Addiction

3 Capítulo 2 - Kiss


Notas iniciais
Oi! Obrigada por ter lido :) Essa é minha primeira história, então comentem para que eu saiba a opinião de vocês, pois só assim continuarei a postar. Gostaria de dividir esse livro com vocês, que é dedicado à uma amiga que o pediu para mim (ela foi a inspiração da obra toda, mas não que isso descreva a vida dela haha), por isso, aguardem por mais. ♥.

Minhas férias haviam acabado.

Ou seja, já havia se passado mais de um mês desde a morte de meus pais. “Não que a dor tivesse sumido, claro”. Me arrependi de pensar nisso no segundo seguinte, pois me lembrei do dia do funeral. A atmosfera pesada como chumbo me atingiu como um soco forte no estômago e me privou do ar por alguns instantes, fazendo as memórias inundarem minha mente já devastada como um tsunami de sensações ruins. Fechei os olhos e inspirei o ar que parecia poluído e intragável numa tentativa falha de me acalmar. Tentei em vão expulsar todas aquelas imagens que insistiam em dançar em minha mente, destruindo-a de dentro para fora, ao passo que exibiam as memórias mais horríveis do pior dia de toda a minha vida, que anunciavam em letras garrafais a morte de meus pais.

Corpos vestidos em branco, alternados entre masculinos e femininos enfiados em ternos e vestidos ou uma roupa mais simples, porém formal, acompanhada de algumas crianças que mal pude reconhecer e idosos (aqui as pessoas não usam preto quando algum ente morre; usam branco, mas o porquê meus pais nunca se deram o trabalho de explicar. Ou talvez apenas não soubessem. Murmúrios de “sinto muito” e “meus pêsames”, rostos sem foco segurando minhas mãos e me pedindo para seguir em frente, ao passo que um senhor de idade me entregava dois vasos de cerâmica, onde os restos mortais resultantes do processo de cremação dos meus pais se localizariam daqui a um dia. O preto com grossas linhas douradas iria conter as cinzas de meu pai, Grey Richard, e o preto com linhas prateadas e um tanto mais delicadas, o de minha mãe, Grey Jéssica. A única imagem que me aparecia quando pensava neles era em suas cinzas que foram guardadas juntas em uma prateleira de vidro numa das alas daquele local juntamente com uma foto deles tão sorridente que não condizia com a ocasião tratada.

Tudo isso passou como um filme meio desfocado que me atormentava como um fantasma alojado à minha alma, repetindo as cenas borradas cada vez que elas acabavam. Não consegui chorar até que todos, menos aquele homem, fossem embora. Eu não choraria na frente dele; queria que ele me deixasse sozinha e se afastasse, mas como ele não se movia, dando sinal que ficaria por lá. Não consegui suportar o peso da realidade. Logo, as lágrimas quentes e salgadas trasbordavam dos meus olhos numa intensidade jamais vista e não fui capaz de conter os soluços e murmúrios que escapavam por minha garganta. Eu não sabia o que dizia para ele – nem eu entendia qualquer palavra débil que saia de meus lábios que eram frequentemente machucados pelos meus dentes numa mordida forte para tentar cessar o choro. Ele ficou lá, me consolando em silêncio com uma mão em meu ombro. Um minuto ou sei lá quanto tempo depois, um abraço apertado. Queria empurrá-lo para longe, mas não tinha forças nem para controlar meus sentimentos e me manter de pé, imagina mover algum músculo. Por isso, apenas fiquei parada sem o abraçar, encostando a cabeça em seu peito, encharcando sua camisa e sentindo um traço ínfimo de segurança e reconforto se fazerem presentes.

As lágrimas borravam minha visão e eu mordia o lábio inferior para que o ritmo da queda das gotas salgadas diminuísse, porém, mais uma vez em vão. Eu não me soltava do pensamento que essa dor física ia me fazer parar de pensar na mais grave, só que não parecia dar certo. Tudo dentro de mim doía mais do que a pior das torturas físicas. Era como quebrar por dentro e só sobrar o corpo; eu sentia toda a minha vida querer se esvair por completo e me transformar numa casca vazia. Meu único consolo era o calor transmitido a mim por ele, que a cada soluço, me envolvia mais fortemente num abraço protetor, até que o aperto foi tornando meu corpo um pouco dormente devido à pressão.

No momento, aquela dor era boa, porque mostrava que eu ainda estava viva, por isso não disse nada. Mas era também a prova de que tudo era real, não um pesadelo inofensivo, como eu tentava acreditar.

Depois de muito tempo, parei de chorar e fiquei de cabeça baixa. Precisava ficar sozinha e TaecYeon entendeu sua deixa, ainda que fora hesitante em me deixar sem desamparo. Sem fazer nenhum ruído, ele caminhou lentamente até que sua silhueta desapareceu pela sala cheia de flores e mensagens para meus falecidos pais. E eu, finalmente sozinha, pude deixar todo o resto das lágrimas sair, só que com bem menos intensidade que uns minutos atrás. Acabei dormindo lá mesmo e fui acordada por uma senhorinha cujo nome havia esquecido. Também não lembro de suas feições ou de sua voz. Uma pena, pois ela fora extremamente gentil e compreensiva comigo, sem aquele ar de pena e falsidade. Lancei um último olhar para o porta retratos em cima dos caixões. Futuramente serão cremados e se tornarão pó, guardado numa urna no meio de outra sala muito parecida com a que eu me encontrava, com exceção das urnas e retratos que adornavam a outra.

Balancei a cabeça para me livrar disso e apanhei um cigarro que estava em cima da mesa. Acendi e deixei o cheiro da nicotina se espalhar pelo ar. Isso já era o suficiente para me acalmar. A sensação que quase me tirava desse plano apenas o suficiente para eu relaxar e fazia os problemas se afastarem entrou em meus pulmões e percorreu todo meu sistema respiratório antes de sair, causando um alívio ainda maior quando a fumaça branca foi expelida de minha boca entreaberta. Respirei fundo e continuei a dar pequenas tragadas que matavam meu tempo ao passo que o cigarro foi encolhendo até virar um pequeno toco incandescente Abri os olhos e apaguei a ponta do cigarro no cinzeiro, deixando o toco que ainda exalava uma pequena quantidade de fumaça em seu interior. Mentalmente, contei quantos estavam espalhados pela mesa.

Onze.

Suspirei e, saindo da varanda e direcionando-me para o interior de um apartamento, – já que a maldita brisa fria me fazia tremer da cabeça aos pés – enchi um copo de vodca. Misturei um pouco de limão e virei o conteúdo de uma vez, sentindo minha garganta queimar e me fazendo relembrar a sensação boa que aquela queimação trazia. A dormência que viria a seguir e a pequena amostra de felicidade diminuíam o peso que eu carregava. “Às vezes trazia coisas ruins”, pensei, recordando das festas que frequentei durante um curto período de tempo. Ficar bêbada não era a melhor escolha em lugres assim. Enfim, fumar também enjoa, por isso eu gosto de ter esses dois vícios. Quando canso de um sabor, provo outro e assim não me canso tanto deles.

E assim, comecei a beber copos e mais copos. Já havia perdido a conta de quantas vezes havia enchido aquele pequeno recipiente de cristal. Meus sentidos estavam um pouco confusos e meus olhos pareceram demasiado cansados. O peso das minhas pálpebras era muito grande e senti um leve estado de alívio meio estranho e familiar ao mesmo tempo, relacionado à bebida. Estava um tanto bêbada, eu sabia. Suspirei e enterrei o rosto na mesa, ainda segurando debilmente o pequeno copo em minhas mãos entorpecidas, dei um pulo na cadeira e arregalei os olhos, quase derrubando o resto de bebida que sobrou na garrafa.

Batidas à porta.

Ignorei-as a princípio, já mais calma, mas elas continuaram por vários minutos. Quando minha paciência se esgotou, pisei duro até a bendita porta e destranquei-a fazendo o maior barulho possível. Quando a tranca se abriu, puxei a porta com força e a pessoa que estava em frente a ela se revelou, me encarando com intensidade e preocupação palpáveis. Bufei quando o rosto familiar foi lentamente identificado. Era TaecYeon. Mas demorei um pouco para perceber quem era, pois estava um pouco zonza e com os sentidos e reflexos mais lentos por conta da bebida. Então ele, sem ser convidado, passou pela porta e entrou na minha casa a passos apressados enquanto seus olhos analisavam o ambiente que eu saiba, ele nunca fora apresentado. Após uma breve varredura de seu olhar curioso, segui-o e me pronunciei:

— Ei, o que pensa que está fazendo? — falei, um pouco alto demais.

— Que cheiro de cigarro por aqui... Quantos cigarros você fumou? — pensando alto, ele ignorou minha pergunta. Começou a circundar a mesa, caminhando até a varanda e identificando um cinzeiro, notando e contando cada resquício de cinzas por ali. — Um... sete... dez... onze? Você quer se matar?

— Quantas vezes vou ter que repetir que isso não é da sua conta? A vida é minha ou não?

— Você acha que as pessoas não se preocupam com você?

— Acho que essas pessoas já se foram.

— Errado... — ele se aproximou do meu rosto e se abaixou o suficiente para que os olhos dele ficassem da altura dos meus. — Eu... Scarllet! — sua voz saiu descontrolada. — Você está com um cheiro muito forte de vodca... Andou bebendo agora?

— Sim. Por quê? — dei de ombros e ele voltou a altura normal. O olhar duro e frio capaz de parar um coração. Suspirou e fechou os olhos, massageando o vão entre as sobrancelhas, procurando se acalmar. O maior começou a esfregar as têmporas e depois, a testa.

— Pare com isso. — pediu, cansado.

— Não.

— Por favor... Eu não...

— Você não me interessa. Saia da minha casa. — cruzei os braços e, porque eu falava meio embolado e meus reflexos estavam bem afetados, ele nem se intimidou.

— Você podia ouvir pelo menos uma coisa? — suspirou. Diferente de qualquer bronca ou olhar, a atitude dele me surpreendeu. Em um segundo, o moreno estava com o rosto próximo do meu e no seguinte, nossos lábios estavam se tocando. Ele fechou os olhos, mas os meus permaneceram arregalados. Que raio de atitude era aquela? Ele estava noivo e a mulher já estaria vindo para cá passar um tempo com ele antes de casar e cumprir os votos de devoção à ele. Ela estaria aqui daqui a pouco, se já não o estivesse esperando. Que eu saiba, TaecYeon não era o tipo de homem que sai beijando qualquer uma que apareça em sua frente. Mas nenhum dos pensamentos que rodopiavam em minha mente e viam quão absurdo e errado era aquilo me impediram de corresponder.

“Qual era meu problema?”

Fora algo tão espontâneo e natural que para meu corpo, era certo. Os lábios dele tinham um formato perfeito – que eu nunca havia visto igual – para os meus e sua pele morna e macia me fizera ceder. Assim que sua língua contornou minha boca, permiti sua passagem sem sequer hesitar e, claro, nunca que me arrependeria disso. O misto de sensações fora o melhor em toda minha nem tão breve vida. A língua dele envolvia a minha e se entrelaçava nela com maestria, guiando-a sem muita resistência de minha parte e apenas em alguns segundos, senti necessidade de intensificar o beijo; parecia que elas dançavam embaladas por uma música calma e relaxante. Após alguns segundos, atirei a pouca sanidade que me restava e me entreguei.

As sensações começaram a ser sentidas em maior escala e os movimentos de nossas bocas acelerados, transformando a dança em uma batalha pelo controle que ia diminuindo o ritmo conforme nossos pulmões clamavam por ar, porém nenhum dos dois parecia querer ceder para algo tão trivial como o oxigênio. Mas obviamente, os reflexos involuntários nos obrigaram a nos afastarmos. Partimos o beijo e nos entreolhamos, ambos ofegantes, porém ele estava calmo e eu, estática. “Como eu deixei isso acontecer?”. “Por que não resisti?”

— Que tal um acordo? — propôs, ofegante. E sem deixar que eu concordasse, anunciou a proposta. — Eu serei seu cigarro e sua bebida.

— Não entendi... — murmurei, também sem fôlego.

— Pare de beber e fumar. Toda vez que sentir vontade de fazer alguma dessas coisas me procure. Eu troco cada gole e cada tragada por um beijo. E todos estes são ilimitados. A hora que você quiser, estarei lá. Não importa se eu estiver ocupado, dou um jeito de ficar por perto. — ele me encarou, concentrando a intensidade daquele par de olhos castanho-escuros, que me pareceram escurecer um pouco mais esperando minha aceitação. Ele não tinha dúvida nem insegurança naquele olhar. Era uma totalmente sincero.

— Você está noivo. — anunciei o óbvio com certa incredulidade.

— E isso importa agora? — “Para você não importa?”, retruquei mentalmente.

— Claro! E a sua esposa?

— Futura esposa. Ainda não casei e... eu prefiro sua saúde a casar com uma mulher que nem conheço. — ergui uma sobrancelha, fiz minha melhor expressão de estranheza e ri de sua suposta sinceridade. Ri como se achasse a maior graça naquilo. Gargalhei até secar as lágrimas que caíram e o encarei. Ele? Seo TaecYeon desobedecendo seu querido pai? Não... eu acho que poderia ter um pouco de droga na minha bebida. Não era possível que aquilo que eu pensei nunca acontecer nem que o planeta explodisse estava simplesmente se desenrolando em frente aos meus olhos.

— Você está bêbado? Isso foi ridículo. Case logo com ela e seja feliz. Me deixe. — peguei o cigarro aceso e tentei colocar na boca. Mas antes que conseguisse, à força, TaecYeon me puxou, pressionando seus lábios contra os meus com força. Aos poucos, fui me rendendo tentação dos beijos dele e aquela sensação maravilhosa voltou. Culpei a bebida por minha fraqueza. Não havia comparação para os benditos beijos dele. O sabor era tão diferente de qualquer um que eu havia provado. Ele parecia mais... real? Também era viciante. Tampouco nos afastamos que eu comecei a desejar por mais. Encarei-o com as pernas já bambas e olhos assustados.

— Você aceitou, não é? — então ele se levantou com um meio sorriso presunçoso, apanhou o maço de cigarros e as garrafas e saiu a passos demasiado lentos. Ao libertar-me de meus devaneios, meus olhos o viram andando até a saída com um sorrisinho triunfante colado no rosto. Não olhou para trás e me tirou todos os meus vícios. Mas o gosto dos beijos dele não saiu da minha boca. Pelo contrário, o sabor de tê-lo a uma chamada de distância ficou lá e um desejo intenso de ganhar mais daquilo ia tomando conta do meu corpo. Engoli em seco e fiz o possível para que minha voz não transparecesse o efeito arrebatador que o contato teve, na esperança de me convencer que eu tinha de me agarrar com unhas e dentes para manter o resto de minha sanidade intacta.

— Você é um idiota... — murmurei enquanto fechava os olhos e me dirigia ao sofá, onde me deitei e adormeci, mergulhando num sono profundo e imperturbável que me deixaria com sérias dores nas costas na manhã seguinte. Não tive sonhos nem nada que pudesse me fazer lembrar da cena de mais cedo.

...

Nos dias que se passaram, não consegui beber uma gota de álcool e também não fumei um único cigarro sequer, por isso meus dedos tremiam de nervoso. Toda vez que chegava perto de alguma coisa, as palavras de TaecYeon ecoavam em minha mente como um constante lembrete daquele misto de sensações entorpecentes e aquele gosto ressurgia em minha boca, me fazendo perder toda a vontade de colocar algo dentro dela que não fosse a maldita língua do Seo. Apesar do maior ter dito que eu podia procurá-lo quando quisesse, não tinha vontade de ir atrás dele – além de que existe uma coisa que eu prezo muito: meu orgulho. Coisa que eu não iria ceder por um desejo insignificante. Talvez nem tão insignificante, mas ainda manteria minha decisão original. – só por causa de um beijo. Então tentei passar o tempo me concentrando nos estudos, já que as aulas iriam começar em pouco mais de 24 horas.

Antes de entrarmos em férias e obviamente, antes do falecimento de meus pais, meu professor de uma das frentes de física me recomendou um livro que na época – que eu havia achado muito interessante e começara uma leitura básica para matar a curiosidade. Eu gostava dessa matéria e achava ela mais fácil que as outras. Na verdade, era a única relativamente fácil. Física era mesmo uma bosta, só que, como eu havia escolhido engenharia, não tinha como evitar essa tortura em forma de cálculo. Ninguém disse que eu viveria o inferno numa aula, mas pelo menos meu professor era o melhor que eu já havia conhecido.

O professor Byun James era um senhor mestiço cuja a idade variava da casa dos trinta aos quarenta. Ele era casado, mas não tinha filhos e demonstrava não ter interesse em ter algum. Alguns fios de cabelo brancos manchavam o corte sério perfeitamente aparado que o deixavam com a cara típica do professor esnobe e tedioso, mas ele não era nada disso. James tinha um ar pesado eu o rodeava, mas ele tinha uma pitada de bom humor e seu jeito de explicar a matéria conquistava a simpatia de quase todos os seus alunos, além do fato de ele tratar todos de maneira igual; não escolhia um favorito, nem alguém para implicar. Sempre estava disposto a ajudar aqueles que tinham dúvidas e recomendar algo que nos interessasse.

Ele era o tipo de professor que seguia o estilo clássico e formal e as roupas, apesar de um pouco ultrapassadas, não lhe caiam tão mal, já que não era nem gordo, nem magro. Alguns dias ates de nunca mais pisar no campus da universidade, ele me entregara um livro grosso com as páginas um tanto amareladas e disse que eu poderia ficar com ele, já que ele tinha outro exemplar. Dei um sorriso e agradeci enquanto ele ajeitava os óculos. Não era difícil ganharmos um livro dele, se James visse interesse em sua matéria brilhar nos olhos de um de seus alunos. E comigo não foi diferente.

Relembrei tudo isso com um ar brevemente nostálgico e suspirei para espantar tudo aquilo e clarear meus pensamentos, me concentrando na leitura. Para minha surpresa, a tática de distração funcionou e eu estava interessada na matéria. Por esse motivo, não notei a passagem de tempo. O lado bom foi que compensei o tempo que eu tive de “férias adiantadas” e até consegui me resolver adiantando algumas aulas, grifando conteúdo e pesquisando sobre termos desconhecidos para anotar seus significados no livro mesmo, já que ele pertencia a mim agora. Quando percebi, já se passava do meio dia, sendo que, como acordara as seis por pura ironia do destino – pois eu sempre acordava no mínimo às dez e dormia de madrugada, pois meus olhos não queriam se fechar por mais que o cansaço tentasse convencê-los– e tive de arranjar algo para matar o tédio, passara mais de quatro horas sentada sem ingerir nenhum alimento. Estava com muita fome, coisa que me surpreendeu bastante, pois que não se tem muito disso quando nos tornamos “quase alcoólatras.”

Empurrei a cadeira causando um leve atrito da madeira e do piso e passei em frente a um espelho. Sem controlar minha curiosidade, meus olhos percorreram meu contorno, ansiosos, e pude constatar detalhes que mal havia reparado. Estava com olheiras profundas e a pele estava pálida, com aparência doentia. Tecnicamente eu estava doente, mas digamos que não era exatamente um problema de saúde física. Bom, não ainda. E os pesadelos não colaboravam para minha saúde. Uma vez que acordava com a respiração ofegante e o corpo coberto por suor transbordante de cada poro ainda alheio que tudo aquilo havia sido invenção de minha cabeça, o sono não vinha mais e só me restava passar a noite inteira em claro. Gastara dias rolando na cama esperando a boa vontade do sono em vir me visitar, mas tudo isso era em vão. Não importava quantas vezes eu deitasse, quantos calmantes tomasse sem que eu morresse de overdose (o que, convenhamos, era pouco provável) ou de que lado ou jeito na cama eu escolhesse, eu não conseguia pregar o olho. Ficava horas e horas olhando para o teto ou para a prateleira de alguns livros que eu costumava ler presa a parede e que eu não vejo mais graça. Há poucos dias, gastava minhas horas até o amanhecer fumando e bebendo. Quando não era isso, via algum drama que achava chato ou tentava ler algum livro. Antes, devorava cada página deles e perdia meu sono por causa desse comportamento, mas hoje acho que eles não passavam de papel impresso. Se bem que se eu achasse um bom livro, era bem provável que a imagem deles mudasse para mim.

Quando olhei com mais atenção, cerrando os olhos para focalizar minha imagem no espelho, notei que havia perdido peso. Não havia ficado esquelética ou abaixo do peso, mas havia ficado mais magra. Talvez tivesse perdido um ou dois quilos no máximo. Minha calça moletom estava um pouco mais larga e a camiseta também, mas nada que olhos despercebidos notem. Como a saúde não era meu tópico principal, parei de analisar meu reflexo e me dirigi à cozinha a passos rápidos. Atravessei o quarto com pressa e, indisposta demais para apanhar as roupas espalhadas pelo chão, calculei o melhor caminho para não cair na minha bagunça. No fim, acabei apenas apagando a luz ao sair. Sem paciência de preparar algo elaborado ou pedir alguma coisa a um restaurante próximo pelo celular, decidi fazer um pouco de macarrão instantâneo. Por sorte, achei um pacote de lámen na dispensa e sem hesitar, o rasguei e levei uma panela com água ao fogo. Em cinco minutos após a água ferver, já me sentava à mesa e assoprava um copinho descartável fumegante de lámen de frango.

Peguei um maldito palitinho – os hashis –, que tivera de aprender a usar durante minha infância e misturei o conteúdo quente. Juntei o par de palitos de madeira e apanhei um punhado de macarrão, assoprei-o e o levei em direção à boca. Havia apenas colocado o conteúdo do talher em minha boca quando a porta se abriu, me assustando. Não preciso dizer que o resultado foi quase desastroso, não? O palito escapou das minhas mãos, junto com o macarrão e caiu diretamente no pote, espirrando aquela “água temperada” quente em parte da minha camiseta. Bufei, pegando um guardanapo para secar o excesso de água ainda não absorvido pelo tecido da roupa e assim que ergui o olhar, tive um leve vislumbre da silhueta da pessoa.

O porte parecia masculino. Me levantei, mas antes que pudesse fazer qualquer movimento defensivo, ou ofensivo, o homem já estava me segurando em seus braços e me envolvendo num abraço que mais parecia um aperto. O pânico começou a me dominar e respirei profundamente. Tentei gritar, porém ao ouvir a voz dele, o grito ficou entalado em minha garganta e minhas batidas cardíacas se acalmaram o suficiente para que eu voltasse a raciocinar novamente. Olhei para cima e me deparei com um rosto de feições preocupadas. Pigarreei e ele me soltou, porém, ainda segurava meu rosto com as mãos mornas.

— Onde você esteve? — perguntou TaecYeon, com uma voz baixa e desnecessária. Afinal, estávamos na minha casa e sozinhos.

— O que isso te interessa? — perguntei, recuperando a pose e logo depois percebendo a situação em que nos encontrávamos. — Me solte. — ele o fez prontamente. Mas não se afastou; pelo contrário. O homem ficou parado à minha frente e me puxou para ele. No segundo seguinte, os lábios dele já estavam colados aos meus, mas com o choque, não o permiti aprofundar o beijo. O empurrei com toda a força que reuni, mas os vestígios de sua boca permaneciam em mim – minha boca formigava e podia sentir o gosto dele fracamente, porém com capacidade de distrair meus pensamentos. Inspirei o ar para calmar meu coração exaltado, mas ao invés de ar, tudo o que pude sentir foi o perfume de TaecYeon invadir minhas vias respiratórias e isso quase perder o fio de pensamento. Bufei e torci para a voz sair firme.

— Por que fez isso? — cruzei os braços.

— Você não está com gosto de nicotina. Nem de álcool. — os olhos do coreano estavam arregalados e a boca um pouco aberta. Ele estava surpreso. E ... estranhamente alegre. Desviei o olhar e revirei os olhos, irritada com aquele comportamento. Aliás, quem beijaria outra pessoa para saber se ela bebeu ou não?

— Não. E daí?

— Quer dizer que você aceitou meu acordo.

— Não posso ficar um dia sem beber sem que você tire conclusões precipitadas? — ele deu um sorrisinho de lado que me irritou. Por que ele era o único que fazia algum sentimento, nem que de raiva ou impaciência – ou algo a mais que isso, embora eu não admitira isso em sua frente –, surgisse em meu peito? — Você está noivo e eu não quero me envolver com ninguém. Pelo menos não com você.

— Scarllet, por acaso você tem algum relacionamento com o cigarro ou com uma garrafa de vinho? — perguntou num tom gentil que me surpreendeu após minhas palavras duras.

— Claro que não. — respondi, num tom desconfiado.

— Então... — TaecYeon começou a andar de um lado para o outro, com um meio sorriso. Meus malditos olhos se fixaram nele sem que eu percebesse e o seguiram a cada passo lento que ele dava. — Eu disse que seria seu único vício. Essa seria nossa relação. Não precisa se preocupar. Eu sei diferenciar as coisas. — disse, incisivo. Mas ele não olhou nos meus olhos ao dizer isso. Engoli em seco, sentindo a tensão tomar conta do ar.

— Falando assim nem parece o filhinho de papai certinho de sempre. — dei meu melhor sorriso cínico e cruzei os braços, desafiando-o a retrucar. Coisa que, para meu desapontamento, ele não fez.

— Nem sempre fui um filhinho de papai... — ele deu uma risada um pouco distante e desconcertada. Encarei-o. Não, ele só pode estar de brincadeira com a minha cara. Engoli em seco quando seus olhos encontraram os meus com milhares de significados por baixo aquele simples gesto do qual eu não sabia – e nem queria saber – o que diriam para os meus.

— Não estou com paciência para ouvir isso hoje. — suspirei e apontei para a porta. — Vá embora.

O outro me encarou por alguns curtos instantes antes de suspirar e começar a andar até a porta. Seus olhos pareciam tão diferentes daqueles que eu via há pouco tempo que eu senti uma pontada no peito, mas não soube dizer o que meu coração queria que eu fizesse. Na verdade sabia, mas não faria. Por um segundo achei que o homem iria sorrir, mas ele não o fez, continuou com uma expressão vazia que ficava um tanto estranha se combinada às suas feições. Acompanhei-o a passos lentos e via o cansaço em sua postura, olhar... tudo nele parecia estar errado. Parecia tão vazio que eu não diria que ele era o mesmo ser irritante que insistia em continuar na minha vida, mesmo que eu não quisesse. Os cabelos estavam bagunçados, a roupa, amarrotada aqui e ali, como se tivesse deitado na cama sem se trocar e rolado sem conseguir pegar no sono. O sorriso, meio vacilante e olheiras claras. Geralmente o moreno sempre andava em sua melhor forma... por onde ele havia andado? “Aliás, o que ele teria feito?”

No último segundo TaecYeon encarou meus olhos e pude me ver refletida nos dele. Fora um contato mínimo e instantâneo que, talvez, mudara tudo.

— Obrigado. — sussurrou com um meio sorriso.

— Por quê?

Ele não respondeu, apenas se virou e deu um aceno com as costas da mão. Encarei-o até que sua forma despareceu no ambiente, tentando entender o significado por trás daquele agradecimento inesperado. Fechei a porta e esfreguei as mãos no rosto, num claro sinal de incômodo. A sensação daquele beijo tomou conta de mim e apesar do contato ser ínfimo em relação ao outro, meu corpo tratou de se lembrar de todas as sensações despertas pelo anterior. Ainda podia sentir o gosto dele fazendo meus lábios formigarem e parecia que esse sabor não deixaria meu paladar tão cedo. Até o cheiro dele havia ficado impregnado em minha roupa por causa daquele abraço estranho. Ele usava o mesmo perfume há anos. Não sei o nome nem a marca do perfume, mas este cheiro o acompanhava sempre, então já o associava a TaecYeon naturalmente.

Um aroma que não era forte, poderia até dizer que era discreto. Um toque cítrico e amadeirado, intenso e que continha o equilíbrio de seus ingredientes, fazendo a mistura encorpada e ao mesmo tempo, suave, que parecia ter sido feito para se misturar com seu aroma natural que me lembrava dias de verão em que o sol não era avassalador, apenas iluminava o ia com seu esplendor e nos deixava a vontade para optar entre tomar um pouco de sol ou caminhar sem rumo definido. Trazia uma sensação nostálgica de um passado agradável que eu não conseguia explicar. Eu só conseguia sentir seu cheiro se me aproximasse de seu pescoço, no passado, mas pareia que agora o cheiro dele se dispersava pelo ambiente e me embebedava ao entrar em conato com meus pulmões. Por ser difícil de sentir o perfume quando se está mais longe, eu poderia comparar este aspecto com a personalidade do maior. De longe, parece alguém distante, centrado e calmo, mas se você o conhecer melhor, saberá que ele tem diferentes temperamentos, nuances e manias que só podem ser notados quando nos aproximamos dele. Agora essa mescla estava impregnada em mim. Parecia que ele estava por perto.

Sacudi a cabeça e descobri que não teria mais foco para mais nada o resto do dia.

...

As aulas começaram e bem... é proibido fumar dentro da universidade, obviamente. Muito menos beber. O máximo que te permitem consumir é um refrigerante e, francamente, não estou com a mínima vontade de beber Coca-Cola ou Pepsi. Eu sabia que havia alguns alunos que quebravam as regras, mas apenas com bebida – se bem que eu jurava ter visto uma garota do terceiro semestre de jornalismo com um maço de cigarros na sacada do prédio de gastronomia –, embora eu não esteja e nem estarei entre eles. Só que falar isso é fácil; digo, não aceitar a bebida que eles ofereceriam era uma coisa... mas me sentia tentada a pedir. Passe semanas bebendo até ficar viciada no gosto de álcool e depois pare. Assim, do nada. Se é difícil? É impossível. Ir ou não às aulas não faria diferença alguma já que não consegui me concentrar em nenhuma palavra de nenhum dos professores. As aulas passaram lentamente e ainda por cima, os sons das explicações pareciam distantes; as imagens dos educadores desfilando para lá e para cá durante seu monólogo me pareciam borradas. Eu só queria que o tempo corresse mais rápido para que eu pudesse voltar a raciocinar.

As aulas do período da manhã acabaram e o alívio se espalhou pelo meu corpo, trazendo junto de si um sorrisinho discreto. Poderia sair e voltar para casa. Mataria aquele desejo de tomar uma bebida gelada. Uma bebida de verdade. Não ia ser uma cervejinha estupidamente pouco alcoolizada, ia ser um shot de tequila, pelo menos. Suspirei e arrumei meus materiais rapidamente, jogando tudo dentro da mochila sem saber se os livros estavam todos lá ou se fossem amassar do jeito que eu os colocava, e saí a passos levemente apressados. Estava começando a criar um tique nervoso com as mãos, que não paravam quietas; ora eram meus dedos que tamborilavam na lateral do meu corpo, ora minha mão agarrava a barra de minha camiseta e brincava com o tecido. Comecei a estalar os dedos para me controlar. Funcionava, mas era obviamente estranho para qualquer um que visse. Era anormal para mim, que sempre caminhava calmamente, ouvindo música, então fazia isso de acordo com a batida. Porém, hoje é um dia em que eu preciso me controlar, não posso ter uma crise de abstinência tão cedo e nem posso demonstrar algo assim em público.

— Ei! — alguém gritou. Provavelmente algum aluno cumprimentando outro próximo a mim, por isso, ignorei e continuei andando. Ouvi sons de passos. A pessoa deveria estar correndo. O som aumentava a cada passo que eu dava. — Scarllet!

Parei de andar e me virei na direção da voz, em estado de choque. Minha boca secou, minha visão ficou turva e ameacei perder o equilíbrio, tudo de uma vez. Era ele. A pessoa maluca que havia me proposto uma troca impossível. Ele parou na minha frente com um sorriso cordial, chamando atenção de várias garotas. Parte da atenção era porque o carro esportivo vermelho estava parado em frente ao portão da universidade e outra por causa dele em si. Até eu admitia que TaecYeon era bonito; com seu físico e elegância, ele arrancava uma casquinha dessas garotas fúteis com tanta facilidade que me dava nojo.

Olhei ao meu redor discretamente e notei alguns olhares, desta vez em maior quantidade. Muitos deles estavam voltados para mim e depois seguiam para TaecYeon. Os sussurros já começavam a me distrair e o número deles só estava aumentando. Voltei meus olhos a aquele que perturbou minha paz e o fuzilei por alguns segundos, cruzando os braços e descendo os olhos por sua extensão, como se perguntasse o que ele fazia ali... ou eu apenas queria analisar seu físico. Vai saber. Meu corpo e meu cérebro tem sérios problemas de relacionamento.

O maior vestia uma regata branca que deixava braços definidos expostos e era um tanto colada ao copo – mas não o suficiente para mostrar mais que alguns reflexos de seu abdômen – combinada a uma calça jeans clara e charmosamente surrada em alguns pontos. Provavelmente ambas vestimentas vinham de marcas bem conhecidas, mas eu já não lia uma revista de moda há muito tempo para saber identificar a marca de uma roupa só de bater o olho. Ele sorria quando retirou os óculos de sol – que ironicamente pareciam ter sido feitos para seu rosto pecadoramente esculpido – e o pendurou na gola em V da camiseta. Dei as costas e continuei a andar.

No segundo seguinte, TaecYeon estava na minha frente e pegou minha mão, me puxando até o carro e abrindo a porta. Por um segundo, pensei em resistir, mas não era uma boa escolha fazer uma cena ali no campus para o prazer de todos os fofoqueiros. Perdi a conta de quantos olhares e fofocas estavam se espalhando pelo local. Porém, tive a prudência de escolher entrar no carro e esperar ele se afastar de todos os olhares para pedir alguma explicação. Não seria com uma discussão aos berros que encerraria aquela cena. Os rumores se espalhariam e depois cresceriam como uma bola de neve. E claro, eu teria que arcar com as consequências disso.

Passamos pelo portão principal e segui TaecYeon até seu carro. E para minha não surpresa, o modelo escolhido por ele era uma típica Ferrari; como num clichê, o mauricinho – no caso, TaecYeon – tem um carro ganhado do papai que custa mais que um bom apartamento no centro de Seul, que só para esclarecer, não é nada barato. Enfim, o modelo do carro era conhecido como “La Ferrari” e se não me engano é o primeiro modelo a adotar o sistema Hy-Kers, que faz o motor elétrico auxiliar a unidade de gasolina. Sem sombra de dúvidas, era um carro lindo, de um vermelho vivo que brilhava conforme o sol incidia no veículo. Tentei não ficar impressionada com a La Ferrari e distanciei-me do motor potente que acelerava pelas ruas de Seul. A viagem seria rápida, então era melhor começar a perguntar logo.

— O que está fazendo aqui? — minha voz saiu dura e fria, até mais que planejei.

— O que parece? — riu. — Estou te levando para sua casa.

— Por que veio? Não pedi por isso. — bufei e olhei ao redor. Estava quase chegando à minha casa, uma vez que morava próximo ao meu local de estudo. — Mas... obrigada.

— Eu não vim só para isso. — o carro parou em frente a um prédio alto e de coloração branca. Reconheci meu andar assim que vi cinzeiro em cima do muro da sacada. Eu o havia levado para lá e tentar fumar, sem sucesso.

— Para que veio então? — e um segundo depois de terminar a pergunta, a boca dele colou na minha (de novo!) e meu corpo correspondeu sem que eu me permitisse isso. E a língua dele invadiu minha boca, passeou e explorou todos os cantos possíveis em alguns segundos num ato rápido. O pior de tudo foi que eu cedi o controle a ele, me entregando completamente. O beijo fora curto e durou apenas alguns poucos segundos, só que esses “poucos segundos” surtiram um efeito enorme em mim, jamais sentido em outro toque. Meus sentidos zuniam por causa daquele contato repentino e todo meu corpo estava alerta. Meu coração batia três vezes mais rápido que o normal e a sensibilidade que eu era dona no momento me impressionou. Os pelos dos meus braços estavam arrepiados e eu sentia minha boca formigar. Depois desse enxame de sensações, comecei a me acalmar, mas o gosto do beijo estava presente em minha boca e não fazia menção de querer sair. Praguejei mentalmente. Não que eu quisesse que o gosto fosse embora, mas, tanto homem no mundo e eu vou gostar justo do beijo dele? Fiquei estática e o encarei, mas ele sorria.

— Por que você fez isso?

— Nosso acordo. Me chame se precisar.

— Não irei. — murmurei. Será que ele havia notado a falta de confiança em minhas palavras? — Não precisa mais me trazer até aqui.

— Queria garantir que você chegasse segura até sua casa.

— Então obrigada. — tentei abrir a porta, mas ela estava trancada. Me virei para ralhar com TaecYeon por não ter aberto a porta ainda e me deparei com o rosto do moreno perigosamente próximo. Seus olhos castanho-escuros me fitavam com tal intensidade que engoli em seco antes de tentar balbuciar alguma coisa— O-

Fui silenciada por um beijo.

Mais um, aliás. Queria que ele aprendesse que não é assim que ele devia agir.

Pode parecer coisa de filme, mas definitivamente não era. Aquela situação e meus sentimentos conflitantes não permitem essa comparação. Não que o beijo não fosse bom; o pior de tudo era que eu realmente gostava daquilo e isso me assustava bastante. Mas nossa relação era bem diferente da de um conto de fadas ou filme romântico. Não era a mocinha que queria aquele beijo mais que a vida e ele não era meu herói e nem um príncipe de historinhas de ninar. A situação era que um desejo vinha crescendo em meu peito desde que nossos lábios se chocaram pela primeira vez – só que eu não estava exatamente me importando com isso – e um homem que estava noivo estava no momento me beijando como parte de um acordo que ainda não aceitei. Nosso enredo não tem nada de perfeito. Nem faz sentido. Mas por que então, eu sentia que aquilo era a coisa mais certa que eu já tinha feito? Sentindo um alívio tomar conta de mim? No mínimo, estou ficando bipolar... e sem uso de drogas e remédios.

Eu queria me afastar.

Queria mesmo, mas por um defeito meu que eu odeio, correspondi a aquele beijo longo e intenso que tomou todo meu fôlego. Minha mão agarrou o estofado do carro na intenção de me dar firmeza para que meu corpo não fraquejasse diante de minhas pernas bambas e vacilantes (apesar de eu continuar sentada) e deixou marcas de arranhões lá. Sentia o toque macio e quente de sua mão na lateral de meu rosto, incentivando-me a continuar cedendo cada parede que construí para evitar esse contato e a me aproximar mais. Logo, a língua dele explorava cantos da minha boca enquanto um mar de ondas elétricas percorria meu corpo a cada movimento que ele fazia e me faziam experimentar algo que nunca sentira antes. O beijo dele continuava inigualável. E eu queria mais daquilo. Só que, obviamente não disse nada além de xingamentos a ele, tentando fingir que eu não o queria por perto. Ainda desnorteada, consegui recobrar o fio de pensamento que insistia em querer fugir para que eu voltasse a me render.

— Por que você fica fazendo isso? — suspirei, afastando-me dele sem fôlego. — Por que continua com essa história, TaecYeon?

— Eu ainda acredito que você vai sair dessa. Eu não gosto de te ver assim, Scarllet. — seu olhar se focou no meu e eu podia sentir a sinceridade me atingir como um tapa. Como eu podia odiar tudo nele se aquela sinceridade me instigava a tê-lo por perto? A sinceridade que me fazia querer entender o porquê de suas ações, mesmo temendo a resposta. Seria pena? Dó? Eu definitivamente não queria nada disso. Desviei o olhar antes que os sentimentos dele fluíssem até mim e encarei a janela sem focar em nada específico. Engoli em seco e voltei a encará-lo.

— Não veja. Feche os olhos, suma da minha frente ou faça o que quiser, mas se afaste de mim.

— Não quero.

— Sério? — engoli o bolo de emoções confusas que não me dei o trabalho de interpretar e minha risada carregada de ironia preencheu o ambiente. Ele não se abalou, diga-se de passagem. — Não finja que se importa comigo e vá embora de uma vez! — esbravejei. TaecYeon me ignorou e suspirou.

— Olhe para mim. — pediu num tom calmo e cansado. Obedeci e ele segurou as laterais do meu rosto com firmeza, me expondo ao seu olhar intenso. Pela primeira vez, pude ler cada sentimento que passava por ali. Era quase um reflexo do meu, porém com alguns sentimentos acrescidos: firmeza, determinação e acima de todos os outros, sinceridade — Eu pareço estar mentindo?

— Como eu vou saber? Olhos não dizem nada! E... mesmo que dissessem, não saberia identificar isso. Não sei! — menti, tirando as mãos dele de lá e abrindo a porta. Com uma insistência que jamais esperaria dele, TaecYeon puxou meu braço e me fez sentar novamente no banco do carro. Revirei os olhos e quis gritar tudo que eu tinha entalado na garganta, mas desisti no último segundo. Respirei fundo — Me solta!

— Não até você dizer que eu tenho uma chance.

— Que chance?

— De te salvar.

— Salvar? — fitei-o com desdém — Eu não quero ser salva! Não preciso.

Puxei meu braço mais uma vez, mas essa atitude foi em vão. Ele não soltou. Ele apertou a mão ao redor do meu pulso, o que deixaria marcas avermelhadas e doloridas depois. Transferia o olhar do meu braço para os olhos do maior colocando toda a raiva possível esperando uma reação, mas ele se manteve impassível. Puxei o braço mais algumas vezes antes de desistir e suspirar alto, então, seus dedos diminuíram a pressão que lá faziam. Passei a encará-lo e notei que cada vez mais, seu olhar se intensificava, escurecendo ainda mais os globos oculares castanho-escuros. Bufei e respirei fundo, contando mentalmente até dez. Mentira. Contei até seis. Minha paciência se esvaiu nesse número.

— O que você quer que eu fale? — gritei.

— Que você vai me deixar tentar... Só isso.

— E depois disso você solta meu pulso? — grunhi e ele assentiu. — Eu deixo. Pronto. Satisfeito?

Calado, ele abriu a mão e vi as marcas em minha pele branca. Segurei o pulso, massageando-o e me virei para sair do veículo, deixando a porta aberta. Podia sentir o olhar dele nas minhas costas, me seguindo com um certo zelo. Senti uma pontada fraca de dor e olhei para o pulso. O local onde os dedos dele me apertaram doía um pouco, mas não o suficiente para que eu me importasse. Eu sabia que ele não havia feito isso por mal, digo, não queria ter apertado tanto. Não olhei para trás e continuei a andar a passos firmes até chegar ao elevador e deste, até minha porta. Abri-a e girei a maçaneta.

Entrei em casa e suspirei. Minha mente começou a divagar e sempre parava no ponto em que TaecYeon me pedia para olhar em seus olhos. Olhos profundos e castanho-escuros demonstrando preocupação e medo com o que aconteceria comigo. “Mas muito disso é pena”, alertei-me. É mais fácil ignorar esse falso sentimento de compaixão e esquecer a presença de muitos aqueles que vão e vem na minha vida. Me lembrei também das marcas avermelhadas de dedos e cerrei os punhos. Mesmo que ele tivesse boas intenções, ele não tinha o direito de me obrigar a concordar com ele.

Ao pensar nisso tudo, me lembrei da confusão em que ele causara em minha universidade. Me arrependi de não ter resistido e pedido, ou melhor, exigido que ele não me procurasse mais. Provavelmente, vários boatos passarão a fazer parte de minha rotina – embora eu tivesse escolhido sair sem escândalos – e eu estava torcendo para que algo mais interessante os expulsasse da cabeça dos alunos. Larguei a mochila no chão e fui preparar alguma coisa para comer enquanto estudasse. Teria uma prova de pesquisa operacional II e era realmente péssima nessa matéria, além de odiar o professor careca e que desconhecia os benefícios do uso do desodorante em pleno século XXI. Teria que estudar muito para garantir uma nota razoável se quisesse não ficar de DP com aquele maldito fedorento.

E essa tarefa não seria nada fácil com certa pessoa habitando meus pensamentos.

Estudei, jantei um lanche qualquer e dormi enrolada num cobertor, quietinha em minha cama confortável. Custei para pegar no sono, mas com dois calmantes que foram estrategicamente colocados na gaveta do criado-mudo próximo a cama, Morfeu viera me visitar e fui carregada num sono pesado até a manhã seguinte. As cobertas e a brisa fria da noite me ajudaram a acalmar a mente e parar de pensar no passado e no futuro, retirando minha consciência deste plano e me levando para um nada menos assustador. Temia pensar em TaecYeon até em meus sonhos – ou pesadelos como prefiro chamar –, mas esse medo não se concretizou por uma dádiva divina. Passei um dia sem álcool. Aliás, mais um. Uma noite sem sonhos e sem pesadelos. Uma noite sem TaecYeon habitando minha cabeça e torrando restinho de sanidade que me impedia de ceder ao meu já admitido desejo por ele.

***

Notas finais
E aí, gente? O que acharam do principal? Acho que as kpoppers que leem já devem ter percebido certa semelhança com o TaecYeon do 2PM, mas tudo o que peguei foi o nome e parte da aparência (menos as orelhas hahaha). O Seo TaecYeon é uma mistura de um personagem que eu criei para atender às exigências da Flávia