Acordo Perfeito
13 Capítulo 12
Notas iniciais
Darcy e Elisabeta estavam sendo cordiais um com o outro. Cordiais até demais. Tinham visitas em casa. Jane e Camilo foram convencidos por uma insistente Victória para ficarem até o natal. Charlotte decidiu fazer o mesmo. Mas como a neve anormal de novembro havia cessado, as temperaturas se elevaram um pouco, tornando os passeios ao ar livres suportáveis para Jane Benedito, logo ela e Camilo não paravam em casa. Na segunda semana de dezembro, após a festa de noivado e a interação mais íntima entre Darcy e Elisabeta, os dois quiseram fingir que nada tinha acontecido. Mas estava difícil. Darcy gaguejava perto dela e Elisa se tornava levemente estabanada ao seu redor. Não passou despercebido por Victória, que assistia do alto da escada com um prato de biscoitos uma tentativa de conversa dos dois.
— Elisa, o-olá. — Darcy falou meio sem graça. Ela carregava um livro, que estava lendo.
— Ah, oi Darcy. Como estão as férias?
— Estranhas. Victória não quer passar o tempo todo comigo, visto que tem tanta gente para ela brincar, logo estou tendo muito tempo livre.
Nesse momento, Charlotte passou por Victória.
— O que você está fazendo, mocinha?
— Shh!- Ela fez com o dedo e apontou para Darcy e Elisa embaixo. Curiosa, Charlotte também deitou no início da escada e passou a observar. A conversa entre Darcy e Elisabeta continuava embaixo.
— E o que pretende fazer com ele?
— Não sei. — Eles ficaram em silêncio por um tempo. Elisa abaixou a cabeça e uma mecha do seu cabelo escapou de seu coque. Darcy pegou a mecha e pôs atrás de sua orelha, fazendo com que ela enrubescesse e desce um passo para trás, esbarrando num pódio e derrubando o vaso que ficava em cima dele. Victória teve que pôr a mão na boca para cobrir a risada. Charlotte também. Eles levantaram o vaso, e Darcy apanhou o livro dela.
— José de Alencar.- Ele lhe devolveu o livro. — Minha mãe adorava. Lucíola era seu preferido. Mas achei deveras trágico quando li. Mas ela tinha um gosto por poetas românticos como Byron e Álvares de Azevedo. — Darcy estava mais divagando que qualquer outra coisa. — Tinha um poema que ela costuma recitar, mas nunca encontrei o livro: “que noite santa! Sempre o lábio mudo a dizer tudo.”
— Castro Alves.
— Perdão? — Darcy foi retirado de suas lembranças.
— É dele, o poema.
— Ah. B-bom, eu estava pensando. A senhorita tem planos para amanhã? Poderíamos levar Victoria ao mercado de natal. Vi que já foram montados alguns. Podemos comprar uma árvore, enfeites…- Antes que Elisa pudesse responder, Victoria saltou do seu esconderijo e começou a descer a escada, pulando degraus.
— SIM! — ela se jogou nos braços de Darcy quando estava perto o suficiente. — Ah, papai! Faz tantos anos que eu não comemoro o natal de verdade! Mamãe mal colocava as meias na lareira. Ela dizia que a árvore sujava a sala.- voltando-se para Elisabeta. — Ah, Elisa! Como é o natal no Brasil? Vocês também põe meias na lareira? Deixa biscoitos para o papai noel?
Darcy e Elisabeta sorriram, enquanto a moça explicava para Victória como era celebrado o natal em sua terra. Charlotte aproveitou sua deixa e saiu devagar do esconderijo. Sua sobrinha tinha razão. Aquilo poderia até ter começado como um acordo, mas era evidente que havia muito mais sob a superfície. Então ela ficou feliz. Existia uma chance daquele faz-de-conta se transformar numa bela família para o seu irmão, e ela faria o possível para dar um empurrãozinho.
***
Naquela tarde Victória insistiu em brincar de pique esconde, seguido de faz-de-conta. Ela estava lendo Anne de Greengales, logo estava cheia de ideias. Charlotte foi a bruxa má que raptou Elisa, e Darcy era, obviamente, o príncipe, que, com a ajuda de Victoria, salvaram Elisabeta. Depois, Darcy havia sido raptado por Charlotte, então ela e Elisa precisaram salvá-lo. Quando Charlotte reclamou que estava cansada de ser a vilã, a explicação de Victoria foi simples.
— Mas, tia, você não sabe que o casal precisa resgatar um ao outro e depois serem felizes para sempre?
Darcy e Elisabeta acharam divertido, mas Elisa logo se voluntariou para ser uma pirata malvada e sequestrou Charlotte. Darcy e Victoria precisariam encontrá-las e resgatar a moça. Quando assim o fizeram, encontraram Elisabeta com uma bandana e um tapa olho, o que causou uma crise de risos em Victoria, fazendo com que Elisabeta pegasse a menina e fizesse cócegas.
— Papai, papai, socorro! — Ela gritava. Então Darcy saiu correndo e levantou Elisabeta com uma mão.
— Corra filha, corra! — Elisa se debatia de tanto rir, então Darcy a jogou no ombro, arrancando gargalhadas de Victoria. Charlotte, que estava amarrada na cadeira se pegou pensando quanto tempo levaria para eles admitirem o que realmente estava acontecendo ali.
***
Victoria apagou nos braços de Darcy pouco depois do jantar, ela estava exausta! Mas não havia dúvidas de que aquele tinha sido um dos melhores dias de sua vida. Sequer lembrava da última vez em que passou um dia inteiro brincando com o pai. E ainda tinha Elisa e sua tia Charlotte. De repente ela sentia-se a menininha mais sortuda de toda Londres.
Darcy a colocou na cama e beijou sua testa. A menina estava imunda, mas não a acordaria para banhar, não aquela noite. Ele riu do estado da filha e ficou um tempo a observando. Victoria estava feliz. Ele estava feliz. E eles eram uma família feliz.
Fechou a porta com cuidado e encontrou com Elisabeta no corredor.
— Ela está uma verdadeira porquinha! — Darcy comentou divertido com Elisa — Não tive coragem de acordá-la para um banho a essa hora.
— Amanhã ela não escapa! — Elisa falou se aproximando dele.
— Ela está feliz. E… Eu também… — ele falou a última parte quase como em um sussurro. Mesmo na meia luz do corredor Darcy viu o rosto dela enrubescer. — Graças a você. — Ele falou ainda mais próximo dela.
— Eu… Não fiz nada, Darcy.
— Claro que fez.
A conversa era sussurrada, eles não precisavam falar alto para serem ouvidos.
Darcy colocou uma mecha imaginária do cabelo dela atrás da orelha e Elisa tremeu com o contato. Ele não retirou a mão. Ela levou a dela de encontro a dele. A mão pequena de Elisa tocando de leve a dele. Ele segurou a mão dela e acariciou o rosto de Elisa, as duas mãos juntas. Ela inclinou o rosto em direção à mão dele, e a própria. Suspirou alto.
— Darcy…
— Elisa… — o nome dela saiu quase como uma melodia.
— O que você… O que você está fazendo?
— Você é linda, Elisa. Eu já lhe disse isso?
— Darcy, por favor — Ela abaixou o rosto e encarou o chão. A mão dele levantou o queixo dela.
— Não fuja de mim quando eu lhe elogiar. Devia ter escrito isso no contrato. Você precisa entender o quão linda e incrível você é, Elisa. — Então ele puxou o rosto dela delicadamente em direção ao dele, pronto para o beijo. Mas Elisa se esquivou e imediatamente se afastou.
— Eu vou… Eu vou dormir. Boa noite, Darcy.
Darcy respirou frustrado, e passou a mão pelos cabelos.
— Boa noite, Elisa.
Os dois saíram pelo corredor em direção a seus quartos. O de Elisa ficava ao lado do de Victoria e em frente ao de Darcy. Eles entraram em seus quartos e fecharam a porta. Darcy bagunçou ainda mais os cabelos. Abriu dois botões da camisa, precisava respirar. Elisabeta soltou o cabelo completamente, juntou-os em um coque imaginário e depois soltou, buscando ar. Abriu a porta do quarto. Darcy fez o mesmo, ao mesmo tempo. Não pensaram. Não impediram seus pés de caminharem poucos passos em direção um ao outro. Os braços dela no pescoço dele. Os braços dele foram direto para a cintura dela. E as bocas finalmente se encontraram. O beijo não começou devagar ou leve. Foi intenso desde o primeiro contato. Eles estavam sedentos pela boca um do outro. A boca dela se abriu, dando espaço para a língua dele, que a explorou com pressa e intensidade. Os braços dele apertaram ainda mais a cintura dela, e as mãos dela subiram até os cabelos dele, seus dedos emaranhando os fios, os puxando.
Elisa sentia como se estivesse se afogando. Mas era uma sensação boa, se afogar em Darcy. Em seus beijos e leves mordidas. Em seu cheiro, agora mais forte e inebriante. Em seus braços apertando sua cintura, numa tentativa falha de não passear pelo resto do corpo.
Eles precisavam respirar, buscavam fôlego na boca um do outro, mas não era suficiente.Então Darcy foi afastando-se aos poucos, mas ainda depositando pequenos beijos no rosto dela. No colo. No queixo. Quando o ar fez-se realmente necessário, as bocas se separaram, mas as testas permaneceram unidas. Os olhos fechados. A respiração pesada. O coração acelerado. As mãos dadas próximo ao corpo. Um sorriso formou-se no rosto de Darcy antes dele finalmente abrir os olhos, quando sua respiração pareceu se regularizar. O verde dos olhos de Elisa encontraram o verde dos olhos dele segundos depois. E ela não foi capaz de conter um sorriso, assim como ele. Não separaram as testas nem as mãos. E uma estranha corrente elétrica parecia passar entre eles. Os olhos de Darcy passaram dos olhos dela para os lábios dela, um pouco inchados pelo beijo que acabaram de trocar. Depositou um selinho ali, apertou as mãos dela e, em um sussurro, disse:
— Boa noite, Elisa. Durma bem.
Separou-se dela com relutância e voltou-se para seu quarto, a deixando parada no corredor, completamente sem reação.
***
Elisabeta achou muito difícil dormir aquela noite, estava inquieta e ainda conseguia sentir o beijo dele por todo o seu corpo. Ficou tentada a abrir a janela e ficar um tempo na noite gelada, para ver se esfriava seu sangue. E quando finalmente dormiu, ele invadiu seus sonhos. De uma forma muito pouco cortês e que uma moça de família jamais poderia sonhar. Já Darcy precisou tomar um banho gelado e trancar a porta para não ir atrás dela em seu quarto.
No dia seguinte, Elisa acordou com Victória em cima dela na cama.
— Acorda Elisa, acorda! É dia de irmos no mercado de natal. — Elisabeta resmungou alguma coisa e cobriu a cabeça com o lençol. — Vamos Elisa acorda!- Victoria a cutucou. — Vou te dar um tempo enquanto acordo o papai. — Elisabeta olhou no relógio. Ainda não era sete da manhã.
O quarto de Darcy estava trancado, o que fez ela suspirar. Entrou pelo antigo quarto de Brianna, passou pelo quarto de vestir e saltou na cama do pai, fazendo Darcy levar um susto.
— Papai! O senhor está acordado?
— Agora estou.
— Ótimo! Já acordei a Elisa, vamos ao mercado de natal! — Darcy puxou o relógio do criado-mudo.
— Acho que ainda nem está aberto. Desça e peça a Matilda para pôr a mesa do café, eu vou me arrumar.
— Eu posso chamar a tia Charlotte e a tia Jane?
— Tia Jane?- Darcy achou estranho ela se referir a irmã de Elisabeta assim.
— É papai. Ela e o tio Camilo.
— Você não pode chamá-la de tia.
— Mas foi ela quem pediu!
— Então tudo bem.
— Eu posso?
— O que?
— Chamar eles, papai! — Victoria passou a mão nas bochechas e ele riu. Ela estava se tornando tão impaciente quanto Elisabeta.
— Claro. Mas não os acorde. Convide quando estiverem na mesa do café.
— Está bem. — E dando um beijo no rosto do pai, ela desceu.
Darcy sorriu. Era tão visível o progresso dela desde que Elisabeta chegou! Era outra menina. Mais alegre, mais independente. Mais segura. Elisa era excelente modelo para a filha. Quando desceu, Elisabeta estava sentada na mesa do café, junto com uma animada Victória, que agora tinha os cabelos trançados em uma coroa na cabeça. Ela falava sem parar, e Elisabeta corrigia seus modos, mas de forma delicada.
— Senhoritas, bom dia! — Ele trocou um longo olhar com Elisabeta. Deus, ela sempre fora tão bonita assim? Algo semelhante passava na cabeça dela. Junto, é claro, com lembranças do sonho que ela teve na noite passada.
— Bom dia de novo, papai! — Victoria respondeu, e ele sentou-se a mesa.
— Darcy. — Foi tudo que ela conseguiu dizer. Sua garganta ficou seca de repente e ela tomou um gole de chá. Ele a olhou com interesse e ela retribuiu olhar, fazendo Victoria revirar os olhos.
Pouco depois, os outros juntaram-se a eles e foram todos intimados pela menina a irem ao mercado de Natal. Darcy dispensou Rogers para que todos pudessem caber no carro. Elisabeta foi na frente, com ele, sem ao menos pensar no que estava fazendo. Parecia o correto. Elisa já tinha ido num mercado de natal, mas era diferente olhar as coisas pelo ponto de vista de uma criança. Tudo era muito mais mágico. Logo eles se separaram. Charlotte queria olhar as antiguidades, Jane e Camilo foram observar as flores de inverno, e ela, Victoria e Darcy foram escolher uma árvore.
— Nunca comprei uma árvore de natal assim. Não sei escolher.
— No Brasil não tem árvore de natal? — Victoria ficou assustada.
— Tem, mas não assim, não de verdade. Lá não tem pinheiros porque agora lá é verão!
— Uau! Como lá é verão se aqui é inverno?
— Essa é uma ótima pergunta. E vai ser o tema da nossa aula amanhã, o que acha?
— Que queria estar de férias igual ao papai. — Darcy gargalhou e a pôs nos ombros.
— Vamos ensinar Elisa a escolher uma árvore?
Claramente, Victória queria uma árvore grande, e Darcy a explicou sobre os galhos e eles acabaram pegando a maior e mais cheia árvore. O vendedor ficou tão animado que garantiu a entrega para eles.
O próximo passo eram os enfeites. Elisa se soltou mais nesse, e ela e Victoria escolheram bolas, laços, presentes. Jane e Charlotte se juntaram a elas, e Darcy e Camilo foram reduzidos a carregadores de sacolas. Mas os dois estavam se divertindo. Camilo olhava para Jane encantado, e toda e qualquer interação dela com Victória o fazia querer ter logo seus próprios filhos. Darcy estava feliz por se sentir parte de uma família de novo. Ele não se empolgava tanto com natal assim desde que era uma criança. Depois de terem deixado os enfeites da árvore no carro, eles retornaram por guirlandas e fitas para laços. Havia uma novidade também. Pequenas lâmpadas em um fio para decoração. Victoria e Elisabeta ficaram tão encantadas que quando saíram da venda, ele foi até o vendedor e levou todas. Seria uma surpresa. Mas quando ele as reencontrou, Jane estava discutindo com Elisa.
— Para que comprar meias, se podemos fazer! — Jane argumentava.
— Você esqueceu que eu sou péssima tricotando?
— Você está exagerando. E ainda podemos ensinar a Victoria!
— Jane…
— Vamos Elisa, por favor! — Jane fez os olhinhos mais doces que ele já tinha visto e imaginou que Camilo estava ferrado.
— É Elisa, por favor! — Victória entrou no pedido.
— Está bem, está bem! — Ela se voltou para Victória. — Depois se sua meia ficar feia, não reclame.
— Não vai! E vai ser incrível! — Charlotte reapareceu com um sorriso no rosto. Irmão, você não vai adivinhar!
— O que? — Darcy sorriu de volta para ela.
— Tem uma pista de patinação! — Darcy gargalhou. — Vamos, vamos, vamos!
— Charlotte, faz anos desde que eu patinei.
— É bom que eu te ponho em forma de novo.
— Nós não trouxemos patins! — Charlotte sabia que aquele era um ótimo argumento.
— Mas podemos ver então, papai? Eu também não patino faz um tempão! Desde o ano passado! — Darcy riu e concordou que eles poderiam ir olhar a pista de patinação. No caminho eles encontraram um vendedor de visgos. Camilo se virou para Jane.
— Sabia que os druidas e os celtas na escócia acreditavam que os visgos tinham poderes de cura e os usavam para comemorar os solstício?
— Não. — Jane disse divertida.
— Então eu imagino que a senhorita não saiba que por aqui existe uma tradição em que toda vez que um rapaz e uma moça se encontram embaixo de um visgo eles precisam se beijar? Para dar boa sorte e tal..
— Ah é? — Jane falou enquanto Camilo se aproximava e a deu um beijo tímido.
— Papai, se é tradição então você e Elisa também têm que se beijar!
Os olhares de todos se dirigiram ao casal, divertidos. Elisa ficou tensa, mas Darcy teve dificuldades em esconder o riso. Ele havia gostado da ideia. Desde a noite anterior não havia parado de relembrar o beijo, e foi difícil para ele passar a manhã inteira ao lado de Elisa sem querer repetir.
— Filha… — ele falou, sem vontade alguma de contra-argumentar, mas porque percebeu o claro desconforto de Elisa.
Darcy trocou um olhar com Elisabeta, como se pedisse autorização para se aproximar. Ela deu de ombros, mas era perceptível a tensão. Ele se aproximou e encostou seus lábios nos dela, em um selinho. Mas quando a mão dela tocou de leve as costas dele, ele entendeu como um sinal positivo, então intensificou o beijo. A boca dela se abriu mais um pouco, o suficiente para Darcy envolvê-la com mais vontade, a puxando pela cintura.
Camilo, Jane e Charlotte trocaram olhares divertidos. E a pequena Victoria quase não cabia em si de tanta satisfação. Os dois continuaram se beijando, como se tivessem esquecido da platéia, o que de fato aconteceu. Charlotte não queria interromper, mas até Jane já estava ficando constrangida, afinal havia uma criança entre eles. A jovem Williamson então limpou a garganta, trazendo Darcy e Elisa de volta à realidade. Eles se separaram com certa relutância e quando Darcy encarou Charlotte que tinha um sorriso convencido no rosto e ele deu de ombros. Jane olhava para Elisa com a sobrancelha levantada e ela desviou o olhar.
Naquela tarde, a árvore foi entrega e eles se dedicaram a montá-la. Victoria estava tão feliz que não cabia em si. Quando Darcy mostrou as luzes, Elisabeta não pôde deixar de sorrir, e eles penduraram na lareira, na árvore, na porta, em todos os lugares haviam pequenas luzinhas piscando. No final do dia, a sala cheirava a pinheiro e parecia a casa do papai noel.
— Está tudo tão lindo! Você não acha, papai? — Victoria estava sentada no colo do pai.
— Está sim, filha.
— Nós vamos fazer isso todos os anos, não vamos, Elisa?
— Claro que sim!
— Ah, é natal novamente! — A pequena se levantou e saiu saltitando pela sala.
Naquela noite, Jane ensinou Victoria e Charlotte como se tricotava, e as duas acabaram por aprender bem rápido. Ao final da semana, Charlotte tinha tricotado uma meia perfeita, com as iniciais C.W. Jane havia tricotado duas meias perfeitas, J.B e C.B, uma para ela e outra para Camilo. A meia de Elisabeta era torta, e ela já havia refeito duas vezes. Tinha dificuldades bordar um B, pois a letra tinha curvas e ela só sabia fazer traços retos. Quando Victoria terminou a dela, foi até a sala rosa, onde Elisabeta havia acabado de soltar um palavrão.
— Maldita meia, maldito tricô! — Victoria a olhou com os olhinhos arregalados e seus óculos escorregaram para a ponta do nariz. — Você não ouviu isso de mim. Deixa eu ver a sua.
A meia de Victoria não era tão perfeita quanto as de Jane e de Charlotte, mas era bem melhor que a dela.
— Vamos adicionar aqui mais um talento seu que sobressai ao meu — Ela riu e mostrou sua meia. — Você poderia fazer a do seu pai.
— Eu acho que não. Tricotar é chato.
— Então quem vai fazer? — Elisa perguntou.
— Tia Jane fez a do tio Camilo…
— Não concordo com esse papéis impostos pela sociedade. Não é porque eu vou me casar com o seu pai que eu vou lhe tricotar meias! — Victoria deu de ombros.
— Posso pedir para tia Charlie. Mas aí sua meia vai ser a única… esquisita. Se você fizer a do papai, vão ser duas esquisitas, então não vai chamar a atenção. — Elisabeta apertou os olhos para ela.
— Você está me manipulando na cara dura, Victoria Williamson?
— O que é manipular? — Victoria perguntou genuinamente. Elisa suspirou.
— Pegue o dicionário, olhe lá. E está bem, eu faço uma meia tão feia quanto essa para o seu pai. Ele vai odiar, mas vai fingir que gostou. Será divertido.
Uma semana antes do natal, havia seis meias na lareira. No centro estavam as duas mais feias: E.B. e D.W. mas Darcy considerou o seu enfeite de natal favorito, e ele foi bastante verdadeiro quanto a isso.
Naquela semana, havia sempre um entra e sai na casa dos Williamson. Todos eles deixaram os presentes para a última hora, e estava uma correria. Exceto Darcy, ele já tinha comprado os seus. Encomendara o de Victoria semanas atrás e seria entregue na manhã de natal. Comprou para Jane um par de delicados brincos de pedra azul, e para Charlotte deu uma viagem de navio até as Índias Ocidentais. Para Camilo, uma caixa de charutos cubanos. E agora ele encarava o presente de Elisabeta. Ele não conseguia tirar a moça da cabeça. Desde o beijo, na verdade, um pouco antes, se ele estivesse sendo honesto, Elisabeta Benedito era o seu primeiro pensamento ao acordar e o último ao dormir. E em breve estaria se casando com ela. Ele não conseguia deixar de sorrir quando este pensamento lhe invadia. E era exatamente isso que o preocupava. Ele estaria nutrindo sentimentos por ela? Sentimentos românticos? Ela mal o suportava. E mesmo assim, tinha retribuído o beijo… Ele foi retirado dos seus devaneios por Victoria que entrou correndo no escritório.
— Papai, papai, tia Jane e Elisa vão me ensinar a fazer biscoitos de natal, o senhor quer aprender também?
— Filha, eu acho que não…
— Por favor, papai! Vamos! Vai ser legal.- Ela deu a volta na mesa, pegou a mão do pai e começou a puxá-lo. Não que ela tivesse forças para mover um homem tão grande como Darcy, mas a determinação dela o venceu e ele se deixou ser “levado” para cozinha. Chegando lá, Charlotte estava sentada a uma certa distância em uma bancada e tomava uma taça de vinho. Elisa e Jane tinham prendido os cabelos e pego aventais. Camilo tinha dobrado as mangas da blusa e deixado o paletó de lado, e Jane agora lhe amarrava um avental.
— O papai quer fazer biscoitos também. — Darcy parecia tão deslocado naquele local que Elisabeta sorriu. Era óbvio que Vicky o tinha arrastado até ali e o desejo de agradar a filha em algo que ele tinha nenhuma familiaridade, a tocou.
— Posso ver que seu pai está louco para pôr a mão na massa.
— Não vejo a hora. — Ele deu um sorriso amarelo que arrancou uma risada de Elisabeta. Ela foi até ele e disse.
— Então tira logo esse paletó, colete… — Ela mexeu com a mão para apontar as vestimentas de Darcy, e por brincadeira, ele levantou a sobrancelha para ela. Ao invés de corar, que era a reação que ele esperava dela, ela piscou de volta. Tal qual Camilo, ele ficou apenas com a camisa branca e o suspensório. Quando começou a dobrar as mangas, Elisabeta foi até ele e começou a desfazer o nó da gravata.
— A gravata também?
— Quem cozinha de gravata? — Ela puxou a gravata dele e jogou na cadeira junto com as outras peças de roupa. Ele levantou os braços em sinal de rendição, divertido. Elisa lhe entregou um avental, que obviamente ficou muito pequeno nele, o que a fez rir. Charlotte observava tudo com um sorriso no rosto. Tinha feito uma aposta com Jane e Camilo. Não dava mais que um mês de casados para eles sucumbirem à paixão. Jane deu mais crédito a irmã e disse que ela era teimosa como uma mula, então aguentaria um pouco mais, por orgulho. Assim, deu seis meses. Camilo deu até o final do ano.
Jane e Elisa passaram as instruções para que eles preparassem a massa, o que foi bastante divertido. Victoria fez uma bagunça e a massa de Camilo ficou muito mole. Já Darcy estava concentrado para que seu biscoito ficasse perfeito. Quando suas mão ficaram melecadas, ele suspirou. Charlotte riu e ele apontou o dedo para ela.
— Por que a senhorita não está fazendo biscoitos?
— Acabei de fazer a unha. — Ela tomou outro gole de vinho.
— Desde quando se importa com isso?
— Desde que seja conveniente. É muito mais divertido assistir, de toda forma.
Darcy balançou a cabeça em desaprovação.
— Não vai ganhar dos meus biscoitos.
— Pelo que estou vendo daqui, eu não iria querer mesmo.
Neste momento, Elisa foi até ele e encarou sua massa.
— Não seja cruel com seu irmão. Está com uma cor ótima. — Ela pegou um pouquinho e provou. — O gosto também. Só precisa de mais farinha.
Ela pegou o saco de farinha e despejou na massa de Darcy. Ele voltou a misturar, tão concentrado que ela podia ver a veia em seu pescoço. A visão causou em Elisa uma vontade quase incontrolável de passar a sua língua por aquele pescoço. Então, para impedir que ela fizesse um ato impensado ali, na frente de todos, ela pegou com a mão um pouco de farinha e soprou nele. Victória soltou uma gargalhada e Darcy lançou um olhar indignado para ela.
— Eu estou tentando trabalhar aqui.
— Sabe qual seu problema, meu noivo? Você leva a vida a sério demais. Lembro de uma vez você ter me dito para seguir meus instintos. Sendo assim...
E dito isso, ela jogou mais farinha nele. Darcy então retirou as mãos da massa e agarrou Elisabeta pela cintura, a fazendo dar um gritinho e derramar farinha em Victória. Aquilo chamou atenção de Jane. Nunca tinha visto a irmã dar gritinhos. Darcy tomou o pacote de Elisa, mas ainda tinha um braço em sua cintura e agora jogava farinha nela. Victória se aproximou e atirou um pouco de farinha neles também. Darcy e Elisa riam um para o outro, os rostos próximos, os corpos colados. Talvez o casamento deles não fosse um sacrifício no fim das contas, Elisabeta pensou. Talvez fosse uma aventura na qual ela se supreenderia.
***
Victoria acordou especialmente cedo na manhã de natal. Ela estava ansiosa. Animada. Sequer lembrava da última vez em que um Natal prometeu ser tão divertido. A casa estava cheia. O pai, Elisa, Charlotte, Jane, Camilo e ainda viria uma amiga de Elisabeta, Ludmila. Seria o melhor natal de todos! Ela havia feito um presente para Elisa. Pediu ajuda as tias para costurar um xale vermelho para Elisabeta. Deu um pouco de trabalho, mas ela ficou orgulhosa do resultado.
Desceu as escadas praticamente correndo, o embrulho na mão, pronto para ser colocado debaixo da árvore junto com os outros. Encontrou Elisabeta abaixada próxima à árvore, colocando um lindo pacote junto dos demais.
— O que a senhorita já faz acordada a essa hora, hein? — Elisa a abraçou em meio às cócegas. Virara rotina para Elisabeta dormir na mansão, e ela se deu conta de que se acostumaria rapidamente àquela vida.
— É manhã de natal, Elisa! Precisamos acordar cedo para aproveitar cada minuto! Podemos ajudar Matilda a preparar o jantar!
— Não sei se Matilda gostaria de nos ter em sua cozinha depois da bagunça que fizemos com os biscoitos.
— E o que faremos até a hora de trocar presentes? — Victoria perguntou em um tom decepcionado
— Nós vamos entregar presentes para outras crianças. — Darcy respondeu ao pé da escada. Era cedo e ele já estava impecavelmente arrumado, com um terno simples e em tons mais claros. Lindo, como sempre, Elisa pensou. E logo depois ela deu um suspiro mental. Estavam ficando perigosos seus pensamentos em relação a ele. — Suba para se arrumar, nós temos muitos presentes para entregar e crianças para conhecer!
Quando Victoria subiu as escadas animada, Darcy caminhou ao encontro de Elisabeta.
— Bom dia, Elisa. — Ele sorriu sedutor.
— Bom dia, Darcy. — Ela respondeu à altura.
— Victoria está tão empolgada com o natal esse ano, e essa árvore cheia de presentes me fez pensar que seria bom mostrar a ela que nem todas as crianças têm a mesma sorte. Pedi que Rogers comprasse alguns brinquedos para fazermos a alegria das crianças do orfanato neste natal. Nos acompanha?
— Que gesto lindo, Darcy! Claro que vou com vocês. Me dê um minuto para me arrumar!
Na porta do orfanato, Darcy abaixou-se até a altura da filha e explicou o que era um orfanato e o por que de estarem ali com tantos presentes. A menina o abraçou e antes de entrar saltitante pela porta virou-se para o pai e disse:
— O senhor poderia ser um príncipe de verdade, papai. Seria o melhor de todos!
— Não, ser conde já dá muito trabalho. — Mas naquele momento, Elisa se sentia tentada a concordar com Victoria.
Passaram a manhã toda no orfanato. No início às crianças se mostraram tímidas e retraídas, mas ao ganharem tantos brinquedos, individuais e coletivos, elas não conseguiram disfarçar a felicidade. Victoria estava dando uma festa do chá com mais cinco meninas na porta do refeitório. Darcy já havia tirado o paletó e ensinava damas para alguns meninos no chão da sala. Elisa estava com o pequeno Anthony no colo, que só parou de chorar quando a Benedito cantarolou uma canção de ninar que dona Ofélia cantava para ela e as irmãs quando pequenas. Darcy desviou o olhar para a noiva e não conseguiu mais desprender os olhos daquela cena. O pequeno Anthony estava concentrado na fala de Elisa, completamente apaixonado. E Darcy quase sentiu como se compreendesse o bebê, era mesmo difícil resistir aos encantos de Elisabeta Benedito.
Quando chegaram em casa passava um pouco do horário habitual de almoço. Mesmo assim almoçaram o delicioso frango que Matilde preparou para a refeição. A cozinha estava uma loucura, e alguns preparativos já aconteciam na sala de estar para receber os convidados para a ceia de natal.
Darcy havia convidado os Russel e sua amiga de infância, Lady Cora Legge, que ele descobrira há pouco que voltara para Londres com a filha, quase da idade de Victoria. Seria bom que Vicky tivesse alguém de sua idade para brincar. Mas nenhum deles pôde comparecer.
Ludmila chegou próximo das 7 horas da noite e encontrou todos conversando animadamente na sala. Elisa recebeu a amiga com um abraço apertado e em seguida a apresentou para Darcy.
— Ludmila Albuquerque Stuart? Filha de lady Beatrice? — Darcy perguntou depois de apresentados — Estou enganado ou já nos conhecemos antes em algum ponto desses eventos sociais chatos?
— Acredito que sim. Minha mãe costumava frequentar os bailes da alta sociedade e eu a acompanhei em alguns durante a adolescência, antes de me mudar para o Brasil com meu pai.
— Claro! Agora me lembro de seu pai! A mãe de Camilo estava tentando fazer negócio com a fábrica de vocês em São Paulo e me pediu algumas sugestões.
Ludmila então foi oficialmente apresentada a Camilo e Jane, quem ela conhecia apenas por cartas e relatos de Elisabeta, mas já considerava uma amiga querida. Os adultos conversaram por toda a noite, sempre procurando intercalar a atenção entre os assuntos de adulto e Victoria.
Após o jantar, que contou com delícias da cozinha britânica e brasileira, Victoria anunciou que estava na hora dos presentes. Darcy entregou os presentes que comprou para seus convidados. Elisa presenteou a irmã com uma caixa com pequenos souvernis e lembranças de seus passeios em Londres, e para Ludmila deu um chapéu que a vendedora garantiu ser a última moda em Paris. Victoria ganhou de Elisa uma edição em português de O Jardim Secreto e um estojo novo de colorir. Guardou o presente de Darcy por último, pois sentia alguma relutância em entregar.
— Elisa eu fiz algo para você, tia Charlie e tia Jane me ajudaram, espero que você goste. — Victoria entregou o embrulho nas mãos de Elisa que não conseguiu conter as lágrimas que caíram.
— Obrigada, meu amor, é lindo! Estou tão orgulhosa de você. Mais um talento que você descobriu ter, o da costura. E olhem só! — ela mostrou para a amiga e a irmã — É a minha cor!
Elisabeta beijou o rostinho de Victoria e ali mesmo vestiu seu xale novo.
— Eu acho que meu presente vai combinar com o presente de Victoria
A voz de Darcy fez com que o corpo de Elisa ficasse em alerta. Ele entregou um pequeno e delicado embrulho.
— Darcy, não precisava.
— Eu faço questão, Elisa. — Ela abriu a caixa e olhou o relicário dourado, emocionada. De um lado havia uma foto dela e Victoria e o outro lado estava vazio, para que ela pudesse colocar a foto que desejasse — Você me permite? — Darcy perguntou fazendo menção de colocar o colar nela.
Elisa afastou os cabelos e expôs uma parte de seu pescoço, despertando em Darcy a incontrolável vontade de beijá-la ali. Ele gentilmente fechou o colar. Quando seus dedos tocaram o pescoço nu de Elisabeta ela tremeu, e ele se demorou ali, fazendo um leve carinho na nuca dela.
— Que bom que comprei algo para você também, assim não fico por baixo — Ela falou depois de alguns segundos em silêncio, numa tentativa de afastá-lo dela. Era deliciosamente perigosa a proximidade entre os dois.
— Eu não acredito que você se deu ao trabalho.
— Eu fui comprar o livro de Victoria e quando vi na estante eu entendi como um sinal de que precisa ser seu. — Ela entregou o embrulho que havia colocado na árvore ainda naquela manhã — É uma coletânea de poesias de Castro Alves. Você sabe… Pela nossa conversa essa semana.
— Elisa… — ele pegou o livro e admirou a edição, emocionado. — Obrigado! Faz anos que não ganho um presente de natal. E não lembro de já ter ganhado um presente tão especial. Obrigado!
Ela sorriu tímida e ele admirou o livro mais uma vez, o sorriso não deixava o rosto. Darcy a puxou gentilmente pela cintura e depositou um beijo na bochecha de Elisabeta, sussurrando um último obrigado.
A conversa e as risadas logo se fizeram presente na sala. Todos estavam felizes. Era o primeiro Natal em que Elisabeta se sentia em casa nos últimos três anos. Era uma data difícil para ela, por ter que passar longe de sua família. Mas esse ano ela tinha os Williamson. E Jane! Era, de fato, um Natal especial.
Darcy levou Victoria e Elisa para a sala de música e as surpreendeu com novíssimo piano de cauda. Havia um enorme laço vermelho e ele explicou que era o presente de Victoria.
— Para que você possa se aperfeiçoar ainda mais como pianista.
A pequena ficou em êxtase. Sentou-se logo e começou a tocar canções de natal. Elisa se pôs ao lado de Darcy e os dois admiraram a pequena que volta e meia se virava para eles e sorria. Eles não souberam dizer quando ou quem tomou a iniciativa, mas em um certo ponto, seus dedos estavam entrelaçado.
Darcy ainda estava encantado com o presente que ganhara. Só depois de colocar Victoria na cama e dar boa noite a todos foi que, já em seu quarto, ele se dedicou a olhar página por página do livro, encontrando uma pequena dedicatória, escrita com a cuidadosa letra de Elisabeta. A letra dela combinava com ela, era bonita, com curvas bem feitas e traços firmes, de escrita forte. Ele leu o pequeno texto mais de uma vez, até decorar seu conteúdo na íntegra.
“Darcy,
Que esse livro reacenda em você cada lembrança feliz da sua vida no Brasil e ao lado de sua mãe. Que você encontre a beleza da vida na poesia dos dias a cada nascer e pôr do sol.
Feliz Natal.
Elisabeta Benedito.
Londres, Dezembro de 1930.”
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