Adeus, Emma.
4 Four
Notas iniciais
A vida.
Ah, essa danada gosta tanto de contradizer a gente, que antes de nascer a gente já começa a morrer. Se desgastando como um velho motor que sofre com o peso das próprias peças. Mesmo assim somos convictos de que somos inabaláveis, que não podemos nos machucar. Nada vai nos afetar. Que com os outros pode acontecer o que for, mas com você não, é blindado, inabalável. Mas coração, nós também somos os outros, e pior, os outros dos outros.
Nos colocamos em lugares desconhecidos, pisando em chão demarcado por bombas, por terra, explosão.
perdemos o dom da razão. Nada resta, só paixão. Costumamos jogar, jogar e apostar; apostar no desconhecido, no abismo, no jamais sentido. A incerteza do que ainda não é certo te cerca, mas não há mais nada a fazer, já se jogou de cabeça, agora resta viver.
Podemos não perder nada, nem mesmo a sanidade, ou podemos perder tudo, inclusive a noção da verdade. A gente deixa fluir, deixa cair. Como água nos rios, como o vento no frio.
O problema de tudo é o medo, do princípio ao termino. Do céu ao inferno.
— Por quê depois daquele dia, quando me vê, você trava?
— Eu não sei. Acho que as palavras me faltam, não acho nada a sua altura. Tudo parece tão pouco para o que você merece ouvir.
— Vamos lá, eu nem sou tudo isso!!
— Claro que é! As palavras ás vezes me faltam, mas tenho muito o que dizer.
— Diz algo então, assim eu acredito.
— Algo que eu queria dizer a você?
— Sim, Swan.
— Gostaria que se visse através dos meus olhos, assim saberia como eu me apaixonei por você, e aposto que se apaixonaria também.
— Então isso é uma confissão?
— Confissão?
— Sim, você acabou de dizer que está apaixonada por mim.
— Ah, vamos lá. Você já sabia disso.
— É, eu sabia, mas é melhor saindo da sua boca. É como uma melodia, a minha melodia predileta.
— Sabe qual é a minha predileta?
— Não, qual?
— O som que sai da sua boca quando você gargalha incansavelmente de algo que nem ao menos tem graça. Eu realmente amo esse som, e a simplicidade que mora em você. O gosto por coisas tão simples, mas que pode mudar o dia de alguém, o sorriso que dá para as pessoas nas ruas, não faz a mínima ideia de quanto isso pode significar pra alguém, não é? Me vi totalmente encantada pelo teu sorriso, sempre tão confuso, indeciso, mas que trazia não só mundo nele, mas uma galáxia todinha repleta de mistérios. Me encantei pelas palavras, tão melódicas que me arrancavam sorrisos imensos, intensos, cheios de sentimentos. Me encantei pelo teu olhar, que mesmo entre tantas outras pessoas, resolveram me enxergar, se aproximar. Me encantei por você, lá atrás, no dia do café, e no dia seguinte também.
Que a vida lhe permita apreciar cada pedacinho, cada detalhe, cada caminho que é a caminhada pela vida.
Cada espacinho do mundo, dos outros, de tudo.
De si.
Sem pudor, sem rancor.
Olhar com paixão, cada pedaço dessa mera ilusão.
Para que, quando chegar lá no finalzinho, possa ver o quanto valeu o sacrifício.
Ai você vai ver os amores, as pedras, as dores, os sorrisos, os gritos desesperados, a procura pelo abrigo.
A incerteza, a solidão.
A melodia da alma.
O cheiro da terra molhada.
As lágrimas com gosto de adeus.
Você e eu.
O fim da vida, o fim do amor.
O fim do luto, para só aí então, ser o fim da dor
.
— Ah, Emma. Eu esperei demais por alguém assim a minha vida toda, e quando eu finalmente parei de esperar, você chegou. Chegou e me fez ver a vida com os olhos que eu não tinha, chegou e me fez ver que minha alma, além do meu corpo, era divina. Chegou e jogou por terra tudo aquilo que eu achava que sabia, e me fez ver que ninguém, Emma, ninguém sabe nada sobre a vida. Chegou e me mostrou o que é o amor, me devorou com ele, me escreveu, me transformou em poesia. Me fez sua, e além disso, me fez minha.
A colisão que do nada surgiu, ou que foi planejada.
O sussurro da vida para tudo, para nada.
Os acasos imprevisíveis, o principio do dia feliz.
Talvez o céu algum dia tenha se derramado em aviso.
Avisando ao destino, que por mais que demorasse, estava vindo.
Os desencontros das almas nos bancos, nas calçadas, nada mais era que a espera.
Pela hora, pela entrada, pelo momento exato, para que ele presenciasse a chegada.
Chegada de uma nova vida, talvez até de um novo amor, a chegada inusitada da morte, da dor.
Dor de se perder em si, dor de jamais conseguir seguir em frente depois do existir.
Existiu em vida, existiu em sonhos, nos planos mais remotos, nas linhas tão sem ânimo.
No anonimato de um poeta que falava sobre o amor, sobre como era sentir tudo aquilo depois da dor.
Aprendendo a cultivar a alma, o coração.
Viver na ponta do abismo.
Do escuro e desconhecido, achando que é uma forma de provar para o mundo que não temos medo de nada, estamos seguros.
Mas do que fugimos, afinal? Da vida, da morte ou do pedestal?
Ninguém sabe dizer, talvez estejamos fugindo de tudo, ou só de você.
— Eu amo você.
— Eu amo você.
Há quem diga que os acasos da vida, a nós nada ensina.
Mas é mentira, é nicotina.
Ensina que nem tudo que temos, realmente é nosso, realmente nos pertence.
Ensina que a dor faz parte da vida e que trás com ela a sensação de que nada sabemos.
E muitas das vezes, a sensação de que não estamos vivendo.
Ensina que por mais que tentemos, nunca saberemos quando será a última vez.
Ensina que a vida é feita pra ser livre, mas também ensina que essa doce liberdade tem um preço.
O preço, o preço da prece, do enlaço no peixe, prendendo na rede e deixando o mar.
O preço do apreço e do doce desejo de saber o que é amar.
Amar a si, amar a outro, a vida, os desgostos.
A infelicidade é uma consequência do adeus, que foi dito em sussurro, no último sopro de vida, de esperança.
Esperança que ansiou ir embora, e que antes de chegar, já estava com a mala pronta.
Pronta para voar outra vez nos braços da ilusão.
Do mundo que se perde em chamas, sem razão.
Que queima a alma, que acaba com a brasa e destrói o chão.
Queima a vida, queima a palma, o fim, a deságua.
Eu estou aqui, mas não por muito tempo.
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