Adaptação
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Eram quase 07:00 da manhã quando Marcelo acordou. Ele ainda
sentia o cansaço dominar o seu corpo quando se espreguiçava na sua antiga cama, que havia sido trazida para a nova casa junto com alguns móveis. Marcelo nunca fora de acumular coisas, e seu antigo quarto não tinha muito mais que sua cama, um armário, uma mesinha com computador e uma cômoda, de modo que, para ele, não foi um grande sacrifício, do ponto de vista prático, ocupar o mesmo quarto que Mateus. Com móveis pertencentes aos dois irmãos, agora havia no quarto duas
camas; um guarda-roupa maior do que o que cada um tinha anteriormente (uma das poucas coisas compradas por Heloisa e Oscar para os rapazes); uma pequena cômoda, que antes era de Marcelo, entre as camas dos dois; a escrivaninha de Mateus num canto e uma estante baixa abarrotada de livros em braile também de Mateus. Marcelo percebeu que o irmão já tinha se levantado.
Enquanto se dirigia ao banheiro, Marcelo ouviu o som do rádio
ligado vindo da sala. Após lavar o rosto, encontrou Mateus no sofá, apenas com uma caneca.
– Desculpa, o rádio te acordou?
– Não, eu costumo levantar esta hora mesmo – respondeu Marcelo.
– Eu fiz café.
– OK. Vou pegar.
Marcelo se dirigiu à cozinha. Ele não estava com fome, mas pensou que era melhor ir para outro cômodo do que permanecer na sala sem saber o que conversar com Mateus. Marcelo se serviu do café e sentiu uma torrente amarga queimar a sua garganta. O garoto pôs a caneca na mesa, sentindo a boca em chamas.
– O café pode estar quente demais pra você. Eu e minha mãe costumamos tomar assim. Está sem açúcar também, não sei como você prefere, então deixei por sua conta – Marcelo ouviu Mateus dizer da sala.
– Tá OK – Marcelo respondeu, enquanto pegava um copo de água gelada. Ainda sentindo a boca arder, o rapaz se perguntou se aquela fora alguma piada. Aquela não era uma boa forma de se começar uma família. Marcelo ficou 5 minutos bebericando o café, ouvindo apenas o som do noticiário no rádio vindo da sala, imaginando algum assunto, qualquer coisa que pudesse ser um tópico de conversa.
Mateus entrou na cozinha enquanto Marcelo ainda estava sentado tomando o café, e antes que Marcelo falasse alguma coisa, disse:
– A gente vai ter que fazer compras hoje.
Marcelo não esperava por aquilo e, por um instante, achou que
tinha ouvido errado.
– A minha mãe deixou uma lista. Ela disse que estava em cima da geladeira, junto com o dinheiro. Ela disse que não era muita coisa, ela pretendia comprar antes do casamento, mas acabou ficando sem tempo com todos os preparativos.
– OK – Marcelo disse.
Pelo menos teremos alguma coisa pra fazer além de evitar um ao outro, pensou.
O resto da manhã transcorreu tranquilo e sem maiores comentários. Os novos irmãos apenas acertaram em qual supermercado iriam e o horário para depois do almoço. A refeição, dessa vez, foi preparada por Marcelo, alguma coisa simples, com o que eles tinham disponível em casa no momento.
O supermercado não ficava longe, cerca de 15 minutos a pé da
casa de Mateus. Ambos pouco falaram durante o caminho, apenas comentando um ou outro item da lista. Ao entrarem no supermercado, Marcelo pegou um carrinho e consultou mais uma vez a lista.
– As verduras estão no começo da lista, mas ficam lá no outro
canto do supermercado. Vamos começar pelo que está mais próximo.
– Pode ser – Mateus respondeu.
Marcelo começou a empurrar o carrinho e tentou imaginar até quando a relação com Mateus ficaria naquele nível. Até ambos se acostumarem um com o outro? Até seus pais voltarem? Até quando?
– Minha mãe costumava me levar dentro do carrinho quando a gente vinha aqui quando eu era pequeno.
Marcelo ouviu Mateus, mas não teve certeza se o garoto falara com ele ou sequer o que deveria responder. Era uma tentativa de iniciar conversa? O irmão já tinha puxado algum assunto antes?
– Sério? Você pode entrar nele agora – Marcelo respondeu tentando parecer simpático. Mateus ficou quieto e Marcelo teve medo de que o irmão achasse que ele zombara dele.
– Melhor não, eu iria começar a rasgar as embalagens dentro do carrinho como fazia antes – Mateus respondeu com um sorriso. Marcelo se deu conta de que nunca o vira sorrir antes.
Enquanto avançava pelo corredor do supermercado, Marcelo
verificava os preços dos produtos, devolvendo alguns às prateleiras e pondo outros no carrinho. Mas agora sua atenção estava na conversa com Mateus.
– Já fiz coisa pior: uma vez, quando tinha sete anos, me cobri de ketchup e disse pros meus pais que tinha levado um tiro. A minha mãe quase teve um ataque do coração.
– Minha mãe quase teve um ataque do coração na vez em que tomei o ônibus errado pra escola e acabei parando em outra cidade, sem saber como voltar. O dia acabou com a Polícia Civil vindo me buscar com a minha mãe no banco do carona – Mateus disse num tom
descontraído.
Marcelo riu e comentou sobre a vez em que fora parar na direção
por desobedecer à regra que proibia jogos de azar na 7ª série. Não era uma grande história, mas e daí? Eles estavam conversando!
Enquanto prosseguiam com as compras, eles falaram sobre tudo.
Não como dois desconhecidos que acabaram de se tornar irmãos e agora têm a obrigação de agir como tal, mas como dois garotos que ainda não se conhecem, mas que têm a mesma idade e têm curiosidade um pelo outro, sem obrigações impostas pelas circunstâncias.
As compras foram feitas e Marcelo e Mateus voltaram para casa, carregando as sacolas e ainda conversando sobre assuntos sem importância.
Enquanto guardavam os produtos na cozinha, Marcelo disse ao irmão:
– Cara, deixa que amanhã eu faço o café.
- Tranquilo. Você pode cozinhar sempre que quiser, sinta-se a vontade – respondeu Mateus num tom casual.
– Não é por aí, eu só não quero ter queimaduras internas de 2º grau toda manhã. Talvez você goste, mas eu não – brincou Marcelo.
– Não, cara, tudo bem. Uma das vantagens de se ter um irmão é dividir os afazeres domésticos. Você pode fazer a faxina também – disse Mateus num tom animado.
– Não, não, você não sacou como é esse negócio de irmãos. Eu sou o irmão, mais velho, entende? Eu dou as ordens e você executa – Marcelo falou, sorrindo.
– Cara, você vai explorar o seu irmão caçula deficiente visual? Perguntou Mateus, num tom falsamente chocado.
– Vou – Marcelo disse num tom também falsamente sério, mexendo no cabelo de Mateus. Ambos riram e continuaram guardando as compras. Naquela noite ambos fizeram o jantar juntos e comeram na sala, diante da TV (coisa que os pais de ambos desaprovavam). Mateus lavou a louça enquanto Marcelo tomava banho. Mais tarde, um pouco antes de dormir, Marcelo notou que, desde aquela tarde, não se perguntava mais o que dizer ou como agir com Mateus. Ele simplesmente dizia ou agia.
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