Três dias haviam passado desde o inesperado encontro entre duas das maiores figuras do cenário musical japonês, e Yoshiki estivera pensando justamente nisso. De pé, em frente à janela de onde avistara o carro quebrado de Atsushi da outra vez, o ex-baterista não percebeu que um sorriso havia tocado seus lábios ao se lembrar daquela manhã fria porém compensada com companhia e assuntos agradáveis.

O celular na sua mesa começou a tocar, chamando a atenção do dono que prontamente caminhou até próximo do objeto e atendeu-o no terceiro toque. A voz conhecida que encheu seus ouvidos foi uma grata surpresa, e o loiro emitiu de volta uma saudação enquanto se acomodava na sua grande poltrona.

— Boa tarde, Sakurai-san. Não esperava ouvir notícias suas tão em breve.

— Devo interpretar isso de que maneira, Hayashi-san? — o vocalista demandou brincando do outro lado, dando uma curta risada.

— Do jeito positivo, claro. — Yoshiki esclareceu, girando devagar na sua poltrona e observando os papéis sobre a sua mesa que haviam sido momentaneamente esquecidos em favor da ligação telefônica — É que ainda estamos no meio da semana e presumi que seus dias estivessem ocupados.

— E estão! — um suspiro se seguiu, mas a voz inconfundível de Atsushi não sumiu por muito tempo da linha — Mas acontece que me descobri hoje com algo seu, Hayashi-san. Hoje mexi no bolso do meu casaco do outro dia e encontrei sua carteira comigo.

— Minha carteira? — o ex-baterista questionou, rapidamente levantando do seu lugar e indo até onde sempre deixava seu casaco, moradia permanente da sua carteira. Inclinando a cabeça para o lado e subindo o ombro direito, Yoshiki conseguiu encaixar o celular ali de modo a continuar falando e conseguir procurar a carteira ao mesmo tempo.

Quando tirou a mesma do bolso, não notou nada de estranho a primeira vista: continuava sendo de couro, preta e... Com um zíper a mais do lado de fora que ele não tinha percebido até então.

— Sakurai-san... É verdade. — o ex-baterista exclamou, abrindo a carteira e então percebendo que aquele objeto de fato não lhe pertencia, encontrando a identidade de Atsushi dentro de um dos compartimentos. A foto do vocalista era provavelmente de algum tempo atrás; o cabelo escuro do outro homem estava mais curto na pequena imagem do documento.

— Eu só notei a troca agora pouco, quando ia pagar alguma coisa para o Imai lá fora. Mas aí encontrei fotos, documentos e cartões que definitivamente não são meus.

— Kami-sama. Sakurai-san, eu nem tinha visto isso. Eu acho que usei sua carteira sem perceber... — o ex-baterista fechou o objeto que tinha em mãos e começou a vestir o casaco — Eu usei o seu dinheiro por engano também. Lembra de quanto tinha aqui?

Atsushi riu com gosto do outro lado da linha, percebendo o embaraço do outro músico. Sacudindo a cabeça negativamente embora o gesto não pudesse ser visto no telefone, ele continuou:

— Daijoubu, daijoubu. Não tem problema algum, Hayashi-san.

— Mas eu faço questão de acertar isso. E precisamos destrocar as carteiras também, será que posso passar no seu estúdio?

— Ah, claro. Mas não tem problema se não puder vir hoje, Hayashi-san.

— De forma alguma. Só tenho alguns documentos para ler que posso levar para casa. — o loiro então voltou até a sua mesa e desligou seu computador, apanhando tudo que precisava e colocando dentro de um envelope com o logotipo da gravadora, saindo da sala logo depois de apagar as luzes e emendando um aceno para a sua secretária — Qual o endereço?

Aproximadamente quarenta minutos depois, um carro prateado e chamativo era estacionado próximo ao endereço do estúdio do vocalista. Fechando o casaco grosso que usava ao redor do seu corpo, o ex-baterista entrou no prédio e se anunciou, sendo instruído a subir para o sétimo andar.

Chegando no corredor da sala onde os membros do BUCK-TICK supostamente estavam ensaiando, Yoshiki encontrou a porta designada anteriormente pelo funcionário da recepção do prédio e bateu duas vezes, colocando as mãos nos bolsos enquanto esperava; aquele corredor era meio frio. Com os olhos protegidos pelas lentes negras de um óculos de sol de marca, o espanto que se imprimiu neles quando uma pequena garotinha abriu a porta não foi visível.

— Otou-san! Tem um homem parado do lado de fora!

O ex-baterista não disse nada, suas sobrancelhas voltando à altura normal enquanto a porta era aberta em definitivo e deixava que o loiro conseguisse vislumbrar o resto do cômodo. Ele imediatamente reconheceu os membros da banda, U-ta vindo na sua direção com um sorriso meio encabulado no rosto.

— Hayashi-san! Entre, por favor... — ele falou depois de fazer uma educada mesura e levantar a garotinha nos braços — Me desculpe, esta é a minha filha. Reiko sempre sai correndo para atender a porta antes de qualquer um de nós.

— Está tudo bem. Prazer em vê-lo, Higuchi-san. Reiko-san. — ele acrescentou com um sorriso, tirando os óculos escuros — Eu vim porque Sakurai-san e eu temos um pequeno problema a resolver...

— Ah, sim. Ele contou sobre as carteiras. — U-ta deu um sorriso brilhante para o ex-baterista, alisando os cabelos da linda menina no seu colo que olhava o loiro com interesse, uma expressão evidente de curiosidade no seu rosto — Mas pode esperar aqui dentro, Atsushi saiu para comprar cigarros e...

— Já voltei. — uma voz veio do corredor e o ex-baterista se virou para a mesma direção em que os olhos de U-ta e sua filha tomaram, os três sorrindo ao ver a figura do vocalista de volta com um cigarro acesso entre os dedos da mão direita — Não achei que fosse chegar tão rápido, Hayashi-san.

— Nem eu. Mas não tem muito trânsito hoje.

— Sexta-feira sem trânsito? Estranho, muito estranho. Mas vamos entrar, por favor.

Finalmente todos saíram da porta e adentraram o estúdio, onde Yoshiki cumprimentou o restante dos membros do BUCK-TICK com cordialidade. A resposta de Hide e Toll foi tão simpática quanto a de U-ta à porta, mas Imai se limitou a um aceno curto e eficiente de cabeça.

— Bom, vamos desfazer essa bagunça... — o vocalista foi até um local na parede onde vários casacos estavam pendurados, retirando uma carteira do bolso de um deles e voltando até onde Yoshiki estava — Aqui está. Me desculpe pelo trabalho de vir até aqui.

— Não, não. Está tudo bem, eu que deveria me desculpar por nem ter percebido que estava usando dinheiro de outra pessoa. — após a devolução dos objetos, Yoshiki rapidamente abriu sua carteira e retirou algumas notas de dentro — Quanto eu fiquei lhe devendo?

— Nada.

— Sakurai-san...

— Não, é sério. Não precisa pagar nada, a sua companhia na terça-feira valeu bem mais do que isso. — o moreno respondeu com um sorriso e guardou a sua carteira no bolso.

— Falando no seu carro, como ele ficou? — o loiro perguntou, depois de um suspirou resignado ao perceber que não conseguiria fazer Atsushi aceitar o dinheiro de volta.

— Chegou em um estado lamentável na oficina. — Hide respondeu pelo amigo, que riu em seguida — O motorista do guincho era novato e ele teve problemas para colocar o carro do Atsushi no caminhão, depois para descer o coitado de novo... Ganhou alguns arranhões e problemas de suspensão extras.

Yoshiki fez uma careta e o vocalista riu de novo.

— Não tem problema, eu creio que o seguro cobre isso.

— O seguro cobre seus próprios acidentes?

— Espero que tenha o seguro do seguro, então.

— Não existem coisas assim, U-ta.

— Vai ver eles descontam do salário do motorista.

— Ele já não deve ganhar muito...

— Ou então ele estava nervoso por estar levando o carro do Atsushi!

— Mas ninguém reconhece o Acchan de manhã, aquela hora, com o cabelo despenteado. E olheiras.

— Ele sempre tem olheiras, Hide.

— Eu estou ouvindo tudo, sabem?

— A-ham.

Uma risada geral ecoou pelo cômodo, incluindo até mesmo o alvo dos supostos insultos. O ex-baterista balançou a cabeça negativamente antes de se pronunciar:

— Não é verdade, Hoshino-san. Eu acredito que vários dos olhares que recebemos no café aquela manhã foram por causa de Sakurai-san. A voz dele também é inconfundível e não ajuda a disfarçar.

— Eu posso jurar que eram todos por sua causa, Hayashi-san, mesmo sem ter estado lá. — U-ta comentou, colocando sua filha no chão que correu para a bateria em segundos, Toll sorrindo antes de pegar a sobrinha no colo e deixando que a mesma se divertisse com as suas baquetas.

— Não, não mesmo. Aquele café fica perto do meu escritório então eu costumo freqüentá-lo. A presença de Sakurai-san com certeza foi o diferencial.

— Se você diz, então. — Hide parecia convencido.

— Eu não acredito. Você é Hayashi Yoshiki, afinal. — o próprio vocalista rebateu, cruzando os braços e fazendo uma expressão cética.

— E você é Sakurai Atsushi. — o loiro replicou com um sorriso, copiado por Hide e U-ta depois, que riram junto com o baterista.

— Já sei. Vamos tirar a prova no jantar.

— Jantar?

— Eu prometi que pagaria um jantar em troca do café na terça-feira, lembra? — o vocalista perguntou, e Yoshiki confirmou com a cabeça.

— Claro, claro.

— Está ocupado hoje?

— Não. Só tenho aqueles documentos para ler e assinar, mas posso fazer isso amanhã.

— Então vamos aproveitar a noite sem trânsito de sexta-feira! — o moreno exclamou e foi apanhar suas coisas, Yoshiki aproveitando esse tempo para despedir-se dos membros da banda e da graciosa filha de U-ta, que junto as duas mãos na frente do corpo e corou antes de olhar para o ex-baterista e pianista:

— Yoshiki-san... Me dá um autógrafo?

Todos riram na sala e o loiro prontamente atendeu o pedido da menina, fazendo-lhe uma dedicatória bonita e assinando seu nome logo após suas palavras. Despedindo-se mais uma vez de todos, ele e Atsushi deixaram o prédio do estúdio logo depois, o cigarro do vocalista quase no final.

Quando estavam na rua, o moreno parou de andar, olhando para o carro do outro homem estacionado ali na frente.

— Yoshiki-san.

— Hai? — o outro replicou, usando um pequeno controle para desativar os alarmes do seu carro.

— Meu carro ainda está no conserto!

— Eu sei.

— Como vou fazer para levá-lo ao restaurante, então?

— Vamos no meu carro. — o outro homem respondeu com um sorriso pequeno, divertindo-se com as reações do outro músico.

— Mas...

— Considere uma retribuição pelo seu dinheiro que eu gastei sem querer. Vamos, entre! Não quero que Yagami-san fique zangado comigo se pegar um resfriado nesse frio.

O moreno jogou o cigarro em um lixo próximo e deu a volta, entrando pelo lado do passageiro.

— Eu não pego resfriado fácil, Yoshiki-san.

— Ah, Atsushi-san. Prefiro não correr o risco de ver um baterista irado.

— Eles são perigosos, Yoshiki-san? — Atsushi perguntou com um sorriso, o carro já em movimento na direção do primeiro farol.

— E como. Uma bateria sendo arremessada é algo assustador.

— Faz sentido.

— Mas vocalistas furiosos são piores.

O vocalista ergueu uma sobrancelha, demonstrando interesse. Yoshiki sorriu para o outro ocupante do carro, o interior do veículo iluminado apenas pelo poste da rua.

— Com um simples comando feito na voz deles, eles mobilizam multidões. E hordas de fãs correndo atrás de você é bem mais perigoso que uma bateria no ar.

Atsushi riu com gosto do seu lugar.

— Acredita que vocalistas têm esse poder de hipnose, então?

— Eu não acredito nisso; eu tenho certeza.

O farol abriu e o loiro acelerou com o carro, prestando atenção na rua e perdendo um pequeno sorriso malicioso no rosto do outro homem.

Continua...