Notas iniciais
Olá.
Bom, essa não é uma história que vai ser contada como as outras. Dediquei um pouco de tempo para poder passar a minha sensibilidade para as palavras, em forma de poesia e com um pouco de alma nelas. Estou dando vida não só as personagens dessa história, mas também ao prazer de sentir, de amar, de sofrer. Em fim, essa história é sobre sentir. Espero que sintam, e que gostem. Xoxo.

Bom, como realmente começar uma história? talvez seja com o famoso "Era uma vez", ou talvez de uma forma menos clichê. Mas será que realmente tem um começo? e se sim, como sabemos que começou? talvez possamos descobrir, um dia.

Os acasos da vida eram assim, não avisava quando viria, ou se viria. Apenas estava ali na hora certa e para fazer a coisa certa. Duas almas distantes e distintas, mas destinadas a ser uma só. Dois corpos vazios perambulando apressadamente pela rua, cada uma delas esperando ser preenchida por qualquer coisa, mas que não fosse pela dor.

Colisão. Confusão. Nenhuma reação. Se perder naquele momento foi necessário, indispensável. Realidade batia na porta, nos olhos, no coração.

— Me desculpe por isso, estava distraída.

— Com a vida?

— Me desculpe, não entendi.

— Perguntei se estava distraída com a vida.

— Ah, acho que sim...

— Eu também, não se desculpe. tenho que ir.

— Lhe derramei o café, não vai querer que eu pague outro?

— Não é necessário. Realmente tenho que ir. Adeus.

— Até logo.

O sussurro da esperança. Um pedido de socorro. Sua voz saiu num sopro e se foi junto com o vento. Talvez fosse esperança que nascia para salva-las. Talvez fosse só o destino brincando com as almas.

Se ao menos fosse possível dizer que te vi com os olhos da alma, se ao menos fosse possível te socorrer da solidão que é estar presa em você. Você que lida com a morte, por que não experimenta viver?

— Está tudo bem, querida? chagou cedo hoje, parece cansada também.

— Estou bem, só quero um banho e minha cama. Me chama ás 22:00.

— Tudo bem.

A vontade de gritar é colossal, o peito se aperta, afundando em incertezas, mentiras. Nem a ventania branda acalma a inquietude da alma.

Caos. Bagunça. No mínimo sinal de desistência, sacode a poeira e fica de pé. Uma dose de bravura e um punhado de coragem. Solidão só é bonita nos livros, cravadas nas letras de um poeta. Precisa encontrar o caminho de volta. Amanhã. Hoje não deu. Suas pernas levantaram e a guiaram sem permissão.

— Não ia dormir?

— Desisti. Vou dar uma volta por ai. Não me espere voltar.

— Tudo bem. Eu te amo.

— Eu te amo também.

Outro sussurro, já estava longe demais para ser ouvido. Passos sem pressa, visão embaçada. Ela sangrava na alma. Parada no meio fio, pronta pra ser levada. Morreu ali. Como faz pra estancar? Precisamos viver, Viver e sobreviver.

— Olá, moça do café.

— Olá.

— Todo bem?

— Está tudo indo. Você está bem?

— Estou indo também. Meio pra lá, um pouco pra cá.

— E a gente vai se equilibrando no meio fio. As vezes passa um caminhão tão rápido que quase leva a alma. As vezes passa um senhor de bicicleta e dá bom dia, aí a gente ri. E vai indo. não sei pra onde, mas estamos indo.

— Sim, vamos indo sem destino, até chegar em algum lugar onde possamos nos acolher. E se não acharmos, continuamos indo.

— As vezes nos enganamos que era abrigo, Mas veio a primeira tempestade e desabou tudo aquilo que era pra ser eterno. Mas a gente continua ali, indo.

— E era só um lugarzinho passageiro, a gente se acolheu ali, mas não durou muito tempo.

— A vida é sobre ir, sobre continuar.

— É sobre viver. E você, quem é?

— Eu já fui muita gente, hoje sou só eu. Pode me chamar de Emma. E você?

— Eu sou Regina.

— Viestes até mim por que?

— Não me pergunte isso, nem eu sei dizer. Senti sua essência.

— Obrigada por me sentir.

— Obrigada por sentir, abrindo as portas pro meu sentir.

— Não queria sentir, mas sinto.

— Precisamos sentir.

— Sou velha demais pra sentir.

— Diante da existência sua idade é pouquíssimo tempo.

— Realmente, é pouquíssimo, mas considerável.

— Sabia que as pessoas achavam que o mundo iria acabar em 1999?

— Isso é engraçado.

— E acredita que elas só foram reclamar em 2001? Eu nasci em 1977. Em que ano você nasceu?

— Nasci em 91.

—Então vai fazer 27. E ai pode ser câncer, escorpião, virgem, libra, leão, sagitário ou capricórnio. Ou a contar pela época do ano, pode ter pego a herança de gêmeos ainda.

— Capricórnio. Nascida em 31/12/91.

— Você foi a boa nova daquele ano de 92.

— É, fui uma boa nova. Capricorniana com ascende em aquário e lua em câncer. Ironia, não?

— Bom, penso que realmente dentre esse capricórnio com ascendente em aquário e lua em câncer, a humanidade evoluiu alguns milênios nisso de parar para sentir o outro tão cedo e eu que ardo o mundo em fogo e não tenho nem 38. Um cheiro, seja bem-vinda a esse mundo.

— Por que diz isso?

— Você acredita em espiritualidade?

— Digamos que sim.

— As nova-antigas-almas, só te acredito ser uma. E aí você pode ignorar ou dizer "obrigada".

— Obrigada.

— Foi bom te ver outra vez, vou indo. Até a próxima, talvez você me pague um café.

— Até logo.

A despedida sempre era dita em sussurro. Era fodida demais pra conseguir oferecer abrigo a alguém.

Tocava "Volta" do Johnny Hooker na entrada do caos. E ela sabia que a última coisa que queria era voltar pra casa. O cheiro adocicado pairava no ar, no meio da perdição. Todos podiam a tocar, mas ninguém poderia senti-la. O céu a essa hora da madrugada está tão lindo que chega lhe doer. A dor. ela havia se esquecido dela minutos atrás, em uma conversa inusitada com uma estranha sobre a vida e sobre o continuar, se deparando com alguém que sente seu sentir, a fazendo rir da leveza que as vezes a vida aparenta ter. Mas ela sabia que não era bem assim.

Está andando pela estrada, nua na alma. entre mortos e feridos. Deixando o rastro de sangue na calçada. Anestesiada pelo caos. Acende um cigarro e incendia a alma, a vida.

Não tem pra onde ir, não sabe aonde ir, nem o que fazer. Suas pernas fraquejam e um sentimento desconhecido lhe invade; saudade.

Eu não quero ter que te dizer adeus.

Notas finais
Digam o que acharam. ♥