Notas iniciais
~ Esse esta sendo especialmente dedicado a Gege. Feliz Aniversário. ~

Dezembro se iniciou com uma pequena elevação da temperatura e, apesar de Jane ainda achar impossível fazer qualquer coisa fora de casa, Elisa e Victória estavam ansiosas pelo ar livre. Dessa forma, elas optaram por pegar um trem para deixar a pequena no balé.

— Nós temos uma hora até a aula de Vicky acabar. — Elisa comentou. — Eu estava pensando que nós poderíamos escolher seu vestido de noiva. Será meu presente para você.

— Elisa, você não precisa.

— Você mesma falou que as coisas estão apertadas em casa. E eu ganho um salário, muito alto, aliás. Além do mais, Darcy não me deixa pagar nada, então quase não gasto. E em breve não gastarei nem com aluguel.

— Você irá morar com ele, Elisa? — Jane pareceu um tanto chocada.

— Claro, nós iremos nos casar, não iremos?

— Mas o casamento não é — E ela abaixou bastante a voz para dizer isto. — de mentira?

— Sim e não.

— Eu estou confusa, Elisa.

—Bom, é um casamento de conveniência, não de mentira. Nós não teremos nenhuma… Obrigação conjugal. Mas para o restante da sociedade temos que parecer casados e felizes, então moraremos juntos, mas em quartos separados.

— Isso tudo me parece uma receita para o desastre. Você ao menos gosta dele?

— Já tive companhias piores. — Elisa deu de ombros enquanto guiava ela para o atelie de madame Adeline.

— Elisa…

— Você viu o Darcy. Ele é daquele jeito. É fechado, quase… tímido? É difícil conversar com ele às vezes, mas ao mesmo tempo, ele é gentil, carinhoso e me trata sempre com bastante respeito. E… — Jane parou e a encarou. — Bem, ele não é ruim de se olhar. — Jane riu.

— Isso quer dizer que você acha o Darcy bonito?

— Isso quer dizer que eu tenho olhos. Darcy é um homem atraente.

— E grande.

— Sim.

— Lídia teria um siricutico.- Jane comentou. Elisa riu.

— Eu adoraria ver a Lídia conhecendo o Darcy. Na semana em que eu fui embora nós tivemos uma briga e ela me falou que eu só me casaria com um velho gordo verruguento.

— Ela tinha quinze anos, Elisa.

— Eu sei. Mas mesmo assim.

Jane balançou a cabeça e elas chegaram no ateliê. Madame Adeline as recebeu com toda a empolgação e Elisabeta explicou que estavam ali para ver um vestido de noiva para Jane. Entretanto, Adeline já sabia do noivado dela e de Darcy e com a insistência das duas, Elisa acabou experimentando vestidos também. Jane optou por um vestido romântico com contas e bordados e Elisa gostou de alguns, mas não amou nenhum. Prometeu voltar com Victória depois. Quando voltaram para casa, Camilo estava ansioso, esperando Jane, pois ele havia comprado ingressos para a ópera e queria jantar com ela antes. Então a Benedito se despediu dos presentes e foi se arrumar. Victória perguntou se poderia ajudar Jane com as roupas, e acabou subindo com a futura tia. Camilo se retirou em seguida, também com a desculpa de se aprontar. Elisa sentou-se no sofá e refletiu sobre a vida. Se dois anos atrás alguém lhe dissesse que estaria hoje olhando vestidos de noiva, ela riria gostosamente. Na verdade, se alguém lhe dissesse dois meses atrás, ela gargalharia. Darcy entrou na sala de estar a retirando de seus pensamentos. Ultimamente ela sempre conseguia sentir sua presença, por mais silenciosa que fosse.

— Atrapalho? — Ele perguntou.

— Não. Estava apenas… divagando. — Ela sorriu para ele. — Sente-se. Chegou cedo. Tudo bem no trabalho? Você conseguiu fechar o contrato com as importadoras? — Ele estranhou. Às vezes eles conversavam sobre o trabalho, mas era apenas para preencher o vazio, ele pensou. Nunca achou que ela realmente estivesse prestando atenção.

— Consegui sim. E me dei folga. Afinal de contas, eu promovi o Clarkson para ficar mais tempo em casa e mesmo assim estava indo ao escritório com a mesma regularidade. E como Victória adora dezembro e as festas de fim de ano, achei que fosse bom eu dedicar esse tempo a reconstruir essa lembrança. Imagino que Brianna não tenha feito isto por ela.

— Mas nós iremos. Podemos sair para escolher uma árvore, comprar enfeites…- Darcy gostou de como ela usou o termo nós, como se eles fossem uma família.

— Elisa — Ele a interrompeu — Desculpe lhe interromper, mas foi proposital, tem algo que quero lhe mostrar. Me acompanha? — Ele estendeu a mão a ela, como cortesia e ela aceitou. Nenhum dos dois sabia porque tinham feito aquilo, havia sido automático, natural. Mas uma vez que o braço de Elisa estava no de Darcy, eles acharam que seria ainda mais estranho retirá-los.

Darcy levou Elisa para a ala oeste da casa. Ela nunca tinha ido lá. Normalmente, ficava na sala de estar principal, ou na de jantar, que eram centrais. O escritório de Darcy e a cozinha ficavam na ala leste, assim como seu quarto. E o no primeiro andar, onde ficavam os quartos e a biblioteca. Por algum motivo, nunca tinha ido a ala oeste, e naquele momento reparou que Darcy e Victória também não costumavam ir. Como que se estivesse lendo seus pensamentos, Darcy falou.

— Essa ala da casa era da minha mãe. Ela tinha um quartinho de costura, um ateliê de pintura. — Ele falou apontando para as portas, até chegar num conjunto de portas duplas de cerejeira com puxadores dourados. Havia um intricado de flores esculpidos nas portas. Darcy as abriu de vez. — Essa é a sala rosa. Bom, pelo menos eu e a Charlotte a chamávamos assim quando crianças. Era de uso exclusivo de minha mãe, mas agora é sua. Eu sei que as coisas parecem meio antiquadas, mas ela não é usada há mais de 15 anos. Está tudo do jeito que minha mãe deixou. Mas sinta-se a vontade para remodelar, trocar o móveis, o papel de parede...

Ele passou a mão pelo papel de parede e Elisa deu uma boa olhada na sala. O papel de parede era antigo mas estava em bom estado. Era de um rosa pálido, com pequenas tulipas vermelhas desenhadas. Os móveis tinham um estofado de veludo azul, assim como os outros detalhes da sala. Eles não apresentavam outro sinal de idade se não o estilo, e Elisabeta automaticamente amou aquele lugar. Ela olhava ao redor e tinha uma mesa no canto, perto das grandes janelas de vidro. As cortinas estavam afastadas e ela tinha uma bela visão do jardim lateral. Darcy continuou sua explicação.

— Meu pai manteve tudo exatamente como minha mãe deixou, como uma espécie de santuário. Nós não éramos permitidos aqui. Foi especialmente difícil para Charlotte. Quando Brianna e eu nos mudamos para cá, ele a deixou mexer em tudo, exceto nessa ala, por isso parece tudo tão… fora do lugar. Quando você me pediu um lugar para escrever inicialmente pensei em comprar uma escrivaninha e colocar em seu quarto, mas então lembrei desse cômodo e achei que aqui seria perfeito. Minha mãe amava essa sala, e eu acho que ela gostaria de ver vida nela de novo. Mandei limpar tudo e encomendei uma máquina de escrever para você. Então, o que acha?

Elisabeta não queria olhar para ele, pois não queria que ele a visse chorando. Ela se emocionou pela história, pelo gesto dele, pela naturalidade com que ele lhe entregava aquela sala, e o lugar dela na casa. Existia tanto significado naquilo, ele poderia ver? Então ela fez a única coisa possível naquele momento: o abraçou. E eles ficaram abraçados por algum tempo, até a Victória aparecer dizendo que havia procurado por eles por todo lado.

— O que vocês estão fazendo na ala proibida?

— Ala proibida? — Os dois falaram ao mesmo tempo.

— Grampa Archie me dizia sempre que essa parte era proibida. Como na história da Bela e a Fera — Então ela cochichou. — Tem fantasmas, vocês não sabiam?

— Não tem fantasma nenhum. — Elisa a puxou para o seu colo. Ela era relativamente pequena para uma menina de sua idade. — E seu pai acabou de me dar essa sala de presente. Então, para inaugurar, eu pensei que cada um de nós poderíamos escolher um desses livros que pertenceram a sua avó e lermos em sua homenagem, o que acha?

E foi assim que Charlotte os encontrou quando chegou em casa. Tal qual Victória, olhou a casa inteira antes de procurar na ala oeste, e levou um susto ao encontrar as portas da sala rosa abertas. Darcy e Elisabeta estavam sentados cada um em uma poltrona, um ao lado do outro. Victória estava deitada no sofá maior, perto das poltronas. Todos os três liam livros. Ela desejou que houvesse câmeras fotográficas pequenas, que coubessem na bolsa, de forma que ela pudesse registrar aquele momento. Ela apenas assistiu à cena de longe, mas não juntou-se a eles. Parecia íntimo demais. Então ela deu meia volta sorrindo e decidiu esperar por eles na sala.

***

Victória, Charlotte e Jane decidiram passear pelo jardim naquela manhã. Elisa achou ótimo que a menina tivesse companhia, pois ela precisava organizar alguns livros e lições de Vicky. A jovem Williamson estava animada por ter não uma, mas duas tias em casa! Jane e Charlotte logo ficaram amigas, eram quase da mesma idade e descobriram alguns gostos em comum.

— Então você também não sabia do casamento, Jane? — Charlotte perguntou após Jane ter falado brevemente sobre o dia de sua chegada em Londres e a surpresa ao encontrar Elisabeta na casa do melhor amigo de Camilo.

— Não! Já fazia alguns meses que não recebíamos notícia alguma de Elisabeta. E a última coisa que eu esperava era encontrá-la noiva!

— Da última vez em que estive aqui Darcy saiu em um jantar com Susana! Está difícil acompanhar o ritmo desses dois. Mas fico feliz que seja Elisabeta, conheço pouco sua irmã, mas a adoro.

— Ai, tia Charlie, eu vou lhe explicar, preste bem atenção. — Victoria virou-se para tia e falou pausadamente, como quando Elisa lhe ensinava alguma lição — É que o papai pediu a Elisa em casamento pra ela não ter que voltar pro Brasil, por causa de uma lei boba. — Charlotte abriu a boca, surpresa — Mas tudo bem, eu sei que eles se amam e vamos todos ser felizes como no final dos contos de fadas. — A menina deu de ombros e sorriu, saindo em disparada atrás de uma borboleta que passou por elas.

Charlotte olhou para Jane, ainda sem reação.

— Jane, você sabe algo sobre isso?

— Elisa acha o Darcy gentil e bonito. — Disse a Benedito, também dando de ombros.

Charlotte chamou pela sobrinha:

— Victoria Williamson, volte aqui! Que história é essa? Me conte tudo, mocinha! — A menina saltitou até as tias, que a encaravam ansiosas e curiosas — Seu pai lhe disse que ama a Elisabeta?

— Não. Mas não precisa, eu sei.

— Como você sabe, Vicky?

— Eles conversam sem falar nada. E eu fico lá toda confusa e sem saber se estou encrencada e eles ficam lá fazendo careta e falando com os olhos e é muito engraçado como eles sempre se entendem no final. E o papai levou a Elisa na área proibida dos fantasmas. E também, eles sempre ficam se olhando com cara de bobos quando outro não está olhando. Ai quando um olha, eles vão e viram a cabeça. É divertido de assistir.

Charlotte lembrou-se da cena que viu na noite anterior e sorriu. Talvez Victoria tivesse razão. Ela sempre fora uma menina esperta. E Charlotte conhecia o irmão, não havia como negar que ele estava diferente. Mais leve, mais... Feliz? Ela gostava do Darcy que ele era com Elisabeta por perto. Seria amor?

***

Poucos dias depois da chegada de Charlotte a Londres, estavam todos participando de uma festa do chá organizada por Victória. Ela convenceu Matilda a lhe ceder chá de verdade e biscoitos, já que dessa vez seus convidados possuíam estômagos. Todos estavam se divertindo quando a campainha tocou. Victória soltou um resmungo alto pois sabia que uma vista acabaria com sua brincadeira, e foi repreendida por Darcy e Elisabeta ao mesmo tempo. Amelia Russel entrou na sala e encontrou todos os adultos sentados no chão, em volta da mesa de centro, com suas pequenas xícaras e achou curioso. Ela mesma tinha três filhos, dois meninos e uma menina, e mais um a caminho e eles nunca brincavam na sala principal. Mas cada família tem sua excentricidade, ela pensou.

— Amelia! — Darcy exclamou. — A que devo a honra de sua visita?

— Gostaria de falar com você e Elisabeta, se possível.

— Claro. — Ela se levantou e eles a acompanharam para sala de visitas adjacente.

Amelia parecia inquieta mas sorriu para os dois quando eles se sentaram no sofá a sua frente.

— Fico feliz em vê-los assim, juntos. Vocês parecem felizes. — Ela falou.

— E estamos. — Elisa disse e Darcy segurou a sua mão. Ela sentiu uma onda de eletricidade a percorrer.

— Ótimo, isso tira um pouco do peso do que vou falar a vocês. Precisam adiantar a festa de noivado.

— Festa de noivado? — Elisa olhou para Darcy.

— Como nem eu nem Elisa somos muito fãs de eventos sociais, pensamos em pular essa formalidade. No máximo um jantar com a família, os amigos mais próximos. — Ele apontou para ela.

— Pois eu aconselho vocês a fazerem um baile e dos grandes, o mais rápido possível. — Ela suspirou. — Hampshire esteve lá em casa ontem. Eu escutei parte da conversa dele com o Charlie. Ele questionou a integridade do relacionamento de vocês, descobriu que Elisabeta costumava ser preceptora de Victória, e acusou você de estar casando com Elisabeta apenas para mantê-la no país. — Darcy e Elisa trocaram um olhar nervoso. — Charlie contestou, é óbvio. Qualquer um que tivesse visto vocês na pista de dança reconheceria a paixão a milhas de distância. — Darcy e Elisabeta rapidamente soltaram a mão um do outro, que naquele momento pareceu queimar. — Por isso, acho que vocês precisam fazer logo um baile e acabar com qualquer dúvida.

— Um baile. — Os dois gemeram em contragosto.

— Eu não sei nada sobre organizar bailes. — Elisa suspirou.

— Eu posso ajudar. — Amelia se dispôs.

— E eu também. — Charlotte apareceu na porta.- Desculpe interromper, Victória me mandou aqui. Mas eu ouvi o final da conversa, e acho que Jane também não se importará em ajudar.

— Ótimo. — disse Amelia. — Vocês tem algum compromisso para sábado?

Amelia, Jane e Charlotte se jogaram de cabeça e prometeram a Darcy e Elisa que eles só precisariam estar na mansão Williamson sábado à noite e o restante seria por conta delas. Victória ficou animada, pois Darcy e Elisa prometeram que ela poderia ficar lá a primeira hora da festa, e ela já começou a fazer planos.

***

No sábado, a mansão Williamson estava uma loucura. Havia pessoas entrando e saindo, funcionários, Jane, Charlotte, Amelia… Elisa tentou dar aulas à Victoria, mas a menina estava animada demais para se concentrar nas lições, então Elisabeta permitiu que ela se juntasse às mulheres nos preparativos.

Toda aquela história de baile de noivado puxou Darcy de volta para a realidade. Ele precisava comprar um anel de noivado para Elisabeta. E logo. Pensou em pedir ajuda de Jane, afinal ninguém conhecia Elisa melhor do que sua própria irmã, mas a Benedito estava entretida demais nos preparativos do baile e ele achou por bem não dar a ela mais essa responsabilidade. E, afinal, ele já havia comprado um anel de noivado antes, oras. Levantou-se, agarrou seu paletó e saiu de casa dizendo que voltaria logo.

Darcy procurou nas joalherias mais renomadas de Londres. Não queria comprar qualquer anel. Podia tratar-se de um casamento de conveniência, mas isso não significava que Elisabeta não merecia uma jóia bonita. Todos aqueles anéis que a vendedora estava lhe mostrando, no entanto, não o agradavam. Ele queria algo que fosse a cara de Elisabeta Benedito. Bonita, forte, independente e amorosa. Ele queria pôr os olhos no anel e enxergar Elisabeta. Agradeceu à moça e saiu da primeira loja. O mesmo se repetiu por mais duas joalherias, até que, quando ele já estava quase desistindo, um anel na vitrine de uma loja lhe chamou atenção. Não era nenhuma grande joalheria, era uma pequena loja, antiga, parecia uma espécie de antiquário. O anel tinha uma forma delicada, e ao mesmo tempo, estonteante, forte. Possuía um corte princesa e, no topo, um diamante. Vermelho. A cor de Elisabeta. A pedra não era muito grande, mas chamava atenção pela sua elegância. Era aquele, não havia dúvidas de que havia encontrado o anel perfeito para sua noiva. Entrou na loja ansioso. Não quis saber do preço. Era aquele. Ele pagaria o que quer que pedissem por aquele anel. Elisabeta merecia. E, nem mesmo esse anel, chegaria próximo de retribuir e agradecer tudo que ela já havia feito por ele.

Durante todo o caminho até sua casa Darcy sentia o anel pesar em seu bolso do paletó. Suas mãos suavam e ardiam, como se estivessem queimando. Entrou na mansão e a encontrou toda arrumada para o baile. Flores, tapetes, cortinas. Olhou as horas, precisava se arrumar.

Esbarrou com Elisabeta na escada. Trocaram olhares, mas logo ambos desviaram. Elisa estava descendo à procura de Victoria para que a menina fosse se arrumar. Darcy estava subindo para o seu quarto de vestir. Ela estava um degrau acima dele, de modo que estavam quase da mesma altura. Quando ela fez menção a continuar descendo ele a puxou cuidadosamente pelo braço, e ela sentiu arrepios.

— Está atrasada? Posso ter um minuto com você?

— Claro. Aconteceu alguma coisa?

— Não. Mas tem algo que eu queria lhe dar antes do...baile — ele quase gemeu ao pronunciar a palavra e Elisa sorriu — Vamos rapidinho até o escritório?

Eles seguiram lado a lado até o escritório. O nervosismo de Darcy pareceu aumentar. Ele não se sentiu assim quando foi pedir Brianna em casamento. Ele fechou a porta atrás de si depois que Elisabeta entrou.

— Então…?- Ela começou

— Eu comprei algo. Um anel, claro. Porque vamos nos casar, obviamente. E hoje é nossa festa de noivado e você não pode aparecer sem um anel. — Darcy engasgava com as palavras. A temperatura estava baixa, havia um tapete branco de neve nos jardins. Como ele estava suando?

— Ah — Elisa falou, quase em um sussurro, e imediatamente se sentiu nervosa.

Darcy colocou a mão por dentro do paletó e retirou de lá a pequena caixinha de veludo. As mãos dele suavam. Ele abriu a boca e fechou, sem falar nada. Ele fez menção de se ajoelhar e Elisabeta arregalou os olhos, então ele desistiu. Limpou a garganta e abriu a caixinha. Elisabeta continuou observando, calada. Ele passou a língua pelos lábios.

— Elisabeta Benedito, você aceita ser minha esposa? — Ele encarou Elisabeta, parado diante dela com a caixinha aberta e o vermelho do anel brilhando. Elisa nada falou.- Você não mudou de ideia, mudou? — Ela negou com a cabeça e sorriu, levando sua mão direita à frente, esperando pelo anel. Darcy permaneceu parado.

— Darcy, você precisa pôr o anel no meu dedo… — Ela falou, divertida.

— Mas você não respondeu…

— Eu não achei que precisasse. Nós temos um acordo, não temos?

As palavras dela o atingiram, e Darcy quase achou que fosse a dor que o tivesse acertado, mas caiu em si e admitiu para si mesmo que não estava em seu direito sentir dor por uma quase rejeição, afinal era mais um casamento de conveniência. Tudo em sua vida era assim, ele fazia sempre o que era conveniente. Prático. Correto.

Ele então retirou com cuidado o anel da caixinha e o colocou no dedo de Elisabeta. Ficou impressionado em como perfeitamente ele coube no dedo da Benedito. Elisa admirou a jóia por alguns segundos e então levantou o rosto em direção a Darcy.

— É lindo, Darcy. De verdade. Mas parece caro.

— Elisa, por favor. Você já viu a casa? As pessoas que em breve estarão aqui? Nossos… convidados — novamente ele gemeu ao pronunciar uma palavra — O anel é digno do evento que estamos oferecendo, mas jamais será digno de você. E de tudo que você tem feito por nós, Victoria e eu. Então, por favor, aceite.

— Obrigada, Darcy. Mesmo. — Ela olhava o anel em sua mão, um sorriso contido no rosto. — É realmente lindo.

— É um rubi. — Ele indicou o óbvio — Vermelho…

Ela sorriu com mais vontade e o abraçou, saindo do escritório para se vestir.

O gesto deixou Darcy completamente sem reação. Levou alguns minutos para que ele saísse do cômodo em direção ao seu quarto de vestir.

Ele estava especialmente elegante naquela noite. O smoking de caimento perfeito, feito sob medida. Os cabelos impecáveis. Victoria passou por ele e disse que ele estava muito bonito e ele sorriu. Porém, todos os outros sorrisos que ele deu durante as voltas que dava pelo salão foram falsos. Ele estava impaciente. Odiava festas. Queria afrouxar a gravata, fugir para um lugar onde não seria encontrado.

Quando Elisabeta desceu as escadas ele entrou em estado de hipnose. Ela estava lindíssima. Os cabelos parcialmente soltos com pequenos cachos nas pontas, quase chegando à cintura. O vestido era branco, mas haviam — claro — detalhes em renda vermelha. O modelo era discreto, mas realçava o corpo dela. Ele pôde perceber que ela estava nervosa, então em vez de esperá-la embaixo da escada, como deveria, ele praticamente correu até ela e enlaçou seus braços. E então desceram juntos, apoiados um no outro, sob os olhares de todos no salão. Deus, como ele odiava bailes! Apertou o braço de Elisa em sinal de apoio, ao mesmo tempo em que pedia por ajuda. E ela sorriu carinhosa para ele segundos antes de enfrentarem valsas intermináveis, cumprimentos invejosos e conversas enfadonhas.

O que eles não sabiam, é que este gesto informal de Darcy, a constante busca de um pelo outro como apoio moral naquele sofrível evento, estava sendo interpretado por todos como demonstrações de uma paixão avassaladora.

***

Elisabeta roubou uma garrafa de espumante do garçom, e saiu do salão de baile. Estava muito cheio, muitas pessoas que ela não conhecia, muita falsa educação. Darcy tinha ido ao banheiro e nunca mais havia voltado, ela desconfiou que ele havia fugido e se repreendeu por não ter tido a mesma ideia antes. Ela abriu a garrafa e bebeu direto da boca. Numa coisa o duque tinha razão, só havia um jeito de sobreviver a este tipo de festa. Ela resolveu ir até a o pequeno estúdio da antiga condessa, eles ainda não tinham decidido o que fariam com aquele cômodo. Ele ficava perto o suficiente do baile, mas ninguém a procuraria lá. Levou um susto quando viu Darcy sentado no banco da janela, encarando o copo vazio.

— Muito bonito, senhor Darcy Williamson! — Ela falou, segurando a garrafa e fechando a porta. Ele tinha apenas uma luminária acesa, mas dava para vê-lo perfeitamente, e sua cara de susto. — O senhor fugiu e me deixou sozinha com os leões. É assim que vai ser nosso casamento?

— Desculpe, Elisa. Você pareceu se sair melhor que eu. Se eu tivesse que forçar mais um sorriso talvez eu vomitasse.

— Você está brincando, não é? Eu troquei o cumprimento de metade das pessoas, pisei no pé de uma marquesa, esbarrei num visconde…- Ela tomou mais um gole da bebida. — E minhas bochechas doem de tanto sorrir.- Darcy riu e olhou para a garrafa.

— Você não quer dividir isso comigo? Foi mais esperta do que eu. Trouxe só um copo. — Ele balançou o copo já vazio no ar.

— Não sei se merece… — Ela bateu os dedos no queixo e ele levantou, tentando tomar a garrafa dela. Ela tentou esquivar dele, mas ele a pegou pela cintura, e tomou a garrafa, e deu um gole na boca, assim como ela. E depois outro. E mais outro.

— Ei! Essa garrafa era minha! — Ele devolveu a ela rindo, e ela deu um gole. — Quantas daquelas pessoas precisamos convidar para o nosso casamento?

— Não sei. Nunca organizei um casamento.

— Posso dizer uma coisa? Você não vai ficar chateado? — Elisa tinha noção que já tinha bebido além da conta e que deveria parar. Mas não resistiu dar outro gole.

— O que? — Darcy também tinha bebido bastante, e existia algo excitante em beber naquele quartinho com Elisabeta.

— Promete!

— Eu não sei se conseguiria ficar bravo com você nem se tentasse. — Ele bebeu mais um pouco.

— Seu pai era um belíssimo de um filho de uma mãe. Como ele pode fazer isso com o próprio filho? Gostaria de tê-lo conhecido. Eu lhe diria poucas e boas. Talvez muitas e boas. — Darcy riu. Ela tomou a garrafa dele.

— Está aí uma cena que eu gostaria de ver. — ela entregou a garrafa a ele e ele tomou o restante. — Acabou. — Ele virou a garrafa de cabeça para baixo.

— Isso significa que em breve teremos que voltar. — Ela suspirou. — Nunca imaginei que meu casamento fosse ser assim.

— Eu achei que a senhorita não pensasse em casamento.

— Eu não pretendia me casar. É diferente. Mas acho que toda menina já imaginou seu casamento em algum ponto da vida. E das vezes em que eu imaginei meu casamento, não era nada como isso.- Ela se aproximou da estante de materiais, ao lado da janela. Darcy foi até ela e deixou a garrafa no banco. Ele ficou a centímetros de distância. Podia sentir o cheiro do perfume dela.

— E como era? — Ele questionou próximo demais a ela, em um tom baixo e quase sensual.

— Algo íntimo. Pequeno. Meu pai me levaria ao altar. Minhas irmãs seriam minhas madrinhas. Teriam rosas vermelhas no caminho. Eu usaria um vestido branco volumoso, como o de minha mãe. — Ela ainda olhava a paisagem. Resolveu se virar para ele. — Bobo, não é?

Mas Darcy estava muito mais perto do que ela imaginou e quando se virou, seus corpos estavam tão próximos que dava para sentir o calor. Num impulso, ele segurou a mão dela. A princípio, ele apenas a segurou com as duas mãos, e então ele começou a fazer um carinho em seu pulso, e depois subiu para o seu antebraço.

— Eu não acho. Quando era menino, também tinha um casamento dos sonhos. — lentamente, ele depositou um beijo no pulso de Elisabeta. Ela sentiu aquele beijo percorrer todo o seu corpo. Não era uma puritana, já tinha beijado alguns rapazes na vida. E então, como um simples beijo no pulso poderia ter amolecido suas pernas?

— E como era?- Ela disse entre arquejos, enquanto ele subia os beijos pelo antebraço. — O seu casamento dos sonhos?

— Para começar, eu escolheria minha noiva. — E nisso, ele passou um das mãos na cintura de Elisabeta, prendendo o corpo dela ao dele. Dois pensamentos passaram pela cabeça dela naquele momento. O primeiro era que ela deveria empurrá-lo e sair correndo dali. O segundo era que deveria ser uma sensação muito boa sentir os cabelos de Darcy entre os seus dedos. Ela afastou o primeiro pensamento para longe e sucumbiu ao segundo. Darcy tremeu um pouco e ela sentiu. Um sorriso surgiu espontaneamente no rosto dela, ele aproximou o dele da curva entre o pescoço e a clavícula e inalou o perfume dela. — Ele ocorreria no campo, em Pemberley. Durante o verão, ao ar livre.

Ele então roçou os lábios no lóbulo dela e foi a vez de Elisabeta suspirar. A sua segunda mão acabou tocando o braço dele, e depois apertando. Darcy continuou roçando os lábios em seu pescoço, devagar demais para ela, leve demais. Então ela puxou seus cabelos de forma que seus rostos ficaram um e frente ao outro. Outra vez, ela fechou os olhos e esperou o beijo. Ela praticamente pôde sentir champagne vindo dele, quando alguém abriu a porta de vez.

— Aí estão vocês! — Camilo disse rindo. — Desculpa atrapalhar, mas não está na hora do pedido oficial?

Camilo recebeu dois pares de olhares mortais. Darcy e Elisa afastaram-se um do outro e tentaram regularizar a respiração e as batidas descompassadas de seus corações.