Acordos Imprudentes
7 ALEX
O som da porta do apartamento se fechando atrás de Lucian pareceu levar embora metade da tensão sufocante que preenchia a sala.
Voltei meu olhar para Kali. Ela continuava sentada no sofá, a postura ereta, as mãos cruzadas sobre o colo de forma quase defensiva e aqueles olhos escuros e afiados me analisando sem qualquer pudor.
— Ele faz isso sempre? — perguntei.
— O quê?
— Entra em um lugar, reorganiza a vida de todo mundo e vai embora como se tivesse acabado de resolver uma fusão empresarial.
Kali soltou uma risada. Foi a primeira vez que a vi realmente relaxar desde que eu tinha chegado.
— Ele é sutil como um trator — Kali comentou, a voz calma — Você sabe disso, não sabe?
Soltei uma risada baixa, desfazendo a postura rígida de professora e me acomodando de forma mais relaxada no estofado.
— Eu percebi. Mas você tem que admitir que ele foi persistente.
— Ele acha que resolve qualquer problema do mundo com planejamento e uma boa dose de teimosia — ela respondeu, embora houvesse um carinho inegável no tom em que falava dele. — Mas agora que estamos a sós: você realmente pretende me ensinar qual garfo usar para comer peixe?
Ela inclinou a cabeça, analisando meu rosto.
— Nem pensar — declarei, balançando a cabeça. — Você se formou em Administração, Kali. Sabe analisar balanços, gerenciar equipes e tomar decisões estratégicas. Se alguém em um jantar da alta sociedade tentar diminuir você porque você usou o talher errado, o problema não é a sua falta de etiqueta. É a arrogância da pessoa.
Os olhos de Kali brilharam com uma fagulha de surpresa. Ela lentamente descruzou os braços.
— Então qual é o plano aqui?
— O plano é ensinar você a ler as pessoas daquele meio como você lê um relatório financeiro — expliquei, debruçando-me um pouco para a frente. — Aristocratas e herdeiros vivem de aparências e códigos não ditos. O segredo não é tentar se moldar para caber no mundo deles. É saber exatamente onde pisar para fazer com que eles respeitem a sua presença.
Nos quarenta minutos seguintes, a aula fluiu com uma facilidade surpreendente. Kali era absurdamente brilhante. Ela não precisava de um manual de boas maneiras; precisava apenas desarmar aquela sensação subterrânea de inadequação que Lucian, mesmo tentando ajudar, havia alimentado sem querer ao tratá-la como alguém que precisava de proteção constante.
— Ele é exagerado comigo — Kali acabou confessando enquanto tomávamos água na cozinha. — Lucian é praticamente um irmão para mim. Crescemos juntos, passamos pelo pior juntos. Mas ele confunde o dever de me proteger com me blindar do mundo. Ele me ofereceu uma diretoria na empresa dele, mas eu recusei. Preciso de um lugar onde possa crescer por mérito próprio, sem o favoritismo dele. Quero uma colocação onde meu trabalho fale por mim.
A minha mente de executiva fez a conexão antes mesmo que eu pudesse conter o pensamento.
Brilhante. Graduada em Administração. Focada. Sem paciência para futilidades.
Ela era a resposta exata para o caos que Margaret causava na agenda do meu irmão. A assistente executiva perfeita para Benedict Greystone.
Guardei a ideia comigo, mantendo um sorriso discreto.
— Você vai encontrar o lugar certo, Kali. Tenho certeza disso.
Quando o interfone tocou pontualmente uma hora depois, soube que a minha carona havia chegado. Me despedi de Kali com um aperto de mão firme que rapidamente se transformou em uma promessa de nos vermos na noite seguinte. Havia um respeito mútuo nascendo ali, genuíno e inesperado.
Desci pelo elevador e encontrei Lucian encostado no SUV preto, a imagem impecável do poder e do controle.
— Sobreviveram? — ele perguntou, abrindo a porta do carro para mim.
— Surpreendentemente, sim — respondi, entrando e me acomodando no banco de couro.
Lucian se sentou ao meu lado e o carro deu partida. O silêncio que se instalou no espaço confinado do veículo era denso, carregado daquela tensão magnética que teimava em existir toda vez que ficávamos a menos de um metro de distância.
O carro estava mais silencioso à noite, talvez porque não houvesse Harry. Eu não sabia por que achei estranho descobrir isso.
Provavelmente porque homens como ele pareciam pertencer ao banco traseiro de SUVs pretos dando ordens pelo telefone. Mas Lucian dirigia bem. Calmo, com uma mão sobre o volante e a outra ocasionalmente repousando perto da marcha.
Eu deveria estar olhando para a rua. Não para as mãos dele.
Eu sentia o olhar dele em mim. Olhei de lado, encontrando os olhos verdes atentos na penumbra do carro.
— Você está muito pensativa, Alexandra — ele provocou, a voz grave caindo suavemente no ambiente. — Ou está apenas me admirando em silêncio?
— Estou tentando decidir se você é apenas arrogante ou se é um traço clínico — retruquei, sustentando o olhar dele com um sorriso de canto. — Mas, para sua informação, a aula foi excelente. Kali é incrível.
— Eu sei que ela é.
Observei o perfil dele por um momento. A cumplicidade, a confiança cega e o carinho que ele demonstrara por Kali durante todo o dia me atingiram de um jeito estranho. Uma pontada sutil e incômoda se fez presente no meu peito. Qual seria a verdadeira natureza daquele vínculo? Era apenas fraternidade ou havia sombras de um sentimento não resolvido ali?
Antes que eu pudesse me aprofundar nessa linha perigosa de raciocínio, o carro dobrou a esquina do meu prédio.
O que Lucian e Kali eram ou deixavam de ser não dizia respeito a mim. Ainda assim...
— Você quer casar com ela? — A pergunta saiu antes que eu pudesse impedir. Merda. Lucian virou o rosto rapidamente. — Posso fingir que não perguntei.
— Quer? — Não respondi. Lucian olhou para mim antes de continuar. — Kali e eu temos história. Confiança. Conhecemos as piores versões um do outro.
— Romântico.
— Não parece?
— Parece currículo para sociedade empresarial.
A boca dele se curvou.
— Ela disse quase a mesma coisa.
— Mulher inteligente.
— Chegamos — Lucian anunciou, tirando-me dos meus pensamentos.
— Obrigada pela carona, Voss — disse, pegando minha bolsa.
— Vejo você amanhã às oito, Lady Alexandra.
Saí do carro e caminhei até a entrada do prédio, sentindo o olhar dele queimando nas minhas costas até que as portas de vidro se fechassem.
⸻
Na manhã seguinte, eu estava no meu escritório revisando relatórios quando a porta se abriu e Benedict entrou sem bater. Começava a identificar um padrão preocupante nos homens da minha vida.
Levantei os olhos do computador.
Ele não parecia o executivo calmo de sempre. Trazia os braços cruzados, a expressão severa e a aura protetora de irmão mais velho ligada no nível máximo.
— Você e Lucian Voss? — Ben disparou, parando diante da minha mesa. — Sério, Alex?
Suspirei, encostando as costas na cadeira.
— Bom dia para você também, Ben.
— Não mude de assunto. Chegaram comentários ao meu escritório de que vocês foram vistos juntos na entrada do hotel ontem de manhã. E já estão começando a especular. O que você está fazendo saindo com um homem como ele?
— Lucian é um empresário legítimo, Ben — respondi, mantendo a voz calma para não inflamar a situação. — Nós estamos nos conhecendo. Ele carrega o estigma do passado do pai dele, mas ele não é o pai. Ele limpou os negócios da família e construiu um império do zero. E você não é meu pai.
— Graças a Deus. Papai seria muito menos delicado.
Ben franziu a testa, visivelmente insatisfeito, mas a menção ao tino comercial de Voss fez com que ele não pudesse rebater de imediato.
— Mesmo assim — Ben apontou —, a reputação dele não é das mais limpas no nosso meio. E por falar nisso, no sábado haverá o jantar beneficente da associação de hotelaria na propriedade dos Cavendish. Voss quase nunca comparece a esses eventos, mas a empresa dele está na lista de convidados. Já que vocês estão tão próximos, você deveria levá-lo. Seria uma boa oportunidade para eu ver com meus próprios olhos quem ele é de verdade.
Engoli em seco. Sábado.
— Vou ver se a agenda dele permite — desconversei, escondendo o pânico súbito.
Agora eu tinha um problema novo: convencer Lucian Voss a aparecer voluntariamente em uma gala da alta sociedade britânica, cercado por gente que ainda cochichava sobre o passado da família dele.
Antes que Ben mudasse de assunto, decidi jogar a minha cartada.
— Ah, e sobre a sua busca por uma assistente executiva... acho que encontrei a pessoa ideal para ser sua.
Ben piscou, pego de surpresa pela transição rápida.
— Minha o quê?
— A pessoa que vai salvar você e Margaret.
— Encontrou? Onde você a conheceu? Quem é ela?
— O nome dela é Kali — disse, mantendo um tom misterioso e seguro. — Ela é formada em Administração, extremamente competente, rápida e não tem medo de trabalho duro. Ela é exatamente o que você precisa para colocar ordem na sua rotina e na Margaret.
— Mande o currículo dela para o RH — Ben disse, voltando ao tom corporativo. — Eles fazem a triagem inicial.
— Não — interrompi firme. — Você vai fazer a entrevista diretamente com ela, Ben. Acredite em mim: assim que você conversar com ela por cinco minutos, vai querer contratá-la na hora.
Benedict me encarou por alguns segundos, tentando decifrar o meu entusiasmo, antes de soltar um suspiro derrotado.
— Tudo bem. Marque para segunda-feira à tarde no meu escritório. Mas se ela não for tudo isso que você está dizendo, Alexandra, a culpa é sua.
— Você vai me agradecer depois — sorri, vendo-o se virar e sair da sala.
Uma hora após Ben ter fechado a porta, a maçaneta girou de novo com uma violência que me fez sobressaltar.
Dessa vez, era Eva.
Fechei os olhos. Não. Recusei-me a acreditar. O que era isso? Uma intervenção?
— Se você também veio falar sobre Lucian Voss, pode dar meia-volta.
— Ah, então nós vamos falar sobre Lucian Voss.
Abri os olhos para encarar a sua expressão, que era um misto de fúria cômica e indignação pura. Ela nem sequer se deu ao trabalho de encostar a porta; caminhou até a minha mesa com passos firmes, apontando um dedo acusador na minha direção.
Se Benedict tinha entrado com a expressão severa de um irmão mais velho preocupado, minha irmã gêmea parecia pessoalmente ofendida.
— Você é uma canalha, Alexandra Greystone.
Suspirei, jogando a caneta sobre a mesa.
— Ninguém mais dá "bom dia" nessa família?
— Não venha com "bom dia"! — Eva encostou as duas mãos na minha mesa, debruçando-se sobre ela. — Ontem você me largou no meio do almoço dizendo que precisava "resolver uma coisa urgentíssima". Deixou seu prato pela metade, me largou falando sozinha sobre o inverno de Nova York e sumiu. E hoje? Hoje eu chego na diretoria e descubro pela fofoca do corredor que você está de namorico com Lucian Voss?!
— Não é namorico...
— Alexandra! — Eva me interrompeu, arregalando os olhos verdes idênticos aos meus. — O homem veio te buscar no seu apartamento! Vocês entraram juntos na recepção do hotel ontem de manhã como se fossem um casal! O Ben acabou de sair daqui soltando fumaça pelas orelhas! E você não me contou nada? Aparentemente decide esconder que está saindo com o cara mais perigosamente atraente e misterioso da cidade!
— Está exagerando. Herdeiro do submundo? Meu Deus, Eva, você anda lendo tabloides demais.
— Estou? — Eva puxou a cadeira que Benedict acabara de deixar e sentou-se. — Porque, pelo que me lembro, eu perguntei quem era Lucian Voss e você respondeu "ninguém".
Senti minhas bochechas esquentarem. Tentar esconder coisas de Eva era o mesmo que tentar tapar o sol com a peneira.
— Nós não estamos namorando — expliquei, baixando a voz. — É uma aliança... um negócio.
Eva ergueu uma sobrancelha, totalmente descrente, cruzando os braços sobre o peito.
— Um "negócio" que envolve ele segurar a sua mão na entrada do hotel e te trazer para o trabalho no carro dele? Alex, por favor. Eu vi como você ficou quando a recepção anunciou o nome dele no nosso almoço. Você parecia prestes a ter uma parada cardíaca ou a arrancar as roupas dele ali mesmo. E agora o Ben disse que você vai levá-lo no jantar dos Cavendish no sábado? E eu precisei descobrir tudo isso com outras pessoas. — Agora o humor desapareceu um pouco da voz dela. — Sua própria irmã.
— O Ben sugeriu, eu não prometi nada! — retruquei, cobrindo o rosto com as mãos por um segundo. — Eva, por favor, não surta. É complicado. Não estou escondendo nada de você.
Eva apenas me olhou feio, me fazendo admitir:
— Certo. Estou escondendo algumas coisas.
A fúria deu lugar àquela curiosidade aguçada e analítica que só ela tinha.
— Eu não estou surtando. Estou surpresa — ela admitiu, a voz ficando um pouco mais suave, embora o olhar continuasse afiado. — Você passa meses fugindo de qualquer investida social, se tranca no seu apartamento, e de repente reaparece de braço dado com o herdeiro do submundo de Londres? O que está acontecendo de verdade, Alex? Isso tem a ver com aquele seu semblante preocupado das últimas semanas?
Engoli em seco. O olhar de Eva lia através das minhas mentiras com uma facilidade assustadora. Por um segundo, tive vontade de desabafar, de contar sobre Robert Pond, sobre as flores, sobre o medo de perder minha independência. Mas envolver Eva significava fazer ela se preocupar com um problema que já tinha solução, e ela seria capaz de adiar sua mudança ou os aspectos da sua vida por problemas que eram meus.
— Ele está me ajudando a resolver uma situação discreta — disse, escolhendo as palavras com cuidado. — E, em troca, estou ajudando ele com uma questão pessoal. É uma troca de favores.
Eva estreitou os olhos, me estudando por longos segundos.
— Uma troca de favores com Lucian Voss... — ela murmurou, um sorriso brincalhão voltando ao canto dos seus lábios. — Se cuida, Alex. Esse homem tem cara de quem cobra juros altos. E você não me abandone no almoço de novo, ou eu mesma conto para o papai que você tem um acompanhante para o fim de semana.
— Você não se atreveria.
— Teste para ver — Eva piscou, levantando-se da cadeira. — Eu ainda estou furiosa porque você beijou um homem daqueles e não me contou.
Soltei uma gargalhada.
— Um homem daqueles? E eu nunca te disse que o beijei.
— Eu tenho internet, Alexandra. Quero ver de perto se ele é tudo isso mesmo. E sobre o beijo, você nem precisa contar, está na sua cara.
Dessa vez foi a minha vez de olhar feio para Eva, que não se abalou.
— Benedict já decidiu que vai interrogá-lo sábado. Não preciso transformar isso numa reunião familiar.
— Ah, eu definitivamente vou nesse jantar.
Quando ela finalmente saiu, rindo da minha cara, encostei a cabeça na poltrona e olhei para o teto.
Eu tinha um plano de contratação em andamento, uma irmã me chantageando, um stalker sendo monitorado por uma sombra na rua e uma tarefa quase impossível pela frente: convencer o insuportável e atraente Lucian Voss a ser meu acompanhante de luxo no sábado à noite.
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