Addiction

1 Addiction


Notas iniciais
Espero que gostem dela como eu gostei de escrevê-la. Não se deixem enganar pela fofura dos personagens, ok? Apreciem ♥♥

Kim Taehyung acordou sem saber exatamente onde estava; o quarto completamente branco não era nada parecido com a suíte que o modelo estava hospedado para os cinco dias do Seoul Fashion Week, o qual era convidado de honra. O cheiro do lugar lhe lembrava o hospital e as luzes muito brancas também.

— Oh, ele acordou! — ouviu uma voz ao seu lado e se virou lentamente.

— Ele nos deu um belo susto dessa vez — alegou o outro homem com a voz mais grossa — Está se sentindo bem, Tae?

— Onde eu…

— Está no Hospital de Seoul, não se preocupe — respondeu um senhor alto de cabelos grisalhos, Taehyung o notou assim que focou seus olhos no ser de jaleco branco.

— O que aconteceu?

— Do que se lembra, Taehyung? — retornou o médico.

— Eu… estava no camarim esperando as últimas modelos se apresentarem para podermos encerrar o festival e… meu celular eu… o perdi. Oh, céus!

Taehyung tentou se levantar rapidamente, mas ficou tonto no processo, então desistiu. Ao seu lado pôde ver seu irmão, Kim Namjoon, a olhá-lo preocupado.

— Tae, você se lembra do que aconteceu depois do celular?

— Eu briguei com uma staff, fiquei estressado por ter perdido o celular.

— Mais do que isso, irmãozinho, você gritou com todo mundo na sala e saiu possesso, procurando o aparelho por todo o lugar. O problema é que você sequer viu que outro estaff estava trazendo uma arara de roupas e trombou com ele, bateu a cabeça e desmaiou.

— O que você teve não foi grave, senhor Kim, mas o que realmente me preocupa é o seu vício pelo telefone. O senhor ficou cego, isso não é normal ou saudável.

Naquele momento, deitado naquela cama com as roupas do hospital e não com o modelo da Prada que iria desfilar pela última vez no evento, Taehyung se sentiu idiota. Sim, há tempos ele vivia com o celular na mão em todos os momentos e não o desligava para nada, tinha dois carregadores portáteis e até o fato de estar com a internet oscilando em uma viagem o deixava completamente estressado. O modelo estava sendo vítima daquilo que mais lhe dava prazer: a tecnologia.

Desde novo, o garoto de rosto excepcionalmente belo foi fotografado e elogiado de todas as formas, não bastou mais do que algumas imagens para conseguir seu primeiro ensaio para uma revista de moda e, desde então, nunca mais parou. Com seus vinte e cinco anos, Taehyung era também um renomado digital influencer, por estar sempre antenado com o mundo da moda e das tecnologias. Viciado em Twitter e Instagram, ele passava mais tempo nelas do que dormindo, o que já tinha deixado de ser saudável há muito tempo.

— O que podemos fazer, doutor? — perguntou o Kim mais velho.

— Ele precisa de um tempo longe de toda essa correria da cidade grande. Já cogitou tirar férias?

— Eu não tenho férias — reclamou o loiro.

— Seria a hora de conseguir uma — indicou o médico — O estresse causado pode prejudicá-lo ainda mais, Taehyung, a ponto do seu vício se tornar grave demais e precisamos interná-lo em uma clínica.

— Isso é um absurdo!

— Não é, e o senhor sabe.

O mais novo dos Kim sabia que o seu comportamento estava agressivo e que aquilo precisava de limites, porém, não queria, como um bom viciado, largar tudo e seguir a vida. Respirou fundo e tentou se convencer que aquilo passaria rápido, então, fez o seu pedido para Namjoon.

— Joonie, fale com meu assessor, peça que me dê um mês de folga. Preciso ir para qualquer lugar que não tenha tecnologia, preciso de outros ares.

— Eu conheço o lugar perfeito — sorriu mostrando as covinhas.


Dois dias depois do incidente no Seoul Fashion Week, Taehyung já estava arrependido de ter pedido ao seu assessor que lhe desse trinta dias de férias. Quanto mais o carro de Namjoon adentrava as estradas rumo às cidades menores que rodeavam Seoul, mais Taehyung se perguntava onde estava com a cabeça ao aceitar aquilo.

Depois de três pontos na testa e um curativo no queixo, Namjoon ofereceu para Taehyung apenas um eletrônico para levar em sua mala, que não fosse obviamente seu celular ou tablet. Tentando achar algo para se distrair, o Kim optou por uma câmera profissional, tudo que ele levaria para aquela viagem de última hora.

A fazenda da família Kim era conhecida por uma enorme plantação de bambu que era vendida, sazonalmente, para uma empresa local de artigos trançados, garantindo aos habitantes de Yeoju uma boa renda todos os anos, além de fornecer as frutas mais frescas a um preço justo. A pequena cidade tinha cinco mil habitantes, apenas, as famílias em sua maioria se conheciam; os jovens que queriam estudar mais do que a escola local oferecia tinham a oportunidade de passar na Universidade de Sokcho, apenas quarenta minutos de ônibus dali.

Algumas famílias trabalhavam na fazenda dos Kim, os mais antigos moravam na propriedade e garantiam que tudo estava em ordem, como solicitado pelos donos do local. A família Jeon estava ali há três gerações e sempre foi muito fiel, desde o começo, ao cuidar da casa, do pomar e das plantações para venda; era com esta família específica que Namjoon pretendia deixar o irmão.

— E eu vou chegar assim, sem conhecer ninguém, invadir uma casa e morar com eles por um mês?

— Exatamente. A casa possui dois andares, no primeiro mora os Jeon e o segundo é onde normalmente passamos a temporada de férias. Você vai ficar no primeiro, morando com eles, sem internet, rede social, celular e o que mais for eletrônico, por um mês, até que o seu equilíbrio volte ao normal.

— Eu tenho equilíbrio.

— Você é um viciado em redes sociais, Taehyung, você não tem equilíbrio.

Sem poder argumentar contra aquilo, o loiro se deu por vencido, acatando o que o irmão mais velho havia lhe dito. Ao chegar no grande portão de ferro da fazenda, o Kim se sentiu entrando em outro mundo; belas árvores coloridas davam o tom característico de outono, a casa enorme ao centro de um belo jardim parecia saída de um conto ancestral, assim como os caminhos de pedra que levava aos pomares, hortas e plantações que se estendiam até perder-se no horizonte.

— Isso é lindo!

— Eu também gosto muito.

Namjoon deixou o carro estacionado em uma das cinco vagas que haviam disponíveis e encontrou o casal Jeon já os aguardando. A mulher vestida de azul tinha um belo sorriso, o rapaz ao lado dela parecia mais velho, o semblante calmo e acolhedor.

— Namjoon! Como é bom vê-lo!

— Ah, senhor Jeon, há quanto tempo! Bom, este aqui é o caçula dos Kim, Taehyung, o modelo da família.

— Então este é o famoso Taehyung! — Comentou o homem — É um prazer conhecê-lo! Sinto muito pela sua testa.

— Obrigado, senhor Jeon. É um prazer finalmente conhecê-lo — Sorriu Taehyung — Oh, isto não foi nada.

— Taehyung está passando por muito estresse no trabalho, por isso tirou férias e nada melhor do que passar aqui.

— Cuidaremos muito bem dele — garantiu a senhora Jeon.

— Eu tenho certeza que sim. E Jungkook, onde está?

— Pegando algumas frutas, ele já deve chegar.

— Diga a ele que leve Taehyung em suas atividades no campo, será bom pro meu irmão aprender um pouco de trabalho manual.

— Diremos, seu pai já fez as recomendações — garantiu a senhora.

Taehyung sabia que seu tempo fora também lhe renderia algum trabalho na fazenda, então não se importou com a fala de seu irmão. As malas foram levadas para dentro, apenas duas delas, com roupas mais confortáveis e artigos de higiene pessoal; o Kim mais velho se despediu com um abraço apertado e seguiu seu caminho de volta para Seoul.

— Temos mais pessoas trabalhando para cuidar da fazenda, senhor Kim, acredito que meu filho vá apresentá-los ao senhor e mostrar um pouco sobre nosso dia-a-dia — comentou a mulher ao colocar os travesseiros limpos sobre a cama do quarto do Kim.

— Não precisa me chamar de senhor, senhora Jeon, Taehyung apenas está bom.

— Você é tão educado quanto o restante da família! É bom poder finalmente conhecê-lo, Taehyung.

— Acho que trabalho tanto desde criança que nunca tive tempo de passar as férias aqui, como o meu irmão.

— Sempre há tempo! — sorriu ela — Aqui no armário deixei algumas botas, para usar no campo. Como você tem quase a altura do meu filho, pedi botas do mesmo tamanho.

— Seu filho é mais velho? — perguntou ao se sentar na borda da cama.

— Que nada, ele tem vinte e três, é mais novo que você. Aposto que vão se dar bem.

Ouviu-se um som alto na janela antes que Taehyung pudesse concordar com a mulher e um rapaz entrou por ela, sentando-se no batente para que as botas escuras não chegassem ao chão. Os cabelos pretos estavam desalinhados e o rosto dourado era bonito e delicado; os olhos escuros observavam com curiosidade os ocupantes do quarto, a boca vermelha bem desenhada e a pintinha logo abaixo dela chamaram a atenção do Kim, bem como as roupas simples e escuras.

— Oi! — cumprimentou o escalador.

— Jungkook, o que você tem contra as escadas? — perguntou a mãe.

— Eu usei as escadas! — ele se defendeu — De incêndio.

— Você devia ter entrado, Jungkook, pela porta, como uma pessoa comum. O que nosso convidado vai pensar sobre você?

— Que eu sou um ótimo escalador? — brincou o rapaz e a senhora Kim fez uma careta.

— Engraçadinho.

— Está tudo bem, já achei seu filho estranho, senhora Jeon — respondeu Taehyung, segurando o riso.

— Ele é uma boa pessoa — garantiu a mãe, o que fez Jungkook rir — Trouxe o que eu pedi?

— Trouxe, os morangos estão na cozinha. Eu passei no riacho enquanto voltava, então já estão lavados.

— Obrigado, menino de ouro. Pode mostrar a propriedade pro Taehyung?

— É claro.

— Fiquem bem, vou fazer torta de morango pro café da tarde.

A senhora Jeon saiu do quarto e deixou os dois sozinhos, oportunidade perfeita para que Jungkook observasse um pouco melhor o seu hyung. Era muito amigo de Namjoon, porém, não conhecia o mais novo dos Kim, apenas sabia que era lindo e famoso. Ah, devia concordar, os cabelos loiros bem penteados, os olhos escuros, a boca bem desenhada, o nariz perfeito, o sorriso mais lindo que já vira, Taehyung fazia jus a todos os elogios e precisava de mais para mensurar sua perfeição.

— Então você é o Jungkook.

— E você o Taehyung. Seu irmão fala muito de você.

— Incorrigível. Vocês são muito amigos, pelo que ele me disse.

— O hyung vinha em todas as férias, crescemos juntos. Mas você estava sempre ocupado — Jungkook separou os joelhos e abriu mais as pernas, se posicionando de uma forma mais confortável na janela que estava sentado; o loiro tentou não prestar atenção em suas coxas — Resolveu tirar férias depois de uma… briga?

— A verdade é que fui forçado e isso não foi uma briga. Eu sou viciado em redes sociais e precisava de um tempo.

— Viciado? Tipo pessoas que se viciam em drogas?

— Se quiser, pode colocar assim. Eu tive um surto, enquanto estava no Seoul Fashion Week, perdi o celular e saí brigando com todo mundo, não vi quando um staff estava com uma arara de roupas e fui “atropelado” por ela — fez as aspas com os dedos.

Jungkook tentou de todas as formas não rir, porém não conseguiu. O riso veio tímido, depois de alguns segundos ele já escondia o rosto nas mãos, a risada alta preenchendo o quarto. Taehyung pôde notar que apenas na mão direita ele usava uma luva que lhe cobria do pulso aos primeiros nós dos dedos, porém, podia ver algo em seu braço. Era tatuagem?

— Qual parte foi tão engraçada?

— A parte que uma arara de roupas atropelou você, com certeza.

— Pois é, eu nem notei que ela estava vindo — reclamou Taehyung

— Eu sinto muito pelo corte que ela fez — sorriu de forma gentil — Talvez deixe uma marca pequena no seu rosto bonito.

— Talvez...

Taehyung ficou um tanto sem graça pela primeira vez ao ser elogiado, tanto que não soube o que dizer ou como agradecer. Foi Jungkook que quebrou o silêncio.

— Coloca uma bota, vou te levar pra conhecer o lugar.

Concordando minimamente com a cabeça, Taehyung assim o fez e logo o outro saiu da janela, permanecendo em pé na escada de incêndio. Com um pouco de ajuda, o Kim conseguiu sair pelo mesmo lugar e logo estavam caminhando pelo gramado do lado de fora, em direção ao que parecia um estábulo.

— Quando meus pais vão olhar as cercas da propriedade, fazem isso a cavalo. Você sabe cavalgar, Taehyung?

— Sei sim, gosto de estar por cima — brincou o Kim, o que fez Jungkook parar de andar e encará-lo.

— O que… ah! — o Jeon riu e encarou seu hyung, mordeu o lábio inferior e correu os olhos pelo corpo do outro — Tudo bem, mas eu estou falando de equitação.

— Ah, sim. Sei, mas a habilidade fica no outro contexto.

— Não tenho dúvidas — respondeu baixinho, porém Taehyung ouviu — Vou selar um cavalo pra você.

Taehyung ainda se sentia um tanto quente com o olhar que o mais novo lançou para si, a forma como ele mordeu o lábio despertou no loiro a vontade de fazê-lo com os seus. Por mais que tivesse em sua mente que os garotos crescidos e criados nas fazendas fossem um tanto bobinhos, Jungkook não parecia entrar naquela categoria. Logo um cavalo castanho foi trazido para perto de onde o Kim estava, ele veio calmo, guiado por Jungkook.

— Esse aqui é o Alvorada, um dos mais mansos — explicou o Jeon — Sobe, eu te ajudo.

Mesmo que um tanto receoso, o loiro aceitou a mão de Jungkook, apoiou o pé na pedaleira e subiu sem grandes dificuldades. Alvorada aceitou seu peso com resiliência e permitiu que o outro ficasse ali, então Jungkook foi selar o seu, um belo cavalo negro que parecia bem mais feroz.

— Ahn… Jungkook, este cavalo não parece bravo? — perguntou o Kim, do alto de onde estava.

— O Meia-Noite? Ah, ele é um pouquinho temperamental.

O moreno selou o cavalo e pegou um boné preto que serviu para prender seus cabelos também, fez carinho no Meia-Noite até que o animal se acalmou, só então subiu e se juntou ao loiro.

— Eu esperava um chapéu, tipo cowboy americano — riu Taehyung.

— Acho que vocês, da capital, têm uma visão bem errada de nós, do campo. Me acompanhe, prometo não ir muito rápido.

O Kim concordou e lentamente seguiram caminho para fora do estábulo.

— Acho que pensamos em vocês como pessoas menos cultas — concluiu, acariciando a crina trançada do cavalo.

— É um pensamento bem retrógrado — sorriu Jungkook, apenas aguardando o espanto do outro com a palavra usada — Acho que no passado era assim, hoje as coisas são diferentes; as pessoas costumam se fechar em seu mundo e sabem muito pouco dos outros mundos que temos.

— E o que sabem é apenas o que ouviram por aí.

— Exatamente. Você quis conhecer o meu mundo, vou te guiar por ele e então você pode dizer o que achou.

— Será um prazer.

Com um sorriso bonito, Jungkook instigou seu cavalo a ir mais rápido, logo pegando um ritmo que era confortável para o animal; a propriedade era grande, levaram pouco mais de uma hora para ver tudo, ainda que sem entrar em algumas estufas. Terminaram no riacho, já perto da casa principal, onde Jungkook deixou os cavalos beberem água e se sentou na grama, embaixo de uma árvore.

— Eu notei que você não me chama de hyung — disparou Tae ao se sentar ao lado dele.

— É verdade, não chamo.

— Isso é desrespeitoso, sabia?

— Incomoda muito? — perguntou com um leve sorriso.

A verdade é que não, não incomodava o Kim, apenas era diferente a forma como o outro o tratava, sem toda aquela pompa que estava acostumado em seu meio.

— Não, é que… te faz parecer desobediente.

— É porque eu sou desobediente — Jungkook estalou a língua, causando certo rubor no outro — Começa com o fato de eu raramente usar a porta da frente e se estende por… várias outras coisas.

— É, esse seu cabelo me faz realmente pensar que você é rebelde.

Jungkook riu alto da colocação de seu hyung e puxou um ramo da grama entre os dedos para brincar, se distrair com algo.

— Minha mãe me pedia pra cortar todos os dias, acho que ela desistiu. Me conta sobre você, Taehyung, e esse seu mundo tão diferente daqui — pediu ele, curioso sobre a vida que o mais velho levava.

— Ah, é bem diferente mesmo. Bom, posso começar com o fato de eu ter habilitação, ter um carro e não dirigir.

— Não dirige?

— Não… na maior parte do tempo, estou dentro da van da empresa e eles me levam para onde devo ir; quando estou de folga, só quero dormir, então peço comida em casa e fico assistindo filmes ou… no celular. Que eu não tenho mais.

— O que você vê de tão importante em um celular? — perguntou o outro, afinal, tinha o seu e só usava à noite.

— Eu tenho fãs e converso com eles. Bom, não é bem uma conversa, eu uso o Twitter, onde eu posso postar frases e eles me respondem, por lá sabem sobre meus novos projetos e sobre o que eu estou fazendo. Também gosto de postar sobre os lugares que vou e as roupas que uso, as comidas que como, essas coisas; pra você ter uma ideia, há anos a primeira coisa que faço ao ter um prato de comida na minha frente é tirar uma foto.

— Entendo, mesmo que não faça sentido algum.

— Agora mesmo, se eu tivesse meu celular comigo, eu tiraria fotos dos cavalos, do riacho, faria um vídeo da água limpa, da copa da árvore balançando com a brisa. E de você.

— Eu não tenho muitas fotos.

— É uma pena, Jeon, você é bonito.

— É claro que sou — concordou com sarcasmo, erguendo os braços como quem mostra suas roupas — Perto de uma árvore…

Taehyung riu e empurrou levemente o ombro de Jungkook.

— Eu acho você bonito e a minha opinião importa! — ele empinou o nariz bonito — Tudo que eu pude trazer foi minha câmera profissional. Nas horas vagas, eu costumo fotografar coisas e há muito tempo não fazia isso por diversão. Sempre sou eu diante delas.

— Porque o mundo não é bobo, precisam registrar seu rosto simétrico.

— Acho que foi um elogio, então, eu agradeço — sorriu o loiro — Por que você usa apenas uma luva?

— Ah, eu… é costume, eu acho.

Taehyung teve a sensação que Jungkook não queria falar sobre aquilo, então mudou o foco da conversa para os seus afazeres ali e o que poderia ajudar nesse tempo que passariam juntos; o mais novo explicou sobre os horários que acordava e ia dormir, sobre as vacas que ordenhava de manhã com a ajuda de outros funcionários e os estábulos que eram limpos logo depois. Também cuidava das galinhas e coletava os ovos, alimentava os porcos e, quando sua mãe precisava, buscava algo para o almoço.

— Então você também frequenta a cidade — constatou Taehyung num sorriso.

— Você achou que não? — riu Jungkook.

— Me desculpa, eu achei que não.

— Sokcho fica a quarenta minutos de ônibus, se for à cavalo tem um atalho que diminui em dez minutos. De carro, você consegue fazer o caminho em vinte minutos, de moto depende do quanto você gosta de fazer curvas a cento e dez por hora.

— Eu nem me lembro a última vez que andei de moto, já que não tenho habilitação para ela.

— Eu prefiro — Jungkook deu de ombros — Minha mãe tem um infarto todas as vezes que eu saio de moto, ela sabe o filho louco que tem.

— Você tem uma moto? — espantou-se Taehyung.

— Respeite minha moto, eu demorei três anos pra conseguir comprar — anunciou o mais novo a se levantar e bater as mãos em suas roupas — É o amor da minha vida, um dia eu te mostro.

— O que mais me surpreenderá?

— Pela visão que você tem de mim, tudo — o moreno tirou a luva e ofereceu a mão para Taehyung se apoiar e levantar-se do chão. Assim que seus olhos pousaram nela, notou as tatuagens adornando seus dedos.

— Ah, então são tatuagens mesmo.

— Sim. Essas coisas você vai descobrindo aos poucos, afinal, não tem muito pra você fazer por aqui. Vamos voltar?

— Vamos.

Taehyung devia confessar que estava encantado com a forma leve que Jungkook levava a vida, aquele espaço era seu e via-se o quanto ele era confortável com sua rotina pacata na fazenda; o que ele não sabia é que o moreno fazia muito mais do que aquilo, a propriedade era apenas uma das coisas que distraíam o Jeon.

Voltaram a conversar sobre qualquer coisa, Jungkook levou os cavalos para as baias e os alimentou, deixando-os descansando; passaram pela cozinha e comeram um pedaço de torta de morango que a senhora Jeon havia feito. Taehyung pegou a sua câmera e acompanhou o mais novo até os fundos da casa, onde se sentaram no chão da varanda, apoiados na grade adornada com ornamentos de ferro e algumas trepadeiras com flores pequenas, para ver o pôr-do-sol.

— Fotografia é tudo uma questão de luz — indicou Taehyung — O quanto de luz entra pelo obturador.

— Quanto mais lento e aberto, mais luz ele capta, certo?

— Isso mesmo, é assim que se faz aquelas fotos noturnas, com longa exposição. O céu aqui parece ser bem estrelado — comentou ao olhar as nuvens tingidas de amarelo.

— Ah, ele é, como não tem luzes da cidade, dá pra ver muitas estrelas.

Jungkook estava com a câmera de seu hyung nas mãos e fez uma fotografia do pôr-do-sol, os tons alaranjados e avermelhados tinham destaque; por gostar da imagem capturada, mostrou ao mais velho.

— O pôr-do-sol também é muito bonito, sua foto ficou ótima!

— Eu gosto de tirar algumas fotos com o celular, quando eu lembro de colocar ele no bolso.

— Você realmente consegue ficar horas sem um aparelho — se admirou o outro.

— Eu já quebrei quatro andando a cavalo, não foi bem uma escolha — riu o Jeon, sendo acompanhado pelo outro.

Taehyung apontou sua câmera e abriu um pouquinho mais o obturador, a velocidade estava alta, então pouca luz entrou e o efeito do sol se pondo ficou incrível. Satisfeito com o resultado, ele mostrou a foto para Jungkook.

— Okay, agora faz sentido quando dizem que nunca é só apertar um botão.

— Você pega o jeito — sorriu o loiro e apontou a câmera para o perfil de Jungkook, fazendo duas fotos — E você é fotogênico.

Jungkook pegou a câmera com as fotos que o outro havia tirado e se surpreendeu ao ver as cores suaves da primeira, sua pele com a aparência mais dourada pelas cores do céu que aparece logo atrás de si. A segunda, bem mais escura, aparecia apenas a sua silhueta, o rabo-de-cavalo curto que prendia os cabelos quando eles o atrapalhavam ver, os fios soltos e teimosos, o contorno do nariz, da boca e do queixo a recortar o laranja da golden hour.

— E você tem talento — elogiou o moreno — Ficou muito boa, nem apareceu minhas bochechas vermelhas de vergonha.

— Como você mesmo disse, eu não tenho muito pra fazer aqui, fotografar você vai ser uma boa distração.

— Eu que lute — riu o Jeon — Normalmente, esse é o horário que eu tomo banho, me recolho em meu pijama de bolinhas e vou ver TV até o jantar e, depois, até o sono vir. Qual era a sua rotina?

— Eu não tenho uma rotina de dormir desde os meus catorze anos, mas a sua me parece boa.

— Então vamos, eu acordo você pro café da manhã.

De alguma forma que Taehyung nunca imaginou, aquela calmaria estava lhe fazendo muito bem. A presença de Jungkook também, mas ele não admitiria isso tão cedo.


Os dias na fazenda dos Kim passavam preguiçosos e Taehyung se viu com mais tempo do que nunca; era acordado todos os dias por Jungkook, religiosamente às oito da manhã, com leves batidas na porta. O tempo que demorava para efetivamente acordar, tomar um banho para despertar e se trocar era o tempo que o Jeon também tinha para fazer o mesmo, depois de já ter concluído a parte mais pesada do seu trabalho, junto dos outros funcionários já apresentados ao Kim.

Sempre que descia para tomar café da manhã, Taehyung se deparava com um Jungkook de roupas escuras e cabelos úmidos, um gostoso cheiro de banho tomado misturado a um perfume fraco, levemente doce, diferente de tudo que o Kim estava acostumado a sentir em seu mundo Chanel de perfumes franceses.

Depois do café da manhã, os rapazes se dividiam entre colher alguma fruta no pomar, regar plantas, cortar lenha ou mesmo cuidar da horta muito bem organizada e cheia de verduras, hortaliças e algumas frutas, porém, foi fácil comprovar que Taehyung tinha muita força e pouca habilidade com um machado.

— Sabe que não precisa fazer isso, certo? — perguntou pela quinta vez Jungkook.

Estavam em uma área de floresta, recolhendo madeira seca para levar ao armazém. Tudo que precisavam fazer ali era cortar em pedaços grandes a árvore já caída para poder transportar no carrinho de mão.

— Não é justo que só você faça força aqui. Eu também sou forte.

— Eu não duvidei em nenhum momento, Taehy — o Jeon segurou o riso com o apelido recentemente dado ao agora amigo, simplesmente porque ele preferia ser chamado de Tae — É que você precisa ter cuidado.

— Eu sou cuidadoso. E para de me chamar de Taehy, garoto-coelho — reclamou o Kim ao se posicionar com o machado em mãos

— Ainda não entendi esse apelido — Jungkook cruzou os braços que tinha as mangas da blusa fina puxadas até os cotovelos.

— Claro, porque é super normal colher uma cenoura, lavar a terra na água da mangueira e comer inteira.

— E não é? — perguntou, duvidoso, observando Taehyung bater com o machado, sem sucesso.

— De onde eu venho, não. Tudo bem, eu desisto — se deu por vencido, devolvendo o objeto cortante para o mais novo.

— Você me ajuda a levar, não se preocupe.

Jungkook cortou a madeira que encontraram em grandes pedaços e o amarrou no carrinho de mão, com a ajuda de Taehyung que ainda tinha um leve bico nos lábios por não conseguir ajudar da forma que queria, o que era adorável para o Jeon. Abastecidos, eles seguiram para o armazém onde uma serra circular estava disposta sobre uma mesa.

— Eu posso perguntar algo bem aleatório? — pediu Taehyung ao aceitar a máscara e o óculos protetor para aquele trabalho.

— Pode, o que foi?

— É só mais um questionamento de um cara da cidade perguntando merda pra um cara do campo. Eu imaginei que você teria um… cheiro mais característico daqui.

Jungkook segurou a risada a todo custo, porém, quando ligou a serra, se rendeu e gargalhou enquanto colocava as luvas.

— Você tem razão, é uma pergunta bem merda — riu o Jeon — E é a primeira vez que você fala um palavrão.

— Tinha que me segurar e me mostrar uma pessoa bem educada.

— Seu irmão é bem educado e fala mais palavrões do que eu consigo acompanhar.

— Isso é verdade.

Jungkook começou a cortar as madeiras em partes menores, deixando para Taehyung a função de juntá-las.

— Respondendo sua pergunta… o trabalho mais sujo é feito todo de manhã, então, quando eu vou acordá-lo, já passo no meu quarto, tomo um banho e troco minhas roupas, assim eu passo o restante do dia cheiroso.

— Eu não disse que você era cheiroso — rebateu o outro.

— Eu ficaria feliz em ouvir, apesar de saber que sou.

Taehyung até pensou em falar a verdade, sim, achava Jungkook muito cheiroso, mas não comentou nada a respeito, continuou juntando todas as madeiras em pilhas, até que se distraiu e uma farpa entrou em seu dedo, o que o fez grunhir baixo.

— Está tudo bem? — perguntou preocupado ao ouvir o outro, mesmo com o barulho da serra que logo foi desligada.

— Está, é só… na verdade não sei.

— Você espetou o dedo na madeira?

— Acho que sim.

— Posso ver?

Jungkook tirou as luvas e segurou a mão direita de seu hyung, era a primeira vez que ficavam tão próximos assim e o Jeon tentou evitar que o outro notasse o quanto ficou envergonhado. Uma farpa de madeira estava presa no dedo indicador, não seria um problema tirá-la agora, enquanto não estava mais funda em sua pele.

— Tudo bem, está fácil de tirar — anunciou ao sacar um afiado canivete que sempre carregava consigo.

— Espera aí, o quê? Tirar o quê? — se alarmou Taehyung e rapidamente recolheu sua mão, temendo ter o dedo perfurado pelo objeto cortante.

— Tirar a farpa de madeira do seu dedo.

— Com isso aí?

— Eu não vou te cortar, se é o que você pensa.

— É exatamente o que eu penso.

— Eu tenho a mão muito firme — explicou rolando levemente os olhos — Confia em mim.

— É um canivete, Jungkook! Você não tem uma pinça ou algo que não decepe meu dedo?

— Aqui, nesse exato momento, não. E se você deixar a farpa entrar mais, eu vou precisar cortar a pele pra tirar a madeira. Quer mesmo que isso doa mais do que precisa doer?

Taehyung fez cara de dúvida por alguns segundos antes de balançar a cabeça de um lado para o outro, afastando os pensamentos impuros.

— Tá bom, — Jungkook voltou a se aproximar do mais velho — para de pensar putaria sobre o que eu falei e me dê a sua mão de uma vez.

— Você devia me pagar um jantar antes de pedir a minha mão assim — protestou ao estendê-la para ele.

— Eu prefiro cozinhar, acho mais romântico.

— Desde quando você é romântico?

— Você que nunca percebeu. Ah, merda, hyung, me desculpa! — pediu Jungkook, quase desesperado.

— Você me cortou? Eu sabia, eu sabia que você ia me cortar!

O Jeon já havia tirado a farpa do dedo do outro sem problemas e sem cortes, porém, mentiu apenas para ver o desespero tomar conta do Kim; foi hilária a forma que Taehyung fechou os olhos, desesperado para não ver seu próprio sangue enquanto ainda estava preso nos braços do mais novo.

— Taehy? Taehy!? — chamou ele — Está tudo bem, eu já tirei. Era brincadeira.

Demorou alguns segundos para que o loiro olhasse seu dedo e notasse que estava tudo perfeitamente bem, sem sangue, sem cortes. Aliviado, ele resolveu entrar na brincadeira e fechou a expressão, fingindo estar irritado.

— Jeon Jungkook, como pôde mentir assim, na minha cara?

— Me desculpe, eu queria ver a sua reação — respondeu num sorriso bonito.

— Pois agora estou bravo com você. Se já terminou, quero ir pra casa.

O mais novo não sabia exatamente o motivo, mas estava sorrindo bobo a todo o momento com o comportamento do hyung, sabia que o outro não estava exatamente irritado, porém, não iria dar o braço a torcer. Voltaram para a casa, afinal já era final de tarde; Taehyung subiu para tomar o seu banho, ignorando completamente o mais novo.

Ao ter a água quente caindo sobre o seu corpo, o Kim teve um acesso de riso; a brincadeira infantil de certa forma quebrou algo entre eles, os aproximando e abrindo portas para mais brincadeiras assim. De certa forma, Taehyung estava feliz, ainda sentia aquela vontade absurda de compartilhar tudo com os seguidores e ficar horas no celular, mas não o tempo todo. Apreciava os momentos que tinha com Jungkook e a calmaria do lugar.

Já de banho tomado e os cabelos devidamente secos da melhor forma que conseguia com a toalha, Taehyung ouviu um som alto na janela de seu quarto e olhou para o local, observando Jungkook abrir o vidro e se sentar ali novamente.

— E se eu estivesse nu no quarto?

— Eu não tenho tanta sorte assim na vida, Taehy — brincou o mais novo — Aqui, trouxe pra você.

O moreno lhe entregou uma bonita tulipa roxa que parecia ter sido colhida há pouco tempo, agora usava uma camiseta clara e moletom desbotado, era a primeira vez em dias que o loiro o via usando outra cor que não fosse preto ou cinza.

— Que gentil. Obrigado, mas ainda estou irritado com você.

— Não acredito que você realmente pensou que eu ia machucá-lo.

— Era um canivete, bunny boy, muito afiado! — Reclamou, cruzando os braços.

— Bunny me lembra que tem cenoura pro jantar — Sorriu ele — Você fica fofo com raiva, mesmo assim, a tulipa é um pedido de desculpas.

— Tudo bem, talvez eu já não esteja com tanta raiva assim.

— Então podemos descer pra jantar?

— Podemos.

Com um sorriso gentil, Jungkook se despediu e saiu novamente pela janela, iria encontrá-lo lá embaixo, na cozinha. De alguma forma, o rapaz do campo estava ganhando espaço no coração de Taehyung.