Maldita. Maldita. Maldita.

Essa era a sequência exata de palavras que se repetia na minha cabeça desde que eu tinha saído do escritório de Alexandra no dia anterior.

A mulher era uma bruxa. Não havia outra explicação racional. Eu tinha negócios milionários para gerenciar, reuniões com investidores, auditorias e uma reestruturação de ativos no meu grupo, mas por algum motivo vergonhoso e irritante, tudo o que ocupava meus pensamentos era a lembrança dos lábios macios dela sob os meus. E aquele perfume provocante, que eu já nem sabia mais se vinha de algum frasco caro de perfume de nicho ou se era simplesmente o cheiro natural da pele dela.

Ela não saía da minha cabeça.

Mas agora a dinâmica mudara. Alexandra Greystone se tornara uma das minhas protegidas. E quando um homem como eu decide proteger algo, ele o faz sem margem para falhas.

Às sete e meia da manhã, eu já havia alinhado a operação. Harry, meu motorista e segurança pessoal, um ex-agente do MI6 de poucas palavras e eficiência letal, recebera uma instrução direta: vasculhar cada detalhe da vida de Robert Pond. Queria tudo o que fosse possível descobrir sobre Robert Pond. Segredos, escândalos abafados, antigos problemas, relações, hábitos, qualquer rastro que revelasse quem ele era quando o sobrenome do pai não estava protegendo sua imagem. Tudo.

Para a proteção diária de Alex, convoquei Raul. Ele era um especialista em rastreamento e vigilância discreta. A ordem fora clara: seguir Alexandra como uma sombra. Estar lá se o miserável do Pond ousasse dar um passo em falso, mas sem nunca se deixar notar por ela ou pela imprensa. Ela queria a ilusão de independência, e eu entregaria essa ilusão enquanto garantia a segurança real.

Às sete e cinquenta e quatro, o SUV preto encostou suavemente diante do edifício residencial de luxo em Kensington onde Alex morava.

Harry estacionou junto ao meio-fio e olhou para o prédio através do para-brisa.

— Bonito.

— É um prédio.

— Um prédio onde um apartamento custa mais do que a maioria das pessoas ganha durante a vida inteira.

— Você pesquisou o imóvel ou Pond?

Ele olhou para mim pelo retrovisor.

— Os dois.

Claro que tinha. Harry trabalhava comigo havia seis anos. Antes disso, passara tempo suficiente no serviço de inteligência britânico para desenvolver uma relação pouco saudável com informações e uma aversão ainda maior a perguntas sobre como as conseguia. Era exatamente por isso que continuava comigo.

— Quero tudo.

— Eu sei.

— Tudo, Harry.

Ele me lançou um olhar pelo retrovisor.

— Quando você diz uma coisa duas vezes, normalmente significa que vai me dar trabalho.

— Então evite que eu diga três.

Harry bufou uma risada.

— Raul já está em posição.

Olhei pela janela e o fato de não conseguir localiza-lo era excelente.

— Ela não pode perceber.

— Você pediu uma sombra. Ele sabe ser uma.

As oito horas, aguardava por Alexandra do lado de fora do veículo, recostado na porta traseira, vestindo um terno cinza-chumbo feito sob medida. Harry permanecia no banco do motorista, de olhos atentos ao espelho retrovisor.

Em ponto, as portas de vidro do prédio se abriram.

O contraste visual foi imediato. Alexandra desceu a pequena escadaria de mármore como se estivesse desfilando para uma plateia invisível. Usava um sobretudo azul-marinho perfeitamente cortado, calças de alfaiataria uma blusa que parecia perfeitamente apropriada para uma executiva às oito da manhã e saltos que estalavam com cadência no piso. Os cabelos loiros capturavam a luz fria da manhã londrina, e ela trazia os óculos escuros pousados sobre o nariz fino.

Ela parou ao me ver. Os olhos verdes por trás das lentes escuras me mapearam antes que um pequeno franzir de testa denunciasse a surpresa ao me ver esperando do lado de fora.

— No horário — ela comentou, parando a um passo de mim.

— Eu não me atraso, Lady Alexandra. — Abri a porta do carro para ela, inclinando levemente a cabeça. — Especialmente quando o trajeto inclui a sua companhia.

Ela soltou um suspiro controlado, mas percebi o leve rubor subindo pelo pescoço antes de ela se abaixar e entrar no veículo. O cheiro de baunilha e jasmim invadiu o espaço antes mesmo de eu fechar a porta e me acomodar ao seu lado no banco traseiro.

O espaço confinado do carro tornou a atmosfera instantaneamente densa. Sentado a centímetros dela, eu conseguia sentir o calor que o corpo dela emanava.

O maldito perfume dela, aquela fragrância tomou o espaço fechado do carro. Fechei os olhos e me concentrei para pensar em qualquer outra coisa.

— Algum problema? — perguntou.

— Nenhum.

— Está franzindo a testa.

— Estou pensando.

— Seu motorista é sempre assim, silencioso? — ela perguntou, olhando para Harry pelo espelho.

— O trabalho de Harry é dirigir e garantir que ninguém chegue perto do que é meu — respondi com a voz tranquila, mas carregada de intenção. — Ele é muito bom no que faz.

Alex virou o rosto para me encarar.

— Eu não sou sua, Voss.

— É parte do nosso acordo que as pessoas achem que você está sob minha tutela, Alexandra. Vamos começar a treinar essa narrativa desde já.

— Parte de mim achou que estivesse blefando.

— Você vai descobrir que não faço isso com frequência.

— Que pena. Poderia tornar você mais interessante.

Meu olhar se fixou em Alexandra, que sorriu e voltou sua atenção para o celular

Bruxa.

Eu tinha trabalho suficiente no celular para ocupar duas pessoas durante uma semana. Ainda assim, descobri que era impossível ignorar completamente a mulher sentada ao meu lado, quando eu sabia exatamente qual era o gosto dos seus lábios.

Não ajudava que Alexandra tivesse o hábito de morder discretamente o lábio inferior enquanto lia alguma coisa.

Na terceira vez, desviei o olhar para a janela. Ridículo. Eu queria Kali. Tinha certeza disso. Alexandra era apenas atração. Uma atração forte, inconveniente e aparentemente persistente, mas nada além disso.

Meu corpo não precisava estar de acordo com meus planos. Precisava apenas obedecer.

— Você falou com ela?

Olhei para Alexandra.

— Quem?

Ela ergueu as sobrancelhas.

— A mulher para quem eu aparentemente vou dedicar minhas noites pelas próximas semanas.

— Ainda não. Mas irei falar hoje.

— Nós combinamos.

— E ela vai concordar.

Alexandra soltou um suspiro.

— Coitada dessa mulher.

— Ela gosta de mim.

— Tenho certeza de que todos nós temos defeitos.

Harry tossiu no banco da frente e eu sabia que era uma risada.

— Alguma coisa engraçada? — perguntei.

— Absolutamente nada.

Alexandra sorriu para ele.

Traidor.

A viagem até o Greystone London levou vinte minutos. Quando o carro encostou na entrada principal do hotel, o carregador de malas e o maître do restaurante externo congelaram por meio segundo ao verem o SUV preto.

Eu saí primeiro e estendi a mão para Alex. Ela hesitou por um segundo antes de aceitar meu toque. Sentir a mão macia dela sobre a minha fez meu maxilar travar por um instante, mas mantive a postura impecável.

Caminhamos juntos em direção à entrada do hotel. Funcionários, hóspedes da alta sociedade e dois fotógrafos de colunas sociais que frequentemente rondavam a área nobre de Mayfair registraram a cena. Alexandra Greystone, a herdeira do ducado, chegando ao hotel da família ao lado de Lucian Voss, o magnata do entretenimento com passado sombrio.

A primeira semente da notória dúvida estava oficialmente plantada. Robert Pond saberia antes do almoço que Alex não estava mais desprotegida.

A tarde reservava a parte mais difícil da minha estratégia: convencer Kali.

Encontrei-a em um café tranquilo perto de seu novo apartamento. Quando me sentei à mesa e apresentei a ideia das "aulas de mentoria e transição social" com Alexandra Greystone, Kali ficou em silêncio por longos dez segundos.

Então, ela soltou uma risada seca e cruzou os braços.

— Você só pode estar brincando comigo, Lucian.

— Estou falando absolutamente a sério.

— Uma mentora aristocrática? A filha de um Duque? — Ela ergueu a sobrancelha, os olhos escuros e afiados cravados nos meus. — Desde quando você se importa com aulas de etiqueta para mim? Você quer que uma loira aristocrata me ensine a andar como se eu tivesse um cabo de vassoura preso nas costas?

— Não é sobre andar com cabo de vassoura, Kali — expliquei pacientemente, apoiando os braços na mesa. — É sobre você entrar em qualquer sala daquele conselho de administração e saber exatamente como desarmar qualquer elitista babaca antes que ele tente te diminuir. Alexandra nasceu naquele meio. Ela conhece os códigos. Ela pode te dar em poucas semanas o que a faculdade não te deu.

Kali estreitou os olhos, estudando meu rosto com uma precisão assustadora.

— Lucian... — ela disse devagar, a voz carregada de desconfiança. — O que você está aprontando? O que essa mulher realmente quer com você? Porque homem nenhum inventa um plano desse sem um segundo interesse e não imagino que mulheres aristocratas tenham como hobby ensinar pobres mortais a sobreviver num jantar.

Passei a mão pelo queixo, sustentando o olhar dela sem piscar.

— Nós temos um acordo mútuo, Kali. Eu a ajudo com um problema, e ela me ajuda garantindo que você tenha as melhores ferramentas para o seu futuro. Aceite a mentoria. Faça isso por você, não por mim.

Kali franziu os lábios, pesando minhas palavras. Ela não era boba; sabia que havia camadas que eu não estava revelando. Mas era inteligente demais para recusar uma oportunidade prática de crescimento.

— Só estou tentando imaginar como você conheceu Lady Alexandra Greystone entre anteontem e hoje e já chegou ao ponto de trocar favores pessoais com ela. — Ela cedeu por fim, apontando o dedo para mim. — Se essa mulher for uma esnobe insuportável, eu caio fora no primeiro dia.

— Ela não é esnobe — afirmei, a imagem de Alex e de sua audácia voltando imediatamente à minha mente. — Ela é só... perigosa à própria maneira.

Às vinte horas, busquei Alexandra em seu apartamento.

Ela desceu usando uma calça pantalona preta e uma blusa de seda creme, um terno leve nos ombros. A simplicidade refinada da roupa apenas destacava a beleza natural que ela parecia carregar sem esforço.

O trajeto até o apartamento de Kali foi silencioso. Alexandra mantinha a postura ereta, mas vi quando ela flexionou os dedos no colo, denunciando um leve nervosismo.

— Ela sabe quem eu sou? — Alex perguntou quando estacionamos.

— Sabe. E ela é tão teimosa quanto você, então boa sorte — respondi, abrindo a porta para ela.

Subimos pelo elevador do prédio residencial moderno em Soho. Quando bati à porta, Kali abriu quase imediatamente.

O impacto cultural foi quase palpável no ar.

De um lado, Alexandra: loira, alta, aristocrática, exalando a sofisticação secular do sobrenome Greystone. Do outro, Kali: de ascendência indiana, perfeitamente postada em roupas confortáveis de alfaiataria, olhar sério, denso e analítico.

As duas se mediram por dois longos segundos. A tensão no corredor era quase elétrica.

— Alexandra, esta é a Kali Kane — apresentei, quebrando o gelo. — Kali, Lady Alexandra Greystone.

— Apenas Alexandra, por favor — disse Alex, dando um passo à frente com um sorriso elegante e estendendo a mão. — É um prazer conhecer você, srta Kane.

Kali olhou para a mão estendida por um milésimo de segundo antes de apertá-la com firmeza.

— Kali é suficiente. Entre.

Entramos na sala iluminada. Decidi permanecer nos primeiros vinte minutos para garantir que o ambiente não virasse um campo de batalha. Sentei-me em uma poltrona no canto da sala, observando em silêncio.

O que vi nos minutos seguintes me fascinou de um jeito que eu não esperava.

Alexandra não agiu como uma professora condescendente ou uma aristocrata ensinando boas maneiras a uma camponesa. O profissionalismo dela foi impecável. Ela se sentou no sofá oposto a Kali, cruzou as pernas com elegância natural e começou a conversar não sobre talheres ou postura, mas sobre presença de poder.

— Etiqueta não é sobre agradar os outros, Kali — disse Alex, a voz calma e clara. — É sobre ocupar espaço sem pedir licença. É sobre dominar os códigos do ambiente para que ninguém possa usar a ignorância deles contra você.

Kali, que começara a reunião com os braços cruzados e o queixo erguido na defensiva, aos poucos começou a descruzar as mãos. A inteligência da garota percebeu imediatamente o valor estratégico do que Alexandra estava ensinando.

Havia faíscas veladas no ar, o choque entre a determinação bruta de Kali e a elegância lapidada de Alex, mas era uma faísca de respeito mútuo em construção.

Fiquei ali, em silêncio, observando a forma como Alexandra se movia, como usava as mãos para enfatizar as palavras, a firmeza nos olhos verdes e a inteligência afiada por trás do rosto angelical.

Maldita bruxa.

Ela estava no controle absoluto da sala, e eu, um homem que raramente tirava os olhos do objetivo principal dos meus negócios, me peguei completamente hipnotizado por cada gesto dela.

Levantei-me devagar, ajustando meu paletó.

— Vou deixá-las a sós — anunciei, chamando a atenção das duas. — Volto em uma hora para levar você para casa, Alexandra.

Alex ergueu os olhos para mim. Havia um brilho desafiador e satisfeito naqueles olhos verdes.

— Estaremos prontas, Voss — ela disse, um pequeno sorriso surgindo no canto da sua boca macia.

Saí do apartamento e encostei na parede do corredor, soltando o ar devagar. Passei a mão pelo rosto, sentindo o pulso acelerado.

Robert Pond não sabia o erro catastrófico que cometera ao cruzar o caminho daquela mulher. E eu estava prestes a descobrir que aceitar Alexandra Greystone na minha vida seria o negócio mais perigoso que já fiz na vida.