Acordos Imprudentes
1 ALEX
Notas iniciais
Eu estava prestes a cometer uma loucura. Não uma loucura no sentido figurado. Uma loucura de verdade.
Porque havia uma chance considerável de que o homem que morava naquela casa fosse exatamente o tipo de homem que eu deveria estar evitando.
E, ainda assim, ali estava eu. Sozinha. À noite.
O frio da noite de Londres parecia atravessar o tecido do meu sobretudo, mas o tremor nas minhas mãos não tinha nada a ver com a temperatura.
Eu estava parada em frente à porta imponente de uma propriedade que mais parecia uma fortaleza moderna. Uma fachada escura, linhas arquitetônicas agressivas e uma aura silenciosa que gritava uma única coisa: mantenha distância.
Em qualquer outra situação, uma Greystone saberia exatamente como se comportar. Eu fui criada para transitar por salões espelhados, jantares de gala e conversas polidas. Mas Robert Pond havia destruído qualquer resquício de normalidade na minha vida.
O que começou como um jantar desastroso, do qual saí no meio da refeição ao perceber a arrogância pretensiosa e o olhar possessivo dele, havia se transformado em um pesadelo. Flores entregues no meu apartamento sem cartão. Carros parados na minha rua a horas suspeitas. Mensagens subliminares. Robert não aceitava um "não". Para o filho de um dos juízes mais influentes da Inglaterra, uma mulher dizer que não o queria era uma afronta imperdoável.
E recorrer à polícia? Até ali, inútil. Robert sabia exatamente quais portas o sobrenome do pai abria e quais pessoas telefonar antes que qualquer denúncia minha se tornasse inconveniente para ele.
Contar para a minha família também estava fora de cogitação. Minha mãe surtaria; meu pai moveria céus e terras, e a pouca liberdade que conquistei ao morar sozinha em Londres evaporaria. Além disso, todos já tinham seus próprios fardos. Minha gêmea, Eva, estava com a cabeça e as malas prontas para se mudar para Nova York. Meu irmão mais velho, Ben, tentava equilibrar o império da família enquanto juntava os cacos do próprio coração, criando meu sobrinho de cinco anos sozinho desde a tragédia que levou sua esposa. E Sebastian... bom, Seb provavelmente estava metido em alguma confusão com a esposa de algum pobre homem e já tinha problemas suficientes para administrar.
Eu precisava resolver isso sozinha. Como uma adulta.
E foi assim que o nome de Lucian Voss surgiu nos sussurros dos bastidores de Londres.
O que se dizia sobre ele não era bonito. Homem sem escrúpulos, herdeiro de um império do submundo construído pelo pai, alguém que transitava pela lama onde os aristocratas apenas pisavam de terno limpo. Boatos diziam que ele era barra pesada, um verdadeiro criminoso refinado. Que ele conhecia pessoas que pessoas decentes não deveriam conhecer. Que, se alguém precisasse resolver um problema sem fazer perguntas, Voss era o homem certo.
Eu não sabia quanto daquilo era verdade.
Na realidade, não sabia se alguma coisa era.
Mas estava desesperada o suficiente para descobrir.
"Todo homem tem um preço", pensei, ajustando a bolsa no ombro. "Se ele é tão perigoso assim, deve saber exatamente como dar um apavoramento no filho de um juiz."
Respirei fundo, dei dois passos à frente e bati na porta de madeira maciça.
O som ecoou pesado. Esperei. Dez segundos. Um minuto. Dois minutos. Ninguém respondeu. Nem o som de passos, nem luzes se acendendo nas janelas superiores.
Soltei um suspiro de frustração, o vapor da minha respiração cortando o ar gelado. Eu poderia virar as costas, entrar no meu carro e fingir que nunca tive essa ideia absurda. Mas a simples lembrança do sorriso presunçoso de Robert no meu caminho ontem me fez dar meia-volta com ainda mais determinação.
Situações desesperadas exigem atitudes desesperadas.
Caminhei de volta até o meu carro, destravei a porta e me sentei no banco do motorista. Liguei o aquecedor, cruzei os braços e apoiei a cabeça no encosto. Eu não iria embora. Lucian Voss teria que voltar para casa em algum momento da noite e, quando voltasse, descobriria que Alexandra Greystone não era o tipo de mulher que desistia fácil.
Olhei pelo para-brisa. A casa continuava silenciosa. Grande e imponente. De algum modo, parecia tão intimidante quanto o homem que eu estava prestes a contratar.
Se ele realmente fosse tão perigoso quanto diziam, talvez fosse exatamente o que eu precisava.
Eu não precisava gostar dele. Não precisava confiar nele. Não precisava sequer saber quem ele era.
Eu precisava de alguém que fizesse Robert Pond entender que tinha escolhido a mulher errada para perseguir.
E, aparentemente, Lucian Voss tinha uma reputação excelente nesse departamento.
Os quarenta minutos arrastaram-se como uma eternidade dentro do carro. Quando os faróis duplos de um SUV preto cortaram a penumbra da rua e dobraram na garagem da propriedade, o meu coração deu um salto violento contra as costelas.
Eu não pensei. Se parasse para analisar a loucura que estava prestes a cometer, engataria a ré e fugiria. Em vez disso, abri a porta do carro de uma vez e caminhei a passos firmes antes que a coragem me abandonasse.
Peguei o homem no exato momento em que ele travava o veículo.
Eu já tinha visto fotos dele nas minhas pesquisas rasas pela internet, mas a tela de um celular não fazia justiça.
Pessoalmente, Lucian Voss era avassalador. Alto, com ombros largos que preenchiam a escuridão, tom de pele de um marrom dourado rico e um cavanhaque impecavelmente desenhado que lhe conferia uma aura perigosa e sombria. Ele vestia um terno todo preto, bem cortado, sem gravata e com os primeiros botões da camisa abertos. Cheirava a amadeirado, couro e algo perigosamente tentador.
A constatação me atingiu no peito: o primeiro verdadeiro perigo da noite seria não deixar transparecer o quanto aquele homem era absurdamente atraente.
— Lucian Voss? — soltei, mantendo o tom firme, parando a poucos passos dele.
Ele se virou devagar. Os olhos verdes, profundos e atentos, me varreram de cima a baixo sem pressa, demorando-se nas minhas pernas antes de subirem para o meu rosto. Um vinco sutil formou-se entre suas sobrancelhas.
— Em carne e osso — a voz dele era um barítono grave, levemente rouco pelo cansaço da noite. — Mas estou em desvantagem. Não costumo receber visitas femininas à meia-noite sem saber o nome delas.
Ajustei o sobretudo, dando um passo discreto à frente, estreitando a distância entre nós na garagem silenciosa. Um sorriso lento e ensaiado surgiu nos meus lábios enquanto eu sustentava o olhar dele.
— Pode me chamar de Alexandra — disse, baixando o tom de voz para algo mais íntimo, quase aveludado, deixando o ar da noite carregar minhas palavras. — E eu passei quase uma hora no frio esperando por você porque temos um assunto urgente para resolver... e prefiro que seja a portas fechadas.
Lucian ergueu uma sobrancelha, o olhar verde brilhando com uma mistura de divertimento e pura malícia masculina. Ele passou a língua pelos lábios, encarando minha boca por um segundo longo demais antes de voltar aos meus olhos.
— A portas fechadas? — ele repetiu, a voz baixando uma oitava, carregada de uma intenção perigosa.
— Sim.
— Esta hora da noite?
Franzi a testa.
— É importante.
Ele continuou me encarando.
Eu não fazia ideia do que estava passando pela cabeça dele.
Então acrescentei, tentando ser o mais direta possível:
— Eu ouvi dizer que você pode conseguir coisas que outras pessoas não conseguem.
O canto da boca dele se ergueu.
— É isso que ouviu sobre mim?
— Entre outras coisas.
— E você veio até a minha casa sozinha?
— Vim.
— Porque precisa de algo que eu posso conseguir?
— Exatamente.
A expressão dele se tornou perigosamente divertida.
— Você costuma fazer isso?
— Isso o quê?
— Aparecer na casa de homens que mal conhece à noite e dizer que precisa deles.
Meu rosto esquentou.
— Não.
— Então suponho que eu deva me sentir especial.
— Não é isso.
— Não?
— Não.
Ele deu um passo na minha direção.
— Então o que é, Alexandra?
Eu respirei fundo.
— Eu preciso que você cuide de um problema para mim.
— Você é direta, Alexandra. Gostei. — Ele se virou sem quebrar o contato visual por completo, tirando a chave do bolso e destravando a porta lateral da casa. Deu um passo para o lado, indicando a entrada escura e convidativa, enquanto um sorriso de canto desenhava-se no seu rosto. — Entre. Vamos ver do que você precisa tanto assim.
O contraste do frio de fora com o interior da casa foi imediato. O lugar era uma obra-prima de arquitetura moderna: linhas limpas, tons escuros, madeira nobre e um luxo minimalista que exalava poder sem precisar gritar.
— Luzes, trinta por cento. Lareira, ligar — a voz grave de Lucian ecoou suavemente.
Instantaneamente, a iluminação do ambiente se ajustou para uma penumbra dourada e as chamas começaram a crepitar na parede de pedra. Ver a tecnologia dobrar os joelhos aos comandos dele era meio fascinante. Dava a nítida impressão de que tudo e todos ao redor daquele homem simplesmente tinham que se curvar à sua vontade, até mesmo a inteligência artificial.
Lucian caminhou até o bar de nogueira no canto da sala, preenchendo o espaço amplo com sua presença física esmagadora. Serviu-se de uma dose generosa de uísque e virou-se para mim.
— Aceita um drink? — ofereceu, erguendo o copo de cristal pesado.
— Não, obrigada. Estou bem — recusei, mantendo a postura.
Como o ambiente interno era quente e acolhedor, desabotoei o sobretudo grosso e o dobrei sobre o encosto do sofá, revelando o que eu vestia por baixo: um suéter de tricot cinza-chumbo de gola alta, perfeitamente ajustado ao meu corpo, combinado com uma saia midi de couro preto estruturada e botas de cano alto. Nada chamativo para os padrões da alta sociedade, mas impecavelmente elegante para uma noite fria em Londres.
Os olhos de Lucian me mapearam novamente. Ele virou o resto do uísque de uma vez só, deixando o copo sobre a bancada com um estalo seco.
Ele começou a se aproximar. Cada passo dele era lento, calculado, firme, como um leão cercando uma presa que ele já considerava absolutamente garantida. O ar ao meu redor parecia ficar mais denso a cada centímetro que ele encurtava.
Parou a poucos centímetros de mim. A diferença de altura nos colocava em uma dinâmica quase hipnótica.
— Eu sei exatamente o que você veio buscar aqui, Alexandra — ele murmurou, a voz rouca caindo como um sussurro perigoso. — Sei o que você quer. Sei do que você precisa. Sei o que está procurando.
Ergui a sobrancelha, tomada por um segundo de genuína dúvida. Será que está tão na cara assim que Robert está me encurralando? Será que ele já sabe do meu problema?
— E o que exatamente eu estou procurando?
Lucian não respondeu, a mão dele subiu. Os dedos grandes e quentes envolveram meu queixo, segurando meu rosto com uma firmeza possessiva, e ele se inclinou, selando nossos lábios.
Um choque elétrico percorreu minha espinha. Não era isso que eu tinha vindo buscar. Absolutamente não.
Mas quando a boca dele pressionou a minha, meu corpo simplesmente traiu qualquer lógica. Eu correspondi.
O beijo tinha o gosto quente e amargo do uísque que ele acabara de tomar, misturado ao sabor denso e puramente dele. Não foi um beijo apressado ou desajeitado; foi um beijo sem pressa, profundo, dominador. Lucian deslizou a outra mão para a minha cintura, puxando meu corpo para mais perto, colando-nos sem deixar espaço para o ar. Os dedos dele se enterraram no couro da minha saia, aprofundando o contato enquanto meus dedos encontraram o tecido do paletó dele. Me peguei segurando os ombros largos dele, completamente tragada pela tempestade que nós dois havíamos acabado de desencadear.
Eu deveria afastá-lo.
Deveria lembrá-lo, e lembrar a mim mesma, de que eu estava ali por um motivo completamente diferente.
Mas naquele instante, com a boca dele sobre a minha, parecia muito mais difícil lembrar por que eu tinha ido até aquela casa em primeiro lugar.
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