Admirável Novo Mundo

3 Vi lagunas azuis como safiras


Anna Millman incorreu num crime de lesa-majestade ao empurrar Leopoldina para a barriga do navio sem abrir a boca para dar explicações. A Alteza Real ficou atónita com a sua atitude, mas se deixou levar, confiante de que não se tratava de um acesso de loucura da sua dama inglesa:

Was machts du, Anna?

Estavam na porta do camarote da austríaca e a dama de companhia instruiu a Princesa quanto ao que era possível fazer para garantir a sua segurança:

— Se tranque na sua cabine. Existe um grande espaço oco na cabeceira da sua cama. Entre no esconderijo e não abra a porta a não ser que reconheça a minha voz.

O tom assertivo de Anna não conteve o choro miúdo de Leopoldina que sobrava do véu de água que cobriu os olhos azuis da Princesa. Era o lamento de uma criança paralisada com o receio de existirem monstros no armário:

Bleibst du mit mir, bitte?

Anna não tinha como aceder ao pedido de uma donzela confusa. As orientações para aquele tipo de situação eram outras e a inglesa tinha sido ensinada pelo maior dos mestres. Relutantemente, apertou rapidamente a mão de Leopoldina e se apressou a correr pelo corredor, se despedindo em tom de alento:

Não posso ficar, Prinzessin. Coragem e tudo ficará bem.

Miss Millman sabia que precisava pedir ajuda bélica. Decidida, Anna agarrou em vários objetos aleatórios pelo caminho feito em passo de maratona e os enfiou à pressa pela portinhola do forno aceso da cozinha. Por muito lentos que fossem os soldados portugueses do navio que devia proteger a nau, quando vissem uma coluna de fumo negro ao longe deveriam entender que algo de errado e de perigoso se estava passando com a comitiva austríaca.

Panelas e frigideiras pendendo do teto tremeram em tom de orquestra fora de tempo quando um forte embate fez tremer o chão de tábuas largas da nau e Anna foi involuntariamente projetada contra a parede do lado oposto ao que se encontrava.

Tinha falhado nos cálculos do tempo de que ainda dispunha ou os piratas eram ainda melhores marinheiros e estrategas do que aquilo que ela tinha suposto.

Se apoiando na parede enquanto se levantava e se refazia do impacto, a espia engoliu a dor muscular e se arrastou até à escotilha para avaliar o que se passava no exterior.

O barco pirata, ainda que muito mais velho e em pior estado de conservação do que a nau Dom João VI, se tinha lançado sobre o navio português, embatendo violentamente de lado, o que fez com que, momentaneamente, o movimento dos dois navios cessasse e eles ficassem colados como gêmeos siameses.

A jogada de um David inconsequente contra um Golias distraído tinha sido uma tacada de mestre.

Atordoados pelo choque, portugueses e austríacos não tiveram tempo para ripostar enquanto, como macacos na selva ou artistas de circo, os piratas armados se serviam de cordas para se balançarem até à nau, aterrando com estrondo nas tábuas recentemente enceradas.

Em poucos minutos, os passageiros estavam sendo reunidos como gado no convés do navio e Anna tinha sido descoberta por um pirata desdentado que, com um sorriso bobo, lhe tinha encostado um sabre à garganta antes de a convidar a subir.

Ela sabia que o mais inteligente seria aceder ao pedido. De nada adiantaria se desvencilhar daquele homem quando já tinha contabilizado vinte outros ocupando a nau.

Quando se aproximou do ajuntamento involuntário no convés viu um dos piratas cortando a corda que controlava a âncora. O dispositivo de ferro caiu com força no leito marítimo, prendendo a nau num ponto fixo com um estrondo. Tão cedo não sairiam dali, mas ela esperava que a ajuda providencial chegasse em breve.

Um arrimo acabado de colocar entre os navios era uma ponte de madeira que os agrafava e Anna reparou quando o destinatário da passerelle a atravessou. Pela atenção respeitosa dos outros piratas ao homem que, feito palhaço, de uma forma bizarra e instável se passeava sobre a tábua, levantando os braços em busca de equilíbrio, só se podia tratar do seu Capitão.

Os olhos da inglesa se fixaram na camisa do pirata-mor, amarelada pelo uso, cujos punhos rendados em folhos demasiado grandes quase lhe escondiam as mãos. O Capitão se vestiria no escuro ou teria tido a coragem de roubar aquela roupa a um pedinte?

Fazia calor, mas aquele doido tinha o pescoço envolvido por um pesado lenço negro, cujas pontas, em jeito de tique, estava constantemente lançando para trás. Seria doente?

Ele podia ser enfermo de mente, mas não era mudo. Mal colocou os pés pesados em cima da Dom João VI, da boca do Capitão pirata saiu uma voz agradável de barítono, colocada em tom debochado de apresentação formal e acompanhada por uma profunda vénia:

— Senhoras e senhores, nada temam. Eu sou o Capitão Tiago Ferrão, mestre do poderoso navio de guerra Lobo do Amor. A minha visita de cortesia será rápida. Queiram fazer a gentileza de esvaziar bolsos e carteiras. Eu e os meus homens vamos aliviá-los de peso desnecessário.

Lobo do Amor. Que nome cafona para uma embarcação que se supunha máscula.

Anna se permitiu sentir satisfação ao confirmar que os piratas não tinham encontrado Leopoldina. A Princesa continuava a salvo e a inglesa era a única a conhecer o seu paradeiro. Nem sob tortura, Miss Millman divulgaria esse segredo. Acontecesse o que acontecesse, ela não falharia na sua missão.

O Capitão Ferrão era também um pinto no lixo, se passeando de igual para igual no meio de gente vestida de seda, brocado e trezentos títulos nobiliários repartidos entre todos. Parecia que ele retirava tanto contentamento do ato de roubar todos aqueles nobres ricos como do produto do roubo propriamente dito.

Anna percebeu que seria difícil retirar muitas mais ilações a respeito de Ferrão do que essa. Debaixo do chapéu de três pontas do Capitão só se conseguia perceber um amontoado de tufos de pelo sem manutenção recente, o que lhe conferia uma idade indecifrável.

Sob aquela barba comprida de Matusalém e cabelos densos que contrariavam a lógica e esvoaçavam simultaneamente no sentido dos quatro pontos cardeais, ele tanto podia ter vinte e cinco anos, como quarenta e cinco.

A espia inglesa conseguia apenas ver um par de olhos escuros que espreitavam debaixo da aba do chapéu e que se detiveram momentaneamente no instante em que se cruzaram com os dela e uma boca cheia de dentes brancos, fato pouco comum à época.

Um dos piratas era um índio de pele marcada por pinturas de guerra que se aproximou do Capitão e sussurrou algo no seu ouvido, ao que ele balançou afirmativamente a cabeça em resposta.

Naquele momento, Anna fez também uma associação na sua mente inquieta. O Capitão também tinha traços faciais e um tom de pele que lhe recordavam as gravuras que tinha visto sobre indígenas. Seria possível que se tratasse de uma verdadeira tribo de piratas?

Ferrão era decididamente um louco que colocava ao pescoço colares de valor incalculável e não se vergava diante do peso excessivo do ouro enquanto o retirava amorosamente do colo das damas presentes que coravam com a proximidade ao ladrão e à sua desfaçatez de Casanova dos trópicos.

Por sorte, parecia que os piratas não tinham reconhecido a carga humana preciosa que aquele navio transportava. Desde que Leopoldina ficasse a salvo, nada mais interessava.

Se os piratas queriam ouro, que o levassem. Nem todo a riqueza daquela embarcação valia tanto quanto uma vida.

Alguém discordava da avaliação da espia inglesa.

Anna reparou que uma leve proeminência nas costas de Charles Johnson fazia levantar a suspeita de que ele guardava uma pequena arma oculta.

O agente da Coroa portuguesa se preparava para reagir e enfrentar sozinhos vinte homens armados.

Charles não podia ser assim tão estúpido para tentar aquela idiotice. Que o mercenário acabasse pagando com a vida aquela decisão equivocada não lhe causava espécie, mas Anna sabia que ele se arriscava a sacrificar vidas inocentes apanhadas em fogo cruzado.

Com quem poderia contar? A reduzida escolta pessoal de Leopoldina tinha sido despojada de armas, mas todos dariam a vida por ela se tivessem que lutar corpo a corpo.

Ela faria o mesmo sem hesitação, mas não se podia denunciar daquele jeito a não ser no limite da situação.

Anna Millman implorou com os olhos para que Charles desistisse daquele suicídio, mas ele não soube ou não a quis ler.

Atenta aos movimentos de Johnson, Anna sentiu o corpo enrijecer-se em antecipação à luta que se iria seguir ao momento em que o inglês levantou a mão e a levou às costas.

Mais rápido do que o britânico foi o rei dos piratas. Debaixo do aspeto debochado, Ferrão já tinha percebido as intenções de Charles e o desarmou com um pontapé que exigiu mais precisão do que força.

— Coisa feia tentar dar um tiro num convidado.

Parecia que o Capitão estava até divertido com a tentativa de homicídio contra a sua pessoa. Pelo menos ainda não tinha perdido o sorriso irónico que lhe aflorava no canto dos lábios.

Anna aguardou, inquieta. Qualquer capitão pirata iria exigir uma vida em troca daquela afronta.

— Todos de joelhos.

Todos cumpriram a ordem do Capitão e muitos baixaram os olhos, mas ela se manteve atenta ao pirata, captando a sua atenção pela forma como não tinha baixado a cabeça.

Ele inclinou a cabeça num gesto que lhe devia ser característico e abriu um meio sorriso, esticando a mão como indicação a que ela se levantasse.

A inglesa sabia quando exercer diplomacia e se ergueu, apoiando a mão na mão enorme daquele homem estranho.

Ferrão segurou na mão dela usando as suas duas e se inclinou para a beijar com uma pressão excessiva. Ao contrário daquilo que ela pensava, aqueles tentáculos de barba não lhe picaram o dorso da mão, mas lhe provocaram arrepios.

Com um puxão decidido, Tiago se levantou a rodou para si, a envolvendo pelas costas. Ele não chegava a ser um palmo mais alto do que ela, mas a abrigava como um cobertor felpudo, calejado pelo uso, cujas palavras quentes lhe entravam diretamente nos ouvidos. Poderia ter sido até agradável para Anna, se ele não lhe tivesse colocado uma arma apontada à cabeça.

Tolamente, todo aquele contato provocou a inglesa num sentido inesperado. Anna sentia vontade de esfregar o Capitão com sabão azul e branco desde os cabelos revoltos até à unha do dedo grande do pé para lhe retirar todas aquelas camadas que o isolavam. Talvez conseguisse fazer dele um homem decente.

Tinha que reagrupar as ideias. Ela sabia que tinha a vida em risco, mas que nunca estaria completamente desprevenida. Anna não tinha tido oportunidade de voltar à sua cabine para pegar a carabina e a pistola, mas ainda tinha um punhal no cinto de ligas.

Tiago pigarreou antes de iniciar um novo discurso perante tão ilustre plateia, mas não a soltava de nenhum jeito, nem abrandava a pressão da pistola contra a têmpora da sua prisioneira. Naquele ponto, Anna se apercebeu que seria uma boa hora para começar a temer pela sua vida e pela dos restantes passageiros.

Discretamente, ela procurou com a mão a abertura no vestido que lhe iria permitir retirar o punhal e espetá-lo no pescoço daquele criminoso antes que ele terminasse o monólogo:

— Senhoras e senhores, foi uma visita muito agradável, mas temo que tenha que a encurtar. Graças a esse cavalheiro aqui presente, terei que levar uma pequena garantia para a segurança da minha viagem. A Marquesa vem com a gente.

Protestando, Anna percebeu que tinha sido promovida por um criminoso:

— Eu não sou mar…

Tiago Ferrão a envergou e a calou com um beijo na boca, forçando a passagem de uma língua sem-vergonha, a desconcertando com a ação e a fazendo deixar cair o punhal que se espetou silenciosamente no chão de madeira. Era impossível prever o comportamento daquele homem.

Foi ainda pior ainda quando Anna se sentiu voando e, com o desespero, balançou os pés no vazio, num movimento frenético de desespero.

Num momento era a dama de companhia da futura rainha de Portugal, noutro balançava como num trapézio, numa corda grossa nos braços de um pirata safado que se dizia capitão.

Quando aterrou já se encontrava na embarcação do filho da mãe, rodeada por homens com a pele queimada pelo sol e cheiro a mar impregnado nos ossos. Se ela lambesse Ferrão, seria possível que a pele dele tivesse sabor a sal?

Que pensamento idiota para se ter quando o criminoso ainda a apertava sem licença num abraço sem espaço de manobra, depois de minutos antes lhe ter apontado uma arma.

Tiago deu ordens para soltarem as velas e as amarras e os bons ventos libertaram o Lobo do Amor da sua união temporária com a nau portuguesa. Quando Anna percebeu, já começavam a ganhar rapidamente distância da Dom João VI e a normalmente calma inglesa desatou num berreiro irracional.

Ferrão a soltou, mas não a convenceu:

— Calma! Nada de mal vai acontecer com você enquanto estiver comigo…

Oh, really? Pare de mentir. Se o seu nariz crescer ainda mais vai acabar espetado no meu olho!

Anna sabia que estava perdendo o controlo, mas não a tinham preparado para combater a contradição em pessoa. A inglesa continuava agitada, procurando uma via de fuga direta.

— Para de se rebelar, Marquesa…

— Eu já disse que não sou marquesa!

— Do jeito que você se torce feito uma leitoazinha, é sim uma Marquesa. Uma Marquesa de Rabicó!

Os tripulantes do navio pirata riram com vontade do chiste do seu Capitão. Todos sabiam qual posição lhes estava destinada e o encargo de lidar com reféns lindas e loiras competia a Tiago, que bloqueava todas as vias de passagem de Anna:

Bloody hell! Let me go, you bastard!

Ele a abraçou para acalmar à força os movimentos de moinhos descontrolados dos braços da inglesa e riu no seu ouvido:

— The lady doth protest too much, methinks.

Nos braços dele, Anna adquiriu a imobilidade de uma estátua petrificada pelo susto. Não esperava tanta erudição de um homem como aquele. Quem era exatamente Tiago Ferrão?

Considerando que podia cantar vitória, o Capitão Ferrão finalmente a libertou e Anna se encaminhou lentamente para a amurada, tentando serenar a respiração e a exaltação do momento.

Não estava pensando direito. Tinha que se acalmar. Estava subestimando o adversário e perdendo margem de manobra.

Conseguia ouvir a voz longínqua do pai lhe dando ânimo, numa lição sempre relembrada antes que fosse esquecida:

— Coragem e tudo ficará bem, Anna.

O Capitão também a tentou acalmar quanto às suas intenções:

— Nenhum dos meus homens vai atentar contra a sua honra ou te magoar de alguma forma. Eu dou a minha palavra.

Anna sabia que Ferrão estava dando a mesma palavra do ladrão que tinha acabado de roubar a sua futura soberana:

— Você está fazendo algum jogo comigo?

— A senhorita é que deveria estar fazendo parte do Jogo da Memória.

Ela franziu a testa em interrogação. O pirata só sabia falar por enigmas?

Felizmente, não teve que implorar que ele lhe explicasse a charada:

— Já se esqueceu que, faz poucos minutos, eu podia e devia ter acabado com a vida do seu amigo? Eu não sou um assassino. Não, se o puder evitar.

Anna reparou que a nau que transportava Leopoldina era já do tamanho de uma formiga. Em poucos minutos deixaria de ser visível. Ela tinha visto que os piratas tinham rasgado as velas principais da embarcação portuguesa. Ninguém viria em socorro da inglesa. Tinha que encontrar os pontos fracos daqueles homens e se defender. Tinha que encontrar uma forma de voltar para junto da sua missão.

Aqueles piratas podiam achar que ela era uma donzela abandonada à mercê daqueles homens, mas teriam uma surpresa.

O Lobo do Amor deu uma guinada para reajuste de trajetória e uma onda traiçoeira quase varreu o convés, mas nem Anna, nem Tiago se desequilibraram, permanecendo de olhos focados um no outro num jogo de medição de forças enquanto as manobras prosseguiam.

Finalmente, Anna quebrou contato visual e subiu os olhos até ao cesto da gávea deserto. Era um bom ponto de observação para quem queria ter alguma vantagem sobre outros.

— Ficou impressionada com o tamanho do meu mastro, Marquesa?

Ela fez de conta que não tinha percebido a graça grosseira de Ferrão, saída do riso do safado e, se sentando sobre um saco velho de sarapilheira do mesmo modo como se sentaria numa poltrona estofada da ópera de Paris enquanto aguardava o começo de uma representação ou que o cenário pegasse fogo, respondeu lentamente:

— Já vi maiores, Captain.

Notas finais
Como na vida real, essa não é uma história de amor proclamado logo à primeira vista. Nem à segunda. Talvez nem à terceira ;). Não é provável que consiga postar na próxima semana. No próximo capítulo: salto de um mês e Anna continua na companhia de Ferrão. Ui. Aviso: ocasionalmente, vão surgir piadas prontas desprovidas de elegância porque uma pessoa não é de ferro. Beijo para todos!