Rose tinha várias escolhas. Chamar a polícia. Gritar. Esconder-se com Dan e Mao e esperar que o ladrão terminasse seu serviço e saísse. Gritar. Confrontar o bandido. Gritar.

A polícia, ela resolveu. Lembrou-se que tinha um celular, mas onde o deixara? Olhou em volta tentando lembrar-se... Ah, na bolsa.

A bolsa que estava na cozinha, com o ladrão! Suspirando e passando as mãos trêmulas nos cabelos ruivos, Rose considerou a segunda hipótese. Mas gritar acordaria Dan e assustaria Mao, e talvez não espantasse o ladrão.

Passou então para a terceira opção: esconder-se. Mas, e se houvesse mais do que um bandido na casa?

Rose engoliu em seco e abriu o armário em busca de inspiração. Não tivera tempo de desfazer as malas, e o que encontrou foi uma porção de roupas pesadas e escuras. Darcy devia ter deixado ali todos os trapos góticos! Tudo o que Rose queria era um guarda-chuva com ponta afiada, ou...

Algo pesado caiu nos dedos do seu pé. Mordendo o lábio para não gritar de dor, ela tratou de verificar o que era. Um taco de críquete! Brilhante! Ainda que não conseguisse imaginar Darcy jogando críquete, era fantástico. Apanhando o taco e sentindo-se mais segura, ergueu-o e abriu a porta um pouco mais tentando ouvir.

Mao correu porta a fora, antes que ela pudesse contê-lo.

Na cozinha, Scorpius abriu a geladeira. Na prateleira da porta havia uma caixa de leite aberta. Ele a cheirou. Estava fresco. Continuando a exploração, apanhou uma vasilha e a destampou: parecia peixe amassado. Ao abrir a caixa de ovos, sentiu alguma coisa quente e macia tocando seus pés. Institivamente deu um passo atrás. A criatura emitiu um miado horrendo ao sentir a cauda pisada e acabou por enroscar-se nas pernas de Socrpius, na tentativa de escapar.

Sem equilíbrio, Scorpius agarrou a primeira coisa que alcançou: a prateleira da porta da geladeira. Por uma fração de segundos ele pensou ter conseguido equilibrar-se. Então a prateleira soltou-se da porta, leite e plástico moldado sucumbiram à força da gravidade batendo com força no chão. Scorpius e os ovos demoraram um pouquinho mais, pois a cabeça dele batera antes na beirada da mesa.

Rose, tremendo atrás da porta do quarto, ouviu o miado desesperado do gato, seguido de um barulho horrível.

Teria o ladrão matado Mao?

O que quer que estivesse acontecendo, ficara claro que ela não podia continuar escondida. Erguendo o taco de críquete tremulamente, avançou devagar escadaria abaixo, aproximando-se da cozinha com todo o cuidado.

A cena que a aguardava era chocante. Ovos esmagados, um lago de leite no qual Mao se deleitava feliz, e, no meio de tudo, estatelado de costas, sangue escorrendo da testa, estava um homem. Um homem vestido de preto da cabeça aos pés, como um verdadeiro ladrão.

Ele era alto e forte e a teria desarmado facilmente. Graças a Deus estava inconsciente! Ou talvez não, pois gemeu e abriu os olhos.

Rose apertou o bastão com força, nem reparando no belo tom cinza dos olhos do homem e ordenou pausadamente:

– Não se mova!

Scorpius olhou o teto. Era o teto da sua cozinha. Estava deitado no chão da cozinha, numa poça fria e sentia a cabeça doer horrivelmente. E havia uma mulher descabelada e seminua usando óculos grandes demais para ela, ameaçando-o com seu próprio taco de críquete. Ela o atingira com aquilo? Levando a mão a cabeça para avaliar o estrago, tentou se sentar.

– Não se mova! – repetiu a ruiva.

Palavras desnecessárias, ele percebeu já que a vontade de se mover passara ao sentir uma pontada na cabeça que o deixou tonto. Queria sim fechar os olhos novamente, esperando que tudo aquilo tivesse acabado quando voltasse a abri-los.

Foi o que fez.

Rose aproximou-se cautelosa e olhou-o de perto. O homem estava muito pálido e o ferimento na testa parecia grave. Oh, meu Deus! E se ele morresse? Ela seria julgada culpada e iria presa.

Hugo e Lily ficariam muito transtornados se tivessem que pegar seu bebê em uma delegacia com uma assistente social, por que a tia matara um homem!

Voltando à realidade, Rose obrigou-se a raciocinar. Era óbvio que o ladrão precisava de socorro.

Se aproximando ainda mais, Rose considerou que mesmo inconsciente o homem parecia perigoso. Ainda assim ela sabia que tinha que fazer alguma coisa para ajuda-lo. Apanhou um guardanapo limpo na pia e ajoelhou-se diante dele. Suavemente, levou o tecido macio à testa machucada, tirando fios do cabelo loiro do homem do caminho. Ao se dedicar aquela tarefa, esqueceu-se do medo.

Ele abriu os olhos e agarrou-a pelo pulso, fazendo com que Rose desse um gritinho.

– Quem é você? – perguntou enérgico.

– Rose. – ela respondeu depressa. – Meu nome é Rose Weasley. Como se sente? – perguntou estupidamente.

Tentou parecer amigável, mesmo que ainda estivesse com medo. Queria que ele soubesse que estava bem-intencionada.

– Pareço bem? – ele devolveu a pergunta.

Rose não soube o que dizer.

– A-acho que si-sim. – gaguejou ela.

Scorpius sentia-se torturado pela dor de cabeça, mas mesmo assim conseguiu perceber a beleza da ruiva ao seu lado.

– Não vou lutar, se você quiser me beijar para trazer-me de volta à vida. – Zombou ele tirando o guardanapo de sua testa.

Por um momento ele achou que ela ficara tentada, mas a ruiva balançou a cabeça e levantou-se.

– Você precisa de um pronto-socorro. – falou, séria.

Scorpius não gostava de hospitais, portanto nem se importou em responder à mulher.

O celular. Foi tudo o que Rose conseguiu pensar ao ver o homem sentar-se no meio no lago de leite. Ela precisava do celular. Sua bolsa estava sobre o balcão, ao lado da geladeira, e quando tentou alcançá-la, Rose sentiu Scorpius agarrar seu tornozelo.

Foi então que desistiu de ser sensata e controlada e fez o que sentira desejo de fazer desde que percebera a presença do intruso: gritar.

Abriu a boca e gritou com todas as forças.

Notas finais
Comentem por favor! ;)