Notas iniciais
Olá! Aqui estou eu com mais um. Espero que sintam, e que gostem. Desculpem quaisquer erro. OBS: Tem um trecho no meio do capítulo que pertence ao filme "O perfume da memória".

Curioso o destino, curioso os acasos, escritos como aquele velho romance clichê, previsível e ao mesmo tempo irreconhecível. Você já viveu, mas não o conhece mais.
Muitas pessoas levam uma eternidade para se infiltrar na vida de outras. Algumas, coitadas, não passam nem pelo porteiro, quem dirá pelo hall de entrada; mas tem aqueles, como que por mágica ou força do destino, acham, inusitadamente, imediatamente, de pronto e bom grado um espaço especial, quentinho, dentro do peito, como se já estivesse reservado para esse alguém, desde antes, desde sempre.
Muitas, com a gente ao longo de toda a nossa vivência, nenhuma falta presente; outras, que chegam feito a chuva de inverno bem no decorrer do verão, de uma hora para outra, tapando o sol, inundando o chão, e aquela saudade te invade, antes mesmo de ser dito o adeus. Tem aquelas pessoas que vêm para ficar, e as outras já não sabemos, talvez parta antes do grande momento, talvez não tenha sido dessa vez, mas foi especial. Foi amor.
Tempos a frente, tempos depois. A paixão nascera, mas se escondera. Tinha medo da dor, tinha medo do amor. De machucar, de retribuir a dor.


— Então você nasceu em Boston? A cidade em que o sol não nasce, e se nascer, se esconde.


— Sim. Amo o clima de lá, a brisa gelada logo pela manhã, as cafeterias que fazem os melhores chocolates com canela do mundo!!

— Você gosta de chocolate com canela?


— Sim. É minha bebida predileta.


— Gosto peculiar o seu. Eu gosto de café, puro, forte, amargo.

— Isso não retrata nem um pouco no que você é, ou pelo menos não parece.


— Eu acho que retrata muito no que eu sou. Principalmente na parte do amarga, só que soa melhor "sem açúcar"


Se perde em tudo. No mundo, em si. No sentir e no dançar, no viver e no amar. O que é amar? o que é amor? De muitas respostas, a que parece mais cabível é a dor. A dor da felicidade que é tão grande que chega não cabe no peito. A dor de não ter percebido antes, a dor do agora e do adeus, que não se tarda, nunca se atrasa. A dor de seu coração saindo do peito e lhe invadindo as cordas vocais, lhe impossibilitando de respirar, de falar. Te levando a bater a cabeça em todo lugar, até machucar, até sangrar. E é nessa parte que vem a dor de verdade; a da saudade. A dor do adeus, a dor do tinha que ser assim.


— Você me parece doce.


— Toda doçura em demasia se torna amargura.


— Talvez seja, mas ao meu ver você parece doce, de uma forma que não dá para amargar. Te vi com os olhos da alma, te vi com a profundidade do mar, agora aqui estou eu, te vendo transbordar. O que te fez tomar aquela decisão, sabe? Daquele dia em que nos encontramos e você estava vestida de noiva.

— A de não mais casar? Faz três meses, chega a ser engraçado. Não é?

— Sim.


— A ilusão da liberdade. Acho que já te contei isso. Acho que foi por isso também.


Tudo se rolava nisso, depois de uma hora a conversa ainda não tinha saído do início. Início de um fim ou de um novo começo.
Dizem que nós carregamos flores dentro da alma, e que essas flores foram plantadas por nossos antepassados mais remotos, num jardim de pedras, depois eles colhiam essas flores na noite de lua, ferviam no chá, e tomavam. Eles acreditavam que o humor, a paixão, o sorriso... A forma da gente ver a vida, são um espelho desse jardim que a gente trás na alma.

— Então você tem esperança?

— Esperança? Não sei, acho que não.

— Como não? Viver sem esperança é como viver sem amor, Regina!

— Outra coisa que eu nunca tive. Você já?


— Uma vez eu tive, já faz tempo. Muito tempo. Não deu certo, não gosto de falar disso.

— Dói, não é?

— Dói.

— Eu não quero sentir dor.

— Mas há aqueles amores sem dor também.


— Os dos filmes, né?

— É, os dos filmes. Vem comigo, quero te mostrar um lugar.

Mãos entrelaçadas como as de um casal apaixonado, como de uma mãe segurando com muito cuidado seu filho na hora de atravessar uma avenida movimentada, com medo de perder seu bem mais precioso. As almas estavam conectadas, os corpos ainda não sabiam de nada, mas estava perto da chegada, da entrada, da morada e da partida. Basta calma.

— Fecha os olhos. Estamos chegando.

— Onde estamos?

— Se fosse pra saber eu não teria dito para fechar os olhos. E de bico calado.

— Okay, Okay. Eu já entendi.


— Me dá a mão.

As mãos tentaram tocar o céu
a alma almeja definir o que é indefinido
o corpo entregue ao universo vasto, infinito.
Lembranças escondidas atrás das cortinas da vida.
tempo escorre pelos dedos, pela alma.
vida que segue
Voz que me cala.

— Pode abrir.


— Que lugar lindo, Emma!! E olha aquele lago! É maravilhoso!

— Achei que fosse gostar, vinha sempre aqui com meus pais quando era criança. E o lago é lindo mesmo, mas não dá pra nadar agora, tá noite.

— E o quê que tem ? Vem!!

— Você é louca? Vai ficar doente se entrar aí, tá gelada.


— Vem logo, deixa de palhaçada.


A dança das almas, das palmas, das mágoas. Mágoas essas já não sentidas, se foram, se perderam. Agora só resta um mar de desespero. Desespero para que dê certo, para que a esperança, pelo menos dessa vez não dê uma de engraçadinha e vá embora outra vez. Coragem. Uma dose dela, por favor. Se tiver mais será melhor, mas enquanto isso, uma tá bom.

— Isso tá muito gelada.


— Eu seeeei! É incrível, não é?


— Você é incrível. Como isso é possível?


— Isso o quê?

A proximidade, o risco da verdade que corrompe a vida, que dilata a alma, que transforma o tudo em nada. Os riscos que eram precisos correr, para ter vida, para viver.


— Você. Como você é possível? Para ti tudo é lindo, tudo são sorrisos.

— Eu também não sei porquê. É que....

— Que?

— Eu não sei como dizer isso.

— Isso o quê? Diz logo.


— Só acontece quando eu estou com você. A esperança me toma, uma coisa diferente, eu não sei o que é, não me pergunte. Não sei como parar, e também não sei se teria coragem de o fazer algum dia.

Proximidade essa que se deu fim, que trouxe consigo o ar do perigo, que a tudo aquilo que era impossível, a possibilidade de existir, a dor se foi, o amor voltou. Disse que era permanente, mas não se engane, ela mente.

Gostaria de não ter que te dizer adeus.
Não mais.

Notas finais
Digam se gostaram, e se tiverem alguma dúvida, pode perguntar. Xoxo.