Acordos Imprudentes
2 LUCIAN
Covarde.
Se alguém pedisse a uma dúzia de pessoas que me conheciam para listar palavras que usariam para me descrever, eu poderia apostar uma quantia considerável que covarde não apareceria entre elas.
Arrogante, talvez. Filho da puta, certamente. Ambicioso. Implacável. Intimidador. Eu já tinha ouvido todas.
Covarde, nunca.
Ainda assim, fora exatamente assim que eu havia me comportado naquela noite. Passei quase três horas com Kali. Três horas. Jantamos, conversamos sobre trabalho, discutimos um problema em um dos bares de Mayfair e até dividimos uma sobremesa que ela alegou não querer antes de comer metade da minha.
Eu tive oportunidades. Mais de uma para ser honesto.
Em determinado momento, Kali estava sentada diante de mim, os cabelos negros e grossos caindo sobre um dos ombros, os olhos castanhos tão escuros que pareciam absorver a pouca luz do restaurante, e pensei: agora.
Era só dizer. Eu queria tentar.
Queria descobrir se aquilo que existia entre nós desde que éramos praticamente crianças poderia ser alguma coisa diferente.
Alguma coisa a mais.
Então ela sorriu para mim. E eu não disse porra nenhuma.
Covarde.
Se essa palavra fosse dita a qualquer homem que já cruzou meu caminho nos negócios ou no submundo que levei anos para higienizar, o sujeito provavelmente riria antes de engolir os próprios dentes. Ninguém olharia para Lucian Voss e enxergaria fraqueza.
Passei o caminho inteiro para casa irritado comigo mesmo.
Talvez fosse por isso que, quando encontrei uma mulher esperando diante da minha casa pouco antes da meia-noite, não estivesse particularmente interessado em questionar a sorte.
Ela era a antítese absoluta de Kali.
Kali tinha pele marrom, cabelos negros e pesados, olhos castanhos profundos e uma beleza sóbria que combinava perfeitamente com a maneira reservada como ocupava o mundo.
A mulher que apareceu na minha porta era clara como a porra do dia. Loira e alta.
Bonita de um jeito que chamava atenção antes mesmo que se percebesse que ela estava tentando desesperadamente parecer mais corajosa do que se sentia.
E havia alguma coisa rebelde nela. Não saberia dizer exatamente o quê.
Talvez fosse a maneira como sustentava meu olhar apesar da tensão evidente nos ombros. Talvez fosse aquele sorriso ensaiado que ela usara para fingir que esperar quase uma hora diante da casa de um desconhecido no meio da noite era uma coisa perfeitamente razoável de se fazer.
Ou talvez fossem as palavras. Preciso de algo que você pode conseguir. Prefiro que seja a portas fechadas. Preciso que você cuide de um problema para mim.
Mulheres me procuravam.
Acontecia com frequência suficiente para que eu não fingisse surpresa ou falsa modéstia. Algumas eram discretas. Outras, nem tanto.
Nenhuma, até aquela noite, tivera a audácia de ficar esperando dentro de um carro diante da minha casa. Eu precisava reconhecer o esforço. E, depois do dia que tive, não estava com vontade nenhuma de dizer não.
Por isso a beijei.
Se ela jogou a linha com aquele olhar e aquela conversa aveludada sobre portas fechadas, eu entregaria exatamente o que ela parecia ter ido buscar antes de mandá-la de volta para a noite.
A loira correspondia com uma intensidade que quase me fez esquecer que tinha chegado em casa cansado.
Minha mão envolveu a cintura dela, sentindo a textura do couro da sua saia, e a puxei contra o meu corpo, enquanto a boca dela se movia contra a minha. Sua boca era quente, macia e incrivelmente responsiva.
Não houve hesitação depois da surpresa inicial. Seus dedos agarraram meus ombros e ela inclinou o rosto, aceitando o beijo quando aprofundei o contato.
Tinha gosto de alguma coisa doce. Muito mais receptiva do que a postura defensiva que sustentara desde que eu saíra do carro fazia parecer.
Talvez a noite não estivesse completamente perdida.
Afastei minha boca da dela devagar.
Alexandra permaneceu imóvel por um instante. Os olhos ainda fechados. Respiração curta. Ela estava entorpecida. Dominada.
Sorri. Eu conhecia aquela expressão.
— Melhor? — perguntei.
Os olhos dela se abriram.
Demorou um segundo para que focassem nos meus. E então alguma coisa aconteceu. A mulher entorpecida desapareceu. Alexandra piscou, endireitou os ombros e deu um passo para trás, afastando-se das minhas mãos.
— Houve um mal-entendido.
Franzi a testa.
— Houve?
— Sim.
Ela passou a língua pelos lábios. Meu olhar acompanhou o movimento.
— Eu não sei o que você acha que sabe — continuou —, mas não tem absolutamente nada a ver com isso que você acabou de fazer.
Fiquei olhando para ela. Depois para a boca dela. Depois novamente para seus olhos.
— Você correspondeu.
As bochechas ficaram rosadas.
— Isso é irrelevante.
Uma risada escapou antes que eu pudesse impedir.
— Para mim, parece bastante relevante.
— Pois não é.
Sustentei o olhar dela, cruzando os braços sobre o peito e erguendo uma sobrancelha, genuinamente divertido. Aquilo começava a ficar interessante.
— Eu respondi à sua visita, Alexandra. Você disse que tinha algo urgente para resolver a portas fechadas.
Ela soltou uma risada curta, seca, cheia de incredulidade.
— Houve um erro grotesco de comunicação! — disse, a voz subindo um tom antes de ela se controlar e voltar ao tom aveludado, embora agora impregnado de defensiva. — Eu não sei o que você achou que eu vim fazer aqui, mas não tem nada a ver com o que você acabou de fazer.
Pisquei. O divertimento deu lugar a uma curiosidade fria.
— Ah, não?
— Não! — Ela deu mais um passo para trás, ajustando a bolsa no ombro, lutando bravamente contra o rubor que subia pelo seu pescoço. — Eu vim aqui a negócios, Sr. Voss. Negócios sérios.
— Negócios — repeti a palavra, achando a escolha de termos absurda. — A meia-noite. Na minha sala.
Ela respirou fundo. Vi quando reuniu a compostura.
— Eu já disse. Preciso que cuide de um problema.
— E aparentemente não é do tipo que eu imaginei.
— Definitivamente não.
— Uma pena. — Ela estreitou os olhos. Sorri ao perguntar. — Qual é o problema, Alexandra?
Ela hesitou. Pela primeira vez desde que entrara, a provocação desapareceu completamente de seu rosto.
— Eu preciso que você cuide de um problema para mim — ela continuou, ignorando meu tom sarcástico e adotando uma postura rígida, postura essa que parecia vir de gerações de etiqueta e privilégio. — Preciso que você tire um homem do meu caminho.
Permaneci em silêncio por um segundo, deixando a frase dela ecoar no espaço. Tirar um homem do meu caminho.
Meu sorriso morreu. Observei-a com mais atenção.
Ajustei a gola da minha camisa, olhando para a garota de saia de couro e postura impecável. A peça se encaixou na minha cabeça com uma clareza ridícula. As fofocas sobre a origem do meu patrimônio, a sombra do falecido meu pai e a sujeira que passei quase uma década limpando.
Ela achava que eu era um mafioso.
— Deixe-me ver se entendi — murmurei, a voz caindo numa calmaria perigosa enquanto segurava o riso. — Você veio à minha casa à noite, insinuou-se para entrar, me deixou te beijar... porque achava que estava contratando um matador de aluguel?
O rosto dela ferveu em um tom de vermelho vivo, mas a audácia não esmoreceu.
— Não um matador! — ela corrigiu rapidamente, gesticulando com as mãos de unhas perfeitamente feitas. — Nada tão drástico. Eu só preciso de um... um apavoramento. Algo que faça esse sujeito entender que precisa sumir da minha vida. Eu tenho dinheiro. Posso pagar o valor que você achar justo. Nomeie o seu preço para resolver o Robert Pond.
Não aguentei. A gargalhada saiu grave e solta do meu peito, ecoando pela sala moderna. Aquela mulher tinha ido à minha casa achando que eu era o Don Corleone de Londres.
— Você está rindo? — ela perguntou, os olhos verdes semicerrados em pura fúria.
— Você entra na minha casa, se comporta como uma garota de luxo, me oferece dinheiro para dar uma surra em alguém e acha que eu sou o quê? Um capanga de beco? Um bandido de aluguel? — respondi, dando dois passos na direção dela, desfazendo a pose e deixando minha presença física intimidá-la.
Ela deu um passo involuntário para trás, a mandíbula travada.
— Quando você coloca dessa forma, parece pior.
— Existe uma forma de colocar isso que pareça melhor? Você pesquisou meu endereço. Esperou sabe-se lá por quanto tempo na minha porta. Entrou na minha casa. — A cada nova frase minha ela se encolhia e parecia entender cada vez mais como sua ideia era idiota. — Me deixou beijar você.
— Isso não fazia parte do plano.
Passei a mão pela boca. Aquilo era inacreditável.
— Quem você acha que eu sou?
Ela hesitou. Foi uma hesitação curta.
— Lucian Voss.
— Muito esperta. E além do meu nome?
Silêncio. Foi aí que entendi. Os rumores. Claro.
Meu pai estava morto, mas aparentemente continuava encontrando maneiras de infernizar a minha vida.
Recostei o quadril no balcão e a observei.
— Você acha que sou algum tipo de criminoso.
— Eu não disse isso.
— Não precisava.
— Ouvi algumas coisas.
— Imagino.
— Disseram que sua família tinha... contatos. E que você sabe resolver problemas.
Soltei outra risada, dessa vez sem humor.
— Meu Deus.
— O quê?
— Você acha que eu sou o Don Corleone?
Ela fechou a cara com força.
— Eu não acho que você seja o Don Corleone.
— Que alívio.
— Acho que talvez você conheça alguém capaz de assustar um homem que precisa desesperadamente ser assustado. Eu ouvi rumores sobre a sua família...
— A minha família — interrompi, a voz cortando o ar como lâmina — não é da sua conta.
Ela empalideceu, o orgulho visivelmente golpeado. A postura fraquejou por um instante, revelando a humilhação pura.
Olhei para ela. Estava no meio da minha sala oferecendo dinheiro para que eu cometesse um crime. Depois de aparecer sem ser convidada.
À meia-noite.
E me deixar beijá-la. Era, sem dúvida, a mulher mais audaciosa que tinha entrado naquela casa. E eu já estava cansado demais para lidar com aquilo.
Caminhei até a porta e a abri de par em par, deixando o ar gélido da noite invadir a sala aquecida.
— A entrevista de emprego acabou, Alexandra. Pegue seu sobretudo e caia fora da minha propriedade antes que eu chame a segurança de verdade. Vá embora.
Ela piscou.
— O quê?
— Você ouviu.
— Nem disse quanto estou disposta a pagar.
— Não me importa.
— Todo mundo tem um preço.
Meu maxilar travou. Aquilo atingiu um lugar que ela não tinha como saber que existia.
— Eu não.
A resposta saiu mais fria do que pretendia. Ela percebeu.
— Senhor Voss...
— Lucian quando você achava que tinha vindo transar comigo. Senhor Voss agora?
O rubor voltou violentamente ao rosto dela.
— Eu não achava que tinha vindo transar com você.
— Mais um mal-entendido, então.
— Você é insuportável.
— E você ainda está na minha casa.
Apontei para a entrada.
— Porta.
Ela ficou imóvel.
— Você nem vai considerar?
— Não.
— Eu posso explicar melhor.
— Não.
— Robert...
— Não é problema meu.
Algo mudou em seu rosto. Foi pequeno. Mas vi. Por baixo da irritação e do constrangimento, havia medo.
Medo de verdade.
Por uma fração de segundo, quase voltei atrás. Então Alexandra pegou o sobretudo no encosto do sofá e o vestiu com movimentos bruscos.
— Foi uma péssima ideia vir aqui.
— Finalmente concordamos em alguma coisa.
Ela lançou um olhar que provavelmente teria matado um homem menos resistente.
— Vá para o inferno.
— Boa noite para você também.
Ela atravessou a sala. Parou diante da porta. Virou-se. Por um instante, achei que tentaria outra vez. Em vez disso, ergueu o queixo.
— Você beija bem.
Franzi a testa.
— Mas continua sendo um babaca.
A porta bateu atrás dela.
Fiquei olhando para a madeira incrédulo com o que tinha acabado de acontecer.
Caminhei até a janela da sala e vi o carro dela arrancar a toda velocidade pela rua escura, os faróis vermelhos sumindo na neblina de Londres.
Servi outra dose de uísque e encostei no balcão de nogueira. Era para eu estar irritado com a audácia daquela doida. Era para eu estar pensando no desastre que foi a minha conversa com Kali mais cedo.
Terminei o uísque e olhei para a porta novamente. Eu deveria ter esquecido aquela mulher no instante em que ela saiu.
Tinha problemas reais para resolver.
Negócios.
Kali.
A conversa que eu não tivera coragem de ter naquela noite.
E uma lista interminável de coisas mais importantes do que uma loira atrevida que aparecera na minha casa achando que eu era um criminoso de aluguel.
Subi para o quarto. Após um banho longo, estava deitado em minha cama, olhando para o teto. Fechei os olhos.
E pensei na boca dela.
— Porra.
Virei para o outro lado. Cinco minutos depois, ainda estava pensando nela.
A maciez dos lábios de Alexandra, o calor do corpo dela contra o meu e a forma desesperada como ela correspondeu ao beijo antes de perceber o ridículo da situação.
Não sabia seu sobrenome.
Não sabia de onde tinha surgido.
Não sabia por que, entre todos os homens de Londres, alguém havia colocado meu nome na cabeça dela como solução para seus problemas.
Mas sabia uma coisa.
Alexandra beijava muito melhor do que uma mulher que alegava não ter ido à minha casa para ser beijada deveria beijar.
E isso, por algum motivo, estava começando a me irritar.
Quem diabos era aquela mulher?
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