Admirável Novo Mundo
7 E ouvi o fundo som das suas falas
Notas iniciais
O mar calmo nunca fez bom marinheiro, mas embala suavemente os bons ouvintes e as conversas íntimas.
Na cabine reservada ao Capitão, Tiago Ferrão aproveitava o tempo morto do dia para fazer a barba, adotando o estilo que ele sabia ser apreciado por Anna: o aspeto visual levemente rebelde de um anti-herói, mas suficientemente composto para não ser tomado por um delinquente nocivo.
O pirata nunca admitiria perante a sua tripulação esse raciocínio que o impelia à ação para criar uma reação na loira. Se alguém lhe perguntasse, ele diria que, se a inglesa tinha insistido em pagar um balúrdio pela compra de um bom espelho veneziano, ele teria que lhe dar muito uso.
Teria sido bem mais grave se Anna o tivesse convencido a comprar o papagaio verde de que ela tanto vinha falando. Parecia que a inglesa estava decidida a viver todos os lugares comuns da pirataria à medida que somavam locais visitados em conjunto com a tripulação do Lobo do Amor II.
Ferrão limpava a película de água condensada nascida do vapor sendo pego de surpresa pela superfície do espelho, quando a sua Primeiro-Tenente favorita empurrou a porta entreaberta, relatando com a rapidez de uma pá de moinho sofrendo a ação de um ribeiro cheio as ordens que ela tinha dado para a tripulação.
Afiando a navalha numa tira de couro enquanto a ouvia, Tiago se pegava sorrindo com o entusiasmo de quem, meses antes, passava metade do dia criticando as ações do Capitão e a outra metade muda de amuo para com ele.
Anna se sentia profundamente viva enquanto contava os simples arranjos do dia e os pequenos ajustes de trajetória, compondo a camisa emprestada por Ferrão que teimava em fugir das calças que lhe sobravam no quadril, apertadas por um cinto improvisado de corda entrançada.
A inglesa tinha uma cor saudável na face, mas tinha deixado bronzear a pele imaculadamente branca num tom que seria tomado com horror pelas damas de qualquer corte europeia.
Tiago começou a ensaboar a barba enquanto ela tentava compor o cabelo que lhe fugia de um rabo-de-cavalo preso com uma tira de tecido mas, baixando as mãos num gesto de resignação, a loira soprou com força sobre uma madeixa de cabelo para a retirar da face.
Encostada na ombreira da porta, a inglesa deixou escorregar a cabeça até a apoiar na madeira. Se tinha secado a sua fonte de palavras jorradas e tinha sido inundada por dúvidas martelantes que lhe pesavam no seu íntimo:
— Você sempre soube que queria ser um pirata?
Ele terminava de passar o sabonete na barba amolecida. Não podia ter a responsabilidade de escolher por Anna o seu futuro, nem queria revelar verdades secretas que pertenciam a outros e não só a ele:
— Tem coisas em que é a vida que escolhe pela gente, Marquesa.
Anna Millman estava decidida a aproveitar a oportunidade de decidir por si mesma o rumo da sua viagem. Não lhe tinham passado despercebidos os olhares de felicidade de Ferrão, nem a forma desajeitada como ele reagia à presença a bordo da inglesa.
A superstição dos marinheiros ditava que mulheres a bordo davam azar, mas todos aqueles homens aprendiam que Anna era um amuleto de boa-sorte e se rendiam não só aos seus encantos, bem como às suas ordens.
Anna Millman escolheu naquele momento se aproximar de Tiago e ele baixou a lâmina da navalha trabalhadora enquanto ela ajeitava e desajeitava com as mãos o cabelo do Capitão, numa brincadeira de criança travessa.
À leve movimentação da água do mar debaixo do Lobo do Amor II, se juntou o movimento da água chapinhada misturada com lascas de sabão que caíram como flocos sobre o chão que se tornou escorregadio, mas Anna segurou o Capitão para que Tiago não deslizasse:
— Você não quer admitir, mas adora a minha companhia. Por isso é que ainda não me devolveu.
Ele sorriu. Tiago tinha uma expressão tão desvanecida, tão feliz, que só não tornava público o seu amor porque era um assunto que não passava pela cabeça de ninguém entre a sua tripulação. Um pirata não se pode deixar apegar.
O Capitão pousou devagar a navalha para não ser atraiçoado pelo tremer da mão, tentando parecer indiferente, mas falhando nesse propósito:
— Não te estou obrigando a ir embora. Se você quiser ficar, não tem problema.
Foi a vez de Anna sorrir em resposta. Aquela era uma proposta que a agradava. A liberdade estava ao seu alcance. Bastava que Tiago fizesse circular a notícia falsa da morte da sua refém e deixariam de a procurar. A inglesa poderia fazer o que quisesse da sua vida:
— Vou pensar com carinho nessa sua proposta, Ferrão.
Ela era o melhor oficial que ele tinha tido a bordo. Tiago tinha voltado a contar a passagem do tempo. Anna o obrigava a isso. Ela tinha ficado horrorizada quando percebeu que nem o Capitão, nem a restante tripulação, se preparavam para celebrar o Natal e fez questão de juntar aquela família disfuncional de muitos credos à mesma mesa.
Juntos, se prepararam para receber um novo ano cheio de promessas que Anna registou no seu recente diário de bordo. Era um bom augúrio que o novo ano fosse representado por um número capicua. As contas de 1818 representariam muitas esperanças e desejos escondidos.
Naquele início de ano, outros desejos eram já resolvidos à luz do dia:
— Pode pensar devagar, mas vai se trocar depressa, Marquesa. Terra firme nos aguarda em pouco tempo.
O Capitão falava a verdade. Em poucos minutos, desembarcavam numa nova praia e, num dos seus passes de mágica, Ferrão tinha desencantado um cavalo para a levar para conhecer uma cidade vizinha à baía.
A Marquesa podia continuar brincando quanto à capacidade de Ferrão para ser um cavalheiro, mas, agarrada com força à cintura dele enquanto o Capitão fazia galopar o animal pela estrada aberta, fazendo voar o vestido dela, tinha que concordar que ele tinha dotes de bom cavaleiro.
Todavia, Anna não teve outra opção a não ser protestar quando Tiago parou o garanhão na frente do prostíbulo da cidade. Era demasiado para o seu orgulho de dama inglesa virtuosa conseguir engolir:
— Não acredito que você me trouxe numa casa de marafonas!
Ele desceu do cavalo e a ajudou a desmontar, a segurando pela cintura e ignorando as unhas que ela lhe espetou nas costas, antes de responder:
— Não trouxe. A senhorita vai ficar aqui na rua enquanto eu trato de alguns assuntos importantes.
A temperatura interna da inglesa subiu repentinamente, saltando os graus elevados do ambiente envolvente:
— Captain, tenho medo de perguntar o que é que você considera assuntos importantes a serem tratados num local como esse.
Ele riu. Não tinha contado que aquela reação exagerada o agradasse tanto, mas se apressou a dar uma explicação plausível:
— Informações, Anna. Só isso. Não existe melhor local para encontrar gente predisposta a abrir a boca do que num bordel.
Ela entendeu a duplicidade da resposta e murmurou pausadamente, olhos apertados crivados nos olhos de Tiago:
— Safado.
Ele se limitou a pegar a bolsa com as moedas e a levar a mão à aba do chapéu, num ligeiro gesto de curta despedida:
— Hoje, você é uma promessa. Te prometi que te comprava um vestido de bordado inglês, não prometi? Quando eu acabar aqui, a gente vai no mercado e você compra as suas coisas femininas.
Ela fez um beicinho charmoso, cruzando os braços sobre o peito enquanto lhe devolvia o esclarecimento indispensável:
— Xampu e sabonete são necessidades básicas, Tiago.
O Capitão a puxou pelo braço e a beijou respeitosamente no dorso da mão, atravessando depois a rua. Ultrajada, Anna assobiou para lhe chamar a atenção, antes que ele desaparecesse da sua linha de visão:
— Hey, you! Não tem medo que a sua prisioneira fuja?
Anna e Ferrão estavam completamente alheados do infindável tráfego de carruagens e pedestres que se colocava entre eles. Do outro lado da via, Tiago lhe piscou o olho, descartando de uma forma brincalhona essa hipótese:
— Não. Aconteça o que acontecer, você sempre volta para mim.
Anna Millman sabia que não teria paciência para ficar plantada à espera de Ferrão e resolveu fazer um reconhecimento pelos arredores.
O passeio acabou encurtado quando a sua atenção ficou presa a uma folha amarela com um desenho tosco que estava afixada a poucos metros dela.
Se aproximando, Anna arrancou com um único puxão o papel da parede, o que de pouco adiantava para o seu propósito.
A inglesa logo percebeu que o idiota inconsciente do seu pirata tinha o seu retrato estampado em múltiplos cartazes espalhados pela cidade.
No fundo da rua, dois dragões do exército português terminavam a sua patrulha e amarravam os seus cavalos na porta do prostíbulo, o seu local habitual de visita, finda a passagem de turno.
Correndo, Anna entrou no local antes deles. O escravo com função de porteiro estranhou a sua presença, mas, num local habituado a excentricidade, a normalidade é que seria de repelir.
Numa das mesas dos fundos, Ferrão enchia a caneca de um homem claramente ébrio, mantendo uma conversa sem nexo, mas que o parecia divertir.
Reconhecendo a presença da loira fugitiva, Tiago se levantou de imediato e se transfigurou:
— Porque é que você entrou, sua louca?
— Porque você é um criminoso procurado, you stupid!
Os militares transpunham a porta e mostravam que, mais do que para lazer, o motivo da sua visita era trabalho.
Anna se sentou num dos bancos corridos e empurrou Tiago para debaixo do vestido dela, ajeitando a saia em redor do corpo do pirata.
Mesmo num local cheio de mulheres bonitas e decididas a agradar a homens, a presença de inglesa chamava a atenção masculina e foi na direção dela que um dos dragões se dirigiu, atraído pela visão da figura da loira, perguntando com um sorriso nada disfarçado:
— A senhorita é nova na vila?
Ela compôs a resposta, lançando um charme ligeiro ao mesmo tempo que procurava manter a distância física:
— Pode-se dizer que sou uma recém-chegada.
Debaixo da saia do seu vestido, Anna sentia Ferrão se agitando com a ânsia de se manifestar, o que levou a que a inglesa apertasse as pernas para conter os seus movimentos.
Dividida entre duas frentes de batalha, a inglesa bem reparou quando o militar se resolveu por investir na sua conquista, divertido ao senti-la levemente constrangida com algo que ele não conseguia entender.
Se inclinando sobre ela ao mesmo tempo que usava os olhos para examinar de uma forma descarada a forma dos seios da loira, o português lhe ofereceu uma bebida para a colocar à vontade:
— A senhorita permite que lhe ofereça um copo de vinho?
Ela ia aceitar para não cometer a gafe de uma desfeita, mas sentiu um pé que não era seu sair de debaixo do seu vestido e acertar diretamente na perna do dragão.
— Porque é que me deu um pontapé na canela, sua doida?
O português saltava de dor, agarrado ao seu pé, e não percebia como aquela desalmada nem se levantava do banco para o ajudar.
Anna se limitou a dar um sorriso amarelo e a compor a saia em seu redor, antes de soltar uma única palavra como explicação:
— Espasmos.
O militar soltou impropérios, mas não se atreveu a exercer violência sobre uma mulher. Se afastando num coxear ligeiro e com o orgulho ferido, o português fez sinal ao seu colega para que partissem de imediato.
— That was close.
Anna suspirou o comentário, enquanto Tiago saía gargalhando de debaixo do seu vestido e se sentava do lado dela.
Foi antes de tempo. Um dos dragões voltava para pegar uma luva esquecida e bateu o olho no banco dos fundos.
Rápida na reação, Anna se sentou no colo de Ferrão enquanto o safado escondia a identidade enfiando a cara no peito dela, provocando uma revolta muda no dragão rejeitado.
Finalmente a sós com os divertidos ocupantes do lupanar, depois da saída final dos militares, Tiago demorou o seu tempo a desencostar a face dos seios da inglesa, mas a levantou no colo e rodou com ela nos braços, quebrando garrafas e copos no processo.
Mais do que admiração, a necessidade de extravasar sentimentos de felicidade lhe saía da constatação de que a loira se preocupava com ele:
— Você é qualquer coisa de extraordinário, Anna Christine Millman…
Ambos se comportavam de forma excecional perante perigo. O mesmo constatou a loira quando, horas depois, finalmente carregavam o cavalo e se preparavam para voltar para o navio:
— My God, Captain! Uma pessoa inteligente teria fugido na hora da vila. Não teria passado as últimas horas tranquilamente fazendo compras enquanto passeava com uma refém. Qualquer um podia ter gritado: pega ladrão!
Tiago sorriu enquanto continuava a encher os alforges com os gastos do dia:
— E a senhorita cheia de charme, o que andou fazendo quando desapareceu todo aquele tempo com a bolsa das moedas?
A resposta dela nasceu de um sorriso simples de confissão compreensível:
— Compras.
Anna levou a mão ao bolso e retirou dele um medalhão singelamente gravado com uma figura de santo, abrindo a corrente de prata e se esticando para a colocar ao pescoço do Capitão.
Ele levantou a imagem ao nível dos olhos, inquirindo desconcentrado com a oferta inesperada:
— E quem vem a ser esse cavalheiro?
— São Dimas. O bom ladrão que foi crucificado do lado de Cristo.
Se ser categorizado com um bandido era lugar-comum na sua vida, ser adjetivado como bondoso era uma estreia para Ferrão, que se emocionou visivelmente com a prenda e a lembrança, deixando encostar o círculo de prata no peito:
— Você acha que eu sou um bom ladrão?
Anna tapou com a própria mão o medalhão pousado no tórax do pirata e replicou num tom profundo de emoção incontida:
— Acho que você nem entende aquilo que consegue roubar.
Com uma alegria infantil, Tiago a surpreendeu e tocou ao de leve com o indicador por cima do ponto onde ela usava o medalhão de família, replicando depois o gesto no seu próprio medalhão. Estavam unidos por um segredo que pertenceria apenas aos dois.
No final do trajeto de regresso, a tripulação do Lobo do Amor II os aguardava na praia, mas não estavam sozinhos.
Mal desmontaram do cavalo, um dos piratas avançou para Tiago, empurrando um homem marcado por uma luta corpo a corpo:
— Olha o peixe graúdo que a gente apanhou, meu Capitão.
Apesar de se já terem passados alguns meses, o prisioneiro não era desconhecido por nenhum deles. Preso com os braços atrás das costas, Charles Johnson se agitava com a situação e gritava na direção da sua conterrânea:
— Você tem que voltar comigo, Anna. É mais do que tempo. Uma águia tem sempre que regressar ao ninho. Você consegue entender?
Tiago se preparava para mandar prender Charles no porão, mas sentiu uma pressão de finos dedos alvos em torno do seu antebraço, o refreando de fazer o que quer que fosse. Anna estava séria e a cor lhe tinha fugido da face durante o pedido angustiado:
— Please, Captain. Me deixe falar a sós com Charles.
Tiago Ferrão ficou vendo os ingleses descerem a praia até abafarem o ruído das suas vozes. As palavras entre eles eram levadas pelo vento desleal no sentido contrário ao do amontoado de homens que as tentavam descortinar.
Na frente da sua tripulação, a raiva cega de Tiago lhe contraia os músculos e cerrava espontaneamente os punhos, sendo todos testemunhas do agitar de braços e apontar de dedos da discussão infindável entre Anna e Charles.
O Capitão se empedernia por dentro para que não lhe doesse observar tanta demonstração de fortes sentimentos. Se tratariam de códigos secretos de amor entre os seus dois prisioneiros?
Ver Charles finalmente domar a extensa conversa e abraçar uma desistente Anna, movendo pausadamente os lábios junto ao ouvido da inglesa, fez quebrar qualquer coisa indefinível dentro de Tiago.
A dama de companhia da futura rainha do país e o agente do já rei voltaram juntos para junto dos piratas. Com a mão de Johnson apertando o seu ombro, as primeiras palavras pertenceram a Miss Millman:
— Agradeço todo o cuidado que teve comigo, Capitão Ferrão, mas é tempo de voltar para a minha vida. Peço que nos devolva, por favor. Os príncipes herdeiros pagam o valor que você quiser pelo meu resgate e pelo de Charles. Faça o seu preço.
Dentro de Tiago, o coração lhe caiu aos pés. Nem Anna se apercebeu de que aqueles olhos desbotados emitiam uma luz de incêndio que se consumia antes de se apagar.
Começando no chão para se elevar até ao céu, se erguia uma muralha impercetível que isolava o som de qualquer fala. As palavras eram ocas e desprovidas de razão.
Olhando em volta e medindo a reação dos seus homens, Tiago desapareceu dentro de si mesmo:
— Já era mais do que tempo de você voltar para esse seu mundinho. Se é no meio dessa podridão que você quer viver, se é isso que você quer para a sua vida, tudo bem. Não me importo com você. Só quero o meu ouro. O valor justo.
Anna queria gritar e chorar em resposta, mas estava amarrada por cordas invisíveis. Ela nunca tinha ficado tão incomodada como com aquela atitude:
— Você me confunde. O homem que me fala dessa forma arrogante e superior não é o mesmo homem que arrisca a vida por estranhos. É esse o verdadeiro Tiago Ferrão?
Foram essas as últimas palavras trocadas com o Capitão. Recolocada no porão, Anna teve apenas Charles como companhia nos dias que se seguiram. Nem no desembarque perto do Rio de Janeiro, Tiago se dignou a despedir-se cara a cara.
Anna tinha ficado sinceramente comovida pela forma como tinha sido recebida por Leopoldina e por Pedro.
O príncipe português devia ser um homem justo e capaz de valorizar a opinião da esposa, atendendo a que assinou o salvo-conduto para que Ferrão entrasse tranquilamente no Rio, o protegendo de ser importunado pelos muitos que o queriam prender pelos seus crimes de pirataria.
Leopoldina nunca tinha perdido a fé em encontrar a sua Anna viva. A amiga que nunca tinha desistido de a procurar tinha quebrado o protocolo ao abandonar um evento oficial para receber em braços a inglesa no momento em que a avisaram de que a sua dama chegava ao Rio.
Sabendo da importância que Anna tinha para a esposa, Pedro a tinha tratado desde o primeiro momento como se fosse um elemento da família.
Anna Millman seria alojada nos apartamentos dos príncipes. O mundo rodava debaixo dos seus pés, mas ela voltava ao ponto de partida.
Sentada no parapeito da janela do seu quarto, com o olhar perdido sobre a Baía de Guanabara e uma perna balançando precariamente do lado de fora, Anna via ao longe os longos e numerosos navios que partiam para longe e que pareciam brinquedos de criança, com as suas velas transformadas em borrões inidentificáveis.
Rosário, a criada de quarto que lhe tinham atribuído, entrou carregando toalhas limpas e se assustou com a posição perigosa de Anna. A dama de companhia da Princesa ainda não se tinha livrado dos hábitos selvagens adquiridos no seu cativeiro.
Se dizia que a inglesa tinha sido contaminada pela loucura dos piratas. Alguns elementos da Corte duvidavam da sua capacidade para continuar ao serviço dos príncipes.
Rosário era uma empregada dada a mexericos que resolveu partilhar com a sua senhora:
— O seu captor causou sensação em toda a Corte, Miss Millman.
Se sentindo morta enquanto procurava o intangível na água viva da baía, Anna respondeu de uma forma ácida:
— Já deve ir bem longe, mesmo com os bolsos carregados com a recompensa pela devolução da carga roubada.
A surpresa da revolta da dama de companhia da Princesa Leopoldina não foi compreendida pela sua criada, apesar de a terem avisado de que Anna Millman era uma pessoa informada, mas que o trauma do cativeiro a devia ter deixado com sequelas.
Devagar, quase soletrando a situação para a tornar percetível, Rosário explicou à inglesa os fatos que ela não conseguiu ver:
— Pensei que Miss Millman soubesse. O pirata não quis receber a recompensa devida. Disse para o responsável a distribuir pelos pobres da cidade e foi embora sem esperar resposta.
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