Addiction

2 Capítulo 1 - Name


Notas iniciais
Os nomes estão na ordem oriental, ou seja, primeiro o sobrenome e depois o nome. Não se esqueçam, ok? :)

Um ano atrás

Uma nuvem de fumaça branca dançou em frente aos meus olhos e subiu aos céus. Claro, ela vinha de mim. Soprei-a mais para longe, vendo-a se misturar com o ambiente um tanto que poluído por humanos e respirei aquele ar que todos dizem fazer mal à saúde. E faz, mas para mim tinha o efeito contrário; trazia paz à minha mente conturbada, calando por alguns poucos segundos as vozes ensandecidas que me assombram todos os dias. Era bom para mim, mas para os outros, não. Só posso dizer que isso é estritamente pessoal; opiniões são diferentes, certo? Não importa quais substâncias tóxicas formavam o pequeno cigarro que brilhava com a ponta incandescente em minha mão; não importa qual a consequência – seja gangrena, câncer de pulmão ou qualquer outra – que isso vai causar ao meu corpo. O corpo é meu e eu faço com ele o que bem entender.

“Antes isso que virar prostituta nas ruas”, era o que eu dizia quando me questionavam sobre a suposta vida que eles me viam levar. Eu não fazia nada que não fosse “legal”, no sentido de estar de acordo com as leis. Não usava ou vendia drogas, então realmente não devia nada a ninguém. Continuava respeitando as regras como a quase boa cidadã que eu era. Mas parece que sempre teremos aqueles que não sabem respeitar o direito de ir e vir de cada um, querendo meter o bedelho onde não são chamados. E é claro que isso realmente me tirava do sério, mas melhor que gritar é um sorriso sarcástico e palavras ácidas a qualquer um que invada meu espaço privado.

Muitas pessoas que passavam nas ruas me olhavam torto, outras, nem ligavam; estavam ocupadas demais apressando seus passos e alternando o olhar entre o visor do celular – para uma chamada ou para simplesmente ver as horas – para notar que uma garota deveria estar presa entre quatro paredes de uma instituição estudantil em vez de fumar um ou mais cigarros. Eu sinceramente prefiro as que não ligam. Fica mais fácil ignorar a existência das demais pessoas que me cercam, de se isolar da realidade. Pode soar um tanto depressivo e antissocial, mas é a isso que minha vida se resumia.

Estou sozinha e sei o que eu posso e quero fazer. A vida é minha e eu decido o que faço ou deixo de fazer durante minha estadia na Terra. Se eu for para o inferno, o que é muito mais provável que o céu, irei com gosto. Sem medo de enfrentar as consequências. Para que eu deveria me enganar dizendo que uma alma corrompida como a minha irá para o paraíso? Se é que isso existe, aliás. Para um momento relaxante, muitas perguntas e assuntos irritantes estavam se passando por minha cabeça, não? Fechei os olhos e inspirei, tragando um pouco mais daquele gosto de nicotina.

Expirei; mais um fiapo branco subiu enquanto eu abria os olhos e via as nuvens deslizarem preguiçosamente pelo céu de coloração intensamente azul com algumas nuances de tom em pontos mais distantes. O tempo não parecia querer passar, mas eu não me importava muito com esse detalhe. Se bem que ultimamente eu preferiria que essa tortura acabasse logo. Sabe, não existe coisa pior que viver sem realmente estar vivo. Sem ter um objetivo para levantar da cama e lutar. Eu era como ser uma concha vazia no meio de muitas que fingiam ter conteúdo. Sempre fui realista e soube qual situação a humanidade se encontra. Claro que não posso generalizar, mas a maioria é assim. Tão vazio, tão robótico quanto eu. Isso não é um defeito de seus corações endurecidos pelas decepções, longe disso, é apenas uma característica que se torna cada vez mais comum no meu cotidiano. Muitos não são fortes o bastante para nadarem contra a correnteza e essa é uma questão de escolha; tentar e gastar suas energias em algo que provavelmente resultará em desgraça ou se deixar levar e tentar viver a vida sem se arriscar.

— Scarllet? — chamou uma voz, retirando-me de minhas observações desconexas sobre humanos e suas interações. Revirei os olhos e a ignorei, pois a conhecia bem até demais.

O dono dela? Seo TaecYeon.

Oras. Quem é Seo TaecYeon? Pois ele é simplesmente Ele.

Filho único de pais exemplares – e podres de ricos, se me permite acrescentar. Nada contra pais, eu não sou uma garotinha metida à rebelde que faz birra por qualquer coisa. Sou adulta e sei me cuidar muito bem; lidar com a responsabilidade não é problema para mim desde muito tempo atrás. Mas os focos estão no homem que me chamava, então, continuemos. Ele sempre fora um exemplo de filho e um modelo de aluno, ou seja, um garoto certinho e perfeito, com a vida ajeitada em que nada está fora do lugar, que nada dá errado. Era totalmente irritante vê-lo agir como dono da razão, mesmo que eu percebesse que não era por mal, já que fazia parte da personalidade um tanto que presunçosa dele e ele mal percebia quando agia dessa forma. Ele sempre seguia as regras e agia conforme as expectativas, sempre cumprindo-as facilmente com um sorriso encantador no rosto que podia arrancar suspiros de várias garotas de diferentes idades. Mas viver em sua pele era aguentar a pressão de seus pais e além de tudo, da mídia e da inconsequente sociedade.

Para mim, Seo TaecYeon era nada mais, nada menos que um idiota.

TaecYeon e eu estudamos na mesma escola desde pequenos, pois nossos pais eram muito próximos. O pai dele estudara nos Estados Unidos, junto com o meu e voltara para o oriente assim que acabara sua pós-graduação em administração. Meu pai ganhou uma bolsa de estudos para a Coréia e passara a viver em terrenos totalmente diferentes dos conhecidos. À essa altura o pai de TaecYeon já estava noivo e até de casamento marcado (apenas diga-se de passagem, mas o Sr. Seo já era de uma família prestigiada e seu casamento foi resultado de um acordo de seus pais e os da noiva) e meu pai voltou para os Estados Unidos para prosseguir com a carreira. Com o tempo, as duas famílias perderam contato, pois seguiram carreiras diferentes em países do lado oposto do globo terrestre.

Os pais dele investiram numa empresa enquanto o meu na carreira de engenharia de produção, o mesmo que a minha, aliás. Quando meu pai se mudou para seu país de origem, ele conheceu minha mãe e tiveram aquela tão sonhada história de amor que duraria até a eternidade. Então, como resultado, eu nasci. Houve vários acontecimentos que trouxeram desta vez, a família inteira de volta para o solo coreano e de maneira definitiva. Depois disso, nossos pais acabaram se reencontrando e nossas mães se tornaram grandes amigas; do tipo que faz um brunch religiosamente toda quarta-feira e passavam o final de semana num salão de beleza ou numa volta ao shopping quando eu era menina. Conforme os anos se passaram, elas passavam horas penduradas no telefone ou em algum encontro com outras senhoras. Foi aí que nossas famílias começaram a se aproximar mais uma vez. Jantares e almoços juntos eram muito comuns. Sinceramente, eu e TaecYeon já fomos próximos. Fomos amigos até que relativamente íntimos, mas, como sua família era prestigiada, logo descobri que o destino dele já estava traçado.

Ele estava prometido à uma garota.

Sim. Isso era antiquado e raro, mas não era algo tão impossível.

Acho que a mulher que ele se casaria se chamava Park Lucy. Apenas a vi em fotografias. Ela era bonita, loira e jovem, mas acho que alguns anos mais velha que TaecYeon. Ou tinha a mesma idade. Não lembro. Ela parecia mais ocidental que oriental, afinal era mestiça, e tinha como profissão, modelo. Meio canadense, meio coreana, disse a mídia. Mãe estrangeira e pai nativo. A mãe, era uma empresária famosa por ter desenvolvido um produto com mil fatores de rejuvenescimento e entre outros “milagres” e o pai, vice-presidente de uma empresa que fazia o design de jogos. Ambos vinham de famílias prestigiadas e a união deles solidificou ainda mais suas bases.

Lucy era grande ícone de beleza na Coréia do Sul e era frequente sua aparição em revistas falando de dieta e truques de maquiagem ou cuidados com a pele. A moda atual nos países orientais é se parecer o máximo possível com uma “boneca” ocidental, com olhos grandes e lábios finos como se tivessem sido desenhados à mão, e óbvio que isso era obtido com cirurgias plásticas. Muitas. Perdi a conta de quantas garotas se submetem a esse tipo de procedimento para alcançar esse padrão, mas a vida era dessa pessoa e ela fazia o que bem entendia. Bem, a noiva de TaecYeon havia feito no mínimo, uma ou duas dessas e estava em constante dieta por causa de sua carreira como modelo nas revistas mais cotadas do país. Engraçado como esses coreanos negam até a morte que “retocaram” parte de seus rostos. O casamento era daqui a alguns meses e, pessoalmente, eu não tinha nada contra nem a favor. Admito que já tive, mas agora nada mais importa.

Se me pedissem para descrever TaecYeon agora, diria que ele é irritante.

Além de irritante, teria uma lista de insultos para ele na ponta da língua e mais alguma coisa que eu pudesse falar sem pestanejar. Fisicamente, ele era bonito, admito. Não era o ícone de beleza que aparecia na televisão, mas para mim era realmente bonito. Diria que, para a sociedade ele é um meio termo com tendência a “mais” do que para “menos”; tem um corpo em – muito – boa forma física, rosto de feições mais masculinas – por isso o meio termo, as pessoas apreciam um tal de flower bloy, que é um garoto de feições mais delicadas – e ele se vestia bem. Pelo menos agora. Claro que havia muitas pessoas que o classificam como bonito, mas como disse, a maioria das jovens daqui prefere uns homens que usam delineador e mais maquiagem que eu. Eu não gosto disso. TaecYeon não pinta o cabelo, pois os fios continuam da mesma coloração que eu o vi pela primeira vez, negros, num tom parecido com o preto mais escuro que se pode imaginar. Apesar da idade, 25, dois a mais que eu, o homem estava noivo e prestes a assumir o lugar do pai, Seo JungHee.

Um dos homens mais influentes no ramo industrial, presidente do grupo ShinWoo, JungHee está na casa dos 50 anos. Pai de dois homens (e nenhuma filha, apesar de sua esposa sonhar em ter uma menina) TaecYeon e TaeHyung. Sendo TaeHyung o mais velho que tem uma filha de três anos, é alguém sério e centrado de poucas palavras. Das mínimas coisas que me lembro da infância, posso citar a personalidade forte de JungHee, totalmente o contrário de sua esposa, Kang MinAh, que era doce e gentil. Era ela quem geralmente sorria e afagava meus cabelos quando eu era menor, me confortando após alguma coisa realmente insignificante aos meus olhos atuais. Os pais do garoto eram a personificação do casal mais comum e idealizado do país. Um senhor sério e de respeito e uma senhora calma e dócil. A maioria das famílias que seguia a linha de casais mais abertos e falantes como o de meus pais não era tão comum aqui.

JungHee era alguns anos mais velho que a esposa (talvez seis ou sete) e ele já apresentava bem mais traços da idade que ela. Seus cabelos, antes quase pretos quando o conheci, estavam grisalhos, já que ele se recusa a tingi-los. O corte tradicional e sério, com os fios completamente penteados para trás e juntos ao couro cabeludo não mudara desde que eu era criança. Sua expressão dura intimidaria qualquer um, mas eu sabia que em seu interior residia um homem bondoso que apesar das constantes cobranças, se preocupava com o futuro dos filhos. Este ainda era o chefe da família Seo e treinava seu segundo filho mais velho, TaecYeon para herdar sua empresa e prestígio. Dentro da empresa, era um homem responsável que nunca cometia erros, de orgulho inabalável. Já fora, um senhor comum que gostava de tomar chá enquanto assistia a notícias ou lia seu jornal sentado em sua poltrona e que adora mimar a neta.

Já MinAh não apresentava nenhum ou poucos sinais de que estava se tornando anciã. Não havia nenhum fio de cabelo branco no meio de seus longos cabelos escuros de corte reto. Pelo que eu sabia, ela não pintava os cabelos que tinham a mesma tonalidade do de seu filho. TaecYeon herdara muito mais que apenas os cabelos da mãe. Podia facilmente perceber os traços de sua generosidade que MinAh possuía nele e os olhos dela, tão calorosos e gentis, donos de um castanho-escuro profundo e brilhante, decoravam o rosto do filho. A mãe fazia caridade desde que se entende por gente e até hoje, qualquer um pode vê-la gastar algumas horas do dia visitando escolas carentes onde quer que ela esteja. Muitas vezes, MinAh aparecera em grandes revistas como uma das mulheres mais importantes da Coréia e também participava de eventos ou programas nas redes televisivas.

Acho que ela não mudou nada desde que a conheci. Possuía o mesmo sorriso doce e a mesma atmosfera agradável e rejuvenescedora a seu redor. Quando ela ria, sua risada me contagiava e me fazia sorrir. Era impossível não gostar dela e de seus abraços reconfortantes, além de seus dedos ágeis que insistiam em tentar fazer um penteado qualquer em minhas madeixas ruivas. Nos dias atuais, MinAh sai menos de casa. Como disse, suas saídas estão relacionadas a projetos sociais ou a algum compromisso em família e a última vez que a vi foi num momento ruim, mal pude falar com a coreana mais acolhedora que conheci.

O pai de TaecYeon criou e atualmente gerencia uma das maiores marcas de móveis da Coréia e o nome dessa empresa está se disseminando ao redor do mundo, além de expandindo horizontes em outras áreas, fazendo com que a pressão de assumir os negócios da família recaia sobre o segundo filho, já que TaeHyung escolheu seguir carreira na medicina e não poderá administrar nada preso num consultório. Por causa disso e do crescimento comportamental exigido, vejo TaecYeon cada vez mais preparado para o cargo de presidente. Ele já havia se formado em administração de empresa e estava aprendendo a gerenciar os gastos, cortes e ações na prática dentro de seu futuro local de trabalho.

Todos os dias, o maior seguia o pai em todos os cantos, fazendo anotações mentais e opinando, mas agora, com seu destino já quase traçado, JungHee passou a elogiar mais o filho e está deixando que TaecYeon tenha mais um pouco de folga durante sua rotina diária, apesar de querer que o filho continue a manter um visual mais apropriado, já que, nos tempos de escola o garoto andava de um jeito tão largado que nem parecia ser quem realmente é. Jeans folgados e camisetas estampadas forravam o guarda roupa do rapaz não davam sinal de desaparecer de lá tão rapidamente. Mas tiveram que ser retiradas de lá para dar lugar a ternos caros e bem passados e gravatas que ele passara a usar todos os dias. Tudo pelo bem das aparências.

Os cabelos escuros estão bem penteados ultimamente, num corte até que jovial, mas ele continua a ter uma franja que quase toca seus olhos castanho escuros que adquirem um brilho diferente ao serem expostos ao sol. Lembro-me de várias vezes em que ele corria na minha frente e depois sorria, acenando de costas para o astro brilhante que nos aquece. Nesses momentos, os cabelos pareciam mudar de tom. As raízes permaneciam negras enquanto o reto ia assumindo um tom de castanho e ruivo, uma mescla dessas duas cores que me parecia surreal. A pele dele também parecia ficar um pouco mais escura apesar de que ele ficou mais branco conforme o tempo passava.

Outro padrão de beleza oriental.

Ter a pele branca. Neste sentido, estou dentro da “moda” daqui. Sou uma descendente de italianos e mesmo assim, minha pele consegue ser mais branca do que muitos que moram em minha terra natal. Mas eu era pálida porque eu não podia me expor ao sol com tanta frequência assim, a não ser que eu quisesse que meu rosto ficasse totalmente coberto pelas sardas que pintavam parte do meu rosto. Já não era a maior fã de todas as machinhas que eu tinha “enfeitando” – como diziam os outros – meu rosto, então, uma quantidade maior estava fora de cogitação, mesmo que significasse passar os dias sem a companhia quente e maravilhosa do sol.

E as roupas, como já havia citado, seguiam o padrão imposto por altos cargos numa empresa. Eram bem passadas, sem nenhum amassado. Os sapatos, sempre sociais e de cores neutras, em sua maioria pretos e lustrosos. Geralmente, TaecYeon usava ternos e andava ajeitando sua gravata, mas em dias mais comuns, ele poderia usar calça social e camisa, mas sem deixar de fora sua nova melhor amiga, uma gravata preta ou de um tom igualmente escuro. Acho que preferiria o TaecYeon de antigamente, pois ele era mais normal naquela época. Na verdade, ele sempre foi e ainda é, apenas eu que mudei internamente. Por baixo de todas aquelas roupas caras, o moreno ainda é o mesmo garoto que me ajudava a me adaptar à Coreia. Mas agora, tudo estava em constante mudança, e eu não queria aceitar isso. Realmente não quero.

Um suspiro escapou de seus lábios finos, me trazendo de volta do passado saudoso. Ignorei. Não estava com bom humor suficiente para mais uma lição de moral; não vinda dele. De ninguém, na verdade, mas vinda de TaecYeon parecia ser absurda e infinitamente pior e mais irritante. Fechei os olhos e meu ambiente escureceu, não só no sentido de ficar escuro, ausente de luz, mas eu simplesmente desfoquei o mundo e meus sentidos. Estava sozinha e nada a meu redor tinha forma, era apenas um lugar vazio pronto para ser moldado.

Agora estava no controle da situação. Podia decidir o que fazer e congelar o tempo quando achar necessário. Pelo menos dentro daquele espaço, naquele que eu havia criado. Esse era meu único modo de passar o tempo e ao mesmo tempo, desejar que ele não passasse. Era um impasse que eu não conseguia resolver. Sinceramente, não queria. Deixaria os dias se arrastarem enquanto eu apenas observo essa passagem demorada do tempo. Podia me isolar num mundo que só eu alcançava, que eu controlava. Era melhor para minha própria segurança.

Mas não estava sozinha.

E TaecYeon tinha que estragar aquilo.

— Por que não para com isso? — voltei a olhar para o céu, sentindo meus olhos reclamarem com o clarão que me atingiu. Vi pelo canto do olho o outro se sentar na grama meio úmida. Estávamos num outono um tanto mais quente que o normal, até diria um tanto mais abafado. A grama estava mais verde que o normal e fofa também. Deitar naquele manto esverdeado me trazia mais sensações nostálgicas. Memórias de quando eu corria pela grama ou fazia piquenique ao lado de meus pais. Era estranho acordar e ver tanta chuva nessa estação, mas isso não me impedia de vir até esse cantinho do parque e fazer o que eu mais amava no momento e fazer dessa minha única maneira de voltar ao passado: fumar e beber. Descobri o motivo das pessoas beberem no momento em que passei a usufruir dessas duas substâncias com mais frequência. Voltar ao passado com um simples fechar de olhos. Era o que eu e milhares de alcoólatras faziam, anestesiando-se da realidade. Era meu escape e sempre tinha alguém tentando me tirar da minha nova vida. Esse “alguém” era TaecYeon em quase que todas as vezes. Simples e puramente porque não havia mais pessoas próximas a mim no momento. Não mais. — Não vai me responder?

— Sai daqui. Você tem mais coisas para fazer. — bufei, ainda de olhos abertos.

— Não tenho nada mais importante que te ajudar. Levante-se.

— Não.

— Scarllet...

— O que vai fazer? — rolei os olhos, com a voz cheia de irritação. — Saia daqui agora e me deixe sozinha.

Ele não respondeu. Lancei um olhar intimidador que não fez efeito já que o maior sequer olhou para mim. Mas, mesmo que ele olhasse, desconfio que isso não surtiria efeito melhor. Ele olhava outra coisa: garrafas. Podia sentir toda a reprovação dele direcionada a mim com um tanto de preocupação misturada, mas em minha defesa, não havia muitas delas vazias. Eu tinha acabado de chegar e bebi pouco. Aliás, bem menos que o normal. Não estava bêbada, mas qualquer um podia sentir o cheiro de álcool em meu hálito. Eu também não tentava escondê-lo como quando era adolescente, com algumas balas de menta. Eu bebia pouco na época, mas não suportava esse cheiro impregnado em meu corpo. Agora isso fazia parte de mim.

O olhar dele recaiu sobre mim, encontrando os meus sem dificuldade, com preocupação agora estampada em seus olhos castanho-escuros, misturando-se com a essência intensa de sua íris. Recusei-me a suspirar quando me vi refletida naquele olhar. Ele demorou-se lá e depois passou para algo que estava em minha boca e em minha mão direita. Cigarros. TaecYeon se aproximou sem nem piscar. Ele abaixou quando chegou perto o suficiente, sem invadir meu espaço por completo, e sussurrou:

— Você vai se destruir assim. — o tom ferido só me fez com que eu quisesse que ele sumisse. “Não diga, meu amor. Acha que eu não sei?”, rolei os olhos mentalmente, deixando o sarcasmo inundar meu cérebro, experimentando de uma pequena dualidade que sua voz causou.

— Quem liga?

— Eu ligo. Seus pais também ligariam. — e bastaram que essas últimas palavras saíssem de sua boca para que um tapa estalasse no rosto dele. Foi involuntário, praticamente. Minha mão ardeu – e muito – ao entrar em contato com a bochecha dele. A pele ficou um pouco rósea e dormente, igual ao rosto de TaecYeon.

— Não ouse repetir isso. — sibilei, encarando-o com toda a raiva possível e usando esse tapa para deixar uma parcela de culpa que eu precisava descontar em alguém. Poderia ser qualquer um, mas acabara sendo ele, o que estava mais próximo. “Sempre ele”, repetia para mim mesma. Esse pensamento me feria um pouco, admito, mas com um pouco de álcool esse pesar logo sumiria. “Pelo menos enquanto não estivesse sóbria”, completei mentalmente. O olhar de TaecYeon não aparentava nem raiva, tristeza ou alguma outra emoção, estava estranhamente frio. Os olhos inexpressivos não continham nada além de escuridão. Estava vazio, assim como o buraco em que deveria estar num coração. No meu.

— Não vou voltar atrás. Sabe que é verdade. — disse, tão calmamente que me irritou. Ele estava certo, mas nem sempre a verdade é a melhor coisa que uma pessoa precisa ouvir. Mas ao levantar a mão novamente, ele sorriu. — Vá em frente, desde que pare de fazer isso.

Desisti de continuar. Suspirei e acendi outro cigarro, fazendo questão de soprar a fumaça no rosto do homem que me encarava. Ele tossiu e agitou o ar acinzentado a sua frente, afastando-o de si. Voltei a me deitar e com a mão livre, apanhei uma garrafa meio aberta. Tomei um, dois, três goles, sentindo o líquido causar uma leve queimação que eu já me acostumara em minha garganta. Suspirei enquanto sentia o olhar do maior sobre mim. Havia algo naquilo. A intensidade daquele par me perseguia a cada movimento de meu corpo, seja para levar o cigarro à boca ou apenas mexer a ponta dos dedos. Sempre sabia quando era observada por ele e podia imaginar a expressão que, mais uma vez, recaia sobre mim. TaecYeon não disse mais nada, mas o vi apanhar as garrafas vazias e as colocar num saco de reciclagem. E ele foi embora após murmurar alguma coisa e suspirar, me deixando sozinha com minhas lembranças.

Fazia algumas semanas desde que havia perdido meus pais.

Um acidente de carro havia tirado ambos de mim. Ao mesmo tempo, os dois se foram. Não que se eu os tivesse perdido um por vez teria sido menos doloroso. Mas assim era demais. Era injustiça demais. Oras, mas o mundo é injusto, não? A vida por si já é uma injustiça. Alguns têm tudo e outros, nada. E por aí, o destino continua a traçar linhas tortuosas que apenas calejam aqueles que continuam a viver. Mas, o pior de tudo é que eu não pude estar com meus pais no período anterior à sua partida. Eles estavam viajando de volta para Nova York, Estados Unidos. Fora lá que nasci, mas como já havia citado, meu pai arranjou um emprego na Coréia do Sul e minha mãe e eu viemos morar aqui quando eu tinha cinco anos.

Ao chegar, mal sabia falar uma palavra em coreano, muito menos ler em na língua nativa, mas agora meu coreano é melhor que meu inglês.

Porém, durante essa viagem de férias, um caminhão bateu no carro de meus pais e eles morreram a caminho do hospital. Não tive interesse em saber o que acontecera durante ou após a batida, ou qual deles havia falecido primeiro, pois saber desse acontecimento não iria trazê-los de volta. Fiquei de fora de tudo; só soube que o cara que acidentalmente os acertou ficará detido na prisão por alguns meses e nada mais grave acontecerá. Ele simplesmente escapou dessa sem pagar! Claro que ficara mais que provado que fora um acidente, embora minha cabeça sempre insista em querer que acontecesse algo a mais. Não me parecia certo alguém tirar a vida de duas pessoas eu nunca fizeram nada além do correto. Só que, mais uma vez, nada pode ser feito e o assunto morreu aí.

Não pude ir visitá-los. Nem consegui vê-los durante os primeiros dias depois do fatídico acidente, mas após algumas burocracias inúteis, os corpos foram liberados e trazidos. Eu ainda estava em Seul e mais, em período de aulas, então não poderia fazer qualquer coisa que não fosse ficar em casa agoniando e remoendo milhões de brigas bobas, problemas de solução fácil que minha teimosia não permitiu serem resolvidos e por fim, algumas memórias boas de tempos que agora me pareceram tão distantes e alegres ou então ir frequentar as aulas que me afundavam mais ainda em meu humor negro, mas depois, “ganhei” uma licença de consolação que se juntou as tão aguardadas férias da universidade.

E foi nesse período que conheci o cigarro e me tornei mais íntima do álcool.

Tornei a fechar os olhos novamente e quando os abri, o sol já estava se escondendo no horizonte. O céu passara de azul claro sem nenhuma nuvem a uma mistura de laranja e rosa sem que eu sequer notasse. O parque estava quase deserto. Podia ver algumas pessoas caminhando, em sua maioria eram idosos que não tinham mais nada para fazer. Suspirei e beberiquei o resto que sobrou numa garrafa perto de mim. Beber havia se tornado algo tão habitual que podia fazê-lo de olhos fechados enquanto me isolava num mundo paralelo. Ouvi a voz de TaecYeon em minha mente, dizendo que devia recolher as garrafas e os cigarros e assim o fiz. Mas não sem reclamar e me perguntar o porquê de toda aquela idiotice da minha parte.

Não achei respostas e fui para casa sem elas.

Dormi e acordei, seguindo a mesma rotina do dia anterior. Lembrei-me da época após o acidente. Ninguém veio me incomodar. Apenas alguns poucos colegas, movidos pelo sentimento de pena, vieram dizer algumas palavras ou me mandaram alguma coisa no celular, que estava jogado em algum canto da minha bolsa, talvez com bateria, se eu tivesse me lembrado de carregá-lo na noite anterior. Sei que a intenção foi boa, mas não consegui sentir gratidão naquele momento por ter alguém ali. Não. Queria ficar sozinha, mas certas pessoas não me deixaram fazer isso. Não posso dizer “certas” pessoas, pois o único a que me refiro é TaecYeon. Ele não saía do meu lado e eu não queria chorar na frente de ninguém.

É um hábito que carrego desde que me mudei. Não queria chorar por nada, desde que as criancinhas perceberam que eu não era asiática e minha primeira experiência com o bullying surgiu; obviamente não foi nada agradável, mas nada que pudesse causar um daqueles traumas graves que me impediam de relacionar com as pessoas e tal, como na maioria das histórias trágicas e melancólicas vividas por uma narradora presa a algum vício. Esse meu problema na escola não me afetou, pelo contrário, com isso aprendi que não chorar afeta a confiança da pessoa que tenta me ferir e isso não a influenciaria (o que o contrário com certeza faria) a continuar a agir, instigando, pressionando e vendo até onde aguentamos – tudo isso para arrancar boas risadas dela e de sua turminha de imbecis –, por isso que não gosto mais de chorar perto dos outros. Me deixa fraca e vulnerável.

E ninguém gosta de ser visto assim.

Bem. Essa foi apenas uma das minhas desculpas para evitar as lágrimas. Claro que ser vista como a pobre coitada, aturar o peso do sentimento de pena era meu melhor estímulo para bancar a fria, ou pelo menos, a indiferente. E pelo que eu podia perceber, eu era uma ótima atriz; enganava a todos e geralmente os fazia pensar que eu era mesmo assim, uma casca vazia que não se importava com merda nenhuma. Mas era só e ficar presa entre quatro paredes, num ambiente silencioso e torturador, que as lágrimas surgiam e ameaçavam nunca mais parar. Claro que isso só acontecia quando eu chegava ao meu limite máximo de tristeza e frustração, algo que acontecia raramente. Mas naquele dia eu superei todos os limites e quebrei o recorde de quanto líquido eu havia perdido apenas para lágrimas. Nunca achei que uma pessoa sozinha conseguiria chorar aquilo tudo. E foi aí que a ficha caiu e a dor da perda me atingiu como uma facada em um peito pela milésima vez. Cada vez que esse pensamento surgia, a faca perfurava mais profundamente meu coração e a dor era quase insuportável.

Sozinha.

Era isso que eu estava e isso que eu seria daqui para frente

***

Notas finais
Oi! Obrigada por ter lido :) Essa é minha primeira história, então comentem para que eu saiba a opinião de vocês, pois só assim continuarei a postar. Gostaria de dividir esse livro com vocês, que é dedicado à uma amiga que o pediu para mim (ela foi a inspiração da obra toda, mas não que isso descreva a vida dela haha), por isso, aguardem por mais. ♥