Admirável Novo Mundo

6 Vi homens nus bailando nos areais


Notas iniciais
Muito obrigada à Daiana Caster por ter favoritado e à Priscilla pelo incentivo! Escrever fanfiction sobre uma novela que ainda não estreou é bem mais do que um exercício de adivinhação. Nunca tive a preocupação de que esta história e de que a caracterização dos personagens fosse uma cópia fiel do que vai passar na tv. Mesmo que o quisesse, não teria forma de o fazer. Quem começar a ler esta história daqui a alguns meses pode estranhar alguns pontos. É normal : ).

— Ainda falta muito?

Tiago percebeu que Anna já só repetia a questão com a frequência de uma criança porque percebia que a paciência dele crescia a cada dia um pouco mais, como uma planta regada amiúde e adubada com amor.

A inglesa estava testando cuidadosamente os limites que ajudava a alargar, mas o seu captor estava bem-disposto quando lhe respondeu:

— Faltam menos cinco minutos em relação à última vez que você me perguntou isso.

Eles seguiam debaixo do sol do meio-dia por uma estreita estrada de terra batida ladeada por árvores, tão apertada que não permitia a passagem de carruagens ou carroças. De todo o trajeto da viagem a dois, talvez estivesse sendo aquela a porção mais aborrecida.

As semanas anteriores tinham servido para se livrarem das regras e das convenções que lhes tinham imposto. À medida que avançavam na linha do trajeto mental decorado por Tiago, que se concluiria com a chegada ao esconderijo dos piratas, reconheciam o quanto poderiam aprender um com o outro, o valor dos conhecimentos de que ainda não dispunham.

Anna e Ferrão não tinham hora para comer e dormiam onde tinham vontade de o fazer. Não tinham grande coisa com que matar a fome, mas tiravam fruta das árvores e bebiam água pura dos riachos.

Miss Millman se apaixonava por aquele país imenso. Dentro dela brotava a vontade de lançar raízes na terra virgem que se espalhava até perder de vista e se deixar crescer, de levantar as mãos para o céu aberto que a acolhia e deixar que o sol sempre presente a abençoasse.

Os elementos finalmente estavam do lado deles. Passavam dias sem praticamente ver outra alma humana, salvo os raros viajantes exóticos com que se deparavam ocasionalmente, mas o bom tempo favorecia o contato com os bichos que não se escondiam à passagem do casal.

As noites eram de céu limpo estrelado, iluminação natural que os acompanhava quando, quase de propósito, eles se esqueciam de avivar a fogueira que se apagava no acampamento daquele dia, com o passar das horas noturnas.

Ferrão gargalhava com as histórias que Anna lhe dava a conhecer sobre o que ele não dominava. Tomara a ele ter mil e uma noites para ouvir todas aquelas histórias que ela lhe contava porque o reportório da inglesa parecia não ter fim.

Numa noite, se tinham divertido durante horas com as peripécias de Lord Byron com as suas amantes. Nem Miss Millman sabia que tinha o à vontade necessário para conferir veracidade às versões levemente mirabolantes e definitivamente picantes das aventuras amorosas do poeta inglês.

Deitados lado a lado, a inglesa e o pirata viam o fio de fumo ascendente da fogueira sem lume subindo ao céu e riam, num contágio sem fim.

— Não acredito que ele acabou casando com a prima da amante!

Tiago falava enquanto segurava a barriga que se contraía com as gargalhadas com uma mão e usava a outra para limpar uma lágrima feliz.

Anna se voltou de lado e lhe piscou o olho, comentando entre o riso:

Well, Lord Byron manteve tudo em família. Right?

O pirata arregalou os olhos e escondeu a boca com a mão, num falso tom de surpresa e repreensão:

— Anna Christine Millman! Não acredito que isso está saindo da sua boca!

Divertida, ela o atacou com cócegas no abdómen, ponto sensível que colocou o másculo capitão com mais lágrimas nos olhos do que aquelas que ele conseguia limpar:

— Eu não posso estar rindo assim. Parece que eu sou um idiota.

— E você não é?

A madrugada é dona do período de tempo em que a gargalhada sai sem controlo, nem razão necessária. Anna Millman e Tiago Ferrão deixaram esgotar todo o riso contido no corpo antes de se deixarem envolver pela quietude do cansaço.

— O progresso vai trazer muita coisa boa, eu juro.

O pirata voltou a abrir os olhos quando sentiu que ela preferia continuar a conversar calmamente em vez de adormecer. Anna não esperava resposta enquanto alisava as mechas de cabelo comprido porque já sabia que tinha a atenção dele:

— Já te expliquei sobre a vacinação. A inoculação pode salvar muitas vidas, Captain.

A colonização e a aculturação eram os temas em que os dois teimosos resistentes mais chocavam, semeando discussões que podiam durar desde minutos até dia completos, mas até Ferrão compreendia os pontos básicos em que teria que ceder perante a inglesa.

O Capitão enlaçou as duas mãos debaixo da cabeça e respondeu tranquilamente à pergunta não formulada, cruzando as pernas debaixo na manta:

— Eu posso viver no mato, mas meus dois ouvidinhos funcionam muito bem, senhorita. Vi muitos homens morrendo de doenças. Demasiados. Se existe hipótese de ajudar a minha gente, claro que quero que eles sejam vacinados.

Anna encarou aquela reação como uma vitória, trincando sorridentemente o lábio inferior para conter um grito celebratório:

— Você até que sabe de algumas coisas do mundo, Tiago Ferrão…

Ele suspirou, sabendo que estaria extravasando palavras que poderiam fazê-lo cair rapidamente em areias movediças:

— Lógico que sei. Por exemplo, sei que, graças ao alvará de Dom João, os ingleses conseguem vender mercadorias no Brasil a uma taxa de imposto muito inferior à dos outros produtos importados. Sei que, graças a esse contrato, o desenvolvimento industrial brasileiro é mínimo porque não dá para competir com os produtos ingleses.

Se tratava de muito dinheiro rolando entre pouca gente e Anna Millman sabia disso até ao mais ínfimo pormenor.

Nos últimos tempos, Anna vinha pensando muito nas mesmas pessoas. Pensava em Tiago, no rei dele, no rei dela, no Conde e no pai perdido. A inglesa se sentia desorientada entre tantos homens. Teria que obrigatoriamente servir voluntariamente a algum deles, ou seria uma marioneta domada de outro?

Ela estava cansada de tantos raciocínios forçados, da certeza da necessidade de se proteger de um mundo que lhe era desleal, mas que a puxava para si, e esticou o braço, abrindo a mão, a usando para tapar a boca do pirata, pedindo suavemente enquanto aninhava a cabeça no ombro de Tiago:

Shhh…. Shut up, Ferrão. Está uma noite demasiado agradável para você começar com os seus discursos políticos intermináveis.

As estrelas brilhavam para os dois, do mesmo modo que iluminavam todos quantos pisavam naquele momento em território brasileiro, sem cobrar uma taxa ou um imposto por isso.

O Capitão esperou que a sua refém adormecesse, antes de ter a palavra final que ela já não tinha capacidade de ouvir:

— Anna, a ganância dos tiranos só acaba de um jeito: com a morte deles. Não dá para ser de outra forma.

— Mas, afinal, falta muito, ou não, Mister?

Quem ouvisse apenas as palavras de Anna Millman, disparadas enquanto caminhava atrás do Capitão Ferrão pela estrada apertada, depois de um curto almoço improvisado, juraria que ela não via a hora de deixar de estar sozinha com ele.

Ele bem lhe podia ter prometido ser aquele, o dia em que voltariam a embarcar no navio trazido por Piatã e pela restante tripulação, mas a linguagem corporal da inglesa a denunciava quanto ao boicote que ela vinha fazendo, atrasando propositadamente a hora em que chegariam na praia.

Anna se movia com a celeridade deliberada de uma tartaruga, bocejando enquanto pensava numa desculpa para pararem mais uma vez.

Desejoso de rever os seus homens e de reclamar o seu novo barco, Ferrão ignorava a verdade escondida nas entrelinhas do comportamento da britânica:

— Você não deveria estar tão cansada. Ainda ontem te arranjei um quarto com colchão e tudo.

Na véspera tinham encontrado uma pequena aldeia. Por sorte, na semana anterior tinham conseguido negociar com um comerciante um vestido mais apropriado para uma senhora e que evitava que Anna fosse confundida com uma mulher da vida.

Aquele infame traje de meretriz que ela tinha usado tinha levado Tiago a entrar em diversas escaramuças nas semanas anteriores, de cada vez que se cruzavam com um homem que se aproximava de Anna solicitando os seus serviços.

O abençoado vestido tinha vindo em boa hora. Se Ferrão levasse mais um murro no nariz, corria o risco de nunca mais o conseguir endireitar.

Se aldeia onde tinham tropeçado era pequena, a estalagem era mínima.

O velho estalajadeiro estava encostado na porta de entrada e ficou admirado com a aparição daqueles forasteiros, mas, percebendo que deviam ser pessoas de nível, relaxou o sobrolho e retirou o cachimbo da boca, explicando as limitações do local:

— Temos apenas um quarto livre. Não sei se isso é um problema para o Senhor…?

— Campana. Fábio Campana. Nem tem problema absolutamente nenhum. Essa é a Giane, minha esposa.

Tiago era rápido a improvisar disfarces, preferindo aproveitar as pistas que o ambiente envolvente lhe fornecia. Ouvindo o sino tocando no campanário, assumiu o nome que lhe parecia ser seu e colocou o braço em volta da cintura da mulher que parecia também lhe pertencer.

Claro que o sotaque italiano que o Capitão tentou assumir parecia uma piada de mau gosto, mas o estalajadeiro fingiu não notar a falha.

O quarto era mínimo e o colchão de palha parecia ter passado o seu prazo de validade, com uma cova no seu centro que se assemelhava a um buraco prestes a acontecer, mas era limpo.

— Esposa, really? Custava muito ter dito que eu era sua irmã?

Anna não estava preocupada com a falta de estilo do cómodo, mas com a reputação que Ferrão lhe tinha dado minutos antes.

Nada arrependido do parentesco inventado antes de tempo, Tiago não tinha perdido a oportunidade de já estar sentado na cama tirando as botas, não vendo a hora de fazer uso do leito:

— E quem é que ia acreditar nisso?

No dia seguinte, Tiago Ferrão também não conseguiria acreditar que a Anna Millman faltava a vontade de retornar à civilização.

Querendo acelerar o ritmo de marcha até ao ponto de encontro, o Capitão aproveitava a oportunidade de contato próximo, massageando o pescoço contraído da inglesa:

— Coragem, Marquesa. Em algumas horas estaremos confortavelmente instalados no meu novo navio, o grande Lobo do Amor II.

Ela trincou o interior do lábio inferior e abriu um sorriso tímido. Estava aprendendo a conter os gracejos de resposta a Ferrão ao mínimo indispensável:

— Temo pelo dia em que você vai ter filhos para batizar, Captain.

Quando menos esperavam, já tinham chegado no local acordado e Piatã os aguardava, sentado debaixo da sombra de uma árvore. Tiago correu até ele e o abraçou com força, deixando escapar gargalhadas de alegria.

Aquele era um reencontro de irmãos e Anna se sentiu uma intrusa, olhando para o chão para evitar se sentir excluída.

Estavam relativamente perto da praia onde, dentro de uma previsão de horas, chegaria o novo barco de Ferrão, carregando a sua velha tripulação.

Com tempo de sobra para queimar, Anna pediu para conhecer o outro extremo da orla costeira e, incapaz de lhe recusar o pedido, Tiago acedeu a levá-la.

Ela esperava um quadro natural do paraíso, mas foi uma imagem diametralmente oposta, a que viu quando os três atingiram o extremo do areal.

Automaticamente, Piatã se escondeu, enquanto Tiago puxou Anna para se ocultar atrás das dunas.

Na praia, um jovem negro fugia numa corrida desigual. Ele era só um e os seus perseguidores eram muitos. Ele não tinha armas e os outros estavam protegidos até aos dentes. O negro não teve hipótese. Mesmo com uma agilidade que parecia sobre-humana, estava cercado por todos os lados, e foi chicoteado até cair inerte.

Enojado, o trio não conseguia desviar o olhar daquela praia. Aquele homem era tratado como um criminoso apenas por estar reduzido à condição de escravo.

— Ninguém nasce com correntes nos braços, Marquesa.

Irrefletidamente, ela se levantou com a declaração do Capitão, a tomando como um manifesto de guerra aberta, mas Tiago a puxou novamente para o chão de areia:

— Eu entendo. Vamos fazer justiça, mas com inteligência, Marquesa. Lutar sem planejamento é suicídio.

O plano do Capitão envolvia a relativa segurança dos números e foi mesmo essa a indicação que ele deu ao segundo no comando:

— Piatã, você volta pra trás correndo. Se o navio já tiver chegado, você traz todos os homens em condições de lutar e todas as armas que a gente tiver.

O índio partiu sem colocar objeções, mas Anna e Ferrão se mantiveram atentos ao movimento na praia e seguiram, mantendo distância, os negreiros arrastando o jovem quase desfalecido até ao ponto da enseada em que se escondia um navio.

A inglesa sempre achara uma graça toda especial aos modos um pouco rudes do Capitão, à forma brusca que Ferrão tinha de se manifestar. Tiago dizia o que pensava sem se impedir de ser visceral, mas, daquela vez, mesmo sem culpa disso, as palavras dele doíam fundo nela:

— Nenhum animal trata outro como o homem trata o seu semelhante. Nenhum bicho mata outro sem um motivo forte. Nenhum animal rouba a liberdade de outro. E eles é que são irracionais. Você já tinha parado para pensar nisso? Por dinheiro ou por poder, há gente que fere ou mata inocentes.

Até àquele ponto, Anna julgava conhecer o suficiente da natureza humana. Ainda muito jovem, tinha conhecido a elegância artificial da Europa, a vida pacífica da Ásia e algumas pinceladas do calor de África, mas nada no mundo a tinha preparado para encarar a realidade da América do Sul.

Naquele ano do Senhor de 1817, metade da gente daquela terra chamada Brasil atendia pela condição de escravo.

— A alma não tem cor, Marquesa. Quando um homem rouba não é porque é branco, nem porque é negro. É porque é ladrão.

Tiago lia o que ela pensava, o modo como o seu corpo se contraía com a aflição e a revolta, e lhe respondia com palavras:

— Calma. Vai dar tempo. Eles vão ter que seguir a pé com os escravos para norte pela praia. A única estrada em que passa uma carroça fica bem mais acima.

Enquanto Anna esperava ansiosamente que chegassem reforços, os negreiros descarregavam do barco o que chamavam de mercadoria.

Confusos depois de meses de navegação fechados em condições desumanas no porão de um navio e sujeitos a castigos corporais indescritíveis, os sobreviventes à provação não reconheciam aquela terra que não era a sua.

Homens, mulheres e crianças tinham resistido amontoados em cubículos, sem deixar morrer a esperança que mirrava com a fome, a sede e com as doenças instaladas e não tratadas, mas lhes remoía a alma à medida que aumentava a consciência de que os afastavam da sua pátria e da sua dignidade elementar.

As famílias eram separadas de acordo com o valor monetário atribuído pelos piratas negreiros. Os seus gritos ecoavam dentro de Anna e lhe pareciam tornar-se seus também, ainda que ela não emitisse som.

Agrilhoados uns aos outros em filas indianas, os escravos avançavam pela praia à força do movimento incessante dos chicotes dançando pelo ar, desconhecendo o destino que os aguardava.

Eram lobos pouco amorosos, os homens de Ferrão que chegaram sub-repticiamente, carregados de armas e prontos para embater de frente com os negreiros quando o Capitão desse a ordem de início do ataque.

Devidamente equipado, o pirata-mor deu uma outra ordem à sua refém quando decidiu que ela não participaria da luta.

Tiago não iria conseguir domar a fera. Anna não queria que ele a tratasse como uma inferior:

— Você está me deixando para trás porque eu sou mulher?

Ele conferiu se a pólvora da pistola estava devidamente seca antes de responder olhos nos olhos:

— Nunca. Estou te deixando para trás porque não quero que você se magoe.

Perito na contradição de ações, mal tinha partido, já Ferrão voltava para trás com a espingarda apontada ao chão e, com a mão livre, apertava Anna pela cintura e plantava um beijo profundo nos seus lábios:

— Um beijo de boa sorte, Marquesa.

Era uma justificação plausível para quem se arriscava a morrer brevemente, mas a inglesa só se conseguia focar naquele safado, depravado com um sorriso maravilhoso que a despia de tudo só com o olhar.

No calor do campo de batalha arenoso, o Capitão Ferrão não demorou a reconhecer o líder dos seus adversários, o alvo a abater para conseguir terminar aquela carnificina com o mínimo de derramamento de sangue.

Os negreiros eram comandados pelo pirata Fred Sem Alma, dono de uns conhecidos olhos claros que não escondiam o verdadeiro conteúdo escuro. Na verdade, Fred tinha alma, mas uma completamente corrompida por si mesmo.

Os homens de Fred podiam ter sido apanhados de surpresa, mas sabiam atacar muito mais do que se sabiam defender. Não tinham grande amor à vida, ainda que naquele caso se estivesse discutindo a sua.

Os dois lados lutavam por ideais opostos, mas a peleja era equilibrada. A areia se tingia de vermelho à custa dos dois grupos, numa proporção contrabalançada.

Lendo corretamente as intenções do grupo de Ferrão, foram os escravos a fazer pender a balança da justiça na direção correta. Despidos de armas bélicas, os negros sequestrados se libertavam e lutavam do lado da tripulação do Lobo do Amor, usando as mãos livres como arma.

Aproveitando a frecha, Tiago correu atrás de Fred para terminar a peleja com a sua rendição. O Capitão tê-lo-ia conseguido fazer depois de minutos de um combate de esgrima que o deixou com pequenas mazelas, mas fez grandes estragos em Fred Sem Alma, mas o desalmado lutou de forma suja ao cegar Ferrão, lhe atirando areia para os olhos.

Rindo da sua em breve vítima, Fred Sem Alma levantou uma arma e a apontou à cabeça de Tiago.

Ferrão estava desarmado. A morte o encontraria pela mão de um indivíduo da pior espécie, pela bala disparada de um cano de pistola segurada por quem seria capaz de vender o próprio irmão.

O tiro veio, mas acertou no pirata do navio negreiro que tombou na frente de Tiago, com a cara enfiada na água rasa.

O Capitão do Lobo do Amor tinha sido salvo por um tiro perfeito a uma distância de cinquenta metros.

Anna equilibrava o mosquete na mão com a mesma graciosidade com que seguraria uma flor, mas com uma pontaria que faria a inveja de muitos generais renomados.

Onde é que a Marquesa tinha aprendido a disparar assim? Aquela garota era um poço sem fim de surpresas.

A vingança se serve fria, mas aqueles negreiros revoltados não deixariam arrefecer a oportunidade de exercerem uma represália logo naquele momento, cozinhando Anna num lume nada brando.

Tiago correu na direção da sua refém, mas não encontrou trajetória de fuga possível para os dois. Estavam cercados.

Eram dez negreiros enfurecidos contra o par inocente. Em algum universo, deveria ser uma luta equilibrada.

Costas contra costas, Tiago ofereceu a própria espada a Anna e levantou o sabre roubado a Fred Sem Alma.

Ferrão e a inglesa não encontraram os olhos, mas apertaram as mãos livres antes de se lançarem sobre os opositores. Conseguiam alimentar-se da vontade de sobreviver e da necessidade vital de garantir que o outro não sucumbisse.

Ela lutava com elegância e ele lutava com força bruta, mas ambos atingiam bons resultados, derrubando os inimigos, a custo, mas eficientemente.

Quando fez cair o último homem, Tiago se voltou de imediato para que, depois de sujar as mãos com sangue alheio, Anna fosse a sua primeira visão.

O paraíso da Marquesa estava irremediavelmente conspurcado. Ela não poderia voltar a ver o país com os mesmos olhos.

Era tempo de enterrar os mortos e cuidar dos feridos.

Os homens de pele mais clara e os homens de pele mais escura não conheciam as mesmas palavras, mas os gestos de agradecimento não conhecem fronteiras.

As mesmas armas que tinham servido para matar, serviam agora para libertar os negros das correntes que lhes tinham imposto.

Sentada na areia enquanto tentava brincar com as crianças para as distrair do inferno que tinham vivido, Anna deixou escapar por entre os dedos um punhado de fina areia. Também o seu tempo de liberdade lhe parecia finito.

Era um sentimento misto muito profundo, ver aqueles meninos e aquelas meninas sorrindo depois de tudo o que tinham passado.

Se as verdadeiras vítimas não se queixavam, ela não se sentia bem chorando por eles, mas não tinha como se segurar.

Anna se levantou e procurou por Tiago. Depurada a adrenalina descarregada durante a luta, as lágrimas vieram ao de cima e se soltaram numa voz apertada de emoção e incredulidade face ao que tinha vivenciado e nunca mais poderia apagar.

Anna Millman lutaria até ao momento em que imagens como aquela fossem apenas uma recordação má de um passado longínquo:

— Faz quase sessenta anos que Portugal acabou com a escravatura na Metrópole e na Índia. Porque é que não fizeram o mesmo aqui?

Sem pedir licença, Tiago a abraçou. Ninguém tinha que se fazer de forte:

— Por causa do lucro fácil, Anna. Massacram os revoltosos e perseguem os fugitivos, aplicando castigos horrendos. Mas um dia tudo isso vai acabar, como tudo de ruim tem que acabar um dia.

Eles deixaram os brancos negreiros sobreviventes partirem em paz, mas lhes ficaram com o barco. De qualquer forma, com a papelada em ordem, ninguém os poderia prender por um crime inexistente à face da lei.

Quanto muito, apenas Ferrão e a sua tripulação tinham cometido crimes de roubo, agressão e homicídio. A justiça era uma senhora cega que não tirava a venda.

Apenas poderiam tentar fazer o melhor pelos inocentes maltratados. Ferrão sabia para onde os levar. Em dois dias de navegação encontrariam tripulação disposta a fazer a viagem inversa até ao continente africano.

Tiago se comprometeu a pagar do seu próprio bolso o regresso seguro de toda aquela gente à sua pátria em África. Tinha contactos que o fariam sem colocar objeções, desde que bem recompensados em ouro.

Homens, mulheres e crianças seguiam felizes, de mãos dadas, pela areia em direção ao navio. Vistos ao longe, enquanto o sol começava a descer, pareceriam uma muralha de muitos níveis diferentes recortada pela cor laranja.

Anna e Tiago lideravam uma caravana bem-aventurada que seguia no caminho da liberdade.

Na inglesa, qualquer coisa lhe parecia explodir no peito. Dentro dela, crescia a primeira certeza de estar lutando do lado certo e de que as suas ações fariam a diferença.

A inglesa pegou na mão livre do pirata e seguiu do lado dele, não o conseguindo encarar nos olhos, mas deixando escapar um pequeno sorriso:

— Você quase passava por um cavalheiro, Ferrão. Quase.

Notas finais
Não duvido mesmo nada que Anna e Ferrão tenham sido os antepassados da família Campana. Isso explicaria muita coisa. Por outro lado, consigo ver Plínio entusiasmado com a ideia de fazer um filme com a história dos seus tetravós : ).Pesquisar dados sobre a escravatura no Brasil é impactante. Em Portugal (metrópole), a escravatura foi abolida em 1761. É uma realidade vergonhosa demasiado longínqua. Em 1817, o Brasil tinha 3,6 milhões de habitantes e 1,9 milhão de escravos e a escravatura só foi abolida em 1888. Escrever este capítulo foi imergir numa realidade hedionda e vê-la numa nova perspetiva. Beijo para todos!