Acordos Imprudentes
8 LUCIAN
Às dezenove horas em ponto, o SUV estacionou em frente ao Greystone London.
Eu estava no banco traseiro observando a saída do hotel quando Alexandra apareceu. Ela sempre parecia estar confortável em suas roupas, uma combinação que misturava a elegância aristocrática com uma atitude afiada.
Quando abri a porta para ela, percebi imediatamente a mudança no seu ar. Os ombros estavam levemente rígidos, os dedos tamborilavam na alça da bolsa e os olhos verdes varriam o interior do carro com uma hesitação que não era comum nela.
Nos últimos dias, eu aprendera algumas coisas sobre Lady Alexandra Greystone. A primeira era que ela tinha uma resposta para tudo. A segunda era que o silêncio não fazia parte de seu repertório quando estava comigo.
Naquela quarta-feira, porém, ela estava olhando pela janela havia tempo demais.
— Algum problema? — perguntei assim que ela se acomodou e a porta se fechou. — Pond deu algum sinal?
— Não — disse ela, ajeitando o vestido sobre as pernas. Só então relaxei um pouco, mas ela continuou: — Não tem a ver com Robert. Tem a ver com você.
Ergui uma sobrancelha.
— Comigo?
Ela respirou fundo, encarando-me de frente. Harry dirigia em silêncio no banco da frente, mas eu sabia que estava ouvindo cada palavra.
— Sábado à noite. O jantar beneficente da associação de hotelaria na propriedade dos Cavendish. Eu preciso que você vá comigo.
A resposta saiu automática, seca e sem hesitação:
— Não.
Alexandra nem piscou.
— Você nem ouviu o motivo.
— Não preciso ouvir — respondi, apoiando o cotovelo na porta e encarando-a. — Eu odeio aquele circo. Não tenho interesse em passar três horas em um salão cheio de velhos aristocratas olhando para mim como se eu fosse roubar os talheres de prata por causa do sobrenome do meu pai. Não sou troféu de exibição para a alta sociedade de Mayfair, Alexandra.
— Não estou pedindo para você ser meu troféu, Voss — ela rebateu, a voz mantendo um tom calmo, porém perigosamente persuasivo. — Estou pedindo para usarmos o nosso acordo da forma mais eficiente possível.
Alexandra respirou fundo, cruzou as pernas e se virou para mim, aproximando-se alguns centímetros no banco traseiro.
— Benedict e minha irmã gêmea, Eva, já sabem que estamos sendo vistos juntos. O boato correu o hotel inteiro ontem. Meu irmão basicamente exigiu que eu te levasse ao jantar para avaliar quem você é. Se nos recusarmos a ir juntos, você acha que Robert Pond vai acreditar que estamos realmente próximos? Se o objetivo é fazer com que ele recue achando que estou sob a sua proteção, aparecer de braço dado com você na gala mais importante da temporada é o golpe de misericórdia.
Sustentei o olhar dela. Ela tinha um ponto comercial e tático irrefutável.
— Além disso... — Alexandra continuou, um sorriso de canto provocativo surgindo em seus lábios — o convite se estende a acompanhantes. Kali vai com a gente.
Dessa vez, fiquei em silêncio.
— Você me contratou para preparar Kali para aquele mundo, não foi? — disse ela, usando minhas próprias palavras contra mim de maneira brilhante. — Pois bem. Quarta e quinta serão teoria. Sábado será a aula prática. Você queria que eu preparasse Kali para esse mundo? Então ela precisa entrar nele. E não existe teste melhor do que um evento dos Cavendish.
Encarei Alexandra por longos segundos. A bruxa sabia exatamente como jogar. Usara o meu próprio argumento sobre Kali e a lógica do nosso pacto de proteção para me encurralar.
— Você é terrivelmente manipuladora — murmurei.
— Não seja dramático.
Soltei uma risada sem humor.
— Você está me convidando para entrar voluntariamente numa propriedade cheia de aristocratas que passaram os últimos quinze anos cochichando que meu pai lavava dinheiro para criminosos e eu sou dramático?
— É exatamente por isso que você deveria ir.
Franzi a testa. Alexandra me observava e não havia pena em seu rosto.
— Por quê?
— Porque não comparecer não impede ninguém de falar sobre você.
Aquilo me fez ficar quieto.
— Você construiu tudo o que tem apesar do seu pai — ela continuou. — Não vejo por que deveria continuar deixando pessoas que não fizeram metade do que você fez decidirem quais ambientes você pode frequentar.
Meu maxilar travou.
— Cuidado, Alexandra.
— Com o quê?
— Está começando a parecer que me admira.
Um sorriso apareceu lentamente na boca dela.
— Não estrague o momento. Eu sou executiva, Voss. Uso as ferramentas que tenho — ela sorriu, triunfante. — Isso é um sim?
— Isso é uma concessão calculada — respondi, inclinando-me ligeiramente na direção dela. — Mas com uma condição.
Alexandra ergueu a sobrancelha, sem se mover um centímetro para trás.
— Que condição?
— Se eu vou entrar naquele salão de braço dado com você para fazer a alta sociedade engolir o meu nome, nós vamos fazer isso direito. Quero que esse tal de Pond e qualquer outro curioso no recinto acreditem que essa história entre nós é real.
— E como pretende fazer isso?
— Você não vai reclamar da maneira como eu precisar tocar em você para tornar isso convincente.
Alexandra prendeu o ar por um segundo. A fresta de hesitação em seus olhos verdes durou o tempo de uma batida de coração antes que ela recuperasse o controle. Os olhos dela desceram por um instante até minha boca.
— Que conveniente — ela aceitou, o tom aveludado e o olhar sustentado. — Desde que não tenha escândalos.
— Eu não faço escândalos, Alexandra. Faço declarações.
Ela soltou uma risada baixa, mas não teve tempo de responder. No banco da frente, Harry pigarreou, quebrando o ar denso que havia se formado na cabine.
— A propósito, chefe — a voz de Harry soou neutra pelo retrovisor. — O levantamento sobre Sir Edward Pond e o filho está em oitenta por cento. E o Raul confirmou que o sujeito esteve rondando a rua do apartamento da Lady Alexandra por volta das seis da tarde.
O sorriso no rosto de Alex desapareceu instantaneamente. Senti a mudança na postura dela antes mesmo de olhar; os ombros voltaram a ficar rígidos.
— Ele tentou alguma coisa? — perguntei, a voz caindo numa calmaria fria e perigosa.
— Não. O Raul estacionou o carro de forma ostensiva na esquina oposta. Provavelmente Pond percebeu que havia segurança, encarou o veículo por alguns segundos e foi embora. Ele deve saber que a área não está livre.
Olhei para Alexandra. Ela mantinha os olhos fixos nas próprias mãos juntas sobre o colo, lutando para esconder a tensão.
— Mantenha o cerco, Harry — ordenei, sem tirar os olhos dela. — Diga ao Raul para diminuir o raio de distância. Se ele der mais um passo na direção dela, não quero avisos. Quero a abordagem bloqueada antes mesmo que ele atravesse a rua.
— Entendido.
Aproximei minha mão e cobri os dedos frios de Alexandra no banco de couro. Ela não se afastou. Em vez disso, apertou minha mão com uma firmeza silenciosa que dizia muito mais do que qualquer provocação afiada.
— Ele não vai chegar perto de você — murmurei. — Sábado à noite nós encerramos essa palhaçada de uma vez por todas.
Alexandra sustentou meu olhar na penumbra do carro e, pela primeira vez desde que assinamos aquele acordo, não fez nenhuma piada sobre a minha arrogância.
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A segunda aula terminou pouco depois das nove.
Quando voltei ao apartamento de Kali, encontrei as duas sentadas à mesa da sala, cercadas por anotações, taças de vinho e uma quantidade absurda de cartões com nomes que eu não reconhecia.
Alexandra ergueu os olhos.
— Você chegou cedo.
Olhei para o relógio.
— Cheguei exatamente no horário combinado.
— Então o problema é que nós ainda não terminamos.
Kali não levantou a cabeça.
— Descobri que aparentemente existem quinze maneiras diferentes de cumprimentar alguém sem dizer absolutamente nada relevante.
— Bem-vinda à aristocracia britânica — Alexandra respondeu. — Sábado você tem prova prática.
Kali finalmente ergueu os olhos.
— Eu tenho o quê?
— Você não contou? — Perguntei.
Ela esteve ao lado de Kali por horas. Alexandra sorriu para mim. Aquela filha da puta.
— Ainda não tive oportunidade.
— Interessante. Porque teve bastante oportunidade para me colocar dentro desse plano.
Kali olhou de mim para Alexandra.
— Que plano?
— Jantar dos Cavendish — respondi.
A expressão dela morreu.
— Não.
Quase sorri.
— Foi exatamente o que eu disse.
— E olha como ele está animado agora — Alexandra comentou.
— Eu não vou a um jantar dos Cavendish.
— Vai, sim.
Kali estreitou os olhos para ela.
— Você está começando a parecer muito com ele.
Alexandra pareceu genuinamente ofendida.
— Retire isso.
— Estou falando sério.
— Eu também.
Cruzei os braços, apreciando mais do que deveria o fato de não ser mais eu o alvo daquela resistência.
Alexandra se inclinou na direção de Kali.
— Você não precisa impressionar ninguém. Só precisa colocar em prática o que conversamos. Eu vou estar lá. Lucian vai estar lá. Se depois de uma hora você quiser ir embora, eu mesma arranjo um carro para você.
— Uma hora — Kali decidiu. — Depois eu posso ir embora.
— Combinado — Alexandra respondeu.
— E nada de me abandonar para ficar de namorico com ele.
Alexandra engasgou surpresa com a frase de Kali.
— Nós não estamos de namorico.
— Claro — Kali respondeu.
Alexandra pegou a bolsa.
— Boa noite, Kali.
— Boa noite, Lady Alexandra.
— Eu retiro todas as coisas boas que disse sobre você.
A risada de Kali nos acompanhou até a porta. Aquilo deveria ter me divertido, mas não me divertiu.
Enquanto Alexandra caminhava alguns passos à minha frente em direção ao elevador, a palavra usada por Kali permaneceu incomodamente presa na minha cabeça.
Namorico.
Era curioso que ela tivesse chegado àquela conclusão. Ou talvez não fosse. Durante os últimos dois dias, eu buscara Alexandra em casa, a levara para o trabalho, aparecera no hotel da família dela, passara a buscá-la novamente à noite e agora aceitara acompanhá-la a um dos eventos mais comentados da temporada social britânica.
Para qualquer pessoa olhando de fora, aquilo tinha uma explicação bastante óbvia.
O problema era que Kali não era qualquer pessoa olhando de fora. Era justamente a mulher que eu pretendia convencer a olhar para mim de outra maneira. E eu acabara de construir, diante dela, a imagem perfeita de um homem interessado em outra mulher.
Parei diante do elevador.
Isso era um problema. Um problema perfeitamente administrável, mas ainda assim um problema.
— O que foi? — Alexandra perguntou ao perceber que eu não tinha apertado o botão.
Olhei para ela. Seus cabelos loiros caindo sobre os ombros. Boca macia que eu conhecia bem demais. Olhos verdes me observando com aquela mistura habitual de curiosidade e provocação.
Meu corpo reagiu antes que minha cabeça tivesse oportunidade de repreendê-lo. Outro problema.
— Nada.
Apertei o botão.
Alexandra entrou quando as portas se abriram e eu a acompanhei. Precisaria deixar as coisas mais claras com Kali. O que havia entre Alexandra e mim era uma encenação necessária para afastar Robert Pond. Uma atração inconveniente não mudava isso.
Eu queria Kali. Queria? A pergunta surgiu tão rápido que quase me irritou.
Claro que queria.
Kali era confiança. História. Família. A pessoa que permanecera quando não tínhamos mais ninguém. Eu conhecia seus medos, suas ambições, seus silêncios. Sabia exatamente quem ela era.
Alexandra era...
Olhei de lado.
Ela estava diante do espelho do elevador, passando distraidamente o polegar pelo lábio inferior enquanto verificava alguma coisa no celular.
Desviei os olhos.
Alexandra era uma complicação. Nada além disso.
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