A primavera havia começado há poucos dias, o que não significava que a temperatura em Tokyo já estava mais amena. Confortavelmente instalado no seu grande escritório dentro do prédio da sua própria gravadora, Hayashi Yoshiki simplesmente parecia imune ao frio e ao barulho que vinha da rua do lado de fora.

O sistema avançado de som daquele cômodo reproduzia as faixas do CD que o antigo baterista e agora produtor organizara em homenagem ao falecido amigo e companheiro de banda, Matsumoto Hideto. Ele havia se surpreendido com o resultado, no final; artistas que nem tinham muito contato com o X Japan ou com o próprio hide na época se empenharam nas suas versões de famosas músicas do guitarrista, e ele mesmo admitia que algumas haviam ficado até melhores que as originais.

Enquanto o CD rodava, o loiro virava as páginas de uma antiga revista de música que, por algum motivo que o ex-baterista desconhecia, sobrevivera à intensa arrumação feita no prédio há dois meses. E lá estava a preciosidade de 1994 sendo folheada mais uma vez, como em antigos tempos de glória.

Enquanto diferentes entrevistas e fotos se sucediam na frente dos olhos escuros de Yoshiki, ele notava quantas das bandas que estrelavam aquelas páginas já não estavam mais na ativa, contando a sua própria criação. Suspirando com pesar, os ouvidos do músico registraram brevemente a mudança de faixa no CD quando seu telefone celular vibrou no tempo da mesa, como se fosse uma criatura viva que tentava chamar sua atenção a qualquer custo.

O ex-baterista se assustou, usando a mão direita para agarrar o aparelho depois do tempo que equivaleria a dois toques. Ele apenas usou um controle para baixar a música enquanto atendia a ligação sem olhar para o número que o chamava.

— Moshi moshi.

— Ah, finalmente você atendeu! Só caía na caixa postal... — a voz do outro lado da linha reclamou, embora fosse um pouco difícil de ouvi-la com todo aquele barulho de carros e buzinas — Eu sofri um acidente e meu carro simplesmente não anda mais. Eu vou ter que esperar por aqui até a seguradora aparecer e vou chegar atrasado ao ensaio.

— Eu...

— Eu sei que logo hoje você queria passar as alterações do Hide, mas... — Yoshiki congelou ao ouvir aquele nome. Quem diabos estava falando com ele, ainda mais de hide? No entanto, agora que ele havia se indagado, o ex-baterista começou a achar aquela voz ligeiramente familiar...

— Chotto matte, ne. Quem está falando?

A voz que relatava acontecimentos em série se calou de repente, a linha sendo preenchida apenas pelos ruídos de veículos que passavam perto de quem havia ligado para ele. A música no escritório de Yoshiki continuava, e como num passe de mágica, ele reconheceu o outro.

— Sakurai-san?

— ...Hai. Quem é que está falando? — veio a réplica, e o ex-pianista não conseguiu segurar um pequeno riso.

— Yoshiki desu.

— Hayashi-san? — a surpresa e o embaraço eram palpáveis na voz do vocalista que se encontrava no trânsito, quase deixando o celular cair da mão — Gomen nasai! Eu poderia jurar que estava falando com Imai.

— Hisashi Imai, não é?

— Hai. Eu sofri um acidente e... — Atsushi suspirou — Eu acho que já contei toda a história.

— Você se feriu, Sakurai-san?

— Não, está tudo bem. Só o meu carro que não está em condições de andar... — ele parou de falar e Yoshiki supôs que ele estivesse examinando o pobre veículo — Obrigado por perguntar, Hayashi-san.

— Onde foi a batida?

— Ah... Boa pergunta. — o produtor podia ver o outro homem olhando ao redor em busca de alguma sinalização — Eu passo direto aqui, mas não lembro o nome.

Enquanto Atsushi descrevia a rua, o ex-baterista se levantou da sua confortável poltrona, dando quatro passos até uma janela que ele costumava manter fechada por causa do sol da manhã. Ainda com o aparelho celular no seu ouvido, o antigo pianista deixou seus lábios se abrirem em um pequeno sorriso após utilizar um outro controle remoto para subir as venezianas.

— Eu posso ver você, Sakurai-san. Parado ao lado de uma padaria, com o telefone celular no ouvido?

— Eu... — Yoshiki controlou um riso enquanto observava a figura pequena do vocalista daquela distância, e percebeu que ele havia reconhecido o fatídico prédio branco da Extasy Records — Entendi. Eu não acredito nisso.

Silenciosmente do outro lado da linha, o eterno loiro concordou com a cabeça. Vendo que seu CD já havia avançado outras faixas e que sua manhã estava praticamente desocupada e quase se transformando em algo tedioso, ele resolveu descer.

— Eu já estou descendo, Sakurai-san. Verei o que posso fazer para ajudar.

— Hayashi-san, não precisa. — o vocalista replicou no pequeno aparelho que ele carregava na mão direita agora, depois dos dedos da mão esquerda terem chegado perto de congelar — Não se preocupe, a seguradora já deve estar chegando.

— Sakurai-san, uma vez bati meu carro por causa da neve... — ele começou a contar a história enquanto já desligava seu CD player e aquecimento no escritório, além de apanhar um casaco grosso que havia deixado sobre uma poltrona antiga porém de estimação que ele possuía — E o guincho chegou no dia seguinte.

— ...Não vou dizer que não esteja esperando pelo pior também. — Atsushi riu de leve, pela primeira vez parecendo menos embaraçado no telefone e aproveitando para se encostar perto da entrada da padaria; ainda bem que haviam ajudado-no a estacionar em uma vaga, mesmo depois de quando seu carro havia desistido de funcionar — Mas eu acho que vou tomar um café enquanto isso. Realmente, não precisa se preocupar.

— Se aceita um conselho meu, não tome café nessa padaria. É um importado barato e sem gosto, parece com água suja, no máximo.

— Eu não sabia que café era tão importante para você, Hayashi-san.

— Eu também não, até me tornar músico.

— Familiar. — Atsushi deu um assobio baixo — Se bem que eu acho que essa parte de vício em café por causa da banda sobrou para o Imai.

— Eu imagino. Quer dizer que você tem outro tipo de vício pelo nosso café, então?

— Eu me vicio no que é bom, Hayashi-san.

— Então definitivamente não prove o café daqui. — o loiro concluiu e de repente, era como se a voz de Yoshiki estivesse mais próxima do que antes.

Piscando, Atsushi encontrou o outro homem de pé na sua frente, agasalhado e desligando um dos últimos modelos de telefones celulares. Colocando as mãos nos bolsos, ele sorriu para o vocalista e olhou de relance para o carro.

— Eu acho que mais de um café será necessário para passar o tempo.

— Com certeza. — o moreno concordou e devolveu o próprio celular para dentro de um dos bolsos, aquecendo as mãos também — Me desculpe por tirá-lo do seu trabalho, Hayashi-san.

— Sakurai-san... Acredite, não está me interrompendo. E depois, eu prefiro adiantar meu café de hoje para ter a sua companhia. — ele sorriu com simpatia e o vocalista retribuiu — Vamos, então? Fica a um quarteirão daqui, do outro lado da rua.

— Certo. Mas só se depois eu puder pagar um almoço ou jantar em troca.

— Isso é bem mais do que um simples café no meio da manhã, Sakurai-san! — Yoshiki exclamou, virando-se para a esquerda a fim de encarar o moreno.

— Não, não. Não quando se está frio e sem carro.

Os dois riram e foram em direção ao pequeno café, onde, vinte minutos depois, o telefone de Atsushi tocou. Ao ver a expressão do moreno ao desligar, Yoshiki sabia que ele havia levado uma grande bronca, provavelmente do líder do BUCK-TICK.

— Era Yagami-san, não era?

— Sim. — o outro fez uma careta — Esqueci de tentar ligar no celular dele mais cedo e... Como você sabe? — Atsushi franziu o cenho.

— Era eu quem costumava causar essas expressões no rosto de todo o resto da banda. — murmurou o ex-baterista com os lábios escondidos por detrás de sua xícara depois de piscar um olho de forma cúmplice.

Atsushi não conteve uma pequena gargalhada, sacudindo a cabeça e logo pedindo muffins para acompanhar os cafés. Era claro que o vocalista ainda tinha ensaio naquela tarde e Yoshiki tinha seus compromissos agendados, mas naquele momento, por mais que fosse o horário indevido, os dois homens tiraram a manhã para conversar.

E apenas isso.

Continua...