Adoráveis Inquilinos
6 Capítulo 5
Notas iniciais
Scorpius, na ânsia de fazê-la calar, puxou-a com força pelo pé. O grito parou abruptamente.
Rose caiu sobre ele, que gemeu, perdendo o fôlego momentaneamente. Os olhos dela arregalaram-se de pânico.
– Por favor, não faça isso – ele suplicou. – Não sei quem você é nem o que faz aqui, mas você venceu. Desisto.
– Venci? Venci o quê?
Rose sabia que estava começando a parecer histérica. E com todo o direito! Achava-se estatelada sobre o peito de um criminoso desalmado, um homem que invadira sua casa! E, para piorar a situação, vestia apenas uma camiseta, misericordiosamente longa e folgada.
Fazendo força para não puxar a camiseta para baixo, chamando assim mais atenção, ela concentrou-se em encarar o bandido.
Ele tinha um rosto interessante: fino, mas de ossatura forte. Demonstrava personalidade e, ela imaginou, certa arrogância e vaidade. Entretanto, a boca prometia paixão. Oh Deus! Ela estava mesmo fora de si. Perturbada, isso sim!
– Eu me rendo – Scorpius falou, cansado. – Não grite mais, por favor.
Rose notou que os olhos dele eram extraordinários: cinzentos, pontilhados de verde.
– O que disse? – perguntou incrédula.
– Esqueça. Dê-me uma faca e eu corto minha própria garganta. – ele sugeriu dramático. – Será muito mais rápido do que esse sofrimento intolerável de ouvi-la gritar.
– Eu?! Sofrimento?- ela protestou com voz esganiçada. – Não pedi para você invadir minha casa e estatelar-se no chão!
– O quê? Vai alegar que cai? E essa casa não é sua! – ele disse em tom furioso. Agarrou o taco de críquete, sacudindo-o no ar. – Esqueceu esta prova, foi? A senhora tentou me matar!
Rose estava nervosa e com medo. Não entendia como aquele homem poderia saber que a casa não era realmente dela.
– Fique parado aí! – ela falou. – Não se mova. Vou chamar uma ambulância.
Levantou-se rapidamente, ignorando o leite que escorria por suas pernas.
Scorpius deixou cair o taco.
– Vai ter que me arrastar para a rua, se quiser que a ambulância me atropele. – gemeu.
Rose convenceu-se de que ele estava mesmo delirando. Pegou a bolsa, tirou o celular e ligou para o serviço de emergência, pedindo uma ambulância.
O atendente queria detalhes.
– Sinto muito, mas não sei quem ele é. – explicou. – Invadiu minha casa e caiu na cozinha...
– Esta não é sua casa! – Scorpius gritou. – É minha!
– Ferimento na cabeça? – ela repetiu distraidamente a pergunta do homem no telefone. – Ah sim. Ele bateu a cabeça na mesa da cozinha e... Sim, está consciente, mas um tanto esquisito. Não fala coisa com coisa, sabe como é? Talvez tenha bebido. Então, vão mandar a ambulância? E informarão a polícia? Muito obrigada.
Rose desligou e deu uns passos na direção do estranho, tomando a precaução de não se aproximar demais.
– Eles logo estarão aqui. – disse para acalmá-lo.
– Diga-me uma coisa – Scorpius preludiou, depois que conseguiu erguer-se o suficiente para apoiar as costas num armário. – Você é louca, ou o louco sou eu?
Realmente, parecia bastante sério, Rose pensou aflita.
– Fique calmo. Eles chegarão num minuto.
– Espero que esteja certa – ele retrucou. – Diga-me, de onde saiu isso?
Mao saíra da poça de leite, saciado, e brincava feliz com uma casaca de ovo.
Rose observou-o por um instante. Havia algo de quase hipnótico nos movimentos delicados do animal.
– Não sei. Ele pertence à dona da casa. – ela explicou. – Essa é uma das razões pelas quais ela estava desesperada para encontrar um inquilino. Alguém precisava cuidar do gato.
– Não diga! – retrucou ele, irônico. – Muito interessante, principalmente porque a casa é minha.
Pobre, ele estava pior do que ela julgara, Rose concluiu.
– Está casa é sua? – perguntou, tentando brincar.
– Sim, senhora. – Scorpius respondeu em tom sarcástico. – E pode acreditar, quando digo que odeio gatos. E meu cão compartilha meus sentimentos. Portanto, será que pode explicar o que faz aqui?
Cão? Ela pensou desesperada. Ele tinha um cão? Não lhe bastava um ladrão maluco, havia um cão na casa!
No andar de cima, Dan começou a chorar.
– Gostaria muito de conversar, mas tenho de ir ver o bebê.
– Bebê? – ele murmurou, estupefato. – Tem um bebê aqui?
– Os dentinhos estão nascendo, coitadinho. – Rose falou, saindo apressada.
No hall, tropeçou numa mala e notou que era muito pesada. Provavelmente roubada, pensou.
– Fique quieto aí e espere a ambulância. – ela gritou da escada.
No quarto, Dan chorava e mordia a mãozinha.
Rose vestiu as primeiras roupas que encontrou e pegou o bebê. Precisava trocá-lo. E, cacetada, as fraldas estavam no andar de baixo! Na cozinha!
***
Bebê?
Scorpius apoiou-se na beirada da pia e pôs-se de pé, tentando ignorar o latejar insistente na têmpora, e as náuseas que o invadiam. Cheiro de leite quente, talco, pomada para assaduras e líquido usado para estilizar mamadeiras. Cheiro de bebê!
E por onde andaria Darcy?
De olhos fechados, ele encostou-se a pia, determinado a não passar mal. Ao abrir os olhos, deparou-se com um policial que o encarava, desconfiado.
– Graças a Deus. – murmurou. – Senhor, há uma mulher louca nesta casa. Ela me atingiu com um taco de críquete.
– Não acha melhor sentar-se, senhor? – o policial sugeriu calmamente. – A ambulância não demora.
Scorpius não precisou de outro convite para acomodar-se na cadeira mais próxima.
– Talvez, enquanto esperamos, possa me dar alguns detalhes – o policial comentou. – Pode me dizer seu nome, por favor?
– Scorpius Malfoy.
O policial anotou.
– E seu endereço?
– Rua Cotswold, vinte e sete.
– Mas essa é o endereço daqui, senhor.
– Isso mesmo – Scorpius confirmou. – Meu nome é Scorpius Malfoy e moro aqui. Esta é a minha casa.
O policial anotou e voltou-se na direção da porta, quando passos soaram na parte da frente da casa.
– Os paramédicos chegaram – avisou. – Vamos esclarecer essa história, senhor, no hospital.
Scorpius reconheceu o tom de voz de um policial dirigindo-se a alguém a quem julgava louco.
Pensou em dizer ao homem que era advogado, um conselheiro da Rainha, mas sua cabeça doía terrivelmente, e ele resolveu deixar para depois. Primeiro o hospital.
Depois, ele teria imenso prazer em dizer àquela mulher para sair de sua casa, levando o bebê e o maldito gato! Mas não antes que ela dissesse onde ele poderia encontrar Darcy.
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