Admirável Novo Mundo

10 Oiro também à flor das ondas finas


Notas iniciais
Muito obrigada a MrsSong por ter favoritado e as minhas desculpas a Daiana Caster por ter entrado num estado de sofrimento por um shipp que não vai chegar à tv ;). Estamos juntas!

De costas para a praia, Tiago remava numa trajetória de reta direita ao areal, mas não tirava os olhos da sua companhia absorta.

Anna era um fantasma de quem já não pertencia ao mundo conhecido dos vivos, mas não aceitava o seu lugar entre os mortos anónimos.

Ela apertava o gibão do Capitão pousado sobre os seus ombros, cruzando as mãos envoltas em ligaduras, ao mesmo tempo que o pequeno bote deslizava pela água plana, mas era como se a inglesa combatente já não estivesse ali.

A sua fisionomia ausente recordava ainda ao pirata o momento aflitivo em que, por um acaso cósmico que nunca mais deixaria de agradecer, a tinha encontrado desacordada nos destroços de um acidente que lhe pareceu deliberado.

Achar Anna boiando no mar, com a pele fria da cor do marfim e com os fios de oiro dos seus cabelos dançando sobre as ondas mínimas, despertou nele recordações antigas de uma tragédia pessoal.

A trazendo para bordo do navio e completamente desesperado, Tiago correu com ela nos braços e a colocou na cama do seu camarote, esperando a chegada de ajuda especializada enquanto a aquecia.

O cirurgião-barbeiro do Marquesa o descansou quanto ao estado físico da mulher que tinha dado o nome ao navio. Miraculosamente, Anna tinha apenas um ligeiro traumatismo craniano, muitas equimoses espalhadas pelo corpo e recuperáveis queimaduras. Quando o seu espírito quisesse acordar, não existiria motivo para o seu corpo não o fazer.

Ferrão temia que ela tivesse desistido. Ele não sabia explicar a transmissão de pensamentos que o colocaram num estado de preocupação aguda, mas algo no seu íntimo lhe dizia que, contrariando o seu espírito resistente, Miss Millman podia decidir não regressar.

Tiago passou a noite do lado dela, sussurrando ao ouvido da inglesa palavras de incentivo à sua volta. Lhe parecia uma cruel partida do destino ter que, novamente, perder alguém que amava tanto daquele jeito. Não iria aguentar ver a sua alma quebrar uma segunda vez.

Inconformado, o Capitão ensaiava as palavras que lhe diria quando ela despertasse e imaginava as possíveis respostas da loira, em diálogos carregados de sentimentos de esperança e de amor.

Vê-la abrir os olhos foi como ver todas as maravilhas do universo condensadas numa só imagem e enlaçá-la, sentindo o pequeno corpo quente se movendo dentro do abraço, o aqueceu e tranquilizou por dentro.

Ele tinha tanto para lhe dizer, tinha tantas palavras remoídas ao longo de quatro anos para libertar, mas as primeiras palavras de Anna foram outras que não as imaginadas, ainda que, no fundo, não o surpreendessem:

— Me esconde. Ninguém pode saber que eu estou viva.

Ele tinha meios para aceder ao pedido angustiado e vontade de o fazer. Em poucos dias de navegação encontrariam o esconderijo adequado, a cabana isolada que servia à sua tripulação como base para o contrabando de bebida.

Tiago percebeu que Anna se sentiu enjoada quando viu o invólucro de pele cardada com o selo intacto que ele tinha colocado numa mesa de apoio, depois de o retirar da roupa molhada da loira.

O que ele não entendeu foi o real alcance do estrago que o pequeno pacote fez dentro da inglesa. Ela abanou ligeiramente a cabeça, num gesto de negação, mas tomou uma decisão sob a forma de um novo rogo:

— Você tem papel e tinta de escrita?

Ferrão tinha imaginado tantos cenários de reencontro, mas nenhum deles incluía o aparente desinteresse de Anna na sua pessoa, enquanto ela inclinava a pena que guinchava contra a folha amarelada, escrevendo furiosamente uma missiva que pediu para ser entregue sem que ele colocasse mais questões a respeito disso.

Ela se fechava no momento em que ele precisava que a Marquesa se abrisse, agradecendo de forma mecânica os cuidados dele enquanto se perdia no momento em que se encontravam.

Anos antes, eles se tinham separado com palavras difíceis, um cenário que o Capitão tinha revivido na cabeça muitas vezes, inventando alternativas que não tinham acontecido para mudar o desfecho final.

A calma trazida pela reflexão o tinha convencido de que o que tinha sentido pela Marquesa não era um capricho ou uma obsessão fútil. Para o bem e para o mal, ela o tinha transformado e ele gostava daquela versão de si mesmo.

A distância apenas o tinha aproximado de Anna de formas que nunca poderia antecipar porque, ao contrário de mirrar pela ausência de nutrientes, o amor crescia e fincava raízes profundas. Com o tempo, o afeto apenas tinha amadurecido, estando agora pronto para a colheita.

Para Ferrão, o único ponto perfeito daqueles dias foi chegar no esconderijo dos piratas, já que os extensos bancos de areia impossível de navegar mantinham os navios afastados e uma pequena casa invisível naquela praia esquecida.

Anna tinha pedido que ele a escondesse, mas em nenhum momento tinha exigido ficar sozinha. Tiago se fez valer da semântica aplicada quando anunciou que seria a sua companhia na enseada deserta, deixando Piatã no comando do barco:

— Vocês seguem o nosso plano e viajam para sul. Eu fico com ela e vocês voltam com o navio daqui a duas luas.

Antes de saírem para o bote, Tiago trocou as ligaduras da inglesa, confirmando que as queimaduras superficiais limitadas à flor da pele saravam.

Em poucas semanas, ela poderia voltar a fazer uso completo das mãos magoadas.

— Não vai deixar marca, Marquesa.

Ela tinha dúvidas a esse respeito, mas não se manifestou.

Anna e Ferrão entraram no bote e ela não olhou para trás nem enquanto se deslocavam até à praia, nem quando o Capitão lhe abriu a porta da cabana encostada ao promontório seguro.

Tiago se afligia com o passar do tempo, vendo como ela passava a maior parte dos dias dormindo, enrolada num casulo de cobertores, alternando o sono irrequieto com os gritos a meio da noite, frutos da árvore de pesadelos que não podia contar.

O corpo de Anna sarava, mas a alma não e ele não tinha nas mãos um remédio para a curar.

No dia em que finalmente lhe retirou as últimas ligaduras, o pirata ficou feliz ao ver a Marquesa tomar a iniciativa de vestir uma camisa e uns calções velhos e sair para o sol, ainda que tivesse pedido tempo para ficar sozinha.

Ele respeitou o que lhe foi solicitado tanto quanto lhe foi possível, mas, inspirado por uma tribo que conhecia bem, se decidiu por fazer uma oferta de paz.

Ferrão saiu da cabana carregando duas tigelas fumegantes de amêijoas e feijão preto numa cama de anéis de cebola frita, uma mistura pouco provável, mas muito gostosa, e procurou a loira.

O pirata viu que o barracão onde a tripulação costumava guardar armas tinha sido aberto e remexido.

Em cima da praia, com as ondas quase lhe lambendo os pés descalços, Miss Millman exercitava os seus dotes de espadachim com a maior espada que conseguiu encontrar, uma peça de tamanho descomunal que os piratas mantinham apenas como objeto curioso.

Fazendo girar a grossa e abaulada lâmina acima da sua cabeça, Anna Millman lutava contra um inimigo invisível, saltando o en garde ao investir persistentemente num ataque furioso em que trespassava sempre no mesmo ponto o desafeto oculto, fazendo balançar com a corrente criada o seu boné de pescador.

— É muito peso para alguém carregar sozinho.

Surpresa, ela se voltou ao ouvir a voz de Tiago, mas não baixou a espada invulgar.

Ele resolveu espicaçá-la, tirar a ferros de dentro daqueles muros a indomada mulher que ele conhecia. Era uma manobra arriscada, mas Ferrão contava com a vontade viva de Anna em o provar enganado:

— Não sei porque é que Piatã foi comprar essa coisa. É impossível uma mulher conseguir levantar essa lâmina.

O desdém propositado do Capitão produziu a resposta esperada. Anna dançou com a espada, se atrevendo a acrobacias aéreas e a se sentir feliz por se saber tão capaz quanto sempre e muito mais competente do que qualquer um dos homens que conhecia.

Ela riu enquanto passava o dedo pela lâmina prateada, sentindo o efeito da endorfina libertada pelo exercício físico:

— Nunca tive uma coisa tão grande nas minhas mãos.

Tiago riu também, piscando o olho à sua companheira num tom de brincadeira de quem quer criar expetativas elevadas:

— Ainda não viu nada, Marquesa.

Sorrindo, ela espetou a espada acima do nível da maré cheia e passou pelo pirata, lhe retirando uma das tigelas das mãos enquanto procurava o melhor local da praia para se sentar e comer:

Good, Captain. Por um momento, achei que você fosse fazer uma piada sobre Pau-brasil.

Ele se sentou do lado dela, feliz pela picardia tão deles que nascia no ar. Aquela era a única versão da guerra dos sexos que lhe fazia sentido.

Dividindo uma garrafa de vinho trazida do depósito onde os piratas guardavam a bebida de contrabando, o Capitão abriu a Marquesa para ele, se tornando num descobridor dos pontos que a faziam feliz.

Os olhos da inglesa brilhavam quando falava das crianças da Família Real:

— Maria da Glória é tão incrível. Absorve tudo como uma esponja… como uma estrela-do-mar! E é tão doce…Um dia desses tricotei uma manta para ela e a princesa passou a andar com ela todos os dias.

Ferrão ficou feliz ao vê-la alegre falando de um monte de fios de lã enlaçados, enquanto ela lhe roubava amêijoas fritas da tigela e engolia o seu conteúdo entre as palavras proferidas.

— Você não consegue imaginar o finca-pé de Maria da Glória quando uma criada a tentou tirar à princesa para a lavar. A minha teimosinha não se queria separar de um presente da sua Anna…

O pirata a olhava, entre o enlevado e o divertido, e a espia quis conhecer a razão daquela cara de bobo:

What?

Ele pousou a tigela, reposicionando o boné torto na cabeça da loira:

— Adoro te ver falando assim, mas tenho dificuldade em te imaginar passando o dia como uma dona de casa: tricotando, cozinhando e tomando conta de criança…

Anna ficou sinceramente contente ao perceber que ele não a reduzia a um lugar-comum da época, mas não quis dar o braço a torcer e valorizar o fato, respondendo ao encolher os ombros:

— Tem dificuldade? Paciência. That´s life.

Tiago apertou os olhos com o riso, deixando escapar uma comparação deliberada:

— Menina rebelde… nem se o Papa em pessoa aparecesse aqui te conseguia converter!

Miss Millman sabia que ele conhecia a sua religião e que só a estava forçando a dizer determinadas palavras para as quais ele já tinha a resposta brincalhona preparada:

— Eu sou protestante, Tiago.

— Claro que é, Marquesa.

Ao se ver derrotada, ela não resistiu e se lançou, numa disputa nada séria, sobre o pirata, acabando Anna por se tornar numa mulher de areia quando os dois deram por si rolando pelo areal aquecido.

Ferrão a ajudou a se levantar quando foram apanhados desprevenidos por uma onda e a tentou auxiliar a remover a areia colada ao corpo, mas a inglesa parecia ter ganhado uma segunda camada de pele.

Ele riu ao vê-la divertida com a falta de elegância da situação:

— Já estava sentindo falta da minha Anna.

Quando chegou o bafo morno de uma madrugada perfumada, Tiago encontrou novamente a ausência da sua Marquesa.

Ferrão acordou na sua enxerga junto ao fogão e percebeu que Anna tinha saído da cabana a meio da noite. Aflito, o pirata não confiava na instabilidade trazida pela oscilação do comportamento da inglesa.

Daquela vez, ele não tinha percebido, mas ela se tinha levantado da cama inquieta e se tinha ajoelhado do lado dele, procurando uma resposta que tardava em encontrar.

Anna Millman não tinha como sair daquela situação sem encarar uma perda.

Durante semanas, ela tinha tentado decidir o destino dos documentos guardados numa gaveta de fácil acesso, já que Tiago não tinha manifestado interesse sobre eles.

O mais fácil teria sido rasgar folha a folha e queimar o remanescente, transformando-o em partículas mínimas que o vento conseguisse levar para bem longe. Teria sido como se aquilo nunca tivesse acontecido.

Por outro lado, as repercussões daquelas informações poderiam decidir a guerra dentro do país. Dependendo das mãos em que fosse entregue, aquele invólucro podia impedir que o Brasil se separasse de Portugal ou apressar a sua desvinculação.

Anna tinha uma decisão a tomar. Podia honrar a memória do pai e da pátria, entregar tudo ao Conde, terminar a sua missão e partir para longe. Tinha esse dever a cumprir já que era a última dos Millman.

Ela não tinha previsto considerar aquela terra como sua, nem fazer dos Bragança a sua família, mas eles se tinham entranhado no seu coração e ela os sabia desprotegidos perante o golpe que se preparava. Seria possível confiar no julgamento e na misericórdia de Pedro se ela revelasse todo o plano original?

A espia ficava desesperada ao perceber que Ferrão tinha sido arrastado para aquela situação. A única culpa do seu criminoso inocente era gostar dela, mas, se apanhado, poderia acabar pagando bem caro por um crime que desconhecia por completo.

Tiago dormia pacificamente no catre enquanto Anna passava as mãos pelos cabelos dele, abalada um sentimento próximo ao de um filho da inveja e da felicidade pelo outro.

Ela tinha percebido, desde a primeira vez que o tinha voltado a ver, que Ferrão tinha encontrado a sua paz, a tranquilidade de alma.

Anna não tinha esse direito, mas o tinha retirado do seu caminho e o levado para um abismo do qual não havia retorno.

Agitada, a inglesa saiu da cabana em roupa íntima e, atravessando a pé os bancos de areia, se lançou no mar, dando fortes braçadas até, muito tempo depois, finalmente se sentir cansada e regressar.

Tiago a esperava junto à zona de rebentação, com a barra das calças dobrada até meio das pernas e um cobertor felpudo que colocou pelas costas dela.

A espia não gostou daquela proteção excessiva:

What? Virou a minha nanny?

Ele cerrou o maxilar, antes de se voltar na direção do teto deles:

— Você ainda não conhece bem essas correntes e é de noite. É perigoso entrar assim nessas águas e você nem pensa nisso.

Anna foi a primeira a entrar na cabana e, a seguindo, Ferrão reacendeu o forno e os candelabros para amenizar a falta do calor necessário.

Sentada na cama e de expressão vazia, a inglesa brincava com a garrafa de cachaça encontrada, rodando o gargalo através dos minutos de silêncio interminável, a levando à boca em intervalos regulares.

Tiago se sentou do lado dela e suspirou, mantendo a calma:

— Fala comigo. Eu sou a última pessoa no mundo que te vai criticar.

Ela pousou a garrafa no criado mudo, deixando finalmente escapar parte da sua inquietação em palavras murmuradas:

— Será que dá para perdoar uma traição?

— A vida da gente dá muitas voltas, Anna. Trair por amor não é nada grave.

O Capitão sabia que, em nome do amor, se faziam as maiores e as mais perdoáveis loucuras:

— Você não me quer contar o que aconteceu para eu te encontrar no meio daqueles destroços?

Ela abanou a cabeça devagar, negando a oferta para se confessar a ele:

No. Eu estava apenas…à deriva.

Naquele instante, Ana Millman estava de cabeça perdida. Tinha cachaça. Tinha rum. Tinha Tiago. Não precisava de mais nada.

Não lhe interessava ficar angustiada por um futuro com Ferrão que sabia que não podia ter. Ela não estava preocupada em saber se seriam felizes para sempre quando tinha a certeza de que nem teria um amanhã.

Deixando cair o cobertor que lhe pendia pelas costas, Anna atacou a boca e arrancou os botões da camisa do Capitão, o puxando depois pela fivela do cinto e montando em cima dele enquanto lhe tentava tirar as calças.

Surpreso, ele afastou as mechas de cabelo molhado da face da Marquesa e a puxou pela cabeça para olhar fundo nos olhos dela.

— Eu não estou bêbada.

A resposta dela não o tranquilizou e, usando o peso físico superior, Tiago os virou e voltou a apertar as calças:

— Não, mas está confusa.

Revoltada, Anna se sentou na cama, insistindo na sua resolução para aquela noite:

— Esperei por você durante quatro anos.

— E eu esperei por você toda a minha vida, Anna. Não posso fazer o que você me pede.

Ela se levantou, aproveitando o isolamento para poder gritar:

— Porque não?

Ferrão também se ergueu do leito e a encarou de frente, olhos nos olhos com a sua verdade:

— Porque eu te quero. Eu te quero como nunca quis uma mulher na minha vida.

Anna sentiu os olhos marejando e os lábios tremendo ao ver Tiago de coração completamente aberto diante dela, livre ao finalmente ter a oportunidade de confessar os seu sentimentos por ela:

— Foi assim desde a primeira vez que eu te vi. O mundo inteiro desapareceu e ficou só você olhando para mim.

Ele a abraçou ao vê-la chorando, confirmando ao ouvido dela que a inglesa se tinha tornado na vida dele:

— Eu te amo, Anna Christine Millman.

Palavras velhas, gastas de tanto serem repensadas trepavam pela garganta da loira e se enrolavam na língua onde se misturavam com palavras recém-aprendidas, quase desconhecidas do vocabulário de muita gente.

Anna estava incapaz de pronunciar um som que fosse. Também não era preciso.

O Capitão entendeu o significado do choro miúdo da espia e deixou que ela o esgotasse nos seus braços até que a inglesa se sentisse pronta para falar:

— Estou cansada. Tão cansada. Não aguento mais fingir ser quem não sou.

Tiago era o primeiro a acreditar na possibilidade de regeneração e a confortou com uma lição da sua vida:

— Na vida, todos somos peões de alguém superior. Não importa que você tenha mil passados, Anna. Você só precisa ter um futuro.

Notas finais
As alterações de humor de Anna são bem mais profundas do que uma TPM exacerbada. No próximo capítulo: Tiago desvenda parte do seu passado (e otras cositas más). Beijo para todos!