Admirável Novo Mundo
2 E o longo baloiçar dos coqueirais
Notas iniciais
Depois de muitos dias de habituação, todos quantos viajavam a bordo da nau Dom João VI já se tinham acostumado ao balançar nada rítmico do navio, mas já ninguém se lembrava do que era viver sem se mover continuamente.
O percurso entre Viena e Florença tinha sido rápido e Livorno continuava tão encantadora quanto nas memórias de infância de Anna.
Por outro lado, a viagem marítima tinha começado mais tarde do que o suposto por conta do atraso da esquadra portuguesa.
Não que lhe tivessem desagradado os dias extras percorrendo as cidades próximas da costa italiana enquanto aguardavam os lusos, mas a dama de companhia da já princesa de Portugal descobria defeitos nos futuros súbditos da sua Senhora que eram intoleráveis para uma inglesa organizada.
A nau Dom João VI era relativamente confortável, atendendo a que a comitiva era algo reduzida e a nau de apoio à esquadra matrimonial permitia algum descanso, mas mais de dois meses de navegação tinham feito os seus estragos.
Ainda que as embarcações tivessem sido reconvertidas no seu interior, com aposentos que nada deviam ao luxo daqueles que ela tinha tido em solteira, a filha do Imperador da Áustria e a maior parte das suas damas tinham sofrido com as tempestades que não as abandonavam pelo caminho.
Apenas Anna permanecia estoica, tentando prestar auxílio à Princesa enquanto segurava o seu cabelo quando esta se via em posições pouco régias, como a de ter que vomitar para um balde de estanho o que não conseguia segurar no estômago graças ao enjoo provocado pelo abanar do barco.
A resignação de Miss Millman face às difíceis condições a bordo tinha raízes antigas. Anna tinha passado o início da adolescência viajando com o pai quando ele usava o disfarce de grande capitão marítimo para traficar informações pelo mundo. Ela sabia distinguir quais os perigos do oceano que mereciam o seu medo.
Austríacos e portugueses chamaram paraíso à curta paragem que a nau fez na ilha da Madeira e os poucos dias passados no Funchal, pisando em terra firme num chão que era um jardim no meio do Atlântico melhoraram os ânimos de todos.
Anna contabilizava o tempo e as tarefas a executar. Se tudo corresse bem chegariam ao Brasil no final de outubro ou no início de novembro. Entre o casamento por procuração e o casamento em pessoa ter-se-iam passado quase seis meses. Tempo mais do que suficiente para preparar a Princesa.
Era já a etapa final da viagem e a espia inglesa resolveu que também merecia tempo para respirar, aproveitando que o céu azul estava limpo e ela precisava fazer o mesmo com a sua cabeça.
Anna encontrou um lugar agradável no tombadilho do castelo da popa da nau e se sentou num banco de madeira, agradecendo a brisa marítima depois de muitos dias de ar abafado e o sol que a aqueceu sem ser em demasia.
Ela não sabia viver aprisionada pelas mesmas paredes dias a fio. Estava se sentindo um pouco claustrofóbica pela inação dos viajantes do convés.
Sentia a falta de quando se podia esgueirar do palácio austríaco fazendo galopar o cavalo para treinar esgrima ou tiro ao alvo sozinha na floresta, tendo por única companhia o oscilar das folhas das árvores.
Na impossibilidade de deixar o corpo trabalhar, Anna deixou a mente voar, fluindo ao sabor da associação de memórias.
O mar em sua volta parecia não ter fim e ela se deixou lembrar da falta que tinha sentido de ver o oceano durante os tempos da infância em que vivia com o pai numa casa discreta junto a Notre-Dame.
Não convinha a um espião inglês demonstrar publicamente evidência de riqueza, mas aquela parte de Paris lhe tinha deixado uma impressão de opressão, com tantos apartamentos encaixados precariamente uns em cima dos outros.
Anna se lembrava bem dos breves tempos de liberdade rebelde, quando era ainda quase uma criança de colo e aproveitava um instante para fugir da sua nanny francesa.
Entre os ecos da memória conseguia ouvir perfeitamente a voz da normanda aflita, berrando no meio do mercado cheio o apelido repetido à exaustão:
—Yeux pappillon!
Os olhos de borboleta queriam ver o mundo. Quanto mais terras desbravava, mais Anna sentia a vontade de continuar caminhando, sentindo que ainda não tinha encontrado a fonte para preencher o vazio interior que se fundia com a inquietação de quem não consegue lançar raízes na terra.
A brisa atravessava a nau da popa à proa impelindo as velas a ganharem velocidade numa corrida para fazer a Dom João VI chegar mais rapidamente ao Brasil, mas Anna queria fugir noutra direção.
Ela queria regressar a Capri, quando era uma garotinha que o pai levava pela mão para comer gelato.
O verão italiano era eterno. Tudo em volta era colorido e o sol não deixava de brilhar. Por um instante, Anna quase se conseguia esquecer de que não estavam ali de férias e do plano traçado para roubarem mapas confidenciais que iriam beneficiar a Inglaterra. O seu pai nunca falhava.
Às vezes doía muito lembrar os quilómetros percorridos. Anna pertencia a muitas terras, mas não tinha verdadeiramente uma pátria para chamar de sua.
Tinha que esquecer esses melodramatismos de alma. Estava naquele barco, viajando para uma nova terra, por um bom motivo.
A espia inglesa tocou por cima do vestido de decote subido no medalhão de família. Mesmo com os dedos em contacto com seda espessa, ela conseguia reconhecer pelo tato o contorno da águia altiva que tinha sido a sua companheira desde criança.
Já ninguém sabia dizer a quantas gerações anteriores remontava aquela relíquia ou a razão para aquele animal ter sido escolhido para ser o símbolo secreto de uma família de espiões.
O medalhão tinha sido um segredo passado de pai para filho. Agora, estava colocado ao pescoço da última dos Millman. Anna receava ser o ponto final daquela linhagem indómita.
Lhe tinha sido fácil usar o seu charme para estabelecer relações cordiais com todos os nobres portugueses que a acompanhavam na nau, aproveitando para confirmar as informações que lhe tinham fornecido.
Ela se tinha preparado bem e conhecia a fundo a história de todos os elementos da família real portuguesa, tendo um carinho especial pela de D. Maria I, a rainha falecida no ano anterior.
Maria tinha sido a primeira rainha em nome próprio daquele país. Uma mulher que governava homens e se fazia ouvir. Claro que a sua capacidade para a governação tinha sido colocada em causa desde o primeiro dia.
Era um fato que ela tinha apoiado a educação, a ciência e a cultura, mas seria apenas lembrada pela doença que se apossou dela depois de uma série de tragédias pessoais. Seria mesmo verdade que a rainha estava completamente louca ou teria sido essa uma forma de vedar completamente o poder régio a uma mulher?
Anna se lembrava de ter lido o relato da fuga da rainha em 1807. A louca tinha sido a mais sã de todos quando tentava embarcar em Lisboa e reparou na multidão de portugueses que se concentraram no cais e que precisavam não perder a fé na Coroa Portuguesa durante tempos tão difíceis.
A monarca comentou cuidadosamente com os criados que corriam com a pressa de a colocarem a salvo num dos navios com rumo ao Brasil:
— Não corram tanto. Vão pensar que estamos a fugir.
Nem mentalmente Anna conseguia sorrir da graça e da inteligência da rainha portuguesa. Também ela servia cegamente a um rei louco, ainda que de outra nacionalidade. O que estava fazendo com a sua vida?
Conseguia ouvir distintamente o riso da sua Princesa dançando no convés com as suas damas de companhia.
A noiva e centro de atenções de todos subiu correndo ao tombadilho para que Anna se juntasse ao baile improvisado.
O exercício da corrida tinha colocado uma cor rosada nas suas bochechas de pele fresca e o vigor da dança já tinha provocado estragos nos cachos imaculados de cabelos loiros.
Vendo que a amiga inglesa não estava com ânimo para festas, a Princesa fez beicinho como uma criança e continuou insistindo com o pedido, se valendo dos seus belos olhos azuis muito abertos. Anna riu quando a sua Senhora a levantou à força e rodopiou com ela.
Era um erro, mas estava se afeiçoando em demasia ao alvo que devia estar vigiando e controlando. Numa outra encarnação teriam com certeza sido amigas. Recuando sete vidas teriam sido família, mas naquele momento estavam divididas pela lealdade a um homem.
— Hast du den Brief von Pedro gelesen? Mein Prinz Charming!
Devia ser bom se apaixonar daquele jeito cego. Não que Anna se pudesse dar ao luxo de sonhar com isso, já que não se conseguia afeiçoar desse jeito. Teria nascido com a alma trocada com a de um homem?
Ela acabou sorrindo com o entusiamo de adolescente da noiva em viagem, mas tinha que a corrigir:
— Em português, Prinzessin. Devo recordá-la de que o seu amado mal compreende uma palavra de alemão? Dom Pedro tem muitas virtudes óbvias, mas, pelo que o embaixador nos contou, a erudição não é uma delas.
O novo elemento da família Bragança acedeu, mastigando cuidadosamente a língua de Camões. A Princesa continuava enrolando os erres e ignorando os tiles:
— Sim! Quero que Pedro se encante por mim como já me encantei por ele!
Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda de Habsburgo-Lorena tinha nascido como a filha do imperador do Sacro Império Romano-Germânico Francisco II, mas o pai tinha sido obrigado a reinventar-se como Francisco I, apenas Imperador da Áustria, o único título que Napoleão lhe permitiu manter aquando da guerra que destruiu a Europa.
Todos os filhos de Francisco tinham tido uma educação esmerada, esperando que viessem a ser figuras importantes na política europeia. A Princesa que se dirigia para o Brasil tinha dúvidas quanto à sua preparação, mas Anna a tentava descansar:
— Tenho a certeza de que o povo brasileiro se vai apaixonar perdidamente pela sua nova princesa.
A referida Princesa sabia que não deixava de pertencer à Casa de Habsburgo-Lorena, mas que o momento pedia que assumisse também uma nova identidade:
— Eles não gostam da minha família, Anna. Se eles não se esquecerem da minha ligação a Napoleão, o que farei?
As duas eram próximas em idade, ainda que a inglesa assumisse o papel de conselheira sábia. Anna Millman iria ensinar à sua Senhora a melhor forma de vencer aquele jogo de interesses:
— O Imperador não teve outra hipótese a não ser aceitar a chantagem de Napoleão e casar a sua irmã Maria Luísa com ele. Era isso ou a Áustria estaria perdida. Os portugueses da Corte vão ter que aceitar os fatos como eles ocorreram.
A Corte portuguesa em peso não tinha esquecido que o pequeno corso tinha sido o único culpado pela necessidade da fuga precipitada em massa de Lisboa até ao Rio de Janeiro. Permanecer em Portugal em 1807 poderia ter sido uma sentença de morte para muitos deles.
Resguardada do mundo no seio familiar, a Princesa guardava muitas inquietações:
— Devo negar a minha irmã?
— Não, Prinzessin. Deve fazer com que o povo brasileiro a ame. Conquiste a sua posição na Corte e ninguém se vai lembrar do seu cunhado. Não estamos viajando para um novo mundo? É a sua oportunidade de se reinventar, Alteza Real.
— Nem sei por onde começar.
— Comece pelo nome, Prinzessin. Escolha um novo nome para um novo destino. Todas as infantas portuguesas assinam como Maria…
Era um forte conselho disfarçado como leve sugestão, o prato forte da relação entre as duas. A Princesa sorriu com a ideia, satisfeita pela decisão tomada:
— Então eu também assinarei. Serei Maria Leopoldina.
— Bravo! O nome de uma futura Imperatriz.
Anna sabia que não se tratava apenas do casamento entre dois adolescentes. Era uma aliança entre dois Impérios. Um príncipe e uma princesa à superfície, Pedro e Leopoldina eram duas peças sem direito a opinião num jogo de interesses financeiros.
Abençoada terra aquela para onde se dirigiam, terra de cujo chão brotavam como frutos pedras preciosas do tamanho de ovos de pombo, como aquelas que pendiam do pescoço da Princesa, um presente enviado pelo sogro.
A nova Princesa tinha medos e inseguranças, mas contava com Anna para a ajudar a navegar por entre a sua nova família.
Leopoldina teria uma fera como sogra. Uma fera impossível de enfrentar, ainda que essa fosse uma comparação desleal para com um animal.
Uma besta da natureza sabe que deve defender as suas crias e a sua família acima de tudo, independentemente dos sacrifícios necessários.
A recente rainha do Reino Unido de Portugal, Brasil e dos Algarves parecia colocar o antigo título de Princesa de Espanha acima do presente.
Carlota Joaquina era um bicho demasiado poderoso que poderia devorar com uma facilidade gritante a sua indefesa Leopoldina.
— Será que minha sogra vai aprovar os meus trajes austríacos? — perguntava a Princesa rodopiando o vestido.
Anna precisava mostrar-lhe que Carlota Joaquina se tratava de uma inimiga com fraquezas e não de um dragão intocável.
— Sua Alteza Real se lembra do episódio do turbante?
Meneando negativamente a cabeça e a inclinando em sinal de atenção, Leopoldina se dispôs a ouvir a história.
— Quando a sua sogra chegou ao Brasil, em 1808, teve que raspar os cabelos por conta de piolhos. Para não aparecer em público de cabeça descoberta inventou de andar sempre de turbante e o povo ficou achando que aquela era a última moda na Europa.
A Princesa riu do modo como Anna contou a piada, mas a inglesa mantinha um distanciamento em relação a expetativas futuras.
Se Carlota Joaquina tinha batizado o Brasil como o quinto dos infernos e Leopoldina o imaginava como o Céu na terra, a verdade deveria andar algures entre os dois pontos.
Na esteira de Leopoldina chegariam os primeiros imigrantes austríacos que possivelmente não se iriam fixar muito longe da corte. Seria um lar longe do lar para a Princesa, mas Anna se preocupava com o lar matrimonial do casal Bragança.
Leopoldina nada sabia sobre a sucessão de amantes que Pedro tinha colecionado, muito menos sobre a dançarina francesa grávida do príncipe e afastada às pressas antes que se desse o enlace entre Portugal e Áustria.
Anna não conseguia evitar o medo pela sua Princesa. Pedro de Bragança tinha um apetite incansável pela vida desregrada. Leopoldina poderia acabar sendo devorada por tanta hiperatividade.
A inglesa não queria dançar, mas as austríacas ainda não tinham gastado todas as suas energias. Recrutando músicos amadores voluntários entre os oficiais portugueses, as damas de Leopoldina a raptaram e a levaram de volta ao convés.
Anna se sentou novamente, sabendo que a sua conversa com Leopoldina tinha sido escutada pela figura que se encontrava debruçada sobre a amurada a poucos metros de distância.
Mesmo no meio do oceano, ele se mantinha com a camisa alvíssima engomada a preceito, as botas com o lustro puxado e luvas de pelica que não cumpriam uma função. Era um janota que fazia uma boa figura, principalmente a quem não conhecia a fama do seu caráter.
Uma análise mais aprofundada mostrava alguém com a falta de elasticidade de um tronco de árvore e a falta de expressão de uma estátua de cera, o que fazia dele um conhecido jogador de póquer. Ele podia ser rígido, mas era perigoso.
Se tratava de Charles Johnson, o conhecido agente nada secreto da Coroa Portuguesa, contratado a peso de ouro pelos lusos para garantir a manutenção das possessões ultramarinas nas mãos de Dom João VI.
Anna não podia confiar num homem que tinha virado costas à sua pátria-mãe e se tinha vendido a Portugal por um metal vazio. Tinha dificuldade em sequer trocar duas palavras com um traidor.
O mercenário acenou na sua direção, se curvando numa vénia demasiado provida de salamaleques que não agradavam a Anna, mas não teve coragem de a abordar, provavelmente fruto do orgulho másculo ferido, preferindo se afastar na direção da proa.
Ela não conseguia esquecer o que ele lhe tinha dito dias antes, quando Charles a encontrou sozinha tomando ar na popa enquanto desabafava interiormente com a noite de lua cheia.
— Nós somos o mesmo, Miss Millman. Os lobos exilados têm por hábito caçar em matilha.
Era um apelo a que juntassem forças, talvez uma forma de a recrutar para servir aos seus interesses. Todos sabiam que Anna tinha o ouvido de Leopoldina e isso interessava de sobremaneira a Dom João.
Ela não se deixou abalar com a proposta que não a interessava em nenhum ângulo:
— Caro Charles, não se esqueça de que, mesmo assim, os lobos não perdem a tendência de procurar a solidão quando uivam para a lua.
O sol começava a esquentar e Anna se levantou, precisando esticar as pernas que estavam ficando dormentes, e deu a volta ao castelo, acabando por tropeçar no casal que se julgava a salvo, escondido por um monte de barris de mantimentos e por cordas.
Não lhe foi difícil reconhecer a dama de companhia de Leopoldina que se atracava a um dos oficiais portugueses encarregues de zelar pelo bem-estar da comitiva que acompanhava a Princesa.
Naquele espaço exíguo sem possibilidade de fuga se desfaziam e se formavam novos casais todos os dias. Anna se escondeu antes que eles dessem pela sua presença.
Como seria sentir um homem agarrado a ela daquela forma? Como seria ser dona de si mesma e esquecer linhagem, moralidade, ética e sentido de responsabilidade? Poderia Anna Millman ser realmente uma mulher como qualquer outra?
A inglesa procurou encarar a linha do horizonte que estavam deixando para trás. Um leve desconforto tomou conta dela quando percebeu que o navio de guerra encarregue da proteção da nau não estava à vista.
Que irresponsabilidade da equipa de proteção se terem deixado ficar tanto para trás. Finalmente, Anna viu que um navio avançava rapidamente na direção da nau, fazendo bom uso do vento que o fazia voar nessa direção.
O batimento cardíaco dela aumentou quando percebeu que não conhecia esse navio, mas que a bandeira negra colocada bem à vista não deixava sombra de dúvida quanto à sua identidade. Se tratava de um navio pirata e eles seriam abordados em poucos minutos.
Ela correu para tocar a sineta de emergência, deixando escapar palavrões em alemão ao perceber a demora de reação da tripulação. Brotava gente ao convés, atraída pelo alarido, e que se inclinava perigosamente sobre a amurada, se transformando em alvos fáceis. Estavam todos loucos?
Os viajantes da nau eram um bando de patos imóveis esperando que um caçador os apanhasse com as mãos, mas Anna Millman tinha outros planos.
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