Uma das coisas boas que tinha adquirido no período de seu “antigo emprego” era ter sangue frio e noções precisas de como se ajudar caso houvesse algum ferimento que necessitasse de cuidados maiores. Se engana quem acha que um assassino não estuda. Ele tem que ter uma segunda opção e até mesmo um emprego de fechada. No caso de Julia era a enfermagem, o que hoje ela usava para fazer trabalho voluntário numa casa de repouso pra idosos.

Esta manhã, Julia acordou com um pouco mais de dores nas costas do que de costume. “Talvez seja o peso de meus pecados...” Ela ria pensando nisso. Quando antes, em sã consciência, ela pensaria desta forma.

Se vestiu com calça jeans, blusinha preta básica e sapatilhas pretas. Estava na hora de ir à casa de repouso. Tomou um café rápido e saiu. Do lado de fora, o ar frio da manhã revigorou seus pulmões.

Alguns costumes não haviam sido perdidos, até mesmo pela necessidade. Não dar o endereço para ninguém era o mais básico deles. Para que a localização de sua casa continuasse em segredo, sempre tomava caminhos diferentes, com o cuidado de observar se alguém ficasse atrás dela por tempo demais. A pé ou de carro, sempre fazia isso. Desta vez resolveu ir por perto do rio Mnarhar.

Era sem dúvida uma bela visão a do sol nascendo por de traz das tamareiras. O céu nas cores rosa e azul. Belo! Tão belo que Julia não percebeu o homem desacordado deitado do lado de uma latão de lixo, daqueles quadrados, e tropeçou em seu pé.

– Nossa! – já no leve tropeço ela tinha levado a mão até sua bolsa, fruto do reflexo.

Foi quando viu um homem machucado, jogado de barriga para baixo. Era alto de pele clara, com cabelos negros curtos. Vestia uma calça preta e camisa branca, que agora estava rasgada na costura da manga em seu ombro e suja. Lhe faltava um dos sapatos. Parecia ter brigado feio, pois a camisa também estava suja com sangue.

Ela viu o homem mexendo sua mão e gemendo numa tentativa que era, obviamente dificultosa, de se por de pé. Foi quando num instinto humano ela se aproximou do rapaz e o virou para ver o rosto, e o que viu foi um rosto machucado, mas bonito. Com traços finos um nariz afilado e boca fina, mas bem desenhada. Um olhar agudo que tinha uma cor que confundia indo do negro ao azul turquesa.

– Tudo bem com o senhor? – Julia se ajoelhou ao lado do rapaz o erguendo para se sentar. – Consegue se levantar? Está me ouvindo?

– ugrh... — Ele gemeu apertando os olhos.

– Consegue me ouvir? – ele procurava algum sinal de que ele estava muito ferido e percebeu um machucado grave na cabeça.

– Quem é você? – ele perguntou num gemido – onde eu estou?

– O Senhor está em Tanger... perto do rio Mnarhar. – ela olhava para os lados para ver alguém a quem pudesse pedir ajuda, mas não havia ninguém.

– Ai! minha cabeça... – gemeu novamente colocando a mão na cabeça. Ao ver o sangue ele se assustou – o que é isso?

– Sangue. Tem alguém para quem eu possa ligar...? Alguém que possa buscar o senhor? – ela estava preocupada.

– eu sei que é sangue! – ele respondeu já se apoiando e sentando – nossa! O que aconteceu comigo?

– bom... – ela arregalou os olhos e quis rir – se o senhor não lembra...?

Ele somente olhou nervoso para ela e em seguida sentiu forte pontada na cabeça e voltou a gemer.

– Olha... – ela voltou a ter paciência – me fala se existe alguém para que eu possa ligar para vir te buscar e te ajudar...

Ele apalpou os bolsos a procura de algo.

– Não tenho... – ele respondeu ainda perdido. – não estou nem com carteira... acho que fui assaltado...

– Você acha? – agora ela estava de pé. – não lembra?

– Não... – ele olhou perdido para os pés – não lembro de nada...

– Tá bem... – ela pensou por um minuto – qual o seu nome? Assim posso procurar na lista ou algo assim...

– Não lembro... – ele respondeu ainda com o olhar perdido na direção dos pés. –como posso não lembrar?..

– que você não lembra o que aconteceu ontem ou já sei – ela respirou fundo para não perder a paciência. “o que a bebida não faz...” pensou – mas me diga o seu nome que eu...

Não terminou de falar por que foi interrompida.

– Não! – ele estava nervoso – não lembro meu nome... não lembro nada!

Tentou se por de pé, mas cambaleou quase caindo. Julia foi rápida e o aparou.

– Não lembro... – ele franziu os lábios nervoso como estava – não lembro de nada. – olhou para ela demonstrando que o que dizia era verdade.

“E agora? O que eu faço?!”. Aquele olhar suplicante por ajuda lhe tocou. Mais uma vez o instinto foi mais forte que a razão.

– Ok. – ela olhou para os lados novamente – consegue andar?

– Acho que sim... — ele olhava para o chão a procura de algo – por que?

– Vamos a minha casa. Lá pensamos em algo para te ajudar...

– Tá bem... – ele olhou para ela com dúvidas. Que mulher em sã consciência ajuda um homem desconhecido o levando para sua casa?

Andaram por menos de dois minutos e chegaram na casa dela. Julia se apressou em pegar água. Providenciou também algumas roupas que tinha guardado de André. “são mais ou menos do mesmo tamanho... devem servir.” Pensou enquanto olhava para uma camiseta preta e uma calça de moletom.

– Olha – entregou as roupas – pode se banhar e pôr essas roupas limpas. Vou ligar para um lugar... avisar que não vou poder ir hoje. Só dê uma olhada em seus bolsos... veja se há algo que nos dê alguma pista de quem é..

– Obrigada... – pegou as roupas – obrigada mesmo.

Revistou rapidamente seus bolsos e no bolso de sua camisa achou um bilhete escrito:

“Shura.

Nas docas às 23:00h .

Milo”

– Bom... – ela olhou para o bilhete – ao menos sabemos um ... nome?

– é... pode ser – ele olhava o bilhete amassado como se fosse seu bem mais precioso.

– Vou ver se acho algo na lista .... – Julia sorriu amigavelmente – vá se banhar