Adeus, Emma.
5 Five
Notas iniciais
As estrelas ainda brilham no céu.
O lápis ainda risca o papel.
As coisas infinitas ainda estão lá.
É difícil saber quando vai se acabar.
De pedacinho em pedacinho, como as estrelas no infinito do teu olhar.
Carrega no peito a dor de sofrer, carrega no peito a solidão que é viver.
Vê o mundo, e ele desaba.
Acaba tudo.
E acaba em água.
— EMMAAAAAAAAAA!!!!
— Já estou indo, o que aconteceu?
— E-eeu.... eu..
— O que houve, já está me deixando preocupada!
— Eu estou grávida!!!
— O QUÊ? MAS CO-OMO?
— É É É !!
— Meu amor, vamos ter um bebê.
— Sim, vamos ter um bebê.
O momento súbito de felicidade, ninguém sabia da verdade.
Da verdade de que todo momento bom, vem acompanhado de outro que dá um nó.
E destorce tudo, inclusive o pó.
Dando fim no mel, dando fim ao céu.
Acabando com as bases, estancando com as gazes.
A vida chega num sopro, e se vai em outro.
Acabando com quem fica, danificando a vida.
Se ao menos soubesse quanta falta faria.
Se ao menos soubesse que aquele seria o último dia.
Aproveitaria.
— Eu preciso falar com a mamãe, ela vai ficar louca com isso!!!
No principio é tão grande que te impede de falar.
Te tapa os olhos, te deixa sem ar.
É um dia normal.
Talvez exista o amanhã.
Talvez não.
— Ela não atende, vou dar uma passada lá e depois vou no supermercado. Vai ser rápido, prometo que volto pra ficar com você e o garotão aí.
— Garotão? mas nem deu tempo da criança se formar ainda, sua louca.
— Ah, minha intuição não falha.
— Okay então, volta logo, por favor.
— Eu volto.
Ter medo te não ter medo.
Ter medo de um dia se entregar.
Nos braços da morte.
Sem mesmo notar.
Entregar sua vida.
Entregar teu lar.
A tua morada.
Teu mar.
A arma já estava a seu posto.
Apontada para a cabeça.
Bem no seu olho.
A navalha que corta a alma e que te faz tremer.
Te arranca arrepios e te faz esquecer.
Esquecer que poderia, por uma distração, ter evitado o fim do dia.
Não teme a morte, tão pouco irá temer.
O medo mora no seu resultado.
Mora ao seu lado.
A morte leva um e trás a dor a outro.
— Droga, vou tentar ligar pra ela de novo.... Vamos mãe, atende!
— Alô? Emma?
— Oi mãe, tentei te ligar mais cedo. Tenho uma notícia maravilhosa pra te contar.
— Fala logo o que é, tô ansiosa hoje.
— O papai tá ai?
— Tá.
— Então vou esperar para contar aos dois de uma vez só.
— Não Emma, vamos lá.
— Mary....
— Talvez quando você chegar aqui eu já tenha morrido de ansiedade.
— Tá bom, tá bom. É que eu e a Regina, nós vamos....
Outra colisão.
Essa não era para o encontro das almas, foi para separa-las.
Um suspiro com o gosto de adeus.
Um piscar pedindo por mais.
A capota virando pra trás.
Silêncio.
Nada mais se ouve.
Nada mais se vê.
Flashes com um futuro.
Passam pra ninguém ver, não quem deveria viver.
O preto toma a visão.
De súbito some o chão.
Some a vida, some o mundo.
Tirando de si o porto seguro.
Talvez exista um amanhã, mas não pra todo mundo.
— Emma? O que foi isso? Você está bem?
O pranto apelando socorro.
O grito misturado com o choro.
A alma sumindo num sopro.
Sopro esse que nada se parece com o vento.
Sopro esse que tirou a vida de uma estrela ainda vivente.
Era o fim do brilho, ela havia caído.
Caído no abismo, caindo no mar, caindo por terra, sumindo no ar.
O telefone tocava insistente, a nova mamãe de tão descontente foi atender.
— Alô?
— Senhora Swan?
— Sim, sou eu.
— Sua esposa sofreu um acidente de carro na avenida principal, estou mandando alguns dos meus homens para lhe explicar melhor a situação.
Nada de respostas.
Nada de chão.
Nada de ar.
Nada de vida.
Morreu em pranto, ainda em vida.
— Ela está bem, não está?
Pergunta aos homens, ainda sem ar.
Sem acreditar.
— Senhora, sentimos em lhe informar, mas sua esposa veio a falecer, não tivemos como a salvar.
— MAS É O TRABALHO DE VOCÊS, NÃO É? PROTEGER AS PESSOAS?
— Sentimos muito, senhora, não pudemos fazer mais do que fizemos. Quando chegamos lá, ela já tinha vindo a óbito.
— Não pode ser.. não, minha Emma não. Ela não podia ter me deixado, não assim, não agora. ISSO NÃO PODE TER ACONTECIDO. ELA VAI ENTRAR POR ESSA PORTA DAQUI A POUCO, VOCÊS VÃO VER. ELA NÃO FARIA ISSO COMIGO.
— Sentimos muito.
O pranto do espanto.
A tristeza estampada.
Os olhos brilhavam, coitada.
Estava despedaçada, desesperada.
O que seria de ti?
Talvez fosse seu fim.
Talvez fosse o começo.
Resta confiar que sim.
— O que você foi fazer, meu amor? Você me prometeu que voltaria, e cadê você? agora que finalmente seríamos uma família completa, você se vai. Me desespera, me afeta. Eu quero você de volta, o que eu vou fazer sem ti? Me diz!! Eu não sei o que fazer, não sem você.
Se sentia desacordada.
Desconectada do mundo.
Sem convicções.
Dormente, submersa num mundo sem cor.
Presa no velho clichê, do preto com branco.
Do eu sem você.
Não sabia viver, não poderia.
Não depois de ter conhecido a felicidade com o amor de sua vida.
Não, da vida não, pelo menos não só dessa.
De todas, até a imensidão.
— Não vai embora... Não me deixe aqui sozinha, com nosso garotão.
O peito sangra de dor.
As veias se entopem, estão a mercê.
Os olhos se desmancham em pranto, dilata teu nome, teu rosto.
Se afogou nas lágrimas, se afogou no mar de dor que transborda de si.
Faz um favor pra si.
Pega as gazes, sutura e agulha.
Para de sangrar, não tem que desabar.
Você tem trabalho a fazer.
Tem que se recompor, não peço para que se desfaça da dor.
É impossível.
É amor.
— Eu vou cuidar de você, viu garotão? A mamãe vai estar com você também, todos os dias.
***
Era madrugada, sentou-se perto a sacada.
Olhou pro céu, a imensidão azul, escuro, brilhante.
As estrelas estavam presente.
Lembrou de seu amor.
Pensou nas estrelas, no quão interessante elas eram.
Ela havia dito uma vez que as vezes elas já morreram.
Mas a luz que emana de si é tão forte que demora anos até sumir, até cair.
Se perguntou se seria como elas um dia, como ela: se partiria em pedacinhos pequenininhos antes de partir?
Não entende como pode ser, uma vez se quebrou que nem vidrinhos.
Mas alguém a ajudou a conter.
Ainda está aqui.
Ainda está doendo, doendo demais.
Mas a dor está menor, mas não menos agradável.
Ela sente falta, saudade.
Também sentiria, ela era sua vida.
Sobrou um pouquinho dela.
— Mamãe.
— Oi meu garotão, não deveria estar na cama?
— Não consigo dormir. Conta uma história pra mim?
— Claro que sim, meu príncipe. Qual você quer?
— A história de você e a mamãe. A senhora me conta?
— Claro meu amor, claro que sim.
Ainda hoje não sabemos se essa dor se deu fim.
Se se foi como veio ou se pegou raiz.
Mas sabemos que em partes, tinha felicidade.
Tinha lembranças, saudade.
Ela é lembrada, ainda é amada.
E será assim, sempre.
Ela foi tudo, foi água.
Dona do sorriso contido e das melhores cantadas.
Do papo tímido e envolvente.
Da gargalhada escandalosa, inconveniente.
A pegada excitante.
Ela foi dela e foi minha também.
Foi a estrela que iluminou meu céu sem luz.
Se submeteu as trevas pra me trazer de volta.
Ela foi toda a melodia, toda uma simetria.
Dividida entre o céu e o inferno.
Foi meus sorrisos, o motivo de meus versos.
Chegou vestida de amor, coberta de dor.
Me roubou, me tomou.
Ela foi felicidade fácil, desastre trágico.
Foi completa.
Em metades.
Até me partir.
Então ela se foi, e eu continuei.
Ainda a eternizando em meus versos, em minhas palavras, no vento.
Escrevo sobre a única mulher que um dia eu amei.
Sobre a única mulher que um dia amarei.
A única.
E aqui eu quero dizer o que não deu tempo lá atrás:
Adeus, Emma.
Com amor, Regina.
Para a única estrela que eu olho no céu todos os dias.
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