Addiction

6 Capítulo 5 - Home


Notas iniciais
Oi! Obrigada por ter lido :) Essa é minha primeira história, então comentem para que eu saiba a opinião de vocês, pois só assim continuarei a postar. Gostaria de dividir esse livro com vocês, que é dedicado à uma amiga que o pediu para mim (ela foi a inspiração da obra toda, mas não que isso descreva a vida dela haha), por isso, aguardem por mais. ♥.

Mais um de nossos encontros estava prestes a acontecer.

Fazia dias que estava sem nenhum tipo de substância em meu corpo. E isso era que parecia estar me matando. Eu não aguentaria mais esse dia. Meus dedos tamborilavam na mesa, os olhos não ficavam fixos num ponto só, prestavam atenção a tudo e ao mesmo tempo, nada. Engolia em seco a cada três segundos sedenta por álcool e minha língua e garganta pinicavam. Isso que estava me deixando maluca. Tudo no meio de uma aula de Eletiva III. Por sorte, essa era a última aula da grade curricular. Ouvir o som do sinal ecoando pelas paredes da sala e as cadeiras serem arrastadas recuperou minhas energias. Juntei o material e o joguei de qualquer jeito na bolsa, passando-a pelas costas apressadamente e saindo de sala – quase correndo pelo campus – até avistar o carro (novo) de TaecYeon. Já sabia que ele estaria lá. Ele sempre está e esse fato estava causando mais problemas que eu pensei. O volume dos cochichos estava bem mais alto que no começo. Fazia mais de duas semanas que Taec vinha me buscar na porta da universidade.

O maior, que hoje vestia suas roupas sociais pela primeira vez desde que ele viera – um terno azul marinho bem passado ajustado à silhueta definida dele e um par de sapatos pretos lustrados – estava me esperando apoiado no Porshe azul que ele comprara havia pouco tempo segundo minha análise. Quando me reconheceu, estava a poucos metros de distância, ele exibiu um sorriso vacilante e notei seu cansaço. TaecYeon devia ter acabado de sair de uma reunião. Ou de várias. Ele abriu a porta do carro, mas não entrei, apenas balancei a cabeça. Dei um meio sorriso e ele entendeu que não o queria por perto, não dessa vez. Sabia que ele não aprovaria o que eu gostaria de fazer. Virei-me, pronta para seguir caminho até minha casa, mas o moreno segurou meu pulso com sutileza, me impedindo de seguir em frente.

— Eu vou com você. — ele disse, tão baixo que nem as seguidoras dele puderam escutar, mesmo que estivessem a uma curta distância de nós.

— Hoje não. — suspirei, exausta. Tanto mental como fisicamente — Em vez disso, vá descansar. Você precisa de algumas horas de sono também, sabia? — dei um sorriso para que isso fosse pouco impactante. Não queria ser fofa nem nada do tipo, mas vi que ele não reagiu. Apenas me encarou e suspirou, talvez ponderando a respeito de minha proposta.

— Desculpa, mas sabe que eu não vou te deixar ir.

— Um dia. Sério.

— Scarllet...

— Não quero brigar com você hoje. Eu não estou no meu melhor momento e...

— Cala a boca.

— O que? — minha voz estridente e meus olhos arregalados até me assustaram. Franzindo a testa, encarei TaecYeon pronta para falar algumas boas verdades e bater naquele rosto de modelo coreano, mas fui interrompida do pior (ou melhor) jeito que eu poderia imaginar.

Um beijo.

Não. Não foi um beijo de amor. Mas um capaz de acabar com todas as outras sensações do mundo e calar a voz estridente em minha cabeça ordenando para que eu o estapeasse e fugisse. Fugisse do calor e das sensações que ele me promovia. Um que conseguia me livrar do vício por pior que eu era para admitir algo. O corpo dele cobriu o meu, que se apoiou na lateral do carro. Ouvi o barulho da mão espalmada do maior bater no carro e senti a outra em minha cintura de maneira possessiva. As minhas, por instinto, traçaram o caminho mais curto até a nuca dele e ficaram por lá sem que eu realmente notasse seu movimento. Ergui um pouco a cabeça e ele se aproximou mais, como se fosse possível. Tudo que eu sentia transbordava de cada poro do meu corpo. Aquilo era tão bom que eu sentia que tinha algo errado, mas não queria parar de sentir. Sentir o corpo dele contra o meu. A língua dele se entrelaçar na minha e causar arrepios deliciosamente bons. Era tudo tão bom, mas havia algo para estragar aquilo.

As pessoas.

No instante seguinte em que ele se afastou, pude sentir o olhar de todos aqueles coreanos me julgar. Murmúrios e olhares chocados. Não é muito bom demonstrar afeto e muito menos nessa escala, digna de filmes de Hollywood. O burburinho cresceu e eu não sabia mais para onde olhar. Todas aquelas vozes e corpos estavam me deixando tonta. Por sorte, Taec notou meu estado e me empurrou para dentro do carro. Só me lembro de ver o maior girar a chave e estarmos nos afastando da universidade. Num flash notei que já estava de cinto e o maior dera partida. O grupinho não se mexera e eu engoli em seco. Já estávamos numa boa distância daquele burburinho de fofocas quando resolvi me pronunciar.

— Você é louco. Sério. E não foi naquele sentido romântico, Taec. — disse, ainda olhando para meus pés. Ergui o olhar para fuzilá-lo. — Aquilo foi... Irresponsável da sua parte. E... E seu casamento? — e os rumores que iriam lotar a internet. Teriam elas tirado fotos nossas? Provavelmente não, mas ainda era preocupante.

— Como se alguém soubesse quem eu sou. — deu de ombros.

— Não. Ninguém sabe que você é o filho de uma multinacional. — ironizei e fingindo uma expressão pensativa, continuei: — Quem sabe só... A Coréia toda?

— Não apareço tanto assim nos jornais e além do mais, não tem ninguém que me interessa.

— Não? Sua esposa não te interessa? — estreitei os olhos e ele bufou.

— Uma futura esposa. Eu ainda não casei.

— Mas vai! E logo!

— Eu sei. Mas... e se... — suspirou, chacoalhando a cabeça e deixando a frase suspensa no ar. Claro, isso atiçou minha curiosidade e antes que pudesse controlar a língua, ela já havia soltado as palavras seguintes.

— E se o que?

— Nada. Deixe quieto.

— Tá... pare o carro. Eu vou a pé.

— Não terminei com você.

— Já terminou sim.

— Não. Agora, vamos para outro lugar. Não vou te levar para casa. Eu sei onde você vai terminar. — e Taec pisou no acelerador com força sem deixar que palavras conseguissem escapar de minha boca. Minha única reação foi encará-lo com a boca semiaberta e imaginar o que acontecera com o TaecYeon que eu havia conhecido. Seria essa a fase “rebelde” que o maior nunca tivera? Algo me dizia que eu gostaria de conhecer esse outro lado dele. Era bom conhecer algo menos chato e perfeito dele; o fazia parecer mais normal e mais presente na vida real também. Eu já havia visto uma sobra dessa atitude há um tempo atrás, mas achei que esse lado dele havia morrido, enterrado junto com sua infância e adolescência ao virar o chefe da família Seo.

— Para onde iremos então? — perguntei com um quê de irritação e curiosidade que não consegui disfarçar na voz.

— Você vai saber logo.

E eu realmente descobri. Era o parque. Não qualquer parque, mas o meu. Mais especificamente a área que eu costumava beber e fumar. Isso antes de me submeter a esse acordo, ou melhor, antes de ser submetida a maldito acordo. Já estava fora do carro e podia sentir a brisa fria bagunçar alguns fios de meu cabelo. Comecei a caminhar até a grama verde e passei os dedos pelo tronco grosso de uma árvore que sombreava o local onde eu me isolava da realidade. Suspirei e acabei por notar que TaecYeon me observava. Virei de costas como se isso fosse me ajudar a retirar aquela sensação desconfortável que parecia queimar cada centímetro da minha pele, me arrepiando ao mesmo tempo que me incitava a provocá-lo de alguma forma. O maior inclinou a cabeça para o lado e deu um meio sorriso desatento quando me virei novamente para ele. Deparei-me então com um semblante aliviado estampado em seu rosto. Talvez por finalmente ter vislumbrado uma eu diferente da pessoa fria e desgastada da vida.

— Por que viemos aqui? — indaguei, sem delongas.

— Não sei. Eu... Só quis vir aqui. — o maior deu de ombros e encarou inconscientemente o local que eu costumava passar as tardes. Ele podia não ter percebido isso, mas eu sabia no que ele pensava, porque era a mesma coisa que passava como um filme em meus olhos.

— Eu não senti falta desse lugar. — revelei, mordendo o lábio num sinal claro de nervosismo diante a minha confissão. — Por causa daqui... Eu estou... Com medo. — sentei-me na grama e abracei os joelhos criando um ambiente falsamente envolto em proteção. — Não me arrependo do que eu fiz, mas não sei o que vai acontecer se eu não superar esse negócio de abstinência. Minha língua começa a formigar e meus lábios ficam inquietos. Os meus dedos começam a brincar com qualquer coisa... com meu cabelo, com o lápis e não ficam parados, eu não consigo fiar quieta, não consigo sentir confiança em alguma coisa sem que haja álcool em minhas veias. É horrível. Eu iria ter corrido até minha casa e bebido alguma coisa, eu não passaria de hoje. Foi patético. Se você não tivesse me forçado a entrar no carro... — confessei, envergonhada.

— Ei! Esse seu vício causa bipolaridade? — brincou. Abri a boca para responder que na verdade, causava sim, num futuro possível, mas ele não deixou. — Mas fique calma, ok? Eu sei que logo você nem vai se lembrar disso.

— Eu me pergunto se fosse uma droga. Uma droga de verdade. — suspirei.

— Não seria. Eu não iria deixar. — e melhor que um beijo, TaecYeon me levantou e me puxou para perto de si, envolvendo meu corpo – além da mente – frágil em seus braços, acalmando meu eu confuso. Minha cabeça estava apoiada em seu peito e podia ouvir a batida compassada de seu coração que era como um mantra para me fazer dormir, diminuindo minha frequência cardíaca e normalizando minha respiração para que ficasse compatível com a dele. Depois de alguns minutos, estávamos apoiados na árvore. Bem... TaecYeon estava com as costas apoiadas na grande cerejeira ainda não florida enquanto eu ficava entre suas pernas sendo envolvida por seus braços.

— Obrigada. — murmurei, com meu orgulho não me permitindo seguir mais em frente do que essa única palavra. Ele saberia que eu agradecia por tudo feito até hoje, das vezes que eu não disse nada e que não queria dizer.

Não conversamos durante nenhum segundo que passamos debaixo da cerejeira, apenas desfrutamos do calor humano inacessível em nosso cotidiano que um podia fornecer ao outro. Também não prestei atenção ao cenário a minha frente, por mais que meu cérebro tenha imaginado que fosse belo. A única coisa que podia ver era o sol se escondendo preguiçosamente no horizonte e trazendo uma mistura de cores derivadas do amarelo e do vermelho a meu olhar. Em meio a tudo isso sentia o toque gentil de TaecYeon, que ajudava a colorir mais uma vez o ambiente a nosso redor. Seus dedos fazendo movimentos circulares na palma de minha mão, a cabeça que ele apoiava em meu ombro e sua respiração fazendo minha pele formigar. Quando não havia mais claridade no ambiente e o tempo começava a fechar, mostrando sinais de que choveria, Taec pediu para que eu me levantasse para irmos embora. Fui dar o primeiro passo em direção ao carro, a mão morna do maior me puxou.

— Eu pensei... Se você esquecesse essa coisa. Não teria mais esse problema a todo minuto, não? — a voz dele estava baixa e rouca.

— Não... Mas eu não consigo esquecer. Eu quero, mas...

Então seus dedos se entrelaçaram no meu e TaecYeom me forçou a andar para trás, fazendo com que encostasse no tronco áspero. Parte de meus ombros e braços, desprotegidos de tecidos macios, rasparam contra a superfície enrugada e sólida, gerando certo desconforto, mas o olhar que ele me lançava fazia essa sensação parecer insignificante. E lá estava ele, criando mais um ambiente, me envolvendo em sentimentos intensas demais para meu ser abalado, me fazendo ceder. Meu rosto se inclinou ligeiramente para o lado para pode beijá-lo. Era um ato quase natural de tal forma que me assustou no começo, porém, assim que nossas bocas se encontraram num selinho demorado, eu apenas me esqueci desse detalhe. Esqueci de tudo, quem eu era, quem Seo TaecYeon era até sentir uma gota de água cair em meu pescoço. Estremeci, encolhendo-me um pouco. Isso foi interpretado por TaecYeon como uma permissão para que ele avançasse. Mais um passo e eu estava mais que cercada. Ouvi um baque surdo. A mão dele estava espalmada a alguns centímetros de meu rosto no tronco úmido pela chuva fraca da manhã.

Parecia coisa do destino. Ele entrando na minha vida para revirar cada pedaço não arruinado que sobrava de mim, seus toques ludibriantes que me pareciam algo totalmente fora dessa dimensão de tão bom. Tão erroneamente bons e incomuns. Eu me perguntava como seus lábios pudessem completar os meus daquela maneira; não como se fossem feitos para serem meus, mas para estar junto deles. Eu não sentia que éramos duas peças de quebra-cabeça que se encaixavam, mas duas partes que coincidentemente poderiam ficar unidas por um elo, mesmo que não fosse dos mais comuns. Era porque eu não era dele, da mesma forma que ele não era meu, mas ficávamos bem juntos; era algo a mais que só química. E no meio de questionamentos internos e teorias incompreensíveis, no segundo em que os lábios dele tocaram os meus com mais intensidade, o mundo perdeu o foco. A única coisa que tinha em mente era a vontade insana de beijá-lo. Deus, por que eu queria tanto isso? Como esse sentimento podia me dominar por completo?

Enquanto esses pensamentos ocupavam minha mente, TaecYeon colou seu corpo no meu e começou a tocá-lo, provocando pequenos arrepios ao menor contato de nossas peles. Já nas minhas costas, suas mãos passearam até meu pescoço e fizeram o retorno, arrancando um suspiro rouco que nem percebi ter saído de meus lábios. Ele sorriu e sussurrou alguma coisa que não consegui ouvir. Deslizei as pontas dos dedos em sua cintura e senti sua mão descer até a passadeira de minha calça jeans justa. Separamo-nos para tomar um pouco de ar e nesse minuto, sua respiração pesada na lateral do meu pescoço alertou todos os meus sentidos. Isso bastou para me paralisar, extasiada por sua presença. Por fim, nos beijamos e aquela sensação de alívio retornara. Ouvi um suspiro baixo e sedutor escapar dos lábios um tanto que inchados do moreno e senti um sorriso não inocente surgir em meu rosto. Inclino o rosto para o lado e sinto sua aproximação; o maior sorria enquanto avançava, um sorriso tão – ou senão mais – sujo do que o meu.

Sem nenhum aviso prévio, ele me levantou e deixando que o velho tronco sustentasse parte de meu peso, enquanto Taec cuidava do restante. Para me equilibrar melhor, entrelacei as pernas em sua cintura e ele deu um passo para frente, aproximando-se o máximo permitido pelas leis da física e esticando minha coluna que tocava no troco. O peitoral dele colou no meu corpo, cobrindo-o ao passo que o calor dele passava para mim. Rimos juntos quanto um trovão riscou o céu e eu o apertei com mais força ao me assustar. Durante esse período, a música ambiental era uma mistura da chuva forte que molhava nossos corpos e dos trovões que caiam irregularmente das mais variadas formas, como se dançassem numa apresentação perigosa aos nossos olhos. O som dos beijos e suspiros nos enlouqueciam aos poucos. Em minutos, o resultado dessa sinfonia se resumira a roupas molhadas semitransparentes e coladas ao corpo e duas pessoas arfando no meio da chuva. Quando a frequência que o céu era colorido por raios aumentou, corremos até o carro dele e nos refugiamos lá dentro. Trocamos um olhar divertido e sorrisos apareceram em ambos os lábios. Logo, estávamos rindo alto, recuperando um laço perdido há anos.

Nossas roupas continuavam molhadas e grudadas no corpo. Minha camiseta branca estava praticamente transparente e a calça jeans pesava, me deixando desconfortável sobre o banco do carro. A camisa formal do maior estava mais que justa a seu corpo e como era de um tecido ainda mais fino, podia enxergar através dela o corpo definido dele facilmente. O meu cabelo inteiro estava ensopado e de suas pontas pingavam gotas frias que molhavam o carro novo de TaecYeon. Suspirei e o olhei de soslaio, ele bagunçava os fios negros com as mãos e dava um ar rebelde ao moreno ensopado. Ele riu baixo e chacoalhou a cabeça, espalhando água para todos os cantos igual a um cachorro e consequentemente, me acertando também. Isso gerou uma série de resmungos baixos que ele fingiu não ouvir.

— Podemos ir para casa? — perguntou ele e eu apenas meneei com a cabeça. — Vamos para a minha porque é a mais perto daqui.

— Hein? Não! — minha voz estava aguda e falha — Eu preciso trocar de roupa. Olha o meu estado. — ele desceu o olhar e me contornou com tamanha intensidade que me arrependi de ter dito alguma coisa. Corei bruscamente. Não fora a intenção dele se demorar em minhas curvas, e assim que percebeu o que fazia, ele pigarreou e ergueu o olhar. Ri por dentro, sabendo que aquele Taec malicioso não se faria presente em cenas assim. Talvez fosse só uma atuação para que ele seguisse com o contrato.

— Não vejo nenhum problema. — ele deu um risinho sem graça.

— Ha ha. Quero dizer que eu estou sem roupa de troca. — revirei os olhos para complementar o tom de deboche.

— Passamos numa loja a caminho de casa e eu compro algumas para você. Tudo bem assim?

— Mas...

— Não é como se fosse acontecer alguma coisa entre nós; você só vai dormir no quarto de hóspedes após tomar um banho e se aquecer.

Não respondi depois dessa. Eu sabia que ele não queria ser rude, apenas era evasivo com assuntos mais... íntimos, por assim dizer, mas admito que interpretei isso como uma rejeição. “Mas uma rejeição para o que? Comprar roupas, querida?”, repreendi-me mentalmente. Fiquei emburrada como uma criança mimada até a loja de roupas uma rua movimentada. Lojinhas assim eram comuns nesse distrito. Escolhi qualquer sutiã e o resto das roupas peguei ao acaso. Um jeans azul claro que parecia servir, uma camiseta regata e uma blusa de um tecido fino, além de um pijama comum, composto por uma regata e um short estampado. Acho que TaecYeon ficou esperando para ver se eu iria precisar de mais alguma coisa, mas não estava com muita paciência no momento. Andei a passos apressados até o caixa mais próximo, cujo uma moça jovem – aparentemente estudante do colegial que trabalhava meio período – olhava distraída para o relógio. Aproximei-me dela e coloquei as roupas no balcão do único caixa vazio. Vagarosamente, a moça checou os preços e passou pela máquina que emitia um apito curto e estridente. A expressão dela era vazia e entediada quando me encarou e disse o valor das peças que eu comprava, perguntando o método de pagamento.

— Eu vou... — peguei a bolsa e apanhei minha carteia das profundezas do acessório preto, vasculhando-o em busca de meu cartão de crédito.

— Débito, por favor. — o maior se intrometeu no meio da conversa e entrou na minha frente, exibindo um sorriso natural e galanteador para atendente, que corou na hora e se atrapalhou na hora de passar o bendito cartão. As roupas dele estavam um pouco mais que úmidas, mas ele não pingava mais. Como ele carregava uns casacos, ele vestira um e me entregara outro, então não éramos vulgares ao julgamento das pessoas.

— O que está fazendo? — sibilei, baixo o suficiente para não ser ouvida pela maldita atendente — As roupas são minhas, eu vou pagar. — disse, convicta. TaecYeon me ignorou e sorriu para a moça, que fez o débito prestando mais atenção no dono do cartão que no resto do mundo.

— Obrigada e volte sempre. — a atendente sorriu e falou com uma voz forçada para tentar ser fofa. Realmente. Essas coreanas falando com as vozes agudas me irritam mais que tudo. O homem riu e deu um sorriso de canto. Corrigindo: mais que quase tudo. Sempre havia uma exceção à regra.

— De nada. — ele deu uma piscadela e saiu na frente, fazendo com que eu tivesse que segui-lo. Alcancei-o quando ele abria o porta-malas e colocava as compras com cuidado. Desisti de dizer qualquer coisa e entrei no carro, sentando no banco de passageiro e me certificando de bater à porta com a maior força que pude. Quem liga pra essa merda de carro?

TaecYeon entrou logo em seguida e não expressou sentimento algum, apenas ligou o carro e seguiu dirigindo tranquilamente até sua casa. Na realidade, o apartamento que estávamos indo era somente dele, pois além desse, havia um terreno com uma mansão para sua família, onde seu pai e sua mãe moravam; também possuía outro que pertencia a seu irmão mais velho e a futura casa num condomínio que lhe foi dada pelos pais como presente de noivado. Eu sabia que eles possuíam mais terrenos, mas já se passara o tempo que eu vivia mais sendo da família Seo que a minha própria. Eu apenas conhecia a mansão e a casa de TaeHyung, já que eu o visitei acompanhada de meus pais para lhe desejar felicidades pelo casamento casamento anos atrás. Ambas as casas que eu não conhecia se localizavam em GangNam, o distrito mais luxuoso e caro para se morar dentro de toda a Coréia.

A paisagem ia mudando aos poucos. Mais e mais arranha-céus gigantescos de design incomum, totalmente belos e majestosos adornavam o cenário visto pelo vidro escurecido do carro. Anúncios em coreano e inglês podiam ser avistados a quilômetros de distância de tão grandes e brilhantes que eram, endeusando produtos e pessoas num padrão inatingível pela realidade. A maioria consistia em comerciais de maquiagem, comidas e trechos de novelas, as vezes anunciavam um show de uma banda, em sua maioria composta por coreanos mesmo, ou em ocasiões mais raras, nomes como Will.a.m e outros que eu até ouviria. Vi um outdoor com o logo da empresa dos Seo e reconheci TaecYeon sorrindo ao lado do pai, ambos em ternos formais e posturas respeitosas. Então, era assim que o mundo o enxergava? Vi que ele notou o que eu encarava, pois me acompanhou com o canto dos olhos. Desviei o olhar e passei a observar o alto dos prédios, incomodada com o que seu olhar pudesse transmitir. A luz que se fez presente era tão ofuscante que não podia reconhecer uma única estrela do céu noturno; tudo o que conseguia discernir eram as cores do pisca- pisca dos prédios. Suspirei, derrotada, me contentei em focar a atenção nos anúncios, fingindo interesse em alguma merda que era vomitada a cada segundo que cruzávamos as ruas em alta velocidade.

O carro parou e eu nem notei.

— Chegamos. — anunciou o herdeiro dos Seo.

Olhei para frente e notei que estávamos num estacionamento bem iluminado e com vários carros de diferentes modelos estacionados ao nosso redor, cada um mais caro e mais difícil de encontrar que o outro. Diferentemente dos outros estacionamentos, este era organizado por proprietários, ou seja, aquele quem mora no quarto 1 fica na vaga 1 (que era na verdade um conjunto de vagas) e assim por diante. TaecYeon estava na vaga 36. Os carros ao lado do dele eram conversíveis, um preto e outro prateado, mas eu sabia que logo ele trocaria novamente de veículo, apenas não sabia qual seria sua escolha. Ele desceu primeiro e retirou a sacola com minhas roupas; o vi hesitar sobre alguma coisa, mas ele seguiu em frente como se aquela sombra de dúvida nunca tivesse passado por seus olhos, agora escondidos por um óculo escuro – mesmo que não houvesse sol sobre nossas cabeças, digo, além o prédio, já anoitecera. Saí do carro e entramos juntos no elevador, que subiu até o 36º andar, com uma música irritante me acompanhando durante o trajeto, já que cada andar possuía apenas um enorme apartamento. As portas de metal se abriram novamente e demos logo de cara com os números 36 prateados estampados na porta de metal polida.

TaecYeon abriu a porta para eu passar após digitar uma senha e destrancá-la e eu sussurrei um “com licença” costumeiro ao entrar na casa dos outros. Retirei meus calçados, pois não deveríamos entrar em casa com a sujeira da rua. Era um costume que eu adotei. Não estávamos mais tão molhados, mas a cada passo que eu dava sentia o frio aumentar e congelar até meus ossos. Meus cabelos estavam úmidos e sem movimento, colados ao couro cabeludo em algumas partes e embolados em outras. Esfreguei as mãos na tentativa de aquecê-las; elas estavam frias e rígidas e as pontas de meus dedos, levemente arroxeadas. Ouvi o barulho da senha ser redigitada e da porta ser trancada com um apito baixo. Olhei para trás e TaecYeon guardava a chave do carro que havia usado hoje juntamente com as dos outros dois que estavam estacionados lá fora na gaveta da mesa mais próxima, que tinha um vaso com um arranjo de flores brancas, as quais eu julgava serem orquídeas. Quando notou que eu o observava, o moreno passou a me encarar também, até que entregou a sacola e apontou para a direita, quebrando nosso contato visual e me fazendo acompanhá-lo com o olhar.

— Assim que virar à direita no corredor com um quadro de paisagem, escolha a segunda porta e estará no banheiro. Acho que a Sra. Wang deixou toalhas lá dentro, mas eu vou pegar um roupão para você por precaução. — e ele se retirou da sala de estar e foi para o que eu achava ser o quarto dele.

Segui suas orientações e me deparei com um banheiro enorme e basicamente branco. Os azulejos das paredes não tinham nenhuma marca e eram tão alvos como as asas de um anjo. O chão era de madeira escura e coberto por um tapete alto e macio de cor preta. Havia uma banheira e um chuveiro. Optei pela banheira, sentindo falta da sensação da água envolver meu corpo de uma vez e relaxá-lo sem medir esforços. Antes de me despir, liguei a torneira e deixei a água quente preencher boa parte do recipiente de cerâmica branca, o que fez nuvens de vapor surgirem e embaçarem os vidros. Então, separei as roupas que TaecYeon havia comprado e verifiquei se havia toalhas. Tinha duas, uma amarela e uma vermelha, ambas dentro do armário ligado à pia. Escolhi a vermelha e a deixei separada no apoio de metal perto da banheira. No momento em que havia tirado toda a roupa molhada e a deixado em cima da pia, ouvi batidas à porta.

— Sou eu. Trouxe um roupão para você... bom, ele vai ficar um pouco grande, mas será útil.

— Espera. — gritei e me enrolei na toalha do melhor jeito e o mais rápido possível, amarrando-a na lateral do corpo. — Um minuto. — abri a porta e ele arregalou os olhos, surpreso. Provavelmente porque abri a porta de supetão. Bem... isso e porque trajava apenas uma toalha mal enrolada no corpo.

— Por que não avisou que... — ele pigarreou e desviou os olhos de mim. — Eu poderia ter deixado o roupão aqui. — comentou, visivelmente desconfortável. Não pela visão, acho. Não era modelo ou tinha um corpo killer, mas não ficava tão para trás; A situação que era um tanto incômoda. Taec suspirou e entregou o tecido azul escuro. — Acho que o chuveiro não está funcionando, então use a banheira, provavelmente tem sais de banho naquela gaveta. — ele apontou para algo perto do meu rosto.

— Tudo bem... Obrigada. — disse rapidamente, fechando a porta em seguida.

Depois de um tempo após sua saída, suspirei profundamente e entrei na banheira, submergindo o corpo até a água tocar meu queixo. A sensação agradável se espalhou por meu corpo, aquecendo-me de fora para dentro. Comecei então a lavar o cabelo. Molhei-o com o chuveirinho ao lado do suporte onde ficavam o sabonete, shampoo e o resto dos materiais necessários para um bom banho e espalhei o produto pelo couro cabeludo. Esperava que o cheiro de shampoo masculino saísse depois do banho, mas algo me dizia que o mesmo cheiro de TaecYeon não me deixaria tão facilmente. Lavei o corpo rapidamente, mas esperei mais um pouco de tempo na água antes de me enrolar no roupão e secar meu cabelo com a toalha vermelha. Minhas mãos estavam levemente enrugadas e minhas pernas, um pouco bambas. Caminhei a passos lentos e silenciosos pelo tapete felpudo até o espelho e passei a mão pelo vidro para tirar o vapor que embaçava minha visão.

Olhei-me e notei uma única diferença em meu estado físico, as maçãs do rosto um pouco avermelhadas por conta do calor da água. Lavei o rosto com água fria e enrolei o cabelo na toalha. Juntei as roupas que estavam jogadas na pia e as coloquei na sacola da loja se me dar o trabalho ou preocupação de dobrá-las. Vesti metade das roupas – no caso, o pijama – e destranquei a porta. O chão estava gelado e o contato com ele me arrepiou. Perdida, voltei à sala de estar, onde TaecYeon me esperava deitado no sofá, já de roupas secas e cabelos úmidos. Ele se sentou quando me viu e olhou para baixo. Ele notara que eu estava descalça e apanhara rapidamente algo do chão, colocando-o próximo dele. Um par de chinelos, provavelmente os que ele usava, já que eu não havia lembrado de comprar. O resultado foi estranho, já que eu era no mínimo quinze centímetros menor que o moreno e por consequência disso, o número que ele calçava era bem maior que o meu. Pelo visto ele não recebia visitas e não tinha os chinelos que pareciam ser regra na casa de todo coreano.

— Eu sabia que iria estar descalça... Não me lembro de ter visto chinelos na sua compra. — suspirou. — Se quiser secar seu cabelo, terá tudo o que necessita no quarto de hóspedes, que fica ao lado do meu.

— Hm... E seu quarto fica?

— No corredor da esquerda. A primeira porta é o quarto de hóspedes. Eu vou tomar banho, então... faça o que quiser.

E o moreno se levantou, passando por mim e se dirigindo ao banheiro com algumas roupas em mãos, que eu nem notara que estavam sobre a mesa de vidro no centro da sala de estar. A porta branca se fechou com uma batida baixa. Entediada, quase arrastei o corpo até o sofá e me deitei; após alguns poucos minutos, ouvi o barulho da banheira ser ligada. Direi a verdade: entre ficar deitada encarando o teto branco ou o lustre nele pendurado parecia tão tentador quanto contar grãos de areia na praia, por isso me levantei e resolvi ir até o quarto de hóspedes. Fazer o que eu achasse para fazer; arrumar a cama ou separar as roupas de amanhã, até quem sabe lavá-las, mas não poderia ficar deitada como se estivesse morta. Pulei do sofá e sabe-se lá por que, andei fazendo o mínimo barulho possível.

Segundo TaecYeon, eu só precisava virar à esquerda e o primeiro quarto estaria lá, me esperando. Quando cheguei ao corredor, notei que havia duas portas, uma preta e outra num tom de marrom-escuro como a da do banheiro, provavelmente feita do mesmo material, mogno, e fiquei em dúvida. Para mim, as duas estavam a mesma distância do começo do corredor, o que as faziam ser “as primeiras portas”, por isso hesitei ao escolher um quarto para entrar. O maior me dissera que eu poderia fazer qualquer coisa, o que para mim, incluía explorar os cantos do apartamento, mas não o faria sem a permissão direta dele. Optei pelo com a porta preta e por sorte, era o de hóspedes. Com um suspiro mais que aliviado, adentrei o local.

Pelo menos era o que parecia ser. Não havia decoração especificamente masculina. As paredes tinham um tom claro de azul e não havia mais adornos para enfeitá-las, apenas uma prateleira pendurada que estava vazia, embora limpa; o que me fazia pensar que a empregada viera aqui há pouco tempo. Também não possuía muita mobília, apenas uma cama de casal – cujo lençol era também azul e os dois grandes e macios travesseiros eram envoltos por um tecido fino de tom próximo ao preto –, um guarda roupa tradicional de madeira pintado de branco totalmente vazio, exceto pelos dois cobertores e jogos de cama dentro de uma das gavetas e um criado mudo com um abajur. Tudo era complementado por uma televisão de tela plana e um pequeno repertório de DVDs. Não havia registros de algum convidado anterior.

Primeiramente rodeei a área do quarto e procurara alguma coisa para me entreter, mas tudo o que poderia fazer era arrumar a roupa que usaria no dia seguinte. Assim o fiz. Separei a blusinha fina, a camiseta e a calça e as deixei dentro do armário. Tudo estava tão silencioso que era estranho; me fazia com que me sentisse novamente alheia ao mundo. Quando me mudei para Seul, para virar universitária nada havia mudado. Bem... exceto por uma coisa. Meus pais moravam num lado de Seul e eu, de outro. Por causa da minha universidade e do emprego de meu pai, já que minha mãe ficara como dona de casa. Isso não afetou muito a organização da minha família, eu sempre podia vê-los nos finais de semana e nas férias, que passávamos desfrutando de passeios em conjunto ou pequenas viagens. Minha vida era sempre repleta das piadas que meu pai fazia e das broncas ocasionais que minha mãe nunca abandonava. Era tudo barulhento e eu admito que isso me irritava na época, me fazendo pensar quando eles vão mudar um pouquinho e me deixar em paz, mas agora... esse silêncio é péssimo até para descansar. Só me faz com que me sinta... vazia.

Suspirando e mais entediada que antes, não achei outra alternativa senão dormir, já que dentre aqueles filmes, ou já tinha visto, ou não gostara do enredo. Na verdade, achei um filme de terror cuja capa me pareia legal. Só que não sou do tipo de pessoa que gosta de terror sangrento, daqueles em que os diretores insistem em fazer parecer que nosso corpo possui vinte litros de sangue que jorra até no menor corte; prefiro algo relacionado a fantasmas e possessões, porém, rejeitei a ideia de assistir ao filme e tomar um susto, denunciando meu medo com um grito exasperado. Seria mais que humilhante deixar TaecYeon presenciar essa cena. Bufando, balancei a cabeça negativamente e larguei os filmes como os havia encontrado, organizando-os por ordem alfabética.

Deitei na cama confortável e fechei os olhos sem pressa, acalmando minha respiração até que meus músculos relaxassem num estado sereno. Não estava calor, mas também não estava frio. Para mim, o tempo poderia ser definido como ameno, ou até mesmo fresco e o melhor, não havia nenhum inseto para me incomodar. Segura de picadas, não quis cobrir o corpo com a coberta e apenas deixei-o ereto, ajeitando o travesseiro por um conforto maior que logo foi encontrado. O sono não tardou a me visitar, contrariando todas as minhas expectativas, e mergulhei nas profundezas de um sonho mais tranquilo que poderia sequer imaginar. Uma rápida volta ao passado doce me envolveu e me aprofundei em campos que eu já deveria ter deixado, mas que eu tinha certeza que nunca poderia abandonar.

...

Algo, ou melhor, alguma coisa tocou meu rosto e moveu minha cabeça com certa delicadeza. Uma das mãos segurava a parte de trás de minha cabeça e a outra parecia mexer em meu cabelo despreocupadamente. Esse contato era reconfortante, espalhava uma sensação calorosa e familiar como um toque terno de mãe, mas logo cessou. Minha cabeça foi novamente colocada no travesseiro de penas macias e eu senti uma súbita vontade de abrir os olhos para ver quem era o causador daquilo tudo, não sabendo se eu sonhava ou vivia a realidade. Vagarosamente, abri os olhos, que reclamaram da claridade que os surpreendeu. Com o tempo, com a adaptação de minha visão, percebi que a luz estava acesa e que havia alguém comigo. A silhueta era masculina e as feições, impossíveis de enxergar, pois ele estava sentado contra a luz, o que escurecia seu rosto. Pisquei mais algumas vezes, grogue de sono, mas de nada adiantou. Abri a boca para falar, mas a pessoa falou antes. Uma voz grave e calma preencheu o ambiente.

— Está acordada? — minha vista estava embaçada, mas seria impossível não reconhecer sua voz.

— TaecYeon? Que horas são? — bocejei uma vez no intervalo dessas duas frases e estiquei os braços para cima, estralando meus ossos algumas vezes. Uma das melhores sensações do mundo era acordar e se espreguiçar um pouco. Realmente, era como estar renovando seu corpo.

— É noite ainda. Pode voltar a dormir. — ele deu um meio sorriso e se levantou, pronto para se retirar. O movimento fez um ruído excessivamente mecânico, que eu identifiquei como as molas do colchão, e derrubou algo no chão. Uma toalha. Aliás, a que eu usava para secar meu cabelo. O maior se agachou e pegou o tecido úmido, pendurando-o na cabeceira da cama. Virei a cabeça e apanhei o celular que estava em cima do criado mudo. O visor indicava que faltava pouco tempo para meia noite.

— O que você estava fazendo? — perguntei. Ele já estava a um passo da porta. TaecYeon retesou sua postura por uns instantes, girou os calcanhares e se apoiou no batente de madeira.

— Só vim ver se você estava dormindo. — ele deu de ombros. — Não está com fome, Scarllet?

— Não.

— Quer voltar a dormir então? Já estou indo. — suspirou.

— Não... Eu... — gemi baixinho de frustração e o olhar intenso de TaecYeon recaiu sobre mim. Sustentamos uma troca de olhares por alguns segundos antes de eu preferir olhar para a janela, embora não tenha nada lá. A janela de vidro estava coberta por uma pesada cortina branca e por isso, não poderia nem fingir que olhava para fora. Não havia brisa dessa noite que movesse o tecido. Não havia um ruído sequer para quebrar aquela tensão. Ele hesitou entre se reaproximar e decidiu manter distância.

— Tudo bem? — a voz pareceu preocupada. — Teve um pesadelo?

— TaecYeon, não sou mais criança para temer um mero sonho. — dei um meio sorriso debochado e ele riu fracamente. Sentei-me na cama, ainda apoiada no travesseiro e retirei as cobertas que ele devia ter colocado sobre mim. — Só... Sinto falta deles.

— Eu também... — sussurrou. E assim, a conversa morreu. Ficamos os dois em silêncio, talvez competindo quem suspirava melhor, ou apenas arranjando um jeito de mostrar que estava ali, do lado do outro.

— Espere aqui por um minuto, ok?

— O que vai fazer? — perguntei, mas não obtive resposta.

TaecYeon apenas desencostou do batente da porta, atravessou-a e fiquei a ouvir seus passos largos ecoarem pelo piso. Após alguns ruídos na cozinha e mais alguns passos que o trouxeram de volta ao quarto, o maior segurava nas mãos uma bandeja de prata com dois pratos – sendo um com a refeição principal, algo que parecia espaguete e o outro continha um bolinho de chocolate com glacê colorido – e uma taça com água, além de todos os talheres necessários e um guardanapo de pano. Ele se sentou na beirada da cama e deixou a bandeja em seu colo. Tudo parecia bom, mas não estava com fome e muito menos com humor para pensar em nutrir meu corpo, que discordava de meus pensamentos.

Vendo que eu não me mexia, TaecYeon disse:

— Pelo menos coma isso. — apenas neguei com a cabeça. — Ok. Só beba água então. — uma taça de vidro preenchida até a metade com água foi estendida para mim. Bufei, estendendo a mão e engolindo o líquido num gole só.

— Satisfeito? — dei um sorriso obviamente falso e coloquei a taça no criado mudo, ao lado do celular que eu nem sabia como havia chego lá. Foi aí que reparei na minha bolsa, largada aos pés da cama. Taec devia tê-la trazido enquanto eu dormia.

— Ainda não. — TaecYeon então colocou a bandeja próximo do pé da cama e se aproximou. Tentei bloqueá-lo com a mão, mas ele continuou a se aproximar.

— TaecYeon! — meu grito morreu naquele quarto e ele por fim selara seus lábios nos meus.

A mão quente que parecia ser a fonte de pequenos choques espalhados por todo meu corpo estava na minha cintura. Ela começou a me apertar mais conforme o beijo ia se aprofundando e eu já esperava as marcas que esse toque causaria amanhã, mas não me importei com o aparecimento de hematomas arroxeados. Apenas queria tê-lo mais perto de mim e sentir sua temperatura elevada queimar minha pele. Empurrei-o levemente para que pudesse respirar um pouco, mas antes mesmo de tomar fôlego, me vi envolvida em outro beijo que correspondi imediatamente. A mão dele subiu e puxou meu cabelo sem força, só para me fazer olhar um pouco mais para cima e encarar seus olhos que transbordavam o sentimento que eu mais tive sobre ele: desejo. Com a outra mão, TaecYeon me puxou para mais perto e enlaçou o braço em minha cintura. Com essa aproximação, pude sentir a respiração pesada e ofegante no meu pescoço, onde ele se demorou em beijos um tanto molhados. Dessa vez fora ele quem se afastara e sorria com a sobrancelha arqueada e um olhar convidativo. Me provocar não é algo bom de se fazer. E isso era algo que Taec descobriria em poucos segundos.

Com a mão espalmada, empurrei com força suficiente para que ele recuasse até encostar na cabeceira da cama. O moreno me encarou com a boca entreaberta e olhos surpresos, mas logo passou a sorrir. Não era um sorriso normal, era um apenas malicioso, com os cantos levemente erguidos somados ao clima elétrico. Fiz o mesmo ao me aproximar dele e colei nossos corpos, prendendo-o entre minhas pernas e sentando praticamente em seu colo. Ele deu risada, uma baixa e um pouco rouca, enquanto minhas mãos traçavam uma linha imaginária em seu ombro, onde passei a beijar levemente. Como num gesto familiar, a mão dele subiu e desceu o caminho que compreendia o joelho até meu quadril. A cada centímetro de pele que entrava em contato com seus dedos, meu corpo parecia entrar em combustão.

E eu não me importava de me queimar naquele toque, não me importaria de ir ao inferno tendo todas essas sensações delirantes em meu encalço. Enquanto isso meus dedos brincavam, se emaranhando no cabelo macio ou arranhando lugares estratégicos que o arrepiavam, fazendo ele se remexer cada vez mais e puxar meus fios ruivos com uma força um pouco desnecessária. Mas eu não me importava com nada mais além de colar a boca dele na minha. Nada, nem a voz irritante em minha cabeça, a que instalava a culpa como um vírus em meu coração acinzentado, poderia me parar e retirar aquela sensação de satisfação plena toda a vez que eu me via envolta em suas carícias.

Não conseguia pensar que tudo estava rápido demais. Não conseguia frear minha atração intensa por ele. Eu tinha pressa, vontade de elevar tudo aquilo para outro nível e finalmente selar o meu fim. Não teria mais volta se eu desse esse passo, só que eu nem me importava mais com as consequências. O “agora” me parecia tão mais convidativo que ofuscava o resto, me fazendo seguir meus desejos mais primitivos. Ignorando todas as vozes da minha cabeça e me focando nas sensações, finquei as unhas em seus ombros e gemi baixinho, enrijecendo a postura de TaecYeon.

Nesse instante a língua dele contornava minha boca e voltava invadi-la para batalhar pelo controle da mesma, que acabou sendo cedido no instante que ambas se movimentavam e se enroscavam, levando minha consciência para outro plano. Um em que eu poderia ficar perdida pelo resto da eternidade sem nem me importar. Cansada de apenas percorrer o corpo coberto por tantas camadas de tecidos, puxei a barra da camisa preta de mangas que ele usava e automaticamente ele ergueu os braços, facilitando minhas intenções de arrancar aquela peça de seu corpo. Separei nossos lábios para que tomássemos um pouco de ar e aproveitei esses segundos – que pareceram bem mais que isso na minha opinião – para admirar e devorar com os olhos cada pedacinho de pele exposta de seu físico definido. Fiquei tentada a passar os dedos por seu abdômen, nos gominhos obtidos por tempos e tempos de exercícios numa academia, mas ele não dera tempo para tal. No segundo seguinte os braços dele me puxavam para mais perto e sentia a mão quente dele na barra do pijama e quando dei por mim, estava sem a camiseta, deixando o sutiã preto e básico à mostra.

Os olhos um tanto curiosos me analisaram rapidamente e não pareciam ver aquela peça como algo tão sem graça quanto eu. A mão dele tocou minha barriga, despertando borboletas ou qualquer outra coisa e revirar meu estômago, difundindo choques elétricos por todo meu corpo partindo daquele ponto. Fechei os olhos por um segundo para me deliciar naquela sensação que só ele provocava. Nisso, sua mão me puxou e voltamos a nos beijar. Sem tanta roupa me impedindo, passei a arranhar sem dó o corpo dele até onde minhas unhas o tocavam e em resposta recebi alguns grunhidos contra minha boca, incitando-me a continuar. Senti o mundo girar e abri os olhos, percebendo então que dessa vez, ele quem estava me prendendo entre seus joelhos situados em minha cintura. Numa voracidade totalmente correspondida por mim, ele atacou meu pescoço e foi descendo os beijos até a altura do colo e voltando até o início. Mordi o lábio inferior, travando a mandíbula e sentindo meu corpo formigar, pedindo por ele. Suspirei e puxei os cabelos dele com mais força, obrigando sua atenção ser novamente voltada para minha boca, na qual ele envolveu num beijo e mordiscou meu lábio. Sorri em meio a tudo isso e desci as mãos até o cós da calça jeans que ele usava, traçando uma trilha com as unhas, dando algumas voltinhas em seu umbigo para enfim alcançar o jeans. Com isso, o corpo dele estremeceu e congelou.

No último momento, TaecYeon sacudiu a cabeça como se voltasse a si e se levantou, passando a mão em seus cabelos num gesto nervoso. Sentei na cama e o encarei, puxando-o pelo pulso, pedindo por uma explicação. Ele apenas me afastou num gesto delicado, segurando em meus ombros e me fazendo ficar sentada com a coluna ereta, a uma distância de duas cabeças. Minha respiração estava tão irregular quanto a dele e podia sentir o ar quente brincar com meu corpo, arrepiando-me ao menor contato com minha pele. O ar ainda estava estático, carregado com as sensações que demorariam para passar. O maior que até então olhava para baixo, puxou uma bela quantidade de ar e voltou o olhar intenso que me analisou de cima a baixo antes de me encarar. Podia ver uma versão minha um tanto descabelada e de lábios bem vermelhos e inchados com um olhar duvidoso refletido naquela imensidão escurecida. Ele suspirou e eu, em vez de olhar para seus olhos, percorri a vastidão de seu ser sem pudor algum. Reparei em cada detalhe de sua silhueta, suas roupas um tanto amassadas e nas vermelhidões que minhas unhas deixaram espalhadas desde o peitoral até seus braços. Tinha certeza que eu deixara outras idênticas em suas costas, mas não conseguia vê-las. Havia várias marcas deles em mim, em especial na pele sensível do pescoço, onde partes estavam avermelhadas e uma amaçava ficar roxa.

Ele se levantara da cama e estava de costas para mim. Pude ver várias linhas avermelhadas em sua pele clara e me surpreendi com algumas que havia inchado levemente. Não entendia porque tudo aquilo acontecia. Eu podia sentir seu desejo por mim e sabia que ele sentia o meu. Bufei quando ele desviou o olhar e preferiu encarar a parede. Ficamos alguns instantes totalmente desconfortáveis em silêncio quando ele finalmente voltou a me olhar e a primeira coisa que ele fez foi colocar uma mecha ruiva atrás de minha orelha, suspirando. Com esse pequeno gesto de afeto, não pude me zangar, apenas suspirei e esperei por suas palavras que vieram sussurradas e fracas, até um tanto entrecortadas por conta da nossa respiração descompassada. A dose de hormônios em ambos os corpos não deu trégua e meu coração tão rápido que sentia a pulsação do órgão cardíaco reverberar em todo meu ser, dificultando minha concentração e atiçando meu nervosismo. Não desviei o olhar dele nem durante um mísero segundo.

— Vamos parar por aqui. — ele arfou e engoliu em seco.

— Tudo bem, TaecYeon? — o encarei confusa quando ele levantou da cama e ficou de costas para mim, passando as duas mãos nos fios negros com certo nervosismo.

— Não posso usar um contrato para fazer isso com você. — ele desviou o olhar e bagunçou os cabelos, puxando-os para cima. Fiquei calada enquanto ele passava a mão no rosto e evitava me olhar nos olhos.

— Você é...? — comecei, sem acreditar nem um pouco em minhas próprias palavras. Ele bufou, revirando os olhos.

— Se está querendo saber e eu sou virgem, não, não sou. — Taec deu um daqueles sorrisos de lado enquanto olhava para a porta, insinuando que ele tinha bem mais experiência do que pensava e eu suspirei alto. Era difícil acreditar naquilo e um pensamento embebido de ciúme passou por minha mente, mas o apaguei assim que surgiu. — Só não posso me aproveitar de você, entende?

— Você não se aproveitaria se eu quisesse isso. — levantei da cama e caminhei até ficar frente a frente com TaecYeon. Ainda estávamos sem camiseta e senti o olhar dele descer até meu sutiã, mas não me importei. Não era uma daquelas mocinhas que tem vergonha de mostrar o corpo, ou pelo menos, tem a necessidade de se cobrir depois de uma situação dessas. Mais um pouco e ele teria visto mais que isso. Com um certo ar de controle e relutância, TaecYeon desviou o olhar e voltou a me encarar.

— Scarllet...

— Obrigada por tudo, mas não precisa se preocupar tanto assim. — estendi a mão e acariciei seu rosto com o polegar. Ele fechou os olhos e respirou fundo, mas quando os abriu, ainda vi resquícios de dúvida incrustados em sua íris.

— Eu continuarei. Sempre foi assim. — “E sempre será”, completei seu pensamento em minha mente.

— Deixa de ser um imbecil romântico e me beija logo. — sorri e ele me puxou para si, selando nossos lábios e me fazendo experimentar outro tipo de contato. Um beijo lento e delicado, como se para expressar carinho e adoração em vez de puro desejo ou luxúria. Por um instante, senti algo mais naquilo e isso foi suficiente para acender inúmeras questões em meu coração, mas sem ter coragem de afastá-lo.

Por que meu coração acelerara tanto sem um daqueles beijos de tirar o fôlego? Essa sensação nascia no peito e se espalhava pelo meu corpo, percorrendo desde a raiz de minhas madeixas ruivas até a ponta de meus dedos e causava uma sensação tão quente. Era um sentimento quente, mas não ardente – que queimava e destruía tudo por dentro –, mas do tipo que aquecia, que confortava e trazia segurança. Capaz de trazer paz a uma alma um tanto obscura como a minha. Uma estabilidade que eu jamais experimentara em nenhum de meus antigos relacionamentos. Isso se eu considerasse nossa ligação como um. Afinal, o que éramos nós dois? Uma espécie de amigos coloridos? Não éramos namorados, pois o começo de tudo não foi nada convencional e o tipo de tratamento que tínhamos um com o outro não poderia ser relacionado aos padrões normais.

Para mim éramos mais que isso, mais que amigos, mais que duas pessoas que apenas se divertiam, mais que dois amantes; não no sentido de eu ser a “outra”, afinal, Taec não era casado (mesmo que ele seria daqui a algum tempo), mas sim significando aqueles que amam. Não sabia até que ponto o amor dele chegava ao nível paterno, que ele me considerava família e aquele em que ele me amava como mulher, mas eu o amava por completo. O amava de todos os jeitos. Até seus hábitos e caprichos bestas. O jeito que ele gostava de ser chamado, a sensibilidade fora do normal na área da orelha direita, o hábito de estralar os dedos quando está entediado, quando ele fazia caretas para me alegrar, o jeito doce que ele sempre teve, o fato de ele se preocupar comigo desde sempre, o beijo que só ele sabe dar, assim como os pequenos gestos que fizeram toda a diferença e as emoções que ele provoca em mim com um simples toque.

Toda essa epifania me surpreendeu, mas não tanto quanto eu pensava que iria. Esperava que isso me atingisse como um soco de realidade, uma pontada de luz ofuscante, mas não fora nada diferente de descobrir que um mais um é dois. Eu sabia. Já sabia disso desde muito tempo, mas por algum motivo esquecido, afoguei e deixei esse sentimento adormecer até o segundo que ele me beijou. Talvez eu pensasse em sua perfeição porque realmente tinha me apaixonado e não via os defeitos dele, mas antes de gostar dele desse jeito, eu sei que Taec tem suas fraquezas como qualquer um, mas eu podia simplesmente abraçá-las do jeito que elas são. Isso não o fazia ser alguém pior; ao contrário, o fazia ser ele mesmo. Parece ser algo tão clichê. Compará-lo a outros e fazê-lo ser melhor. Mas sendo clichê ou não, eu realmente o preferiria. Confesso que no começo eu o queria longe porque não queria nem viver para ver as outras pessoas, mas aos poucos ele acabou me mudando. TaecYeon pode estar me tirando de um vício, mas me colocara em outro.

Ele me viciara nele.

O que por um lado, não faria mal a minha saúde física, mas a mental corria sérios riscos de se perder. Eu tinha uma droga com nome e sobrenome e estava totalmente dependente disso. No gosto de sua boca, no cheiro que parecia grudar me mim e não sair nunca – e cá entre nós, que eu não queria que saísse –, no olhar indecifrável e cheio de significados que ele insistia em lançar em mim nas horas de despedida; eu gostava de tudo, menos isso, e acabava me perguntando: O que ele queria que eu fizesse? Ele esperava uma resposta. O que ele espera de mim? Não podemos agir como se houvesse apenas eu e ele.

Fugir da realidade e nos isolar num mundo de conto de fadas, onde tudo dá certo e só o que existe no mundo é o amor e nosso “Felizes para sempre”. Isso era a realidade! Ele iria se casar e eu teria de me afastar dele. É inevitável que isso aconteça. Só de pensar nisso, eu fico zangada comigo, com ele e até com a realidade. Eu quero, mas não posso tê-lo. Não seria esse um sentimento bipolar, apesar de me dizerem que o amor é cheio de idas e vindas, reviravoltas esquisitas que mudavam o nosso mundo e sentimentos que transmutavam numa velocidade incrível, mas não era isso que estava acontecendo. Era meu jeito de ajudá-lo. Se era uma solução altruísta que provavelmente iria acabar comigo e talvez eu me arrependerei no fim de tudo? Isso é quase, senão totalmente certo. Mas como todo conto de final triste, seria essa minha escolha final.

Essas conclusões me vieram à cabeça na manhã seguinte, quando acordei e ao olhar para o lado, TaecYeon não estava lá. O vazio de estar sem sua companhia, sem seu calor próximo e sem seus olhos profundos foi a primeira coisa que senti, mas depois de alguns segundos, meu eu sonhador deu lugar àquele mais realista que eu queria tanto evitar. Por isso fechei os olhos e inspirei o ar que lentamente preencheu meus pulmões com o cheiro do quarto em que eu estava. O quarto em que o cheiro dele estava impregnado até em mim. Ainda não estava totalmente desperta porque acordara com a claridade do sol penetrando a cortina, que estava aberta e exibia uma luz amarela e brilhante demais para meus olhos, então me deixei devanear um pouco mais enquanto o sono me ajudava nessa tarefa. Inspirei profundamente e deixei que o aroma viciante me fizesse fugir de tudo e voltar a noite anterior. Aos poucos as memórias foram surgindo e arrancando um sorriso singelo e tristonho em meu rosto sonolento.

***

Notas finais
Opssss... Um pequeno atraso na atualização. Mas é como dizem: antes tarde do que nunca. Hehehehe um pouco de ousadia para alegrar a vida (ou não :v), mas bem, é o que temos para hoje. Não se esqueça de comentar depois de ler e me dizer o que achou. Vejo vocês outro dia :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.