Acordos Imprudentes
10 ALEX
Na quinta-feira de manhã, a rotina já parecia perigosamente natural.
O fato de eu ter começado a reconhecer o cheiro do café que ele bebia deveria me preocupar ainda mais.
Às sete e cinquenta e oito, o SUV preto estacionou no lugar de sempre. Quando entrei no banco traseiro, Lucian nem sequer desviou os olhos do tablet, apenas deslizou um copo de café para o meu lado.
— Você comprou para mim?
Mordi os lábios para não abrir um grande sorriso. Eu gostei daquele ato mais do que estava disposta a admitir.
— Se estiver ruim, reclame com o Harry. Foi ele quem pegou. — ele comentou, sem me olhar.
Peguei o copo, sentindo o calor através do papel. Harry nos olhou pelo retrovisor.
— Ele me mandou comprar.
Lucian lançou um olhar mortal para a frente. E dessa vez não consegui evitar o sorriso.
— Obrigada, Harry.
— Disponha, Lady Alexandra.
Bebi um gole e estava exatamente como eu gostava. Não perguntei como Lucian sabia. Voltei a minha atenção para o homem ao meu lado, que ainda estava com os olhos focados na tela.
— Você está terrivelmente atencioso hoje, Voss. Devo me preocupar?
Lucian finalmente apagou a tela do tablet e se virou para mim. Os olhos verdes me mapearam com aquela calma irritante.
— Estou apenas garantindo que minha acompanhante de viagem não sofra com o mal-humor por falta de cafeína antes das nove da manhã.
— Eu não fico de mal-humor — respondi, tomando mais um gole. Estava perfeito. — Fico apenas impaciente com homens arrogantes.
— Estranho. Eu achei que essa era a sua expressão padrão.
Mordi o lábio para esconder um sorriso e passei o resto do trajeto olhando pela janela, consciente do calor da presença dele ao meu lado. A dinâmica entre nós estava afiada, uma troca constante de farpas que disfarçava a tensão sutil que teimava em crescer a cada dia.
Há quatro dias, Lucian Voss era um estranho que eu procurara no meio da noite porque estava desesperada o suficiente para tentar contratar um homem que acreditava ter ligações com a máfia.
Agora ele sabia como eu tomava café. Não examinei aquela constatação por muito tempo. Algumas coisas eram melhores quando não examinadas.
⸻
Na hora do almoço, encontrei Kali no restaurante do Greystone London.
Era a primeira vez que nos encontrávamos fora das aulas e, estranhamente, também a primeira em que tive a sensação de estar encontrando uma amiga em vez de cumprindo uma parte do acordo.
Kali já estava sentada quando cheguei, o cabelo preto preso num coque baixo e um notebook aberto diante dela.
— Espero que não tenha almoçado — disse enquanto puxava a cadeira.
— Lucian me ensinou que nunca se recusa comida grátis.
— Naturalmente.
— Ele passou parte da adolescência convencido de que morreria de fome. — Meu sorriso desapareceu um pouco. Kali percebeu. — História para outro dia.
Assenti. Havia muita coisa sobre Lucian que eu ainda não sabia. E estava começando a perceber que queria saber.
Coloquei a pasta que carregava sobre a mesa.
— Trouxe uma coisa para você.
Kali olhou desconfiada.
— Se for outro diagrama de lugares à mesa, vou embora.
— Muito pior.
Empurrei a pasta.
— Uma entrevista de emprego.
Ela parou perplexa.
— O quê?
— Segunda-feira. Duas da tarde.
Kali não tocou na pasta.
— Alexandra...
— Antes de dizer não, ouça.
— Onde?
— Aqui.
A desconfiança aumentou.
— Com quem?
Sorri.
— Benedict Greystone.
Ela me encarou.
— Seu irmão? Ele é o herdeiro do ducado.
— Tecnicamente. Mas tente não chamar ele assim durante a entrevista. Já temos ego suficiente naquele escritório. — Isso pareceu deixar ela ainda mais nervosa, então para acalma-la completei — Estou brincando. Benedict não é tão ruim.
— Você conseguiu uma entrevista com seu irmão para mim? Por quê?
A pergunta me surpreendeu.
— Porque você está procurando emprego.
— Existem milhares de pessoas procurando emprego em Londres.
— Mas eu não conheço milhares delas.
Ela continuou me observando. Empurrei a pasta mais alguns centímetros para perto dela.
— Ben precisa de uma assistente executiva. Na verdade, ele precisava dela há pelo menos alguns meses, só ainda não tinha percebido.
— E você acha que eu consigo fazer isso? Você me conhece há dois dias.
— Foram dois dias bastante informativos.
Ela finalmente abriu a pasta.
Dentro estava a descrição do cargo que eu pedira ao RH naquela manhã, algumas informações sobre o funcionamento da diretoria e uma cópia impressa do currículo que Kali havia me enviado.
— Eu fiz algumas observações — expliquei. — Nada sobre o que você deve responder. Apenas coisas que talvez sejam úteis saber antes de entrar naquela sala.
Kali começou a folhear.
— Margaret?
— Secretária executiva dele há uma eternidade. Ela vai tentar te analisar da cabeça aos pés. Não compre a pose de senhorinha indefesa. Ela é o verdadeiro filtro daquele escritório. Conquiste a Margaret e você terá metade do emprego garantido.
— Está escrito aqui: "não mencione a idade".
— Importantíssimo.
Kali levantou os olhos.
— Por quê?
— Ela escuta através de paredes.
— Você está brincando.
— Bem que eu gostaria.
Ela voltou ao papel.
— "Não deixe Benedict encerrar a entrevista rápido demais."
— Ele faz isso quando acha que já entendeu uma pessoa. Não permita. Meu irmão é prático, direto e odeia rodeios. Ele vai tentar te pressionar nos primeiros dois minutos só para ver como você reage sob estresse.
Kali sorriu, ajeitando a postura.
— Eu passei os últimos três anos lidando com o Lucian, Alexandra. Pressão é o meu estado natural. — Ela deu mais uma olhada nas minhas anotações — "Pergunte sobre autonomia."
— Você quer trabalhar por mérito próprio. Descubra quanto espaço terá para isso.
Ela fechou a pasta.
— Lucian falou com seu irmão? Com você ou o RH?
— Não.
— Com alguém?
— Não.
Dessa vez entendi o que realmente estava perguntando.
— Eu te recomendei o porque você é boa. E porque Ben precisa de alguém exatamente como você. Organizada, rápida, formada em Administração, aparentemente incapaz de tolerar homens controladores. Eu pedi que Benedict conversasse com você. Só isso. Se ele não gostar de você, não vai contratar.
Kali permaneceu em silêncio por alguns segundos. Ela sorriu, mas ainda havia alguma coisa hesitante em sua expressão.
— Isso deveria me tranquilizar?
— Muito. Meu irmão é um chato criterioso.
Ela riu.
— E se eu não for boa o suficiente?
Dei de ombros.
— Então você não consegue o emprego.
Kali arregalou os olhos.
— Você é péssima em discursos motivacionais.
— Mas se conseguir, vai saber que foi porque Benedict achou você boa o suficiente. Não porque Lucian decidiu colocar você numa cadeira dentro da empresa dele.
Percebi que tinha acertado quando o humor desapareceu lentamente do rosto dela.
— Ele só estava tentando ajudar — disse.
— Lucian sempre está tentando ajudar.
Kali sorriu.
— Você aprendeu rápido.
— Ele não é exatamente complexo.
— Não diga isso perto dele. Ele vai transformar em desafio pessoal.
Sua frase me tirou uma risada.
O garçom apareceu para anotar nossos pedidos e, pelos quarenta minutos seguintes, passamos por tudo que ela precisava saber sobre a entrevista. Não ensaiei respostas. Não queria uma versão fabricada de Kali entrando no escritório de Benedict.
Queria que ela soubesse onde estava pisando. O resto era com ela.
Quando terminamos, peguei meu celular.
— Amanhã podemos revisar os últimos pontos durante a aula.
Kali fez uma careta.
— Eu vou precisar remarcar a noite de sexta.
Franzi a testa, surpresa.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não, é meu compromisso fixo — Kali explicou, tomando um gole de suco. — Toda sexta à noite eu dou aulas em um centro comunitário no sul de Londres. É um projeto voluntário de alfabetização e capacitação financeira para mulheres em situação de vulnerabilidade. Eu não falto por nada.
Olhei para ela com um respeito genuíno renovado.
— Isso é incrível, Kali. De verdade. Mas você está dificultando muito meu trabalho.
— Que trabalho?
— Encontrar alguma coisa detestável em você.
Kali riu.
— Pergunte ao Lucian. Ele tem uma lista.
— Imagino que o primeiro item seja "não aceita tudo que ofereço".
— Então, nossa próxima "aula prática" vai ser direto no leão no sábado, na festa dos Cavendish.
— Não se preocupe — sorri, recostando-me na cadeira. — Você vai se sair perfeitamente bem.
⸻
Naquela noite, a aula aconteceu como de costume.
Lucian me buscou às sete. Kali e eu passamos pouco mais de uma hora revisando algumas situações que ela poderia encontrar no sábado, ela discutiu comigo metade das minhas recomendações e assimilou a outra metade com facilidade. Lucian apareceu pontualmente para me buscar e, pouco depois das nove e meia, eu estava novamente diante do meu prédio.
Nada extraordinário aconteceu.
E talvez essa fosse justamente a parte extraordinária.
Em algum momento daquela semana, entrar no carro de Lucian pela manhã, encontrá-lo novamente à noite e passar parte dos trajetos discutindo sobre absolutamente qualquer coisa havia deixado de parecer consequência de um acordo absurdo.
Tinha virado rotina. Uma rotina temporária, lembrei a mim mesma.
Na sexta-feira, porém, ela seria interrompida.
Kali estaria no centro comunitário. Não haveria aula. Lucian não teria motivo para me buscar às sete.
E eu teria uma noite inteira livre pela primeira vez desde que tudo aquilo começara. Ótimo. Era sexta-feira em Londres. Certamente eu encontraria alguma coisa melhor para fazer.
Fale com o autor