Addiction

5 Capítulo 4 - Closer


Notas iniciais
Oi! Obrigada por ter lido :) Essa é minha primeira história, então comentem para que eu saiba a opinião de vocês, pois só assim continuarei a postar. Gostaria de dividir esse livro com vocês, que é dedicado à uma amiga que o pediu para mim (ela foi a inspiração da obra toda, mas não que isso descreva a vida dela haha), por isso, aguardem por mais. ♥.

Abri os olhos vagarosamente, deixando com que, aos poucos, me acostumasse com a claridade do quarto. Um domingo de outono. Feixes de luz solar adentravam o local por pequenas frestas, mesmo quando a janela estava coberta por uma cortina longa e alva. Pisquei os olhos mais uma vez – e outra, apenas para adiar o momento em que teria de me levantar –, lentamente sendo acordada pela claridade. “Quem mandou o maldito vento deixar parte das cortinas se descobrirem para que o sol entrasse?”, xinguei-me mentalmente. Por fim, puxei meu corpo para cima e me sentei na cama macia que parecia querer minha companhia por mais um tempo. Também queria ficar deitada o dia todo, mas não era uma opção ficar ou não.

Com uma incrível força de vontade, me obriguei a ir até o banheiro, arrastando meus pés calçados num par de chinelos com estampa de pequeninas margaridas, para analisar meu rosto. Estava com olheiras, mas isso já faz parte da minha rotina há muito tempo, tanto que eu nem lembro da época em que não tinha essas marcas arroxeadas sob os olhos. Suspirei e passei a me concentrar na higiene matinal. Abri a torneira e o som da água gelada invadiu meus ouvidos, colaborando para me manter desperta. Estendi as mãos em formato de concha e deixei a água se alojar lá para depois jogá-la em meu rosto. Um arrepio percorreu meu corpo ao ter contato com o líquido frio e me fez estremecer. Choque térmico era uma das melhores maneiras de espantar o sono. Em seguida, peguei o sabão e limpei o rosto. O próximo passo foi escovar os dentes. O fiz em menos de cinco minutos e já estava a meio caminho da cozinha.

Bocejando, separei uma tigela do armário e apanhei a caixa de cereal integral, despejando uma porção generosa e pescando a caixa de leite da geladeira. Com a colher na mão e o estômago vazio, passei a mastigar o café da manhã em ritmo mais acelerado que o normal, já que estava com mais fome que antes. Depois de terminar a refeição e pegar uma fruta em cima da mesa para complementá-la, voltei para o quarto com um pouco mais animação e troquei de roupa. As roupas que compuseram meu pijama foram levadas para o cesto de roupa suja – que eu teria que lavar amanhã – e substituídas por uma calça legging preta e lisa e uma camiseta de manga curta estampada com corações coloridos. Um tanto infantil, mas eu apenas iria ficar em casa para estudar ou ver alguma coisa na TV. Talvez, se tivesse coragem, sairia para comprar alguma coisa para comer num supermercado ou numa padaria aqui perto.

Arrastei a cadeira e sentei-me em frente à escrivaninha. Havia muita matéria, mas todas as vezes em que lia um parágrafo, alguma força misteriosa roubava minha concentração e plantava pensamentos sobre TaecYeon. Não havia sons além das páginas serem viradas e grifadas por um marca-texto amarelo fluorescente sem que elas realmente entrassem em meu cérebro. Tentei manter o foco o máximo que pude, o que durou mais ou menos quinze minutos. Realmente, não era nada.

Bufei e tentei distrair minha mente saindo para ir comprar alguns pãezinhos e doces, imaginando que açúcar iria me ajudar na tarefa de estudar sem interrupções. Estava um pouco frio, por isso coloquei um tênis qualquer e sem notar se as meias estavam compridas, curtas ou se eram pares, saí de casa e tranquei a porta. De qualquer jeito, a calça iria cobrir um possível desastre de moda. Já estava saindo do elevador quando percebi que esquecera o celular em cima da escrivaninha, mas estava sem vontade de voltar até lá. Além do mais, quem me ligaria pela manhã? Manhã de final de semana, ainda.

Caminhando nas ruas de Seul, pude distrair minha mente com as luzes, que me cegavam logo pela manhã, e com as buzinas que acordavam o coração da Coréia do Sul. Dezenas de carros passaram por mim no curto período de alguns passos apressados. Amarelos, vermelhos, prateados, pretos... eu consegui até identificar alguns carros cor-de-rosa. De vários modelos diferentes, desde novos a alguns em estilo vintage. Sim, esse é um país estranho, mas possui um charme no “diferente”. Ao desviar o olhar das ruas já agitadas, fui analisando os prédios que conviviam comigo há alguns anos e encontrei o que eu procurava: minha padaria favorita em Seul, Sweet Dream.

Os pães de lá eram macios e fofinhos por dentro, mas crocantes e corados por fora. Tinham um tempero especial e não eram, nem salgados, nem sem gosto, mas realmente saborosos. Também não eram enjoativos e estavam sempre frescos. Lá também eram vendidos cupcakes, cookies, brownies e outras gostosuras que faziam qualquer dieta ir para o espaço, sendo facilmente dispensada. Porém, não tenho vindo aqui ultimamente. E, como minha consciência a respeito do dilema alimentar – comer ou não comer – estava de folga, era uma boa oportunidade para aproveitar uma refeição. Será bom experimentar algo novo e relembrar o sabor desses pedaços de céu que me fizeram tanta falta.

Aperto o passo e alcanço a construção de coloração marrom chocolate em poucos segundos. Olho para a porta com um tanto de melancolia, pois já estivera dentro do recinto com meus falecidos pais, e empurro a porta de vidro delicadamente, que abre sem demais complicações. O som familiar do sininho anunciou minha entrada. Imediatamente o aroma de pães doces e salgados recém assados preenchem minhas narinas. Respirei mais profundamente e deixei aquele aroma inundar minha mente. Um sorriso iluminou meus lábios automaticamente. O caminho é tão natural que minhas pernas me guiaram automaticamente até o balcão. Minha boca então, pediu dois pãezinhos e um cupcake para viagem e um brownie para que eu comesse na hora. A atendente, uma nova que eu não conseguia reconhecer o rosto, sorriu e me entregou o pedido sem demora, juntamente com um papel contendo o preço dos doces.

Com os pães e o bolinho seguros numa embalagem e dentro de um saco plástico, sentei-me na mesa que sempre costumava ocupar: uma próxima da janela para que eu pudesse observar o movimento das pessoas na calçada enquanto desfrutava de uma refeição. Eu era a única alma viva naquela padaria, mas não demoraria para que outros clientes aparecessem. O público que frequentava esse lugar variava muito, tanto no quesito idade como em qualquer outro. No começo da manhã, ao ir para a universidade, eu via senhores e senhoras de idade conversando animadamente e comprando alguns docinhos. Já no período das férias, quando vinha aqui à tarde, havia muitos jovens alguns anos mais novos que eu com seu par romântico ou vários amigos, com um estilo estranho – baseado em séries de anime ou embonecados – ou comum de se vestir. Claro que havia as mais patricinhas, putas e as “normais”, também. Após o expediente de trabalho, aqueles que vinham comprar um lanche eram moças e jovens adultos. Além de que muitas crianças e seus pais aprecem por aqui ao longo do dia. Em resumo, esse lugar é bem movimentado e sua reputação e qualidade são o que atraem tantas pessoas.

Após algumas mordidas terminara de saborear aquele pedaço de bolo de chocolate de nome especial, levantei-me da cadeira de madeira e retirei o prato da mesa coberta com um tecido branco rendado, colocando-o em cima do balcão para que o prato fosse recolhido com mais facilidade. A moça que me atendeu agradeceu e eu pude ler o nome bordado no lado direito de seu uniforme. Pelo visto, “Lee JiYoon” era seu nome. Os cabelos longos e de um tom profundo de castanho-escuro estavam presos num coque bem feito sob uma touca de tecido fino branca, a cor do uniforme padrão da padaria. A garota parecia ser nova e eu presumi que ela deveria trabalhar durante meio período. Seus olhos levemente menores e um tanto amendoados quase negros eram atentos e ora estavam focados em mim, ora no resto da loja. Com uma reverência e um sorriso ela se despediu, pedindo licença para atender outro cliente, um homem que tinha a idade girando em torno de seus quarenta anos. Virei as costas e fui em direção ao caixa, onde paguei minha compra e andei a passos lentos até a saída.

Lancei um último olhar à atendente e passei a voltar minha atenção às ruas. O movimento dos carros não havia nem diminuído, nem aumentado, apenas continuava contínuo e organizado. Isso era um pouco chato. Me refiro à mesmice das coisas. Lembro-me de ter lido sobre a efemeridade das coisas, mas na realidade, tudo é constante. Se saímos do fluxo normal, logo não demoramos a voltar. Antes eu gostava de ter sempre um ponto ao qual pudesse retornar, mas com a perda de um dos pilares de minha própria sanidade, esse ponto se perdeu e com ele, várias outras coisas. Com isso em mente, passei um tempo perdida em meus pensamentos e quando dei por mim, já estava a encarar meu reflexo no espelho do elevador. Minhas pernas haviam me levado de volta a casa sem que eu sequer notasse. Acho que depois dessa perda meu conceito de tempo foi desfigurado. Era difícil me manter num tempo constante sem que eu me perca no caminho dessa contagem. Bem, não que eu realmente me importe na quantidade de segundos se passa enquanto eu me isolo em meu mundo, mas isso se tornaria um problema na universidade, certo?

A porta metálica se abriu e me deparei diretamente com minha porta. Branca e com os números “07” gravados. Tirei a chave do bolso destranquei a porta, girando a maçaneta sem fazer barulho, mas, mais uma vez, a porta protestou contra o movimento com um rangido fino. Olhei para o interior do apartamento e reparei na bagunça em que o lugar se encontrava. Não havia um apartamento na minha frente. Havia um cantinho da bagunça ampliado. Suspirei, já cansada só de imaginar o tamanho da limpeza que teria de fazer. E a primeira coisa séria me preparar psicologicamente para que depois eu começasse a descartar algo.

Após aproximadamente três longos suspiros e um minuto com os olhos fechados, encontrei uma ínfima motivação para que eu arrumasse a baderna, que seria: um dia eu terei de arrumar e quanto mais cedo, menos bagunça e menos trabalho terei. Era um fato inegável. Depois disso comecei a apanhar papéis aleatórios de contas a pagar – que eu deixei tudo preparado para resolver no dia seguinte –, embalagens de comida e caixas de cigarro vazias. Coloquei as latinhas de cerveja numa sacola plástica assim que as amassei e recolhi algumas roupas espalhadas pelo chão.

Já havia gastado uma hora e meia para que eu pudesse começar a limpar os móveis. Tirei o pó do sofá e do chão, completando a faxina com um pano molhado sendo esfregado no piso de madeira. Aproveitei para lavar as roupas já que não teria mais esse tipo de incentivo para fazer mais nada. Apenas tive paciência para discernir as roupas coloridas das pretas e brancas e depois joguei tudo na máquina de lavar, colocando bastante sabão e amaciante, pois estava com preguiça de fazer um trabalho mais bem feito. Por fim, ficaram limpas, porém, ainda molhadas. Recoloquei todo aquele monte de roupas na secadora e me dei um intervalo para descanso. Apanhei um copo no armário e enchi de água gelada, bebericando seu conteúdo enquanto olhava algum programa na TV sem dar muita atenção ao que se passava lá.

Já havia terminado todas e quaisquer tarefas domésticas quando a campainha tocou. Uma parte de mim deixaria a pessoa plantada na porta por causa do meu cansaço extremo e da falta de vontade de mover um músculo, mas a outra parte, a educada, me convenceu a me arrastar e atender a porta, tentando parecer um pouco gentil. A pessoa tocava a campainha pela quarta vez enquanto eu gritava um “Já vai!” que parecia não ser compreendido pelo ser. Destranquei a porta, sentindo minha determinação em ser educada escorrer pelos vãos de meus dedos e me vi diante de TaecYeon. Ele deu um sorriso e um aceno breve antes de entrar em meu apartamento. Virei-me para encará-lo com as sobrancelhas arqueadas e ele apenas riu como se fosse um velho costume nosso. Fitei-o enquanto TaecYeon rondava a sala de estar e os cômodos com um brilho de curiosidade que sua visão alcançava.

— O que você está fazendo? — indaguei.

— Hm... Parece que você arrumou isso aqui. Ontem eu vim te buscar e vi que havia uma paisagem de bagunça atrás de você. — ele me ignorou, risonho.

— Se já terminou de observar minha casa... — comecei e o maior parou de andar, lançando-me um sorriso brincalhão.

— Ah não. Vim jantar aqui. Disse que não sairia de perto de você por enquanto.

— Mas ainda não passa nem das seis da tarde... e como se você pudesse se auto convidar! E eu achando que asiáticos eram formais e educados. — dei um sorrisinho irônico e arqueei uma sobrancelha. — E além do mais, quem pediu para você vir?

— Você disse que iria deixar...

— Deixar o q- — e um flashback de um segundo trouxe todas das falas e sensações da noite anterior e claro, fez um bolo de saliva descer por minha garganta, levando todas minhas palavras consigo. E principalmente, minhas palavras direcionadas ao moreno. Engoli em seco para retirar o que sobrou daquele bolo e desviei o olhar. — Ah... — sussurrei. TaecYeon deu um sorriso vitorioso e se deitou no sofá, esticando-se preguiçosamente e me olhando de lado.

— Droga, eu tive que ficar fazendo hora extra com meu pai porque eu saí ontem. — resmungou. — O que você estava assistindo?

— Não acha que você está um pouco folgado? Não me lembro de um TaecYeon tão mal educado.

— Com você eu posso ser menos o filho exemplar para ser um cara normal. — piscou. — Por que? Você prefere que eu seja o “Filho dos Seo”?

— Tanto faz. Estava assistindo a um filme... eu acho — ele abriu a boca para, provavelmente, perguntar o nome do filme. — Não, eu não sei o nome... e não, prestar atenção e ver o filme são coisas diferentes. — TaecYeon sorriu quando soube ler seus pensamentos e se acomodou melhor no sofá que ele mal cabia. Seus pés ficavam de fora do móvel de tamanho moderado.

— Bom... Ao contrário de mim, você não mudou. Continua a ser a mesma Scarllet de sempre. — riu, mas no começo, senti uma pitada de amargura em sua voz.

— Tudo bem. Fique aí enquanto eu... estudo, acho. — dei as costas com a intenção de voltar a meu quarto, mas TaecYeon não deixou. O maior estava me segurando num abraço que eu nem percebi quando começou. Para mim, ele ainda estava deitado no sofá e eu, a um metro e pouco de distância dele, mas agora ele me envolvia por trás. Seus braços abraçavam meu tronco e não me deixariam sair tão facilmente de seu inoportuno aconchego. Sentia a respiração quente e calma dele fazer cócegas no meu pescoço, arrepiando os poros da área. Todos os meus sentidos ficaram alertas e eu podia sentir seu corpo colado ao meu. Seu abdômen que parecia ser exatamente moldado para minhas costas se encaixava perfeitamente às minhas curvas. Ele esfregou o nariz desde a curva do meu pescoço até abaixo da minha orelha. Um suspiro involuntário escapuliu de meus lábios e ele deu uma risada rouca.

— Eu vim aqui mais cedo para distrair você e não para ser ignorado. — as palavras eram carregadas pelo ar levemente frio e fizeram borboletas alçarem voo dentro de meu estômago.

Com uma agilidade e delicadeza admiráveis, ele me fez girar e ficar de frente para ele. Nossa diferença de altura era ainda mais evidenciada quando ele fazia isso, porém, o moreno havia curvado seu corpo para que nossos olhos ficassem alinhados e nossas bocas, perigosamente próximas. Mordi o lábio inferior, fitando seus lábios absurdamente convidativos e engoli em seco. Seus olhos castanho-escuros fitavam os meus, surpresos, enquanto os dele estavam carregados de intensidade demais para meu próprio bem. Parecia que havia uma corrente sendo sustentada por esse olhar e essa energia percorria meu corpo, eriçando os pelos de todo meu corpo. Desafiando meu auto controle, ele beijou minha mandíbula e seus dedos passaram a fazer movimentos circulares com os polegares em minha cintura num carinho gostoso. Suspirei, procurando com desespero motivos para afastá-lo de mim e então, como num choque de realidade, o futuro bateu a porta.

Ele estava noivo e isso não tinha como ser certo como aparentava ser.

— M-me deixa estudar, TaecYeon! — gaguejei e me amaldiçoei por isso (e por começar a corar).

— Você pode fazer isso depois. — sussurrou, com uma voz baixa e convincente.

— Não, preciso ir agora. — tentei soar séria, mas nem eu consegui acreditar em minhas palavras. Obviamente, nem ele.

— Hm... — ele deu um sorriso brincalhão de lado. — Parece que você não quer realmente ir...

— Seu... — e fui interrompida. Um dedo cobriu minha boca e ele piscou, erguendo um dos cantos de sua boca num sorriso debochado.

— Não diga mais nada... — lentamente a mão dele deslizou para a lateral do meu rosto enquanto Taec exibiu um – devo admitir – belo sorriso, que deixou minhas pernas bambas. E depois abriu um sorriso zombeteiro — Não é isso que falam nos doramas? — e riu sem perceber que eu não o acompanhava. Eu apenas o fitava com uma expressão estranha enquanto ele apontava para a televisão com a cabeça. — Oras, o que você queria que eu fizesse?

— Nada. Não você. — dei de ombros, piscando os olhos lentamente. Bem... pisquei um olho de cada vez na verdade. Eu sempre faço isso (segundo aqueles que conviveram comigo) quando estou irritada com algo. E nesse intervalo de tempo para que eu piscasse o(s) olho(s), Taec roubou um beijo meu. Nada profundo, apenas colou sua boca na minha rapidamente, e na mesma velocidade, se afastou.

— Mas o que você...! — bufei, frustrada ´por não encontrar palavras para serem ditas a ele. Ele merecia os meus piores e mais cabeludos palavrões.

— Fiz o que você queria.

— Eu não disse que queria.

— Mas eu consigo saber o que você pensa só pelo seu olhar. — e instalou-se um silencio de uns três segundos. TaecYeon começou a rir alto cada vez que olhava minha expressão que beirava o confuso e o irritado. — Eu estou vendo muitos doramas. — riu mais uma vez. — Me desculpe. É por causa da minha mãe. Ela gosta muito de um romance e me fez assistir alguns episódios ontem.

— Ha ha. Agora, se acabou, estou indo. — me virei mais uma vez e fui detida novamente. A mão dele segurava meu pulso firmemente. — Pode me soltar, Sr. “Dorama-da-mamãe”?

— Não. — ele deu de ombros e recebeu um olhar que fuzilou até a parede de tamanha intensidade que o fitava. TaecYeon me soltou e deu um meio sorriso derrotado.

— Obrigada — pigarreei e no momento em que virei minha cabeça, não vi mais nada. Meus olhos se fecharam por instinto e nesse meio tempo, fui empurrada e minhas costas bateram com um pouco de força na parede fria, fazendo algo próximo de mim cair no chão e se quebrar. Uma sombra de pânico invadiu meus pensamentos e tentei empurrá-la para longe ao passo que me apoiava como podia. Abri os olhos quando os lábios mornos dele tocaram no meu pescoço e causaram uma série de choques que se espalharam rapidamente pelo resto do meu corpo. Minhas pernas bambearam e escorreguei alguns milímetros para baixo. TaecYeon não pareceu notar nada. — O-o que... — as palavras se embolaram todas em minha garganta e não conseguiram sair. Ele não respondeu minha quase pergunta e continuou a trilhar um caminho que incendiava cada célula da minha pele, me fazendo correr sérios riscos de entrar em combustão no meio da minha sala de estar enquanto minhas pernas não me sustentavam, deixando meu corpo escorregar lentamente. Virei o pescoço para o lado direito e vi a mão dele deslizar pela parede e tocar minha cintura, me puxando mais um pouco para cima, retornando à posição inicial e colando-me a ele. A mão subiu pela lateral do meu corpo até tocar meu rosto e me fazer encará-lo.

— Desculpa por essa brincadeirinha, mas... eu disse que ia te entreter. E eu sei bem como me desculpar. — sussurrou com a voz rouca e maliciosa. Era estranho vê-lo assim, mas eu me habituava facilmente com ele desse jeito. No momento em que terminou de proferir a frase, nossos lábios se tocaram e a mão dele passou a apoiar meu corpo. Uma delas estava repousada na base de minha coluna para me empurrar contra ele e outra em meu pescoço, num gesto que me deixava imóvel, suscetível a suas carícias. Fechei os olhos e deixei com que ele me guiasse, cedendo ao desejo e sentindo a voz a razão diminuir até que, sem que eu percebesse, sumisse. TaecYeon fora andando a passos cegos e ouvi o barulho de algo batendo contra um dos móveis. Deduzi que Taec havia esbarrado no sofá sem querer, mas isso não o fez parar. Continuamos a andar sem rumo até que nos separamos. Ofegante, olhei ao redor para então deparar com a mesa da cozinha.

Estiquei o pescoço e percebi que o barulho que eu havia ouvido primeiro era de um copo quebrando. O copo que eu bebera água pela manhã e deixara lá e que, mais tarde, eu teria que catar os restos. Porém, sinceramente, os cacos de vidro jogados pelo chão da sala eram as últimas coisas que passariam pela minha cabeça. O segundo barulho foi mesmo o esbarrão de TaecYeon e o sofá, que fora movido cerca de cinco centímetros para o lado esquerdo. Observando mais atentamente, notei que meu apartamento, em especial a sala, passou de perfeitamente arrumado a um local de coisas caídas no chão. Bem... isso era exagero. Durante nossa pequena caminhada, TaecYeon e eu esbarramos em algumas coisas e deixamos um rastro um pouquinho bagunçado, mas nada que alguns minutos de arrumação não resolvessem; por enquanto, eu não pretendia arrumar isso tão cedo. Desviei minha atenção da pequena bagunça e notei que o maior estava esperando por alguma coisa.

— O que foi? — perguntei.

— Estava esperando uma bronca sua. — ele deu uma risada admirada. Estava realmente surpreso com meu comportamento? Só podia ser piada, não?

— Ah é? — ergui uma sobrancelha. — Não devia ter feito isso! — brinquei, apontando o dedo para ele, o que o fez rir. Estranhamente, meu humor ficou mais leve de uma hora para outra, como raramente acontecia na companhia dele.

— Acho que a sua atuação não é tão boa assim, Scarllet. — ele deu um meio sorriso e se aproximou, colando nossos corpos. — Não é assim que um ator deve agir. Quer que eu te ensine? — Ele sorriu e, passando as mãos por baixo de meus braços e me erguendo pela cintura, Taec fez com que eu me sentasse na mesa e ficasse uns bons centímetros mais alta que ele.

O maior, então, puxou minha cabeça para baixo e começamos a nos beijar novamente com tanta voracidade quanto da última vez. Estrategicamente, TaecYeon encaixou o corpo entre minhas pernas quando aprofundou mais o beijo – que agora beirava algo entre o feroz e calmo e, particularmente, eu aprovava e aprovaria quantas vezes fossem necessárias esse tipo de contato. Era deliciosamente viciante e me fazia querer mais daquilo. Então sua língua passou a dançar com a minha. Uma dança envolvente e única que inventava passos num timing perfeito. Estávamos sincronizados; mais sincronizados que qualquer outro par que eu pudesse imaginar. As mãos dele subiam e desciam pelas minhas pernas até o pescoço, contornando meu corpo com tamanho desejo que eu não conseguia compreender, apenas me afundar nas sensações trazidas. Eu queria mais no calor do momento. Só que suas carícias não passavam disso e não sabia se ficava decepcionada ou agradecida.

Não sabia o porquê, mas quando me aproximava dele, meu corpo não respondia e nem obedecia às ordens dadas por meu cérebro. Apenas o queria. Eu não controlava meus próprios movimentos e nem sabia o que faria, só tinha uma única coisa em mente: não sair de perto de TaecYeon; nem por um segundo sequer. Num último momento, ele se afastou para tomar um pouco de ar, mas o maior teve de voltar antes mesmo de inspirar profundamente. Eu havia puxado os cabelos – antes bem penteados – dele com urgência e o trazido para mais perto de mim para que pudesse beijá-lo mais. Não havia submissão doentia da minha parte, nem da dele. Ambos ora cedíamos, ora lutávamos pelo controle. Isso então que seria o doentio da relação – excluindo várias outras partes igualmente loucas. Esse sentimento que deixava meu lado racional fora de ação enquanto meu corpo desfrutava de tudo aquilo que, apesar de não ser, parecia tão deliciosamente mais novo. A sensação ardia em meus lábios, em meu corpo e apenas diminuía quando eu podia tocá-lo. Minha boca ficava seca se ele parasse e eu parecia ficar prestes a ter um colapso nervoso só de pensar na possibilidade de vê-lo distante.

E a tendência do alcance dele sobre mim era aumentar. Quanto mais perto ele estava, menos suficiente era. Não que a distância fosse ajudar. Sentia que eu rumava para minha destruição e para o salvamento ao mesmo tempo. Era um pensamento louco e incompreensível, mas por hora, era isso que eu queria: enlouquecer; era dele que eu necessitava. Nessas horas eu não conseguia me enganar dizendo que eu não gostava da proximidade dele, da teimosia e insistência em me fazer entrar nos eixos; seria feito do jeito dele, mas sabia que TaecYeon não era assim. Não o que cheguei a conhecer. Tinha uma parte dele que se parecia comigo, que se entregava à loucura, ao impulso. Nesse aspecto nós éramos parecidos. E ele explorava minha curiosidade, meus desejos... Ele usava tudo a seu favor. Vestia uma máscara que não fazia parte de sua natureza para capturar uma presa.

Ele a seduzia e conseguia mantê-la nos trilhos. TaecYeon me deslumbrava com seu novo jeito e dava um jeito de me prender a ele. Não por amor, eu posso afirmar. Entretanto, não sei o que ele planeja fazer daqui em diante. Eu sabia dos planos dele, mas não conseguia resistir. Era até irônico o que acontecia entre nós. “Como definir tudo isso? Qual o motivo dele?”, as perguntas enchiam minha cabeça e eu não sabia se eram meus pensamentos conflituosos ou a inundação de sensações que me fazia perder o equilíbrio e fincar as unhas na camisa dele.

Depois de alguns minutos que pareceram bem curtos para mim, a campainha tocou, mas o som pareceu tão distante que eu poderia ignorá-lo com facilidade e voltar toda a minha atenção aos lábios do moreno totalmente entregue. Primeiramente, hesitei em ir abri-la, mas meu senso de educação falou – novamente –mais alto que o resto de mim. TaecYeon já havia se afastado e se ocupou em me ajudar a não deixar transparecer que nós dois estivemos quase nos engolindo poucos segundos atrás. Assim que ele tentou seu melhor para ajeitar alguns fios de cabelo e puxar a minha blusa para baixo – ela havia sido erguida, não por ele, é claro, mas deixava metade do meu umbigo de fora sem que eu notasse–, o maior se apoiara na mesa e me esperara atender a porta. Eu então, ajeito uma mecha de cabelo atrás da orelha e puxo a maçaneta com as mãos trêmulas e suadas; a sensação de quase ter sido pega aos beijos com Seo pareceu excitante, visto que ele era noivo e um escândalo só atiçava meu senso de aventura, de querer o “proibido”, por assim dizer. Deparei-me com um entregador de pizza estrangeiro. Pelo menos era o que parecia. O rapaz não tinha olhos puxados e nem sotaque de quem mora em Seul. Magro, de estatura média e cabelos ruivos mais puxados para o laranja – provavelmente coloridos à tinta – estava lá, em pé a minha porta um entregador de um restaurante que eu nunca ouvi falar.

— Entrega para a senhorita Grey Scarllet — ele sorriu e estendeu uma caixa relativamente grande para uma porção de comida.

— Ah, sou eu, mas... desculpe. É que- — comecei, um tanto perdida.

— Eu que pedi. — Taec apareceu como um fantasma ao meu lado e pegou o embrulho. — Obrigado. — o garoto, um tanto mais novo que eu, meneou com a cabeça e se retirou.

Fechei a porta logo em seguida e encarei o homem alto perambular pela minha casa até sentar-se novamente a mesa, com um sorriso alegre estampado em seu rosto. As feições sensuais e adultas substituídas por uma alegria quase infantil. Era gritante a diferença que se mostrava. Segui-o primeiro com o olhar e depois puxei uma cadeira, sentando-me de frente para ele. Taec havia aberto a caixa e tirara de lá dois copos plásticos cheios de suco de maracujá, dois tempurás, quatro temakis e uma porção de rolinho primavera – que eu tanto amo – e mais alguns pratos que eu já devo ter provado, porém que não lembro o nome. Apesar de morar num país asiático e ser apaixonada por comida japonesa – mesmo morando na Coréia do Sul –, eu passei a evitar sair de casa e, portanto, a frequentar restaurantes tradicionais, pedindo apenas fast food ou comprando alguma coisa simples para eu preparar. Milagrosamente, eu não havia engordado. Se bem que esse meu “milagre” só pudera existir pelo fato de eu ter me tornado uma bêbada fumante – ou fumante bêbada se preferir. Assim que ele retirou tudo o que havia no pacote de papelão, ele o largou num canto da mesa e me entregou um par de hashis, que aceitei meio relutante.

— Quando você fez o pedido? — perguntei.

— Alguns minutos antes de sair de casa. — TaecYeon partiu os palitinhos ao meio e começou a comer alguns sashimis de salmão. — Mas acabou que foi uma coisa boa. Bom... talvez pudesse ter demorado mais um ou dois minutos. — deu um sorriso levemente safado.

Não o respondi e comecei a comer também, focando minha atenção nas delícias dispostas na minha frente. Sentia falta daquela textura do rolinho primavera, que por sorte era vegetariano, meu favorito; talvez não fosse por sorte, pois desconfiava que TaecYeon sabia que eu amava o prato. Eu estava com fome e nem tinha percebido, por isso acabei comendo mais que Taec sem me importar com o olhar satisfeito que ele exibia. Provei alguns pratos que não havia reconhecido à primeira vista, mas que foram facilmente identificados e apreciados por meu paladar. Depois de pouco tempo, com a colaboração do moreno que devorou tudo em algumas mordidas, havíamos encerrado a refeição. Não havia sobrado nada do jantar e eu comecei a limpar a mesa, recebendo ajuda do maior logo em seguida. Jogamos todas as embalagens e papéis no lixo e sentei-me na cadeira, debruçando meu tronco sobre a mesa. Ainda estava de olhos abertos e podia ver TaecYeon se mover pela cozinha.

— O que você está fazendo? — murmurei, quase sonolenta após comer tanto.

— Uma sobremesa. Aceita? — respondeu. Taec estava de costas e mexia em algumas prateleiras. — Você não tem ingredientes aqui?

— Eu tenho cara de quem passa horas do dia procurando receitas para fazer? — retruquei, enfezada.

— Não. — riu sozinho e após pensar um minuto, virou-se para mim. — Assim você não será uma boa esposa coreana. Tsc Tsc, o que seu marido irá pensar? — andou até ficar de frente para mim e abaixou o tronco, sorrindo.

— E? Eu sou americana! — entrei na brincadeira com uma piscadela.

— Tá. — ele riu e passou os braços por baixo dos meus, me puxando com cuidado. — Levanta logo. Você está com cara de quem não dormiu bem.

— Então vai embora e me deixa dormir.

— Não quero. — ouvir isso me fez ver um TaecYeon criança. Num minuto ele estava de volta à sua pequena e fofa forma. Ele era mimado, eu lembro; apesar de suas qualidades, esse defeito fazia com que muitos não gostassem dele. Claro que ele não demonstrava ser assim com frequência, mas eu sabia que no fundo, a criança ainda se fazia presente em seu ser. Em algumas ações, por exemplo.

— Parece uma criança mimada. Ou seja, você mais novo.

— Preciso te provar que não sou mais criança? — sussurrou, voltando ao tom meio brincalhão, meio sério. Era difícil de decidir.

— Claro. Que tal dormir meia noite hoje? — falei com falsa animação, rindo da cara abobada que ele fez. — Não vou cair em seus truques de ator mirim, amigo.

— Hm... — ele havia me soltado e agora fazia uma expressão pensativa. — Acho que eu posso virar ator profissional. Ser o mocinho de alguma novela.

— Boa sorte. — ri.

— Qual a graça? Está duvidando das minhas habilidades artísticas?

— Não, o senhor é um ótimo ator. Pode pegar seu troféu antes de sair da minha casa. — rolei os olhos, escondendo um sorriso — Se só veio me visitar pode ir embora. — fiz um gesto de descaso com a mão estendida e ele a agarrou. TaecYeon e eu nos entreolhamos. Sua expressão estava séria e focada. — Ei... — comecei. E ele roubou um beijo meu sem que eu conseguisse tempo para piscar. Suspirei e dei um sorriso de lado.

— Se for fazer isso, que faça direito. — sussurrei, puxando a gravata preta e obrigando a boca dele tocar a minha. Fora a aproximação, não notei demais sentimentos nele. Não que ele me beijara sem expressão ou que ele não o fizera bem, mas estava diferente. Deixei que essa sensação perdurasse por mais alguns momentos até que ele se afastasse. Abri os olhos vagarosamente e a primeira coisa que vi foi a expressão preocupada do maior. Bom, agora sabia o que havia de errado.

— Você está bem? — perguntou.

— Eu pareço mal, por acaso? — tentei brincar, mas o peso da situação evaporou minha tentativa de aliviar o clima.

— Estou falando sério. Você...

— Estou sóbria desde aquele dia — respondi sinceramente e vi Taec soltar o ar preso em seus pulmões, mostrando uma expressão mais suave após fazer isso.

— Então tudo bem. — ele deu um meio sorriso que diminuiu à medida que seus olhos escureciam em perguntas que secretamente me julgariam. — Eu...

— Eu sei. — interrompi antes que o clima ficasse ainda mais tenso. Trocamos sorrisos de lado e fomos sentar no sofá para ver qualquer filme que estivesse passando.

No final da noite, ele e eu não havíamos trocado nem uma outra palavra, apenas convivemos um com o outro de uma forma desconfortável, se me permite dizer. A companhia dele era tão silenciosa que eu momentaneamente me esquecia de que ele estava lá. O único jeito de ver que eu não estava sozinha era que ao virar para o lado e ver sua expressão nublada e falsamente indiferente; eu sabia que ele estava mais olhando para mim do que para a televisão, zelando meu bem-estar em silêncio a cada olhadela recheada de temor pelas minhas futuras ações. Nunca havia me sentido tão estranha. Tinha algo de errado naquilo tudo. Era incomum ver TaecYeon quieto e sem expressão. E imaginar que ele conseguia aliviar o clima com seu jeito nada natural de cafajeste e suas brincadeiras infantis... assim ele retirava aquela garota revoltada que se apoderava de mim e me fazia sentir que estava tudo bem. E por uns míseros instantes, estava mesmo.

Suspirei profundamente, deixando o gás carbônico em meu pulmão se esvair e tentar expulsar meu descontentamento com a vida. Sentia que eu estava sendo vigiada por ele. Não no sentido ruim, com direito a uma sensação ruim de ódio ou reprovação, nem nada do tipo. Como disse, ele queria me proteger de mim mesma e isso me fazia sentir zangada com ele e ao mesmo tempo grata. Mas numa guerra interna, eu sabia que o ódio ganharia, sendo apoiado pelo orgulho. Eu vivia num dilema entre odiá-lo e ajudá-lo a me ajudar, se é que era possível; essas sensações me remetiam a algo estranho e misturado, uma substância composta por emoções que já iam sendo esquecidas que despertaram de forma difusa, mas talvez sentir algo fosse melhor do que não sentir, do que mergulhar de cabeça no preto e branco que eu conheci. Em suma, não sabia o porquê desses sentimentos, mas resolvi aceitá-los como qualquer outra coisa que surge a minha frente, para depois esquecer se me arrepender de deixá-los entrar.

Abri a porta de madeira para ele e o maior apenas acenou quando chegou até a porta do elevador. Nossa última troca de olhares aconteceu quando ele olhou em minha direção e deu um meio sorriso abalado. Suspirei ao entrar em casa e me jogar no sofá, torcendo para que aquele clima pesado de despedida fosse embora tão repentinamente como quando havia chegado; ou que pelo menos, fosse embora assim que percebesse que minha vida já estava ferrada o suficiente sem aquilo me incomodando. Tentei distrair a mente com um banho quente que serviu para relaxar os músculos retesados de meu corpo, mas quanto à minha cabeça... meus pensamentos não poderiam ser mais inquietos. Só porque eu não pude esquecer do olhar preocupado que recaiu sobre mim quando o encarei de volta. Será que eu parecia ser tão miserável e digna de pena? Ele simplesmente poderia ignorar minha existência e continuar a seguir em frente, mas por que ele voltou para me ajudar? Aquilo tudo era preocupação comigo? E por que ele se preocuparia tanto assim?

O x da questão: Por quê?

Esses pensamentos reverberam em minha cabeça até o momento em que fechei os olhos e tive o sonho mais estranho da minha vida.

...

Tudo estava claro e branco.

Irreal demais. Era um sonho, eu sabia.

Tudo o que podia ver era uma enorme sala de um branco tão imaculado que chegava a incomodar minha visão. Pisquei repetidas vezes para tentar me acostumar àquilo. Eu estava sozinha naquela vastidão de branco e o silêncio daquele local, que deveria ter me assustado, me trouxe paz. Uma paz desconhecida por mim, tão diferente e tão intensa. Uma sensação pura e reconfortante passou a me aquecer de dentro para fora, me fazendo suspirar, o que me fez com que sentisse meu corpo ficar mais leve. E foi assim que percebi que meus pés não tocavam o chão, eu flutuava. Comecei a andar em linha reta, mas não chegava a lugar algum. Parecia que a sala tinha se alongado e não me deixava sair do lugar. Era como se quanto mais eu andasse, mais longe de qualquer lugar eu chegaria, mais presa àquele chão eu ficaria. Já estava cansada daquilo e parei para sentar um pouco num banco prateado que surgiu do nada, ao reflexo do meu pensamento em sentar. E foi aí que duas pessoas apareceram na minha frente. Não as reconheci à primeira vista, pois a imagem delas estava distorcida e borrada. Porém, quando eles começaram a caminhar em minha direção, eu percebi de quem se tratava.

Meus pais.

As lágrimas salgadas começaram a escorrer quando eles se aproximaram o bastante e sua imagem entrou em foco. Minha mãe continuava com a roupa do nosso último momento antes de sua viagem aos Estados Unidos. Ela trajava um vestido florido um pouco largo que esvoaçava a seu redor e rasteirinhas simples nos pés. O cabelo ruivo estava preso num coque e ela usava um camafeu que continha minha foto quando bebê de um lado e outra em que ela estava com meu pai ainda em seus tempos de jovem sonhadora. Um sorriso largo iluminou seu rosto e ela acenou para mim como se dissesse “Oi, eu demorei?” após se atrasar para vir me buscar em qualquer canto da cidade nos meus dias de ginasial. Eu não pude me mexer, estava estática. E enquanto meu semblante era de puro choque, meus pais aparentavam uma serenidade invejável. Era a primeira vez que sonhava com ela desde sua morte. Minha mãe estava de mãos dadas com meu pai e estendera a mão em minha direção. A agarrei de imediato e sentir seu toque foi como imaginar eu ela estaria ao meu lado quando eu acordasse. Ela estava tão quente e tão real que aquilo não parecia um sonho.

Já meu pai, estava com as roupas de sempre. Talvez porque para mim, homens não trocam de roupa, ou têm um estoque de roupas idênticas como naqueles desenhos animados. Meu pai, por exemplo, sempre usava uma calça jeans azul sem nenhum tipo de rasgo ou tom diferente deste e uma camiseta branca simples. Pelo menos quando estava em casa, sentado no sofá e procurando algum filme de ação antigo para relembrar sua juventude. Nesse minuto quase pude ver os dois em casa. Ele lendo o jornal e ela cozinhando alguma coisa no fogão enquanto eu contava alguma idiotice da adolescência, ou no caso, da minha universidade e vida pessoal que Jéssica parecia sempre querer saber mais. Minha mãe era minha melhor amiga e melhor ouvinte e meu pai, uma divertida companhia para qualquer coisa. Isso me pareceu ser há tanto tempo que senti um aperto no coração.

Eu sentia tanta falta deles...

— Mãe... pai... — funguei, a voz falhando por conta do bolo que havia se formado em minha garganta.

— Meu amor, como você está? — a voz calma e suave da minha mãe apenas me fez querer chorar em seus braços reconfortantes e pedir seu colo, para ela acariciar meus cabelos. Eu queria que ela voltasse para mim. Queria isso mais que tudo no mundo.

— Eu... não sei. — era verdade. Não sabia o que estava havendo comigo. Estava com saudades dela e do meu pai, estava preocupada e mais um monte de coisas que só serviam para sacudir minha lógica e desorientar meu coração. Mal conseguiria balbuciar alguma frase com algum nexo se não juntasse todas as minhas forças para não desabar ali mesmo.

— Claro que sabe. — meu pai bagunçou meus cabelos e me arrependi de me zangar com ele quando ele despenteava os fios ruivos antes que eu saísse de casa e sorriu calmamente. Invejava a expressão alegre deles que me fazia falta.

— O que eu faço? — perguntei. — Sem vocês eu me sinto sozinha e perdida.

— Você sabe muito bem que não está assim e minha filha nunca está sozinha... e nem vai estar. Você tem alguém importante que está cuidando de ti por nós. — ela piscou, com um brilho esperançoso. Seria aquilo minha consciência traidora? Até agora eu pensaria nele?

— Scarllet, você sabe sim o que fazer. — meu pai não continuou a fala e eu não consegui dizer se eles estavam certos.

— Eu... — comecei a formular uma frase e do nada, ambos viraram para trás como se tivessem ouvido algo.

— Filha, nós temos que ir. — meu pai sussurrou e eles começaram a se afastar. Não sei se eu era puxada para longe deles ou eles de mim.

— Não esqueça que nós a amamos. — disse minha mãe, já com a voz distorcida e distante.

Tentei gritar ou fazer com que eles não se fossem, mas minha voz não saia e quando dei por mim, já era tarde demais. Lágrimas quentes e salgadas marcaram meu rosto enquanto o sonho mudava e o ambiente ia escurecendo aos poucos. Levantei a cabeça e não pude reconhecer o local em que me encontrava. O lugar, totalmente oposto do outro, era escuro e frio. Na verdade, era um quarto em que a luz do sol não conseguia entrar. Olhei para os lados e não vi nada além de minha silhueta, refletida num espelho comprido. “Sozinha no escuro”, pensei. E foi só fazer isso para que TaecYeon aparecesse na minha frente. Bem... não era exatamente na minha frente, mas ele estava sentado na cama, olhando para a parede.

— TaecYeon? — chamei. Ele não respondeu. Bufei e me aproximei, enchendo meus pulmões de ar e m preparando para o passo seguinte. Dessa vez gritei, mas a reação foi a mesma. Portanto, pude concluir que ele não podia me ouvir.

Do nada, ele levantou e veio em minha direção, mas eu o atravessei. Ou ele atravessou meu corpo que já não tinha consistência. Eu parecia ser um fantasma. Meu corpo era feito de vapor e eu não conseguia tocar em nada. Minha única opção foi seguir o homem. Não sabia em que local eu estava. Era apenas frio e escuro como aquele canto que eu apareci primeiro. E longo, extremamente longo. A caminhada parecia durar horas e, mesmo sendo praticamente um fantasma, ainda tinha pés, ou seja, eu “andei” todo o trajeto. TaecYeon não aparentava cansaço, só seguia em frente de modo robótico. Aos poucos, as paredes foram tomando cor e se tornaram verdes. Um verde que não tinha tom específico, ficava alternando entre tons claros e escuros sem que eu pudesse nomeá-los de forma precisa.

Surgiram alguns “quadros” na parede e eu parei para olhá-los, já que o maior mantinha um ritmo lento e constante. O que eu percebi foi que não havia pinturas nas molduras. As imagens se mexiam como um filme e mostravam partes da minha vida e em várias obras, salvas como pequenos vídeos, pequenos resquícios de um passado colorido. TaecYeon e meus pais estavam lá. Continuei a observar os filmes emoldurados até chegar num em que eu me via beijar TaecYeon e nessa mesma “coleção” havia algumas cenas que eu não protagonizara. Pelo menos, não me lembro de ter feito parte daquilo. Não, aquilo não tinha acontecido e não iria acontecer. O máximo que ele faria não passava de toques mais superficiais. Parecia um futuro que eu não tinha dado permissão para existir. Eu e ele... juntos. Estávamos felizes.

Desviei o olhar daquelas pinturas e acelerei o passo para alcançar a silhueta dele na tentativa de desviar o foco dos meus pensamentos para aquele futuro que me parecia tão tentador. Ele havia parado para olhar alguma coisa. Um quadro envolto por uma moldura delicada e branca. Corri até ficar ao lado dele e olhei para o que ele encarava. Era uma pintura animada de meus pais naquele lugar branco. Os dois acenavam, trajando aquela mesma roupa do sonho anterior, como se fossem viajar e voltar daqui a uns dias, sem que ninguém se preocupasse, mas é claro que eles não iriam mais retornar. Não para mim. Encarei TaecYeon e por um momento, ele pareceu me ver. E estendeu a mão com um movimento delicado, como se tocasse meu rosto. O que não aconteceu por eu ser feita de névoa. Mesmo assim, toquei sua pele, que imaginei estar morna e dei um meio sorriso.

— Não os decepcione, Skar. Não me decepcione. — foi o que TaecYeon sussurrou e logo após esse único contato, desapareceu sem deixar rastros.

...

Acordei com o celular tocando.

Uma ligação. É claro que eu não iria atender, eram seis horas da manhã e minha aula só começava às oito. O mínimo que eu podia fazer após um sonho daqueles era tentar descansar os olhos porque meu cérebro pareia tudo, menos relaxado depois de dormir por mais de oito horas. Enfiei a cabeça debaixo do travesseiro e me enrolei ainda mais no cobertor como se uma camada de tecido macio impedisse o som de se propagar, mas a porcaria de aparelho continuou a tocar. A maldita pessoa não desligava e o som parecia ficar cada vez mais alto. Reclamando e ainda um pouco grogue de sono, tateei a mesinha perto da minha cama às cegas e apanhei o celular sem o mínimo toque de gentileza. Olhei o visor e indicava um número desconhecido, mas resolvi atender porque se fosse engano, eu xingaria a pessoa e a mandaria para o inferno sem delongas. Já que fora acordada por esse ser idiota. O próximo passou foi sair debaixo das cobertas e colocar o aparelho eletrônico gelado em minha orelha.

A voz que ouvi me acordou por completo.

Era TaecYeon.

— Por que você demorou tanto para atender? — a voz dele preencheu meus ouvidos com um tom atrevidamente desconfiado. — Ei, você acordou mesmo?

— Por que você me ligou agora? São seis da manhã! Seu idiota! — berrei. — Agora me deixa dormir em paz!

— Ei! Espera! S- — encerrei a ligação e me joguei de volta na cama, na esperança de que o sono voltasse a me visitar. Algo que não aconteceu, só para constar; fiquei trocando de lado e rolando pela cama, mas não consegui pregar o olho. Cansada de não fazer nada além de esperar o sono que nunca vinha, levantei-me e tratei de preparar o café da manhã. Saí do quarto e fiz algo de que estava com saudades: café da manhã americano. Diferente do costume de comer arroz ao acordar, o que eu julgava ser um mini almoço, preparei tudo que eu queria ter trazido da América comigo. Só que eu o modifiquei para que não ficasse tão gorduroso e me fizesse ganhar mais alguns quilos.

Comecei com os ovos mexidos. Quebrei um ovo numa tigela e mexi com o garfo para a mistura ficar homogênea. Em seguida acendi o fogo e joguei o ovo batido na frigideira. Depois que terminei de prepará-lo, peguei outra frigideira para fazer panquecas. Preparei a massa e despejei-a em pequenas quantidades na frigideira. Depois de prontos, coloquei um pouco de calda nos panquecas e comi enquanto terminava de assistir a um filme de romance dramático. A história era ruim, mas o personagem principal era realmente lindo. Um estrangeiro alto de olhos claros e cabelos escuros como a noite. Não que eu tivesse tara por olhos claros como a maioria das mulheres parece ter. De que adianta um olho colorido se não há nem personalidade ou físico, porque esse sim eu tinha uma pequena queda. Acabei prestando mais atenção ao ator do que nas falas e no filme em si. Assim que o horário ficou mais apertado, peguei a bolsa e saí em direção a universidade. Fui a pé, ouvindo música num volume agradável.

Teria que apresentar um trabalho de linhas de produção e eu havia ensaiado várias vezes para não errar minha sala diante da turma inteira. Já havia tomado um calmante para que meu nervosismo não me afetasse e a Lei de Murphy entrasse em ação. Fui direto para a sala assim que cheguei e sentei-me no lugar que eu considerava meu. Conforme os minutos foram passando, a sala foi se enchendo aos poucos até ficar preenchida por completo. Logo depois o professor Tuan WenHan apareceu com seu traje completamente formal como se estivesse vestido para um jantar social. As calças bem ajustadas de cor neutra que combinavam com os sapatos, um blazer da mesma cor e uma camisa branca por baixo.

Sua idade girava em torno dos quarenta anos e ele tinha família formada. Casado com uma coreana, ele não enfrentava problemas por ser chinês e sentia simpatia por aqueles que tinham a mesma origem que ele. Eram poucos casos por haver poucos chineses na universidade, mas eu até aprovava isso, pois muitos professores não gostavam de estrangeiros por aqui. Não era favoritismo exagerado, apenas aquela ajudinha para uma boa adaptação e sem preconceitos. Ele era mais atencioso com qualquer um que não fosse coreano, o que não significava que ele era rude com os demais. WenHan cumprimentou-nos com um sorriso pequeno e ajeitou os óculos retangulares sem armação antes de pedir que o primeiro da fileira fosse para frente do quadro.

E o tempo começou a passar mais rápido que o previsto. A menina que senta na minha frente, uma tal de Kim YeRin, já estava acabando de falar sobre Henry Ford e meu era o próximo tema. Respirei fundo e comecei a me preparar mentalmente, revendo todas as falas rapidamente. YeRin terminou. Todos a aplaudiram e o professor chamou meu nome. A sala estava quieta e podia ouvir meus passos ecoarem aos meus pés tocarem o chão. Andei calmamente, torcendo para inspirar confiança e me posicionei na frente do computador sem levantar os olhos até que estivesse mentalmente preparada. Relaxei os ombros após inspirar profundamente para assim inseri o pendrive e comecei a apresentar.

Dez minutos depois, o professor e a sala me aplaudiram respeitosamente. Fiz uma reverência e me sentei. Dessa vez, um garoto, o que se transferiu de uma universidade da China, Zhou YiXing começou a falar num coreano um pouco pausado, mas compreensível. Aplaudimos também. Ele e todos os outros alunos. O professor saiu assim que bateu o sinal e a professora de álgebra chegou. Ela fechou a porta e começou a dar seus berros matinais para um ou outro menino que insistia em dormir durante a explicação importantíssima dela. Secretamente, havia colocado meu fone de ouvido e acompanhava a aula apenas pela apostila e anotava o que achava ser necessário. O dia passou mais rápido que eu pensara e essa rotina se repetiu por mais alguns dias com pequenas crises de abstinência, mas suportáveis. Só que a cada dia eu tinha que dobrar a concentração para não comprar pelo menos uma cerveja ou um soju, que aliás, eu odeio. É uma bebida fermentada origina da Coréia que me lembrava o saquê, apesar do último, japonês, ser mais forte. Porém, qualquer coisa eu trouxesse a sensação familiar de queimação na garganta seria bem-vinda.

Pena que bem-vinda e permitida não eram a mesma coisa.

***

Notas finais
Meta do dia atingida! :3 uahuahah Bom... O que será que vai acontecer daqui para frente? Apesar de ser a autora, eu sou péssima para pensar no futuro das personagens. Eu sei mais ou menos o que acontece, mas nunca se sabe quando eu vou dar a louca e mudar tudo de última hora, né? Vejo vocês sexta o