Admirável Novo Mundo
5 Vi prodígios espantos maravilhas
O Lobo do Amor era um navio fantasma. Tiago Ferrão deu indicação para que os seus homens entrassem nos botes com o que conseguissem ter tempo para salvar, mas ficou para trás enquanto eles se afastavam, remando.
O código de honra ditava que o Capitão seria o último a abandonar o navio, mas Tiago se recusava a sair sozinho da embarcação.
Mesmo debaixo de uma chuva de balas, os seus homens mantiveram uma curta distância do seu navio. A fidelidade ao seu Capitão não lhes permitia salvar a própria vida ao deixarem Ferrão para trás.
Piatã se ergueu e levantou o braço para dar a ordem de partida, mas não o conseguiu baixar sem ver Tiago a nadar na direção deles.
Em poucos minutos, o Lobo do Amor afundou definitivamente, deixando como única evidência da sua existência o topo do mastro principal que espreitava por entre as ondas e uma série de bolhas de oxigénio que diminuíam de tamanho à medida que se aproximavam da tensão da superfície aquática.
Os espectadores da tragédia sentiam a pressão da passagem do tempo. Tiago era o seu herói, mas, quando se magoava, deixava correr sangue vermelho como o de um qualquer mortal.
Depois de uma espera dolorosa, sem que a tripulação conseguisse fazer caso da sua própria segurança precária, o Capitão finalmente emergiu da água, carregando a inconsciente refém inglesa com ele, e os homens se apressaram a puxá-los para dentro de um bote e a remar vigorosamente na direção de terra firme.
Podiam finalmente respirar fundo e continuar a lutar pela sobrevivência.
Tiago se debruçou sobre Miss Millman e a abanou, inquieto com a falta de resposta. Naquele momento, o Capitão daria tudo para a ouvir troçando dele, articulando a língua comprida e a boca rosada em palavras disparadas com ironia.
— Respira, Anna. Você não se vai livrar de mim com essa facilidade…
Ela reagiu de supetão, cuspindo um lago de água salgada e abrindo os olhos, ficando encandeada pela luz.
A última lembrança da inglesa era a de ter conseguido tirar as algemas, mas tudo o resto tinha caído num buraco negro do esquecimento.
Ainda não estavam seguros. Os botes sobreviventes, carregando homens e a carga preciosa roubada que conseguiram reunir, seguiram as indicações do seu Capitão e remavam furiosamente até um estreito protegido por rochas cortantes que não deixariam passar um navio largo como o de Barba Azul.
Tiago não deixou transparecer medo, mas pensava no que poderia acontecer se fossem apanhados.
Barba Azul tinha a fama de ser um monstro sádico que se alimentava com o sofrimento das mulheres que torturava. Rezava a lenda que as tábuas do seu barco estavam entranhadas pelo sangue de donzelas sacrificadas para obter a proteção do sobrenatural.
Ferrão apertou a inglesa atordoada nos braços. Se Anna soubesse o que Barba Azul iria fazer com ela, preferiria não ser apanhada com vida.
As correntes subaquáticas lutavam entre si e as ondas subiam em altura à medida que se aproximavam a custo do estreito.
Estavam a poucas dezenas de metros de receber a proteção da terra sobre o mar, mas perigosamente perto de virar os botes que caminhavam instáveis sobre o mar bravo.
Um pouco mais de esforço e conseguiriam escapar. Tiago pegou numa das pás e remou furiosamente contra a corrente com a força de um louco e a responsabilidade de um pai para com toda aquela gente.
Pelo canto do olho viu que, combatendo a tontura, Anna pegava num remo partido e ajudava a impulsionar a frágil e pequena embarcação na direção da segurança. Era rija, aquela garota, e sabia cair de pé.
Com a adrenalina do momento, ninguém tinha reparado que o movimento das balas de canhão caindo em seu redor já tinha cessado, mesmo antes de serem abraçados pelos promontórios que abrigavam um braço de mar que se estendia até ao areal encoberto.
Barba Azul já não os conseguia seguir e, ajuizadamente, preferia não desperdiçar munição. O que o pirata não poupou foi a voz, gritando impropérios que ecoaram pelas paredes rochosas do estreito que protegia a tripulação do Lobo do Amor.
Tiago exalou profundamente antes de voltar a assumir a expressão de confiança plena em si mesmo, contando as cabeças dos homens que seguiam nos botes. Iriam viver para ver mais um dia, possivelmente um dia bem melhor do que o anterior.
Nada surpreendentemente, a praia oculta estava deserta, e, juntando as últimas forças físicas num impulso comum, os homens puxaram os botes para o areal, colapsando depois cada um numa direção diferente.
Estavam sem fôlego, tomando real consciência do quão perto da morte tinham estado, e aquelas almas momentaneamente se escaparam dos seus corpos para voltarem ainda mais fortes.
Anna ainda estava sentindo a fraqueza do quase afogamento e deixou que Tiago pegasse nela ao colo e a levasse até ao areal enquanto os homens puxavam os botes para fora do mar.
Pela mão dele pisava pela primeira vez naquela terra, chão firme ao qual demorou vários minutos para se habituar. Vários meses no mar tinham feito com que o seu corpo tivesse esquecido o sentido de equilíbrio e ela se apoiou numa rocha enquanto Ferrão reunia os homens restabelecidos:
— A gente precisa de um barco novo.
Terminando de fazer um curativo improvisado num marinheiro ferido, Piatã apresentou a meia solução possível:
— Tem aquele que você capturou faz dois meses, mas ainda precisa de muitos consertos antes de sair para o mar.
Não tinha sido boa ideia danificar tanto o barco holandês, mas seria uma questão de paciência até poder voltar a patrulhar o oceano com a sua tripulação.
Entre esses dois pontos no tempo, precisavam se defender do perigo imediato.
Barba Azul sabia que não estava longe deles. O pirata sedento de sangue não deixaria de os procurar enquanto estavam fragilizados.
Para montar a defesa, Ferrão decidiu replicar o exemplo de César:
— Agora é dividir para reinar, meus caros. Eles não vão conseguir perseguir a todos nós se cada um fugir para um lado diferente.
Era um bom plano. Enquanto não tivessem de volta a segurança de um navio de guerra com o qual conseguissem combater Barba Azul de igual para igual, cada um deles iria levar o que considerava a sua parte da carga preciosa.
— Piatã, você fica responsável por arranjar o barco. Eu levo a Marquesa comigo e a gente se encontra no esconderijo do norte daqui a três semanas.
Ninguém duvidou do julgamento do Capitão. Juntando o saque em lonas que carregaram nos ombros, em pouco tempo a maior parte dos homens já tinha partido, se espalhando silenciosamente pela zona.
Os últimos a abandonarem a praia foram Anna e Ferrão e ela se embrenhou pela selva do lado daquele homem, de braços abertos, pronta para conhecer o Novo Mundo.
A natureza ainda se impunha, mostrando ao homem que ainda era senhora daquela terra.
O cenário natural dançava, se esticando por vales exuberantes, se inclinando em verdes colinas, rodopiando em praias extensas de areia fina. Até o mar era fértil, fazendo brotar do seu fundo ilhas, ilhotas e ilhéus.
Ferrão usava a espada como machete para desbravar caminho e, seguindo atrás dele, Anna se espantava com as folhas de árvores que pareciam existir desde sempre, com o tamanho de quem cresceu mais do que seria suposto.
Tudo era gigante e, quanto mais adentravam na selva, mais o espaço era apertado por árvores e arbustos de enormes ramos entrelaçados, ainda que ela não se sentisse oprimida.
Os pássaros e os insetos que ela nunca tinha visto antes vestiam todas as cores do arco-íris. Anna não conseguiu evitar lembrar-se das tardes passadas com a sua Princesa, debruçadas sobre os gordos volumes de botânica e zoologia que Leopoldina devorava com fome de saber mais sobre aqueles seres exóticos. Por onde andaria a sua amiga naquele momento?
— Como se chama essa árvore, Ferrão?
Ele espreitou para a ver afagar a casca de uma árvore que crescia forte, acompanhada por cerca de cinquenta do mesmo género e, sorrindo, deixou escapar uma única palavra como resposta:
— Freixo.
Espantada com a delícia da realidade transformada num sorriso de uma criança descobrindo o mundo pela primeira vez, para a inglesa aquele era um paraíso à espera de ser domado à imagem do Homem:
— Imagine tudo o que será possível fazer quando o número de colonos for suficiente para fazer render toda essa potencialidade.
Tiago suspendeu no ar o movimento descendente da espada, se voltando para a admoestar:
— Quem vem colonizar, não vem ajudar o povo que cá vive. Vem pela ganância de querer fazer fortuna! Você não pode ser assim tão inocente…
Um leve ruído de fundo levantou a suspeita em Ferrão de estarem a ser seguidos por um predador natural e ele deu a indicação para que Anna permanecesse em silêncio.
Tiago podia estar de fato sendo espionado por uma orgulhosa jaguatirica, com os seus olhos brilhantes, mas tinha uma equivalente humana estudando os seus movimentos e a sua indecisão.
Anna e Ferrão já estavam ficando com os músculos entorpecidos pela inatividade, mas, finalmente, o animal ou o seu fantasma resolveu abandonar a caçada e desapareceu no barulho da selva.
Tiago retomou a marcha acelerada, deixando escapar as palavras que atirava para atrás de si e dirigia à inglesa:
— Sabe como é que os índios chamam a essa terra? Pindorama. Terra grande e boa, terra livre dos males. Era assim que os índios viviam antes da chegada dos invasores.
Miss Millman franziu o nariz e a testa. Ferrão tinha sido traído por si mesmo, denunciando que as ideias preconcebidas dela não tinham validade:
— Você não é índio também?
Ele deu de ombros. Preferia defletir a questão a respondê-la, mas Anna não iria deixar cair a pista que perseguia, recorrendo aos conhecimentos que tinha reunido nas suas leituras sobre o Novo Mundo:
— Os índios são pacíficos. São muito mais frágeis do que os europeus.
O Capitão pirata riu com vontade, se voltando para a encarar cara a cara, numa separação física de poucos milímetros e de partilha do mesmo oxigénio:
— Eu não estaria tão descansado, Marquesa. Os Tupinambás fazem colares com os dentes dos inimigos e os Caetés praticam o canibalismo. Ouvi dizer que têm uma predileção por língua de loiras. Uma delícia!
Tiago devia estar louco se achava que ela iria ter medo da ameaça sarcástica, especialmente quando ela conseguia ver o sorriso que ele tentava esconder.
— Please, Captain. Os selvagens precisam apenas ser instruídos por alguém civilizado.
Com poucas palavras, Anna tinha conseguido irritar o íntimo de Ferrão. Ele sabia que ela estava falando do que não conhecia, alimentada pelo que lhe tinham ensinado como correto, mas não conseguiu evitar explodir:
— Chamar de selvagem e converter alguém à força é a sua noção de cristandade?
Deitando fumo figurativo pelas orelhas, o Capitão se transformou numa máquina silenciosa e seguiu abrindo caminho para não continuar aquela discussão. A inglesa preferiu engolir também as palavras.
Quanto mais avançavam, mais os mosquitos abundavam e atacavam. Começava a ser aflitivo para os dois, mas, sem abrir a boca, Tiago parou para mastigar umas folhas escolhidas a dedo e depois esfregou os braços de Anna com a pasta verde improvisada, a aliviando das picadas.
O casal mudo aguentou as condições difíceis durante horas, colocando vários quilómetros entre eles e os seus perseguidores, mas Anna sentiu que, para além das faíscas entre ela e Ferrão que permaneciam no ar, algo mais se alterava na atmosfera:
— Captain, é melhor parar e encontrar um abrigo. Vai começar a chover.
— O que é que você entende disso?
Eram as primeiras palavras que ele lhe dirigia depois do amuo acentuado, mas a vontade de a contradizer em tudo fazia com que o Capitão ficasse cego para o que lhe devia ser óbvio.
O desespero para que parassem e encontrassem proteção contra a intempérie que chegaria inevitavelmente levava a que a rosa inglesa esquecesse os bons modos adquiridos nos salões da mais fina sociedade europeia:
— Não aguento mais. Dói-me o corpo, a cabeça e a alma. Tenho fome, sede e comichão em locais inarráveis em público. Ainda falta muito para a gente chegar?
— Muito. Sabe quando a companhia é boa e o caminho parece encurtar? Aqui é ao contrário!
Na hora certa, uma gota gorda de água caiu na testa de Ferrão, à qual se somaram muitas mais que caiam em uníssono.
O dilúvio era tanto que tanto Anna como Tiago tinham dificuldade em manter os olhos abertos com a chuva.
Sério, Ferrão abriu uma navalha e se encaminhou na direção de Anna, ao que ela engoliu em seco. A afastando do caminho, ele começou a cortar material para compor uma singela cabana de folhas, ramos e canas.
Ela percebeu que a chuva não ia parar tão cedo e que teriam que trabalhar em conjunto.
Eles intuíam o movimento um do outro e se entendiam sem palavras, passando de mão em mão cada peça que juntavam à anterior para compor um abrigo coletivo.
Terminado o projeto de uma base elevada do chão com uma cobertura precária de telhado inclinado, Tiago se inclinou numa reverência exagerada para deixar Anna passar na sua frente:
— Aqui o seu palácio, Marquesa. Faça o favor de entrar.
Aquela era uma área exígua de um único catre para duas pessoas espaçosas. Anna se deitou e lhe deu as costas, mas o sentia encostado a ela em toda a sua extensão. Estava sendo castigada:
— Você é quente feito uma fogueira!
— E você é fria feito um bloco de gelo, mas se a Marquesa não tivesse aberto a boca para se queixar da minha esmola, eu também não me queixaria! Nunca ouviu dizer que a cavalo dado não se olha o dente?
Ela escondeu o riso na almofada improvisada, enquanto a chuva engrossava:
— Muito apropriado, mas você está mais para um jumento do que para um cavalo.
Ela deixou de o ouvir e intuiu que ele já devia estar embarcando num sono. Anna deixou passar o tempo, tentando que o som das gotas caindo também a ajudassem a adormecer, mas inquieta por saber que ia dormir abraçada a um criminoso insuportável.
Uma sensação lhe colocou uma questão na cabeça. Tinha que tirar a dúvida antes de se deixar escorregar para o sono:
— Ferrão?
Um leve resmungo mostrou que, afinal, ele ainda estava acordado:
— Humm?
— Isso é a sua pistola ou a sua espada?
A inglesa sentia a impressão do sorriso do safado contra a sua omoplata, quando ele lhe respondeu prontamente:
— Sim, Marquesa.
Ela já não tinha forças para continuar a discussão. Anna se deixou embalar para o sono com a sinfonia em sol maior tocada pelos insetos nos espaços entre os pingos da chuva, enquanto as horas saltavam no meio da selva adormecida.
O sol nascente passou por Ferrão sem que ele desse pela sua presença. Tiago já não se lembrava da última vez que tinha conseguido dormir tão profundamente, mas tão leve como se fosse uma criança de colo.
Se espreguiçando, foi acordado pelo toque frio de um objeto metálico. O Capitão reconheceu a sua navalha aberta espetada com força no chão diante dos olhos, quase encostada à ponta do seu nariz substancial.
Se sentando num impulso, ele percebeu que estava rodeado por tufos de cabelo e pelo, mas não tinha nem uma beliscadura na pele. Parecia que tinha um animal morto em torno dele.
Tiago passou a mão pela face, sentindo imediatamente falta da barba, dos cabelos compridos e de uma certa loira que não devia ter saído do lado dele.
Boquiaberto com a desfaçatez da vingança da inglesa e preocupado com a doida solta em terreno perigoso, Ferrão se calçou rapidamente e pegou em armas para a seguir.
Não teve que ir muito longe quando a viu regressando ao acampamento. Ela trazia fruta no regaço do vestido e um sorriso nos lábios.
Na selva existiam muitas espécies perigosas de fruta venenosa, muitas vezes ingeridas por viajantes europeus despreparados que encontravam involuntariamente o caminho precoce para a sua cova, mas a loira tinha conseguido acertar na escolha de alimentos.
Descansada, Anna parecia outra, inclinando a cabeça em sinal de aprovação quando examinou a nova aparência do seu captor:
— Much better.
Ferrão ficou sem saber se tinha vontade de a beijar ou de a castigar pela ousadia. Não queria que ela pensasse que ele era um frouxo:
— Cuidado, Marquesa. Existem homens muito perigosos nesse mundo…
Ela gargalhou na cara dele, olhando para os lados em tom de brincadeira:
— Onde? Não estou vendo nenhum. Agora, please. Use aquilo que você chama de músculos e se faça útil apanhando peixe para o nosso café da manhã. Estou cheia de fome.
Em vez de discutir com ela, Tiago deu por ele cumprindo a ordem sem que se apercebesse disso. As suas pernas acederam ao comando da loira e se dirigiram automaticamente na direção do riacho. Estava virando um mole.
Quando, muito tempo depois, não havia forma de Ferrão regressar, Anna pensava que ele estava virando um preguiçoso.
Como é que ele ia justificar aquela demora? Por acaso tinha ido à Gronelândia apanhar bacalhau?
Ela resolveu segui-lo até ao riacho e trazê-lo de volta pela orelha.
O primeiro sinal de alerta para a loira foi o monte de roupas nada cuidadosamente dobradas numa das margens. Só depois ela viu uma lua cheia de um outro género no meio das águas que corriam.
Anna se colocou atrás de uma árvore para espiar o pescador desnudo que, de costas para ela, se movia devagar através das águas que lhe batiam pelos joelhos, com uma estaca de madeira na mão esquerda.
Era justo que ela fosse a única a apreciar o fenómeno, mas não lhe parecia correto que um carrancudo como Ferrão fosse um modelo anatomicamente perfeito de um corpo bonito.
Carregada de saúde, a pele do pirata que parecia besuntada de cacau cobria músculos definidos pelos exercícios de marinheiro.
Os olhos britânicos desceram pela coluna vertebral alheia, mas pararam um pouco abaixo do grande dorsal que não lhe pertencia, ao reparar com olhos de águia na pequena tatuagem de lobo que o Capitão escondia a maior parte do tempo debaixo de uma camisa.
Perto dali, um bando de aves levantou voo ruidosamente por causa de Anna. A espia treinada tinha pisado distraidamente num galho, resultando num barulho de estouro que ecoou pela floresta.
Se escondendo atrás de um tronco de árvore, a inglesa maldizia a sua falta de profissionalismo, mas já que Tiago não tinha surgido do nada lhe apontando uma navalha ao pescoço, Anna admitiu que ele não tinha dado por ela e fugiu do local.
Se, naquele momento, Anna Millman quisesse arriscar a sua sorte e voltar para a civilização, a probabilidade de êxito estaria a seu favor. Sem o saber, Tiago lhe tinha dado pontos de referência para conseguir seguir sozinha e ela tinha o conhecimento bastante para não se deixar morrer.
Contudo, os pés de Anna seguiram automaticamente o caminho do acampamento, e ela se sentou obedientemente à espera do regresso do Capitão.
Quando ele chegou, esperou que ela o xingasse pela demora, mas já que Anna nada disse, Ferrão se limitou a aproveitar a fogueira que ela tinha acendido para cozinhar o peixe enfiado numa estaca de madeira.
O estômago da inglesa vibrou naquele momento. Na primeira oportunidade, ela enfiaria os dentes na polpa gostosa daquela fruta que tinha apanhado.
A garota bem poderia pensar que estava com fome, mas o seu olhar salivado se afastou do amarelo da papaia madura para o castanho dos cabelos recém-aparados daquele pirata malvado.
Ela era a única dona da lembrança, da imagem daquele safado nu apanhando peixe no rio.
Longe da Europa, num ambiente novo e cheia de calor, Anna se sentia diferente e capaz de ser atrevida. A inglesa sorriu e se enroscou a apreciar o sol que espreitava por entre a abóboda de ramos.
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