Notas iniciais
Um capítulo mais curtinho para podermos matar a saudade

Depois de deixá-la em seu apartamento e garantir que a sua entrada em casa de forma segura, pedi a Harry que me levasse a Mayfair.


Eu precisava de um drink forte.


Entrei pela porta privativa do Voss & Co., um dos meus clubes mais exclusivos, e caminhei direto para a área reservada no mezanino.


Àquela hora de uma quarta-feira, o salão principal ainda estava relativamente tranquilo, embora o bar já estivesse ocupado por pessoas que provavelmente não precisariam trabalhar às oito da manhã seguinte.


Marcus já estava lá, recostado numa poltrona de couro escuro com um copo de uísque duplo na mão. Ele era um dos meus poucos amigos pessoais e sócios de longa data, alguém que acompanhara cada passo da minha ascensão e conhecia o meu passado tão bem quanto eu.


— Você está atrasado, Voss — Marcus saudou sem se levantar, girando o gelo no copo. — E o Harry me disse que você passou a última hora rodando Londres como se fosse motorista particular.


Sentei-me na poltrona oposta e servi uma dose para mim.


— Estava resolvendo um assunto.


— Um assunto loiro, aristocrático e que estampa a capa da Tatler? — Marcus riu alto, apoiando o cotovelo no braço da poltrona. — O boato já chegou aos meus ouvidos, Lucian. É difícil não saber. Você aparentemente decidiu transformar sua vida amorosa em notícia.


— Não tenho vida amorosa.


— Interessante. Agora estou tentando entender em qual categoria entra Lady Alexandra. O que diabos o 'grande Lucian Voss' está fazendo desfilando de braço dado com a filha do Duque de Greystone?


— É um negócio — respondi, tomando um gole longo. — E não é da sua conta.


— Então é interessante. — Marcus debochou.


— Você me chamou aqui para falar da minha vida?


— Eu chamei você aqui para beber. Sua vida decidiu ficar divertida sozinha. Você passou a vida desviando da imprensa e recusando convites dessa elite hipócrita, agora resolveu servir de escolta para Lady Alexandra? Até onde eu me lembro, a sua obsessão nos últimos tempos era descobrir como se declarar para a Kali. E agora todo mundo na cidade jura que você e Greystone estão transando.


Apertei o copo na mão, encarando o líquido dourado. Meu olhar voltou para ele.


— Eu quero ficar com Kali.


Marcus pareceu confuso.


— Estou tentando acompanhar. Você quer Kali, mas está levando Alexandra Greystone para passear por Londres.


— O que eu faço com Alexandra Greystone é uma questão estratégica.


Marcus me encarou por alguns segundos, o sorriso brincalhão dando lugar a uma expressão de pura descrença.


— Estratégica? Você nunca dá carona para ninguém todos os dias, Lucian. Nem coloca segurança pessoal em cima das pessoas por 'estratégia'. E não me venha com essa cara, porque eu te conheço desde quando a gente não tinha um terno limpo.


Ele se inclinou para a frente, diminuindo o tom de voz, mas carregado de provocação.


— E qual é o próximo passo dessa sua 'estratégia' brilhante? Vai convidá-la para tomar um chá com a sua mãe?


— Sábado — soltei, encarando-o de frente. — Eu vou com ela à gala dos Cavendish.


Marcus quase engasgou com o uísque. Ele tossiu uma vez, piscando várias vezes como se não tivesse ouvido direito.


— Você recusou o jantar dos Ashford, faltou ao leilão beneficente dos Harrington e uma vez mandou um cheque de cinquenta mil libras para uma fundação só para não precisar comparecer ao evento.


— Foi uma excelente doação.


— Você pagou cinquenta mil libras para ficar em casa.


— Dinheiro bem gasto.


Ele começou a rir.


— Mas Lady Alexandra Greystone estala os dedos e você vai aos Cavendish.


— Ela não estalou os dedos.


— Piorou.


— Faz parte de um acordo.


Marcus soltou uma gargalhada alta que ecoou pela sala privativa, balançando a cabeça em negação.


— Ah, graças a Deus. Por um instante achei que você estivesse interessado nela. Então você não vai se importar se eu pedir o número dela sábado.


Meu copo parou antes de alcançar minha boca. O filho da puta sorriu. Não me dei ao trabalho de responder em palavras, meu olhar para ele já dizia tudo.


— Seu rosto acabou de ameaçar três gerações da minha família.


— Alexandra estará comigo no sábado.


Marcus ergueu lentamente as sobrancelhas. Percebi o que tinha dito tarde demais.


— Estrategicamente — acrescentei.


— Ah, claro. — Ele ergueu o copo. — Peço desculpas. Não sabia que ciúme agora fazia parte do planejamento estratégico do Grupo Voss.


Marcus parecia se divertir cada vez mais.


— Meu amigo, se você acha que isso é só um 'acordo de negócios', você está mais perdido do que eu pensava. Essa aristocrata não só te convenceu a ir ao circo, como te fez vestir a casaca. Boa sorte no sábado, Voss. Porque vai ter trabalho ao chegar aos Cavendish com Lady Alexandra Greystone no braço e tentar convencer todo mundo, inclusive você mesmo, de que não quer aquela mulher.


Marcus ainda sorria quando levou o copo à boca, mas a expressão mudou ligeiramente antes que bebesse.


— Falando sério agora. — Aquilo chamou minha atenção. — Você tem certeza?


— Sobre o quê?


— Sobre entrar naquele lugar com ela.


— Acabou de passar os últimos minutos me dizendo para fazer exatamente isso.


— Passei alguns minutos te enchendo o saco. É diferente.


Ele apoiou o copo sobre a mesa.


— Você sabe como aquelas pessoas são.


E sabia mesmo.


— Não tenho quinze anos, Marcus.


— Eu sei. Estava lá quando você tinha.


Meu olhar encontrou o dele. A brincadeira desapareceu completamente.


Marcus conhecia aquela parte da minha vida. Conhecia os convites que nunca chegavam, as portas que se fechavam assim que descobriam quem era meu pai e os homens que apertavam minha mão enquanto verificavam se alguém importante estava olhando.


— É diferente agora — falei.


— Porque você tem dinheiro?


— Porque não preciso da aprovação deles.


Marcus assentiu devagar.


— Então talvez esteja na hora de parar de agir como se precisasse evitá-los.


Aguardei em silêncio enquanto ele concluía:


— E, pelo que ouvi falar dos Greystone... — ele continuou, recuperando parte do sorriso —, você escolheu uma acompanhante razoavelmente bem posicionada para sua estreia.


— Não é minha estreia.


— Você sabe o que quero dizer. Além disso, se alguém olhar torto para você, Lady Alexandra provavelmente bate primeiro.


Pensei nela.


— Provavelmente.


Marcus sorriu.


— Você gosta disso nela.


— Vai tomar no cu.


— Também foi o que pensei.


Peguei meu copo novamente.


— Terminou?


— Por enquanto.


Marcus recostou-se na poltrona, satisfeito consigo mesmo.


— Nos vemos sábado.


Franzi a testa.


— Onde?


— Cavendish.


— Você vai?


— Depois dessa conversa? — Ele abriu um sorriso. — Eu pagaria cinquenta mil libras para assistir.


— Marcus…


— Relaxa. Prometo me comportar.


Conhecendo Marcus, aquela era provavelmente a coisa menos tranquilizadora que ele poderia ter dito.