5 DIAS ANTES.

Ela estava a porta do restaurante. Era um restaurante muito aconchegante, com cortinas e tapetes para todos os lados. O cheiro do fumo na narguile tomava conta do local.

– Julia! – um homem a chama – que bom que chegou!

– Como é bom te ver Robert! – um sorriso largo está no rosto dela.

Robert era um homem branco, de alguns cabelos já grisalhos o que lhe rendia muito charme. Sempre muito bem vestido.

– e como anda a vida? – ele pergunta enquanto lhe puxa a cadeira – muito trabalho?

– Não muito – ela senta ainda sorrindo. – tenho poucas aulas, o que me rende bastante tempo para cuidar da minha casa.

– Você dona de casa? – ele ri – essa eu queria ver!

– Robert, é sempre um prazer lhe ver, mas... bem, eu nunca fui de ter rodeios. – ela olha para ele agora séria – o que houve?

– Quer fumar? – Robert chama o atendente com um movimento de mão – a conversa será meio indigesta...

Ela o olha com mais seriedade. Já estava sentindo seu estomago revirar.

– Julia, soubemos que tem uma pessoa no seu encalço.

– E o que quer que eu faça? – Julia mais séria do que nunca fecha os olhos e vê tudo na sua frente novamente – não agüento mais! Quando ele vai parar!

– Se nos permitir – Robert serve um pouco de vinho – podemos dar um jeito. Em nome da nossa velha amizade.

– Tudo bem – ela fala depois de pensar – mas .. não o mate. Só avise.

– Você está muito mole – ele sorri maldosamente – Sabe que não vai adiantar.

– Não quero ser responsável por mais nenhuma morte. Chega.

– Você quem sabe. – Robert dá de ombros. – mas você também me conhece... agora que decidimos o que deve ser feito – abre um belo sorriso – me conte, soube que esteve no Marrocos a pouco tempo. Como foi ?

A conversa se desenrola pelo jantar. Ao final, Julia pede a Robert que garante que não haverá mortes e ele simplesmente diz que se ela quiser acompanhar do desenrolar, será bem vinda. Mas Julia não quer mais fazer parte disso. Mesmo assim, fica acertado que tudo será resolvido e ela avisada assim que tudo estiver terminado.

Julia agora vivia tinha uma vida tranqüila, mas , infelizmente, ainda tinha que se cuidar, prestar atenção sempre que algum carro ficava atrás do seu pelo percurso... ainda bem que tinha os amigos para ajudá-la. Para alertá-la. Também, fez isso muitas vezes pelos amigos que realmente importavam.

Mesmo assim não queria ser responsável por mortes. Não mais. Não depois de André. Ele era um homem bondoso, e foi inevitável se apaixonar por ele.

Diferente do que ela achou, quando André soube da vida dela, da profissão, não a desprezou, mas falou que não concordava e que jamais aceitaria que ela continuasse. Por isso, e pelo amor que sentia por ele, ela deixou sua “profissão”. Com a perda de André vieram a ultima morte pela qual ela poderia ser responsável, a de Tasso, e a promessa de não se envolver mais com isso. E agora mais essa. Alguém novamente a perseguindo.

Sem dúvida, não era da vontade dela que ele morresse, mas se algo o acontecesse, nada poderia fazer. Era ela ou eles.

Na época que “trabalhava”, morava em uma casa grande e muito bem vigiada. O que não era necessário. Quem seria o louco que invadiria a casa dela? Agora, já tinha um ano que ela morava numa rua pequena, escura. Mais parecia um beco, mas o lugar era propício. Havia somente uma entrada para o prédio que podia ser bem vigiada pela janela de sua casa. Um estúdio que tinha sido organizado de forma a ter uma pequena sala-copa, cozinha, quarto e banheiro. Bem diferente do que ela estava acostumada.

Todas as noites, chegava a sua casa e sentava perto da janela, na saída de incêndio, tomava um café e fumava um cigarro enquanto observava com cautela toda a rua procurando por algo que a alertasse a sair. Sua pistola, com o silenciador devidamente colocado. Apesar de ter feito uma promessa de não matar, não tinha dito nada contra a legitima defesa.

Um vento frio bateu em seu rosto acordando ela que tinha dormido sentada na cadeira na saída de incêndio. Passou a mão pelo rosto e entrou pulando a janela quando ouviu o telefone tocar na bancada divisória entre a cozinha e copa.

– Alô? – Com a voz rouca e sonolenta.

– Está feito querida. – uma voz sorridente do outro lado – pode ficar mais tranqüila.

– Robert? – ela acordou definitivamente.

– não se preocupe... – Robert falava e ao fundo pode ser ouvido uma pancada como a de um latão caindo – não está morto... – ao fundo pode ouvir “ao menos não ainda” acompanhado de um som seco de pancada – mas... não sei se vai ficar vivo muito tempo ... Sabe que não posso evitar. – a voz dele soou como se estivesse sorrindo. Era fato, ele o mataria.

– Obrigada Robert – deu um longo suspiro. – fico te devendo mais uma... – e desligou.

No fundo não fazia a menor diferença se estaria vivo ou morto, ao menos não a consciência dela. Deu uma olhada no relógio. Ainda tinha quatro horas de sono.