O silêncio dentro do elevador privativo parecia espesso o suficiente para ser cortado com uma faca. Eu mantinha os olhos fixos nos números que subiam no painel digital, enquanto a presença esmagadora de Lucian Voss ao meu lado preenchia cada centímetro cúbico do cabine.

Eu deveria ter levá-lo Lucian para uma das salas de reunião. Era o lugar apropriado para receber alguém com quem eu pretendia discutir negócios. Neutro, impessoal e, principalmente, sem qualquer informação sobre mim além do meu nome em uma reserva.

Em vez disso, por alguma razão que não soube explicar, apertei o botão do meu andar. Olhei fixamente para os números acima da porta, sentindo o movimento do elevador enquanto subia.

— Você está muito quieta.

— Estou tentando aproveitar.

— O quê?

— Os últimos segundos antes de você começar a falar.

Ouvi uma risada baixa.

— Você é sempre tão agradável?

— Não. Ontem eu estava muito mais agradável. Veja onde isso me levou.

Mesmo diante das minhas palavras ácidas, ele mantinha um sorriso no rosto e o fato dele não se deixar abalar por tão pouco era muito atraente.

As portas se abriram e eu saí primeiro. Meu escritório ficava no final do corredor, e agradeci silenciosamente pelos poucos metros de distância que pude colocar entre nós.

Meu escritório não era particularmente grande, mas era meu. Abri a porta, dei um passo para o lado

— Entre.

Esperei que ele entrasse antes de fechar e trancar a fechadura. Percebi o erro no instante em que a porta estava fechada. Girei sobre os calcanhares e encontrei Lucian já acomodado, parado diante da grande janela de vidro que dava para a cidade, com as mãos nos bolsos do calça de terno e uma postura irritantemente relaxada.

— Bonita vista — comentou ele, sem se virar

— Não nos trouxemos aqui para apreciar a arquitetura de Londres, Voss — respondi, indo até a minha mesa e apoiando as mãos na madeira escura. — Você tem trinta minutos. Comece a falar.

Lucian se virou devagar. Os olhos verdes varreram meu escritório, demorando-se nas fotos da minha família sobre a estante, antes de pousarem em mim com intensidade.

Meu cérebro, traidor, decidir reproduzir uma lembrança absolutamente desnecessária. A mão dele na minha cintura. A boca dele na minha. O gosto de uísque. Fiz o possível para não deixa transparecer para ele tudo o que se passava dentro da minha cabeça.

— Ontem à noite, uma mulher misteriosa apareceu na minha garagem me oferecendo dinheiro para intimidar alguém — começou ele, a voz calma e aveludada. — Hoje, estou na diretoria executiva do Greystone London conversando com Lady Alexandra Greystone. Uma transição rápida, não acha?

O fato de ele saber quem eu era não me surpreendeu; no momento em que a recepção anunciou o nome dele no saguão, eu já tinha certeza de que a busca no Google havia acontecido.

— Você investigou meu nome. Parabéns, aprendeu a usar o navegador — debochei, cruzando os braços e tentando disfarçar o desconforto de ter minha vida exposta diante dele. — O que mais descobriu? Que eu pago meus impostos em dia?

— Descobri que você é herdeira de um império hotelaria, executiva de alto nível e parte de uma das famílias mais influentes do país — Lucian deu dois passos na minha direção, a expressão perdendo o tom de deboche e assumindo uma frieza estritamente profissional. — E descobri que o motivo de você estar jogando com uma mão amarrada nas costas contra um stalker é o seu orgulho. Você não quer que o Duque descubra que sua independência em Londres tem um preço.

Atingida onde doía, travei o maxilar. Meu humor desapareceu na mesma hora e ele percebeu.

Apontei para a cadeira de frente a minha mesa.

— Sente-se.

— Você manda bastante.

— Neste prédio? — Dei a volta na mesa e o puxei minha cadeira. — Sim.

O canto da boca dele subiu. Lucian sentou diante da minha mesa e cruzou uma perna sobre a outra com uma tranquilidade irritante.

— Eu não te chamei aqui para fazer análise psicológica da minha vida familiar. Diga logo qual é a sua proposta.

Muito melhor, uma mesa inteira entre nós.

— Você me deu apenas seu primeiro nome ontem. — Lucian começou, não indo direto ao assunto.

— E aparentemente isso não foi suficiente para impedi-lo.

Voss apenas assentiu sem nenhum constrangimento. Nenhuma tentativa de disfarçar. Eu não sabia quais meios ele tinha usado para ter informações sobre a minha vida e eu não sabia como me sentir em relação a isso.

— Isso é um pouco invasivo.

Uma sobrancelha negra se ergueu.

— Você apareceu na minha casa à meia-noite.

Cruzei os braços na defensiva. Ele tinha razão quanto a isso, se fôssemos colocar na ponta do lápis e considerar quem tinha tido um comportamento pior, o meu ganhava de lavada.

— Ponto para você.

Ele se inclinou ligeiramente para a frente.

— Eu preciso de você, Alexandra.

De todas as coisas que imaginei ouvir, aquela não estava entre as primeiras cinquenta. A frase direta me pegou desprevenida, mas o olhar dele era puramente de negócios.

— Eu tenho uma pessoa... alguém extremamente importante para mim — ele continuou, a voz baixando um tom. — O nome dela é Kali. Ela é brilhante, acabou de se formar e tem um futuro gigantesco pela frente. Mas ela recusa as oportunidades que eu ofereço porque teme não pertencer ao mundo corporativo de alto padrão. Ela se sente acuada pelas regras não ditas, pela etiqueta, pela pose da alta sociedade.

Ergui uma sobrancelha, começando a entender para onde a conversa estava caminhando.

— E você quer que eu faça o quê?

— Quero que você ensine a ela — ele cravou o olhar no meu. — Quero que você seja a mentora pessoal de Kali. Ensine a ela como andar, como se vestir, como falar, como entrar em uma sala cheia de pessoas arrogantes e fazer com que todos engulam o próprio orgulho. Você nasceu e cresceu nesse meio. Para você, isso é respirar. Para ela, é um campo minado.

O inusitado da proposta me fez piscar algumas vezes.

— Você quer que eu dê aulas de etiqueta para a sua... protegida? Você sabe que existem profissionais que fazem isso, certo?

— Exatamente. E eu não quero um profissional, eu quero você.

A maneira como ele falou essa última parte enviou um arrepio por todo o meu corpo e isso me fez remexer na cadeira. Era chato como eu respondia a ele.

— E ela sabe disso? Está ciente e de acordo em ser "treinada" por uma aristocrata?

Lucian deu um sorriso de canto, um vislumbre daquela arrogância que carregava.

— Ela ficará. Eu me encarrego de convencê-la.

Ele recostou-se na cadeira, assumindo o controle do ritmo da conversa.

— A rotina será a seguinte: todas as noites, eu buscarei você no seu apartamento ou aqui no hotel e a levarei até Kali. Você passará uma ou duas horas com ela. Depois, eu a deixo em casa com segurança.

Aquilo me fez parar. Havia alguma coisa diferente na maneira como ele disse o nome dela. Eu sentia o afeto e a proteção que ele sentia por ela.

— Todas as noites? — questionei, franzindo a testa.

— E pela manhã também. Vou buscar você todos os dias para levar ao trabalho.

Dei uma risada curta, cheia de incredulidade.

— Ficou maluco? Por que diabos eu deixaria você me levar para o trabalho todos os dias?

— Porque ser vista comigo é o seu primeiro escudo — explicou ele, irredutível. — A reputação da minha família, por mais que seu meio desconfie dela, carrega um aviso implícito de perigo. Seja lá quem for Robert, se vir que você está constantemente acompanhada por Lucian Voss, ele vai pensar duas vezes antes de se aproximar. Vai achar que você está sob minha proteção ou que seguiu em frente. É muito mais eficiente do que ter um segurança de dois metros de altura fungando no seu pescoço vinte e quatro horas por dia.

Engoli em seco. Ele tinha um ponto. Ter um segurança particular atrairia perguntas dos meus pais e da imprensa no segundo seguinte. Estar acompanhada de um homem poderoso e atraente parecia apenas... uma vida social ativa. E, se os rumores que tinham me levado até a casa dele eram conhecidos por mim, provavelmente também eram conhecidos por Robert.

Talvez bastasse.

— E se isso não for suficiente? — pressionei. — Se o fato de nos verem juntos não o fizer parar?

— Se ser visto ao seu lado não resolver de imediato — a voz de Lucian caiu para um tom sombrio e perigoso —, eu mesmo irei pessoalmente ter uma conversa definitiva com ele. Primeiro você me conta quem ele é.

A segurança com que ele disse aquilo me fez estremecer sutilmente.

— Robert...

— Isso eu sei. Preciso de um pouco mais do que um primeiro nome. Aparentemente vocês, aristocratas, gostam de esconder sobrenomes.

Ignorei a provocação. Por alguns segundos, pensei em não responder, mas então me lembrei das rosas brancas. Da ligação. Você não deveria falar comigo assim.

— Muito bem — suspirei, sentindo o peso da decisão. — Agora é a minha vez de colocar as cartas na mesa. O homem que está me importunando se chama Robert Pond.

Lucian não piscou, mas vi seus olhos verdes se fixarem nos meus com uma atenção afiada. Deu para perceber que ele sabia exatamente quem era o alvo.

— Robert Pond — repeti. — Ele é filho de Sir Edward Pond, o juiz. Nós saímos uma única vez. Durante o jantar, percebi que ele era arrogante e possessivo, então simplesmente me levantei e fui embora. Desde então, virou uma obsessão. Ele não fez nenhuma ameaça física explícita ainda, nem nada que possa se considerar um crime, mas ele manda flores sem parar, envia presentes indesejados no meu trabalho, liga de números restritos e me manda mensagens dizendo que sabe onde estou. Ele está cercando a minha vida.

Lucian permaneceu em silêncio por alguns segundos, processando o nome e a estrutura por trás de Robert. O filho de um juiz renomado tinha a proteção do sistema, mas não a do submundo.

— A polícia não pode fazer muita coisa... — Quebrei o silêncio que tinha se instalado entre nós dois.

— Eu não sou a polícia.

A frase deveria ter me preocupado,mas em vez disso, senti uma quantidade vergonhosa de alívio. Lucian apoiou os antebraços sobre os joelhos.

— Um mimado que nunca ouviu um "não" na vida e acha que o sobrenome do pai o torna intocável — concluiu com a voz fria. — Entendido. Ele vai aprender que existem limites que o dinheiro do pai dele não consegue pagar. Em troca das suas aulas com Kali, eu garanto que esse sujeito vai sumir da sua vida sem que um único Greystone precise mover um dedo.

A proposta era absurda. Negociar mentoria de etiqueta em troca de proteção velada contra um stalker soava como o enredo de um romance barato. Mas encarando Lucian Voss, a postura ereta, a autoridade natural, o mistério perigoso, percebi que aquela era a única saída que preservava a minha independência.

Nenhum pai controlador. Nenhum irmão superprotetor. Nenhum escândalo nos jornais.

Apenas eu e o homem que, vinte e quatro horas atrás, tinha me dado o beijo mais perturbador da minha vida.

— Por quanto tempo nosso acordo irá durar?

— Até Kali estar confortável e até termos certeza que Pond não será mais um problema. Não dá para estipular uma data certa, mas creio que não levará mais de 8 semanas.

Pensei a respeito e aquilo soava melhor do que tudo que tinha planejado na minha cabeça antes de bater na porta dela a primeira vez. Era um acordo justo, limpo e com prazo em aberto onde os dois saíram satisfeitos.

— Começamos amanhã à noite? — perguntei, tentando manter a voz estável.

Lucian se levantou devagar, preenchendo o espaço diante da minha mesa. Ele estendeu a mão grande e firme na minha direção.

— Começamos amanhã de manhã. Eu busco você no seu apartamento às oito para trazê-la ao hotel. Esteja pronta, Alexandra.

Encarei a mão dele por um segundo. A hesitação queimou no meu peito, mas a imagem do cartão de Robert no meu balcão falou mais alto.

Estendi minha mão e selei o acordo. O toque da pele dele sobre a minha enviou uma onda de calor instantânea pelo meu braço, fazendo meus olhos subirem para os dele. Me lembrei exatamente do calor que seus dedos produziram em contato com a minha cintura.

— Negócio fechado, Voss. — Lucian soltou minha mão devagar, um sorriso lento e triunfante surgindo em seus lábios. — Mas existem regras.

— Naturalmente.

— Kali precisa concordar. Concordar, Lucian. Não ser sequestrada e colocada na minha frente.

— Isso elimina uma das minhas opções.

— Não estou brincando.

— Nem eu.

Encarei-o enquanto ele sorria, antes de seguir com mais uma das regras.

— Segunda regra: minha família não fica sabendo de Robert.

O humor desapareceu do rosto dele, que me olhou intrigado.

— Por quê?

— Isso não interessa. Essa é uma das minhas condições.

Ele analisou meu rosto, me estudando antes de apenas assentir. Ficou em silêncio, então naturalmente segui para a terceira regra do nosso acordo imprudente.

— Terceira: você não faz nada com Robert sem me contar.

— Não. — Ele respondeu rápido e de forma ríspida.

— Como é?

— Não vou prometer isso. Mas eu aviso antes de falar com ele.

Fazer qualquer coisa.

— Não vou fazer promessas que não sei se vou cumprir. Estou acatando suas regras, mas não se esqueça que você precisa muito mais de mim do que eu preciso de você.

Aquela verdade me atingiu em cheio. Se ele virasse as costas e saísse, resolveria seu problema de forma segura e prática, com o seu dinheiro, contrataria o melhor consultor que essa cidade já viu. Quanto a mim, recorreria a quem? Minhas opções eram escassas.

Com um suspiro pesado, abaixei o olhar e concordei. Quando voltei a olhar nos seus olhos, não encontrei arrogância, era algo próximo a preocupação.

— E só para você estar ciente, um dos meus seguranças estará de olho em você — avisou sério, querendo deixar claro que era algo sem margem para discussão . — Você não vai ter alguém respirando no seu pescoço. Ninguém vai entrar no seu apartamento. Ninguém vai interferir na sua rotina. Mas enquanto isso estiver acontecendo, eu quero saber que você chegou aos lugares em segurança.

A seriedade na voz dele desmontou parte do argumento que eu estava preparando. Isso fez com que eu odiasse Robert ainda mais, agora eu precisava de alguém de olho em mim o tempo todo para me sentir segura.

Parecia que realmente tínhamos um acordo firmado, então trocamos os nossos números de telefones.

Acompanhei Lucian até a porta, pensando em como tudo tinha mudado na minha vida em questão de dias.

— Foi um prazer fazer negócios com você, Lady Alexandra. Vejo você amanhã cedo.

Ele pegou minha mão mais vez e plantou um beijo nela, mas sem desviar seu olhar penetrante dos meus olhos. Ainda sentia o formigamento onde seus lábios tocaram quando ele soltou minha mão. Será que ele imaginava o efeito que causava em mim? Era uma das coisas que eu guardaria segredo.

Enquanto ele saia me dei conta de que combinamos um encontro, mas eu ainda não tinha lhe falado onde morava.

— Meu endereço é...

— Eu sei onde você mora — me interrompeu sorrindo.

Com isso ele me deu uma piscadela e saiu antes que eu sequer pensasse em uma boa resposta. Fiquei sozinha no meu escritório, olhei para a porta fechada e depois para a minha mão. Depois para a gaveta onde estava o cartão de Robert.

Naquela manhã, eu acreditava que tinha duas opções. Abrir mão da minha liberdade ou continuar olhando por cima do ombro.

Agora havia uma terceira. Um acordo com Lucian Voss. Talvez fosse uma solução. Talvez fosse apenas um problema novo.

Considerando o homem que acabara de sair do meu escritório, provavelmente era os dois