Notas iniciais
Olá, aqui estou eu outra vez, não tenho muito o que falar. Fiz esse capítulo com muito carinho, espero que gostem, e sintam.

O simples ato de pensar em excesso te leva à uma discordância infinita com a realidade, quem muito pensa enxerga o mundo sem enfeite, sem maquiagem. Grandes pensadores carregam dores maiores do que conseguem descrever.

Lacrimosa de Mozart dava para ser ouvida de todos os cômodos da casa, vindo de um toca-discos que ficava no andar de cima, aquilo não era um bom sinal.

Um parapeito. Vento. Cabelos.

Dançava com seu vestido, seus cabelos , sua alma. Seus pés vez ou outra tocavam ao chão, parecia ciranda, mas era a dança do coração.

Coração esse que há muitos parecia não estar ali, mas agora sim. E dói, como dói. As lágrimas se juntaram a dança também. Desceu os pés, tocou o chão. Já estava nele. Só resta torcer para que ainda reste esperança, sabemos que é só mais um dia ruim. Mas, quando tudo desaba, a última coisa em que pensamos é que tudo vai ficar bem. Só há frustração, ruína, derrota, e o pior estado da vida: O mais profundo abismo.

Era um cubo mágico que perdeu a magia, e estava com todos os quadrados fora do lugar, um mundo desconhecido, uma ilha que ainda não foi achada, invadida. Uma galáxia distante e repleta de estrelas tão lindas quanto às íris castanhas que habitam seu olhar.

— Querida, está aí?

Silêncio. Silêncio do vento, da música, dos sons e das palavras, silêncio do tudo, e do nada.

— Regina? Está na hora de ir, sei que as noivas se atrasam, mas se demorar mais um pouco será exagero.

— Estou indo. Vá na frente.

— Tudo bem, mas não demore mais.

— Está bem.

O sussurro da voz para esconder as lágrimas, a dor.

Esperar. Esperar muito do outros. Esperar que alguém chegue com todas as soluções para seus problemas. Coração puro, futuro incerto. Dor pertinente.

Sente doer.

Tem que sentir.

Deixa sair.

Espero que sobreviva.

Parece a coisa mais horrível agora.

Não consegue nem ao menos levantar.

Que acha que o ruim não vai melhorar.

Mas vai.

Você vai.

Não vai falar com ninguém, e sente muito.

Não consigue abrir a boca, só perde a fala quando a dor invade e não vai parar de doer tão cedo.

E ela sente muito.

Calçou os pés, limpou as lágrimas. Estava na hora, estava conformada.

— Senhora, o carro está pronto.

— Eu vou no meu, obrigada.

Sem olhar para trás, sem conter as batidas do coração, era o certo a se fazer. Precisava se livrar, precisava viver. Partiu. De início para a igreja, a coragem tinha se esvaído, um rosto conhecido. Um sorriso. O primero daquele mês. O primero do infinito.

Ela pegou a vida

Com as próprias mãos

E ninguém mais pode lhe dizer o que fazer.

O que fazer agora? Que caminho seguir?

Se certifica de que está bem, e que está a um milhão de quilômetros distante do caos.

Vai parando o carro, seu vestido bufante atrapalha um pouco, mas ela sabe controlar, assim como controlou sua dor naquele momento.

— Hey!

— Hey.

— Entra, você me deve um café.

— Quando falou do café, achei que seria um café mesmo, não que iria me pedir em casamento, e de quebra, já estaria vestida de noiva.

— Vamos logo, é só o café.

— O café já é muito.

Outro sussurro. Mas esse não era o do adeus, era do agradecimento. Era o sussurro da esperança outra vez, a teimosa esperança que não cansava de aparecer e reaparecer a todo momento. Não sabia que aos outros incomodava essa sua indecisão. Parecia até do signo de libra, ou de leão.

Só reparamos o tempo quando ele passa, só reparamos na vida quando ela acaba. Porque não importa o quanto correr, estará correndo de si, sempre. Somos os dois lados da moeda.

— Quer falar sobre o porquê de você estar vestida de noiva?

— Eu ia me casar.

— Ia? Por que não vai mais?

— Acho que eu perdi meu próprio casamento.

— O que houve?

— Nada demais, eu só precisava me libertar disso. Ser um fantoche nas mãos dos outros não é muito legal, sabia?

— Você não queria se casar, é isso? Estava sendo obrigada?

— Não havia amor. E eu não sei lidar com isso. Quero conhecer aquele tipo de amor que rompe todos os sentidos, que incendeia, de uma maneira que não tem como parar de queimar.

— Mas todo fogo acaba, uma hora.

— Não se você não deixar. Não sou de criar expectativas de um relacionamento, daqueles que fazem com que nosso corpo entre em chamas e que espalham arrepios até pelos pés, que as pernas fraquejam e ficam bambas. Não quero desse tipo de filme de romance clichê, que antes de começar você já sabe o que vai acontecer e como vai terminar. Quero uma conexão que seja mais que dois corpos que sincronizam na cama, quero algo que não se aplica a nenhuma norma. Quero um amor que me ensine a ser melhor e que me torne melhor, não melhor para alguém, melhor para mim. Que preenche, que me faz ser brasa e pólvora, que façam as moças do século passado sentir o fogo da minha paixão no peito. Não quero amar em silêncio, mas também não quero espalhar que consegui a melhor coisa da minha vida, porque a inveja tem ouvidos por todo lado, e sempre se têm alguém que deseja a sua infelicidade. Quero que seja algo seguro e ao mesmo tempo perigoso, suave estilo terremoto, e que nos faça querer reviver até a briga para quem iria ficar com a última parte do sorvete tomado, você me entende? O amor é simples, tudo bem, às vezes nem tanto, eu gosto do difícil, suave e do complicado ao mesmo tempo, e isso me atiça. O que quero dizer é que o que eu quero não passa do obvio, quero alguém que fique e me faça companhia depois de tudo, que não desista, que seja fiel aos meus sentimentos. Alguém que eu possa dizer que é pra sempre.

— Você é intensa. Naquele dia disse que eu sinto, sinto muito. Isso faz mais de um mês, eu sei. Mas eu não esqueci. É hora de retribuir, você me salvou de uma possível morte naquela madrugada, não era a morte do corpo, mas a morte da alma. Você merece um amor, você merece tudo de bom, mas antes disso você também precisa sentir. Tá doendo?

— Tá doendo demais.

— Acho que é assim que funciona. Primero dói, depois melhora.

— É, acho que sim. Nossas conversas sempre vão ser assim, tão intensas?

— Acho que não são as conversas que são intensas.

— Somos nós então?

— Acho que sim. O que você vai querer?

— "Um café e um amor quentes, por favor!

Sem excessos de doçura ou amargura.

Forte

Doce...

Que ambos façam meu coração acelerar.

Que me mantenham vivo."

— Fernando de Abreu?

— Fernando de Abreu. Acho que eu preciso fugir.

— Eu também, eu também.

— Isso seria loucura demais, não é?

— Fugir? Acho que não, às vezes a gente precisa dar um tampo.

— Eu preciso urgentemente dar um tempo. Você quer também?

— Acho que sim, sim.

Espero que não tenha um adeus, não hoje.

Notas finais
Digam o que acharam, se quiserem.