Admirável Novo Mundo

9 Vi ferros e vi setas e vi lanças


Notas iniciais
Muito obrigada à Daiana Caster por continuar comentando! Relembro que, em relação ao capítulo anterior, há um pequeno salto temporal. Este capítulo decorre já em 1822 ;).

O brado retumbava nas bocas correspondentes em número a metade das muitas pernas que se passeavam felizes pelas ruas do Rio de Janeiro.

Depois das festividades de Natal e de Réveillon ainda recentes, uma nova celebração alastrava pela cidade e se escapulia para o país.

Anna Millman seguia pela rua que se começava a pavimentar, de braço dado com o de Charles Johnson, e fazendo rodar a sombrinha aberta ao ritmo dos pregões cantados que ouvia à medida que passavam pelas bancas de venda colocadas dos dois lados da via.

Não lhe tinha sido possível manter a promessa ao Conde de não se deixar envolver emocionalmente com os habitantes daquela terra. Quem é que conseguia manter a distância e a frieza no contacto com o calor dos brasileiros?

A inglesa odiava quanto tinha que ouvir as restantes damas da Corte criticando o que chamavam de “uma terra sem lei, nascida de degredados infectos”, mas não lhe era possível manter a etiqueta se abrisse a boca para fornecer a sua opinião sobre o assunto.

Meses antes, a espia tinha percebido que o desleixo com a sua missão a tinha colocado em risco de não a vir a acabar.

Rosário tinha morrido, envenenada por engano ao beber uma xícara de chá destinada a Anna. Poderia ter sido um ataque falhado de um aliado de Carlota Joaquina ou de qualquer outro adversário político de Inglaterra, ou até mesmo um erro infeliz, mas a triste morte da sua criada provava que alguém podia desconfiar da verdadeira identidade de Anna Millman.

A lealdade de Leopoldina manteria a sua dama de companhia a salvo de investigações aprofundadas, mas até quando?

O novo ano tinha entrado portas dentro havia apenas nove dias e Pedro dava já um passo muito significativo no caminho contrário ao que dele seria esperado, como regente escolhido pelo rei de Portugal.

Em janeiro de 1822, Dom Pedro se decidia pelo Brasil, depois de meses de pressão para que ele tomasse uma decisão quanto ao seu regresso à pátria-mãe, dado que a sua residência nas antigas terras de Vera Cruz era encarada pelas cortes de Lisboa como um obstáculo à recolonização das terras da América do Sul.

Também em Portugal, o equilíbrio do poder se alterava. O progresso retirava o poder absoluto de Dom João e o dividia entre homens de uma preparação questionável para o cargo, que seriam ostensivamente eleitos por uma pequena parte do povo, pelos poucos autorizados a votar de uma forma democrática, e seriam esses novos ministros os responsáveis pelo governo do Império.

Se tratava de um mundo novo, desconhecido, quase uma criança gatinhando, mas todos garantiam que se tratava de um ideal iluminado que salvaria o país da ruína.

Amarrado figurativamente, Dom João deixaria de poder proteger o filho e Pedro sabia disso.

Em nove de dezembro do ano anterior, tinham chegado ao Rio os decretos das Cortes que determinavam a abolição da Regência, o regresso de Pedro a Portugal, a obediência das províncias a Lisboa e a extinção dos tribunais do Rio de Janeiro.

Irrefletidamente, se voltava atrás com a curta liberdade brasileira, mas o ideal da Independência já não era apenas um sonho de alguns. Era um anseio de muitos e se multiplicava a cada dia, em pensamentos transmitidos de boca em boca e com a força de uma erva daninha que se fez boa.

Anna percebeu o momento em que Pedro decidiu desafiar as Cortes, mas nada fez para o impedir.

Ela tinha sido a primeira a ler a correspondência trocada entre José Bonifácio de Andrada e Silva, membro do governo provisório de São Paulo, e o príncipe regente e antecipava nitidamente as ramificações do movimento que procurava influenciar o herdeiro português na direção de uma determinada resposta.

Todos queriam ouvir Pedro afirmando publicamente que permaneceria em terras brasileiras e, naquele dia de nove de janeiro de 1822, o príncipe fazia história, descansando muitos e criando outros tantos inimigos.

Entre quem fazia a festa pelas ruas do Rio e na cabeça de Anna ressoavam palavras simples, claras, usadas pelo marido de Maria Leopoldina para cortar de um golpe uma das amarras ao país que o tinha visto nascer: "Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico."

O dia do Fico se arriscava a ser um dia de partida. Anna e Charles pensavam nisso, ainda que sob diferentes perspetivas, à medida que se afastavam do palácio e das multidões concentradas nos festejos de júbilo.

Atrás deles seguia silenciosamente Hassan, um criado que Mister Johnson tinha trazido com ele na última viagem à Europa.

O aspeto físico do homem enorme de barba comprida e turbante colorido só denunciava se tratar alguém de ascendência árabe. Tudo o resto era uma incógnita.

Aquele criado mudo de Charles sempre lhe causava calafrios e Anna preferiu se focar no ambiente que a rodeava.

Pessoas, carroças e vendedores ambulantes disputavam quase a tapa o apertado espaço da estreita rua de terra batida.

A expressão de protesto de Charles ecoou pelo ar quando o agente duplo da coroa britânica enfiou o pé em bosta de cavalo, fazendo aqueles em redor estourarem em riso com o modo de dança frenética com que ele batia com a sola no chão e agitava a perna na tentativa de se limpar.

Anna estava trincando a língua para não lhe perguntar se ele queria música de acompanhamento, mas a graça da situação desapareceu quando os seus olhos se cruzaram com os de um negro de carga, cujos serviços de transporte eram vendidos pelo seu senhor a quem pagasse mais, que seguia em sentido contrário ao dela.

No meio de tanta gente, o escravo anónimo caminhava como um ser invisível, ignorado pelas pessoas que lhe impediam a passagem enquanto ele tentava avançar até ao destino carregando nas costas uma pesada mesa de madeira.

Então, ela o viu e ele foi feliz ao perceber que tinha sido visto. O homem de meia-idade levantou os olhos e, equilibrando a carga sem conseguir limpar o suor que escorria, tentou endireitar as costas.

Por um segundo, ele era de novo um ser humano real, enquanto Anna lhe sorria e se afastava criando o espaço para o deixar passar com facilidade.

Quando ele se perdeu na multidão que engrossava, Anna Millman pensava no verdadeiro sentido da luta pela liberdade. Mesmo que o partido pela Independência conseguisse vencer o seu propósito, o que isso representaria para os escravos, os índios, as mulheres e os restantes oprimidos daquela terra?

Poderia realmente coexistir e seria válida a liberdade de alguns se muitos permanecessem presos?

O par de ingleses se afastou da zona central e seguiu descendo até próximo das docas, pouco frequentadas àquela hora. Hassan se eclipsou discretamente para os deixar a sós, enquanto Anna fechava a sombrinha.

Naqueles dias, era mais seguro que conversassem numa rua pouco movimentada do que sujeitos ao vai e vem infindável dentro do palácio e às muitas orelhas atentas atrás de portas ornadas.

Johnson confirmou que mais ninguém se encontrava naquele beco, antes de começar a reunião indispensável com a sua parceira no crime:

— Em relação à lista de nomes que o Conde te enviou…

Ela percebeu que ele se referia à listagem de gente que ocupava cargos importantes na administração lusa, ao rol de gente que tinha sido a sua missão e com o qual tinha negociado o apoio à manutenção dos benefícios ao comércio inglês:

— Todos assinaram o juramento de fidelidade à causa inglesa.

Charles mostrou os dentes, satisfeito. A palavra empenhada daqueles oficiais portugueses e brasileiros os comprometeria se os papéis viessem a público. Para não serem acusados de traição à Coroa, todos aqueles homens comeriam na mão dele:

— Finalmente, uma boa notícia. Onde você guardou os documentos?

Um pequeno sorriso de desafio de Anna lhe deu uma resposta, mesmo antes das palavras que lhe saíram dos lábios:

— Num lugar muito seguro. Não precisa se preocupar com isso.

— Ótimo. No caso desses patetas se tentarem libertar de Portugal, a gente tem forma de continuar mandando neles. É isso, ou eles vão parar na forca. Pensar que foi tão fácil subornar esses idiotas para traírem o seu próprio país…

Ela não se segurou, enfrentando o conterrâneo de frente:

— Você não tem a fama de ter feito o mesmo, Charles?

Ele se irritou com a insurreição de comportamento que vinha vendo em Anna.

Quando, anos antes, o Conde o tinha contactado para o contratar como agente duplo, e o informou de que iria trabalhar com a última descendente de uma das maiores linhagens de espiões europeus, Charles se tinha sentido quase lisonjeado.

Ao conhecer a linda Miss Millman, o espião se tinha sentido até mesmo quase verdadeiramente apaixonado, um sentimento inédito para ele, pressentindo que iriam fazer um trabalho notável em prol da pátria-mãe.

Todavia, Anna Millman se tinha revelado um animal arisco, sempre pronta a questionar ordens e, pior, com a tendência inacreditável de ter ideias próprias e de tentar defender quem devia estar espionando.

Charles Johnson tinha investido muitos anos da sua vida cultivando a falsa imagem pública de grande amigo de Dom João VI, ao mesmo tempo que o vinha apunhalando pelas costas. Não ia ser uma garota inconsequente a destruir todo aquele esforço.

O espião inglês levantou o tom de voz na resposta preparada contra o comentário da loira:

— O que aconteceu há dois anos em Portugal com a nossa junta de governação não foi da nossa responsabilidade, mas essa rebeldia de Pedro…o Conde vai exigir a nossa cabeça por isso!

Ela permaneceu em silêncio, indiferente ao perigo de morte que chamava sobre si mesma. Charles a abanou pelo braço, enervado com a apatia dela:

— É impossível que você tenha convencido Pedro a apoiar essa idiotice da abolição, mas não o convença a desistir do absurdo da independência!

Ela pareceu despertar, com sangue quente lhe correndo forte até à face:

— Porque é que a independência é um absurdo? Eles têm o direito a serem livres!

Charles Johnson lhe prendeu também o braço livre e a empurrou contra a parede que formava a parte traseira de uma casa abandonada:

— Você sabe que eles se estão iludindo. Mudar o nome do governante não vai alterar em nada o rumo desse país.

— Você está errado. Mesmo sua Majestade Dom João sabe disso…

— Eu conheço apenas a uma Majestade: Jorge IV do Reino Unido. O velho gordo viciado em coxa de frango é apenas a nossa marioneta. O que é o seu pai diria se soubesse aquilo em que você se tornou?

Anna aguentaria qualquer outra ofensa, à exceção daquela. A força da raiva lhe permitiu se soltar de Charles e retirar a adaga escondida à vista de todos como travessão de cabelo. O cabo com pedras preciosas reluziu quando a lâmina foi encostada contra o pescoço do espião inglês:

— Não toca no nome do meu pai! Eu cumpri todas as missões que me atribuíram!

Ele riu, consciente de que os laços tecidos pelo Conde os uniam de uma forma perigosa, e a apertou pelo pescoço. Charles sabia que Miss Millman não o poderia atacar sem se denunciar a si mesma perante todos:

— Isso são modos de falar com o seu noivo?

Ela abrandou a pressão sobre a carótida alheia. Nos últimos tempos, Anna vinha notando como ele vinha diluindo a fronteira entre a vida real e o disfarce montado. Mister Johnson se arriscava a deixar de conseguir entender onde residia a diferença entre os dois pontos:

— O nosso noivado sempre foi uma farsa, Charles! O Conde achou que esse compromisso de fachada iria desviar as suspeitas de que o honesto Charles Johnson nada mais é do que um agente duplo que se vende a quem pagar mais.

Como um louco, ele continuou rindo da piada inexistente, a libertando do garrote montado:

— A sua sorte é ser uma linda diaba, Anna Millman. Seria um pecado estragar uma face esculpida por Deus.

Ela lhe deu as costas e se focou no mar, visto ao longe como uma massa líquida sem fim. Anna se perguntava se, além do horizonte, existiria a liberdade que lhe era vedada, ou se essa ideia não passava de um sonho seu.

Charles compôs o lenço em torno do pescoço, antes de ameaçar o que ele sabia ser protegido por ela:

— Estamos perdendo muito dinheiro com essa instabilidade. Com a independência dessa colónia, muitos britânicos ficariam sem verdadeiras fortunas, mas nem tudo está perdido. Pedro não é o único filho homem de Dom João.

Anna preencheu mentalmente os espaços nas entrelinhas. Se se colocava a hipótese de substituir Pedro como herdeiro do trono; ele, Leopoldina e as crianças não seriam afastados de uma forma pacífica. Charles falava em transformar a maldição dos Bragança em assassinato.

Pálida, a inglesa não acreditava no plano de Charles:

— Substituir Pedro por Miguel? Você está louco. Miguel de Bragança é um brinquedo nas mãos da mãe e Carlota Joaquina defende os interesses espanhóis. Ele nunca vai se aliar a Inglaterra.

Johnson levantou os cantos dos lábios, divertido com a aflição da sua parceira:

— Será mesmo que não vai? Você subestima a ambição de quem quer chegar ao poder, minha querida.

Se o corpo de Anna permaneceu hirto naquele lugar, o seu espírito voou de volta ao palácio e entrou correndo nos aposentos onde, naquele momento, uma grávida Maria Leopoldina brincava com os filhos. Eles não sabiam da necessidade de se protegerem e a inglesa não sabia como o fazer.

Charles se despediu dela, a deixando a sós para refletir sobre a conversa forçada:

— Você não vai poder ficar para sempre em cima do muro, Anna. Um dia, você vai ter que escolher o seu lado. Espero que escolha o lado certo.

— Pode ter a certeza disso, Mister Johnson.

Cansados da festa, os habitantes do Rio de Janeiro recolhiam a suas casas enquanto Anna caminhava ao acaso pelas ruas desertas, descendo inconscientemente na direção da marina.

As poucas aves que sobrevoavam o céu sabiam que eram escassos os restos de peixe espalhados pela doca porque os pescadores tinham esquecido o seu ofício quando se lembraram de subir até à cidade que comemorava.

Com a caça escassa, os pássaros se limitavam a, em bando, percorrerem o mesmo trajeto em círculos infinitos.

Um outro bando, desta feita de humanos, terminou abruptamente com a solidão introspetiva da inglesa e a circundou sem rodeios, com uma única ordem bem estabelecida:

— Pode passar tudo para cá, senhorita.

Anna maldisse a distração momentânea que a tinha impedido de perceber que estava prestes a ser assaltada.

Fazendo um reconhecimento de avaliação da situação, uma leve rotação do torso a relembrou do volume que tinha escondido num grande bolso cosido ao corpete.

Os ladrões não tinham como adivinhar que, junto ao estômago, Anna Millman guardava documentos que, nas mãos erradas, poderiam destruir um Império ainda por nascer.

Uma aflição interna tomou conta da inglesa. Seria realmente obra do destino que aqueles homens tivessem ido atrás dela ou seria possível que aquele fosse um ataque premeditado e aqueles cinco homens soubessem qual a peça de valor que a inglesa carregava?

Como incentivo à transação forçada, os homens desembainharam as espadas e apontaram os seus gumes na direção da loira.

Ela não podia deixar que aqueles documentos caíssem nas mãos erradas, independentemente do preço que viesse a pagar por isso.

Usando a sombrinha contra uma espada, Anna investiu contra o primeiro bandido e lhe deu uma lição de esgrima de alto nível, usando truques de ninja para evitar a lâmina ao mesmo tempo que derrotava o homem.

A inglesa quebrou a formação montada em seu redor ao atirar uma adaga, acertando diretamente no coração de um segundo criminoso, ainda que aquele fosse o único tiro na munição da loira.

Contudo, a ação se revelou o bastante para ela conseguir sair correndo pelos corredores labirínticos que ligavam as docas à parte alta da cidade.

Confrontada com um pequeno miradouro de pedra, elevado dez metros acima do nível das docas visíveis a partir daquele ponto, e ouvindo o som de fúria dos seus perseguidores, Anna percebeu que o único caminho de fuga era para baixo.

Fechando os olhos, a espia fez mira com o corpo para acertar na carroça de palha esquecida numa das plataformas do cais e se jogou em queda livre.

Ao recuperar a posição vertical, Anna percebeu que tinha machucado o ombro e uma perna, mas se auto felicitou com a pequena vitória de, com o gesto desesperado, ter ganhado vários minutos de avanço sobre os seus acossadores.

A loira correu pelo cais e procurou um pequeno barco, que fosse facilmente manobrável por apenas uma pessoa, ainda que acidentada, e que estivesse com as velas prontas para seguirem caminho.

Uma pequena embarcação lhe chamou a atenção e a inglesa saltou sobre ela, libertando a corda que a prendia à plataforma.

O mar a ajudou a se embrenhar pela baía espelhada, mas, depois de vários minutos de uma regata solitária, quando estava já quase cantando vitória, a espia viu a assombração de um barco a perseguindo e reconheceu, ao longe, os seus assaltantes.

Anna tinha que se livrar de parte da carga se quisesse ganhar velocidade. Foi aí que ela percebeu que a mercadoria do barco se poderia revelar providencial.

Alguém temerário tinha resolvido transportar barris de pólvora misturados com caixas de vinho.

Um plano surgiu imediatamente na cabeça de Miss Millman. Era grande a probabilidade de se matar, mas não era uma certeza. Se aquele poderia ser o seu fim, ela se despediria do mundo de uma forma espetacular.

A história não se fazia com os fracos, mas sim com os audaciosos e os altruístas. O estrago que aqueles documentos poderiam fazer era maior do que a sua própria vida.

Anna Millman soltou vários barris de pólvora no mar e deixou que eles flutuassem enquanto permitia que diminuísse a distância entre ela e os seus possíveis captores.

Quando aqueles homens já quase conseguiam sentir o cheiro do perfume da beleza inglesa, ela calmamente colocou um pedaço de pano no gargalo de uma das garrafas e usou as faíscas de duas pedras para atear fogo ao pavio.

O golpe da garrafa atirada contra um barril foi certeiro e despoletou uma reação em cadeia, explosão que se tornou visível a quilómetros de distância.

O fogo extremo calcinou até tornar em pó tudo quanto tocou, mas não purificou o remanescente. Da detonação instantânea sobrou apenas o calor das labaredas de fogo passageiro da pólvora, que lambiam os destroços antes de se apagarem no sal do mar.

Anna boiava na água, num estado próximo ao da inconsciência, provavelmente ajudada pelos pedaços de madeira flutuantes debaixo dela, mas sentia a vontade de se deixar submergir, de ser engolida pelas profundezas, desaparecendo assim da face da terra.

Quando estava prestes a desistir, algo a trouxe de volta, fazendo brotar um sentimento familiar de esperança. A vontade de renascer e começar de novo germinavam no coração da inglesa.

Um novo dia desabrochava em todo o seu esplendor, mas o chão continuava balançando e Anna também.

Ela se mexeu no sono, estranhando o vale de lençóis secos, ainda que a fronha retivesse o cheiro a maresia.

A loira não percebeu que estava num quarto desconhecido, mas uma dor de cabeça lancinante a acordou e ela levou a mão à fonte do seu sofrimento, batendo com o punho aberto da camisa estranha nos olhos fechados.

Ela ainda não sabia, mas à antiga cicatriz no queixo se somaria uma nova cicatriz na testa.

Abrindo a custo os olhos, Anna Millman viu que, pendendo de dentro de uma camisa semiaberta inclinada sobre ela, São Dimas lhe dava as boas vindas de regresso a casa.

Um príncipe de sangue nada real estava de verdade na sua frente.

Anna viu o sorriso mais bonito do mundo e soube na hora que estava viva, experimentando a mesma fascinação de anos antes.

Tiago estava inclinado sobre ela com uma mão apoiada ao lado da almofada e compondo os fios de cabelo loiro, como se se quisesse certificar de que ela estava mesmo ali.

O tempo tinha passado devagar. Uma leve teia de rugas de preocupação era nova nos cantos dos olhos do seu pirata e eles estavam vermelhos, produto de um choro recente, mas estavam também felizes.

A inglesa levantou ligeiramente a mão, descrevendo um movimento gracioso, e tocou na maçã do rosto levemente curtida pelo sol de Ferrão.

Ele tremeu ao de leve, provando que alguns sentimentos tinham sobrevivido muito para além do tempo.

Contra todas as probabilidades, estavam juntos de novo. Nenhum dos dois sabia exatamente o que dizer para cortar todo aquele silêncio contemplativo, mas foi Tiago o primeiro a abrir a boca, a abraçando numa tentativa de acabar com todas as distâncias:

— A gente tem que parar de se encontrar desse jeito, Marquesa.

Notas finais
No próximo capítulo: Anna e Ferrão sozinhos numa praia paradisíaca;) (e a gente não volta a tirar o olho de cima de Tiago, eu prometo:) ). Beijo para todos!