Adaptação
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Marcelo ajeitou levemente a gravata e voltou a olhar para frente. Diante do juiz de paz, seu pai e Heloisa selavam seu matrimonio. Mesmo admitindo pra si mesmo que Heloisa era uma boa pessoa, Marcelo não conseguiu evitar sentir um peso no estômago.
Oscar e Heloisa se conheceram havia um ano e meio. Ambos já estavam na casa dos quarenta e eram pragmáticos demais para acreditar em amor à primeira vista ou almas gêmeas, mas isso não impediu que atração fosse mútua e imediata. Eles se conheceram através de amigos em comum e logo descobriram outras afinidades. Sendo ele viúvo e ela divorciada, os dois já possuíam considerável experiência quanto aos acertos e erros de um relacionamento e foram se descobrindo sem pressa. Empatia, pensamentos, gostos e desgostos em comum foram moldando a crescente relação até o ponto em que o matrimonio lhes pareceu um encaminhamento natural. Um casamento civil com separação de bens e uma recepção simples para amigos íntimos eram uma aposta relativamente baixa para um casal que não esperava nenhuma paixão arrebatadora.
Marcelo olhou enquanto seu pai assinava a certidão no pequeno
cartório. Está feito, eles são boas pessoas e provavelmente vão ser fazer felizes – pensou. Ele sabia que a preocupação maior estava ao seu lado. De pé à sua direita, Mateus parecia impassível e pela inclinação reta de sua cabeça, alguém poderia até mesmo pensar que o rapaz estava enxergando alguma coisa. Marcelo se perguntou o que o seu novo irmão estaria pensando. Será que estaria imaginando como estava a aparência de sua mãe? Marcelo não sabia como alguém que era cego de nascença poderia fazer algo como isso, mas pensou que o rapaz talvez gostasse da sua própria aparência se pudesse se ver. Com um terno escuro, do mesmo tom que os óculos, Mateus parecia distinto e com mais idade que os seus 17 anos. O cabelo castanho escuro curto e o rosto liso de quem se barbeia todos os dias formavam uma aparência asseada e contrastavam com o estilo desleixado do qual Marcelo se livrara apenas para o casamento. Tirando os aparelhos dentários e a idade próxima – Marcelo tinha 18 anos – ambos não pareciam ter mais nada em comum. Exceto pelo fato de que agora eram irmãos.
A recepção após a assinatura dos papéis pareceu passar rápido. Os tradicionais cumprimentos, desejos de felicidades, comes e bebes para menos de 20 convidados e em 1 hora e meia os recém-casados já estavam no carro, seus filhos no banco de trás. Sentado novamente ao lado de Mateus, seu pai e a nova madrasta rindo e conversando entre si no banco da frente, Marcelo se perguntou se não seria o caso de puxar conversa.
– É, até que não demorou muito.
– Não, foi bem rápido – respondeu Mateus.
Esse era o padrão de todas as conversas que os dois já tinham
trocado até o momento. Mateus era direto e cortês, usando o tipo de tom que as pessoas educadas aplicam ao responder às perguntas de um estranho. Marcelo não sabia como ele soava para Mateus, mas desconfiava que fosse de algum modo entre inócuo e inconveniente.
A primeira vez em que ambos se encontraram foi no primeiro mês de namoro de seus pais – namoro que, por sua vez, havia começado apenas um mês após Oscar e Heloisa se conhecerem. Marcelo e o pai haviam sido convidados para um almoço de domingo na casa de Heloisa, e o rapaz estava curioso para conhecer a mulher de que seu pai falava tão admiradamente. De inicio achou-a simpática, sem nenhum traço excepcional de beleza, mas com uma praticidade e espírito observador que sabia que atraiam seu pai. Oscar não tinha tido nenhum relacionamento sério desde que a mãe de Marcelo morreu, quando o garoto tinha 12 anos e seu filho não tinha nenhum desejo de que seu pai passasse o resto da vida sozinho. Quando conheceu Heloisa naquele domingo e viu como ela Oscar pareciam encontrar uma frequência só deles, Marcelo ficou feliz pelo pai e imaginou que aquele não seria um relacionamento efêmero. Mas primeiro, ele conheceu Mateus.
O garoto abriu a porta para Marcelo e Oscar quando eles chegaram e levou alguns minutos para Marcelo perceber que aquele era o filho deficiente visual de Heloisa de que o pai lhe falara. Oscar o apresentou para o filho, e Mateus o cumprimentou com um aperto de mão assim que discerniu de qual direção viera o ‘oi’ que Marcelo dissera. Heloisa apareceu em instantes e pediu ao filho que pusesse os pratos na mesa. Mateus se movia com desenvoltura entre os móveis, como se tivesse executado esse caminho a vida inteira. E Marcelo ficou alguns instantes pensando no garoto enquanto começava a conhecer Heloisa.
Com a mesa posta e o almoço servido, os namorados conversavam animadamente, enquanto Marcelo refreava o impulso de dar uma boa olhada em Mateus. O garoto comia tranquilamente, apenas acrescentando alguns curtos comentários à conversa da mãe sobre a vida dos dois.
Após a sobremesa, Mateus se ofereceu para lavar a louça, o que a mãe negou enquanto recolhia os pratos e Oscar se levantava dizendo que iria ajudá-la. Sozinho à mesa com o outro rapaz, Marcelo ficou alguns instantes em silêncio sem saber o que falar. Com receio de que o silêncio fizesse Mateus pensar que estava sozinho na mesa, ele resolveu conversar sobre o primeiro tópico que lhe veio à mente.
– Você estuda onde? – perguntou
Mateus respondeu. Era uma escola comum no centro da cidade,
não muito longe da sua. Por algum motivo, Marcelo esperava que o outro rapaz estudasse em algum instituto especial. Estudos acabaram se revelando um bom assunto para conversa. Mateus estava no 2º ano, pretendia cursar Direito e talvez sua única grande dificuldade na rotina escolar fosse o ônibus, que não costumava parar em pontos muito fixos.
Marcelo, por sua vez, também estava cursando pela segunda vez o 2º ano, em outra escola no centro, não caia de amores por nenhuma matéria e ainda não tinha decidido o que fazer depois do colégio. Logo depois dessa conversa, Marcelo pensou que talvez não devesse ter puxado tal assunto, se tal conversa só serviu para contrastar a sua indecisão e falta de interesse com a aplicação daquele garoto que ele não sabia por quanto tempo talvez viesse a conviver.
Nos encontros posteriores, na casa de Heloisa, na de Oscar, ou em qualquer restaurante a que fossem os quatro, o tom e o nível das conversas permanecia o mesmo. Marcelo decidiu usar um timbre tão polido quanto o do garoto cego, e a trivialidade dos assuntos se mantinha a mesma daquele primeiro encontro, à medida que seus pais pareciam cada vez mais interessados um pelo outro. Não foi uma verdadeira surpresa para Marcelo quando seu pai lhe disse que estava noivando e ele só se detivera penando como seria ter Mateus como irmão.
Agora estava feito, Oscar e Heloisa estavam casados. Marcelo e o pai se mudariam para a casa de Heloisa, e essa foi a única coisa que fez o garoto discutir por mais que cinco minutos com o pai. A casa dela era grande o suficiente para os quatro, não havia necessidade de se endividarem comprando um imóvel e além do mais o garoto dela estava acostumado com aquele espaço desde que nasceu, argumentou Oscar. Marcelo suspeitava que esta última razão era a principal.
Agora o carro estava parando e estavam os quatro chegando na casa que era nova apenas para dois deles. Estacionando na pequena garagem, que felizmente tinha lugar para dois carros, Heloisa e Oscar entraram na residência, com Marcelo e Mateus atrás deles. Pai e filho já tinham trazido suas malas para a nova casa – Marcelo dividiria o quarto com Mateus – e Oscar ainda estava com a sua bagagem intacta para a viagem que seria naquela mesma noite. Após tomarem um banho e trocarem de roupas, o casal chamara um taxi e estava pronto para sair em lua-de-mel.
E então chegara o momento que Marcelo mais receara; ficar
duas semanas com um cara cego semidesconhecido que só por acaso era seu novo irmão, enquanto o pai de um e a mãe do outro curtiam a estadia em algum hotel-fazenda longe dos filhos e das obrigações.
Conselhos e orientações foram dados, os números de emergência
e do hotel estavam na geladeira, o da polícia e o dos celulares do casal eles já sabiam, o táxi chegou, abraços, beijos e despedidas.
Marcelo afrouxou o nó da gravata, nem ele nem Mateus tinham se trocado ainda. Era isso, eles estavam sós na casa silenciosa com o qual ele mal se acostumara. Mateus tinha ido em direção ao quarto.
Marcelo havia ficado esperando na sala, sentado enquanto pensava no que pareceria natural dizer ou fazer. Mateus voltou do quarto após trocar de roupa e se dirigiu à cozinha.
– Tá com fome? Acho que vou preparar alguma coisa – disse fora da sala
– Não, não, a gente comeu lá mesmo – Marcelo respondeu.
Aja como se estivesse em casa, apenas tente não parecer
deslocado, Marcelo pensou.
– Acho que vou tomar banho – Marcelo disse, tentando parecer casual.
– OK. Também não estou com fome, eu vou deitar.
No banheiro que agora dividiria com Mateus – um dos dois da casa -, Marcelo entrou debaixo do chuveiro e deixou a água turvar a sua visão.
Ele nunca tinha tomado banho lá, não estava acostumado com aquele banheiro, nem com aquela casa. Mas acima de tudo pensou que não estava acostumado com Mateus, mesmo que ele fosse oficialmente seu irmão e duvidava que duas semanas fossem tempo suficiente para que um conhecesse de verdade o outro.
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