulsivamente e ele cessou seu sorriso.
– O quê?
–Nos encontrarmos? – explanei procurando seus olhos novamente ao olhar para cima — ... acha que desde o começo... você foi feito pra mim e eu pra você e que apenas demoramos um pouco para nos achar?
–Você acredita nisso? – ele sorriu.
–Pode não parecer, mas eu sou do tipo romântico – assenti, sem vergonha de confessar aquilo.
–É... deu pra perceber ... – ele voltou a sorrir — ... pode ter sido destino, pode ter sido sorte minha, mas... graças aos céus você finalmente chegou... – um beijo leve e a sinceridade translúcida nos olhos chocolates — ... eu estava ansioso para te conhecer... meu amor.
Notas finais
E esse é o mistério da vida do Kouyou... tenso neh? Algumas pessoas acertaram parcialmente em seus palpites huhuhuh responder as reviews devidamente depois...
Preciso de comentários para saber se precisa de mais alguma explicação ou não, estou fazendo o cap 6 e ele é antes do final, já q no cap final não vou ter como sanar dúvidas de agora, peço para que se algo ainda não ficou claro me digam sim?
Beijos....
bye
Azumi-chan: Ahhhh e então o que acharam?Gente eu amei o cap!Mas admito que eu choreeeeei tanto,Mini ganhou de mim na maldade!kkkkkkkk
Néh deixem reviews!Eu fiquei muito feliz quando vi o Review de todos vocês mas em especial da leitora Mariasixx que perguntou da "Tsumi to batsu" e então respondendo a ela,sim sim,a "TTB" vai continuar por isso a minha flor está com pressa para acabar essa fic porque depois dela vem a "TTB" até o fim!rs.
E também em especial a leitora Elijane Alexandre que disse que me achou fofa [?] +/- isso né?hehe.Obrigada e fico feliz que estejam gostando de mim ^^
Enfim obrigada a todos os leitorezinhos,amo vocês ♥
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