Notas iniciais
Boa noite, lindezas! Postamos o prólogo ontem e já recebemos um ótimo feedback, que coisa linda! Muito obrigada! E respondendo a todas vocês aqui está a nossa Elisa! Boa leitura!

Londres

1930

Quando Elisabeta Benedito deixou o Brasil ela sabia que conquistaria o mundo. Mas para isso, primeiro, ela precisaria conquistar a cidadania britânica.

Estava morando em Londres há pouco mais de dois anos. Passou seis meses em Liverpool trabalhando como costureira em uma fábrica de roupas infantis até que conseguiu juntar dinheiro suficiente para mudar para capital. Ela era péssima costureira, sua mãe nunca acreditou que ela conseguiu o emprego por mérito próprio. Mas a verdade foi que acabou desenvolvendo certa aptidão, depois de várias furadas e muitos metros de tecido estragados. Mas ainda assim, era péssima. Ninguém sabe como ela durou tanto tempo na fábrica.

Na sua primeira semana em Londres conseguiu emprego de secretária em um escritório de advocacia que fez com que ela sentisse saudade dos dedos furados. Trabalhava para cinco advogados, todos igualmente desagradáveis. Frequentemente era obrigada a tolerar assédios disfarçados de convites para jantares e bailes, até que um dia um dos chefes passou para toques completamente inapropriados e inconvenientes. Elisabeta reagiu dando um belo tapa na cara dele. Foi demitida, como é de se imaginar. Não teve tempo sequer se resgatar os rascunhos de seu livro da gaveta de sua mesa. A única coisa que levou daquele lugar foi a fama de oferecida e descompassada.

Para sua sorte, três semanas depois conseguiu emprego em um jornal da capital. Começou como secretária, pois não confiavam em uma brasileira para escrever nada em inglês, mas Elisabeta se sobressaiu, chamou a atenção da chefe e ganhou a oportunidade de escrever uma matéria sobre o movimento feminista que aconteceria na Trafalgar Square. Foi onde conheceu Ludmilla, sua atual colega de apartamento. As duas compartilhavam ambições e princípios, lutavam pela maior participação da mulher no mercado de trabalho, pela independência financeira, ideias completamente inadequadas para a época e a sociedade em que viviam. Mas no que se tratava da rotina as duas eram opostas. Ou complementares, como Lud gostava de dizer. Elisabeta era dia e Ludmila era noite, resquícios da vida que a ruiva levou em Paris. Elisabeta era caseira, gostava de passar seu tempo livre lendo ou escrevendo, enquanto Ludmila frequentava todos os bailes da cidade.

Mas a crise de 29 veio como uma onda de má sorte para muitos, inclusive para Elisabeta e todos do jornal, que fechou sem aviso prévio. Agora Elisa estava desempregada e seu visto venceria em dois meses. A casa de chá era o sétimo estabelecimento que fechava a porta em sua cara. Ou oitavo. Parou de contar na porta de número 5, o restaurante três ruas atrás.

Estava exausta. Era o sexto dia a procura de emprego. Suas primeiras tentativas foram em locais que realmente lhe interessavam: revistas, jornais, bibliotecas, livrarias. Depois partiu para as lojas de roupa e artigos femininos, que era a área onde possuía alguma experiência comprovada. Agora estava entrando em todo e qualquer estabelecimento comercial que encontrava pela frente. Àquela altura ela aceitaria qualquer coisa. Estava disposta, inclusive, a engolir seu orgulho e voltar para o antigo emprego no escritório de advocacia. Elisabeta Benedito jamais perdoaria o orgulho de alguém que houvesse ferido o seu próprio, mas situações extremas exigem medidas extremas.

Passava das sete da noite. A cidade já havia escurecido há horas, como era característico do inverno londrino. Estava especialmente frio àquela noite e Elisabeta sentia seu corpo mais cansado do que o normal. Parou numa banca de café há poucos metros do famoso Big Ben. Muito em breve não poderia mais pagar por cafés de rua, muito menos por cafés do centro da cidade. Saboreou o líquido quente como se fosse a iguaria mais gostosa de todo o mundo e encostou-se na parede. Olhou as pessoas ao seu redor. Homens e mulheres voltando apressados para casa depois de um dia de trabalho. Os poucos vendedores de rua recolhiam suas coisas para irem, também, para suas casas. Elisabeta tentava memorizar cada detalhe daquela cidade. Amava Londres. Apesar do frio intenso no inverno, das pessoas sempre apressadas. Amava os turistas que surgiam o ano todo. Amava, sobretudo, as oportunidades mil que a capital britânica oferecia, apesar de que, naquele momento, não haviam tantas oportunidades assim para ela.

Elisa sentia uma saudade imensa de casa, mais precisamente dos pais e das quatro irmãs. Mas não queria voltar para o Vale agora. Não daquele jeito. Todos pensariam que ela havia fracassado. E Elisabeta Benedito era orgulhosa demais para dar esse gosto aos habitantes da pequena cidade onde nascera. Conseguiria um emprego e garantiria sua estadia na Inglaterra por mais três anos, estava decidido.

Seus pensamentos estavam no Vale do Café quando uma criança encolhida em um banco lhe chamou atenção. Ela parecia bem agasalhada, melhor até mesmo do que Elisabeta, mas estava sozinha na noite londrina, e isso fez com que Elisa praticamente corresse em direção à criança.

— Você está perdida, meu amor? — Perguntou ao sentar-se do lado da menina que quase desaparecia dentro de tanta roupa. — Onde estão seus pais?

A menina não respondeu. Mas Elisabeta insistiu.

— Eu sou Elisa. Qual o seu nome?

— Victória. — A menina respondeu baixinho, ainda sem olhar para ela.

— Como a Rainha? É um nome muito bonito.

— Seu nome é Elisa, de Elizabeth? — Finalmente a menina olhou para Elisabeta, vencida pela curiosidade. — É nome de rainha também.

— Quase. Meu nome é Elisabeta, mas todos me chamam de Elizabeth por aqui. Acho que nomes brasileiros são difíceis de se pronunciar em inglês.

— Você já foi ao Brasil? — Victória parecia fascinada.

— Eu nasci lá!

— E o que você veio fazer aqui?

— Eu sempre quis conhecer o mundo e decidi começar por Londres.

— Eu também não sou daqui.

Elisabeta esperava conseguir informações sobre o endereço da menina, ou acabaria levando Victória para sua própria casa, mas de maneira alguma a deixaria ali sozinha.

— Não? E onde você mora?

— Eu moro com meu pai aqui em Londres, mas não quero mais morar com ele. Quero voltar para Pemberley. Eu gostava de lá. E é melhor ficar com a sra. Hudson do que com meu pai.

— Quem é a sra. Hudson?

— Nossa governanta em Pemberley. Eu queria que papai a tivesse trazido para cá, ela cuidava de mim. Mas meus pais se separaram e eu fui morar com minha mãe e agora meu pai não gosta mais de mim.

— Eu tenho certeza que seu pai gosta de você, querida. Quem não gostaria? Eu já gosto de você!

— Você é gentil, Elisa.

— E, como eu gosto de você, não posso deixá-la passar a noite aqui. Você precisa voltar para casa, Victória. Seu pai deve estar preocupado.

— Ele não está não. Ele não gosta mais de mim. — a menina respondeu triste, e Elisa quis abraçá-la.

— Novamente, acho isso muito difícil. Por que você não me diz onde você mora? Eu posso te acompanhar até em casa.

— É verdade, Elisa. Eu ouvi a namorada dele falando que encontrou ótimas escolas para mim na Suíça. Ele me detesta tanto que quer me mandar para outro país.

— Eu aposto que deve haver alguma explicação para isso. Você perguntou a ele por que ele quer mandar você para Suíça?

— Não…

— Pois bem, pergunte a ele! E você sempre terá sua mãe. Ela pode intervir por você. — Victoria parou de alimentar os patos e encarou Elisabeta. Ofereceu-lhe um sorriso triste.

— Se tem alguém que gosta menos de mim que meu pai, é a minha mãe.

Elisabeta estava pensando em chamar a polícia. A menina parecia triste demais. Mas estava tão bem vestida, e suas bochechas demonstravam que ela era bem alimentada.

— Como isso pode ser possível?

— Meu pai gostava de mim antes, sabe? Quando eu era menor e ele era casado com a minha mãe. Mas minha mãe nunca gostou muito de mim. — Ela suspirou e disse baixinho, mas Elisabeta ainda conseguiu escutar. — Não sou boa o suficiente. E minha mãe me deixou. Foi embora com o novo namorado dela para os Estados Unidos.

— Então você foi morar com o seu pai e agora ele quer lhe mandar para um colégio na Suíça? A quanto tempo você está morando com seu pai?

— Três semanas. — Elisabeta estava tentada a esbofetear o pai da menina. Mas um vento gelado passou por elas, e anunciou o início de uma geada. Elisa tremeu um pouco. Seu casaco vermelho era velho e ela estava costurando os furos. Suas luvas estavam finas e gastas. Victória percebeu que Elisabeta estava com frio, e tirou seu cachecol e ofereceu a ela.

— Não, querida, eu estou bem. Mas você não pode ficar aqui para sempre, está começando a nevar. Você pode pegar um resfriado. Me deixe te levar para casa.

— Eu não quero voltar, Elisa.

— E se eu prometer conversar com seu pai? Tenho certeza que ele te ama, só está pensando no melhor para você.

— Ele mal fala comigo. Fica o dia todo trancado no escritório, e no começo eu até ia lá, chamar ele para brincar ou falar do livro que eu estava lendo, mas ele sempre mandava a nojenta da Miss Poppy Smith me levar embora. Ele só fala comigo no almoço e na janta.

— Talvez ele só esteja ocupado.

— Ele fala com a namorada dele quando ela chega. E ela é a pior de todas.

— Por quê?

— Ela aperta minhas bochechas com aquelas unhas enormes e sempre machuca. E diz coisas como: olha essas bochechas, cada dia maiores, fofuxa. Parece legal mas não é, sabe?

— Sei. — Se Elisabeta tivesse como, levaria a menina para sua mãe. Ofélia cuidaria dela direito. E Felisberto a amaria. Deus, que sorte ela teve na vida. Apesar das reprimendas de sua mãe, e da exigência do seu pai, não passou um momento de sua infância sequer que não se sentiu amada. — E se eu prometer gritar bastante com seu pai? Dizer que ele é um péssimo pai e que se ele não for legal com você eu volto lá e dou uns supapos nele?- Elisabeta mostrou os punhos e simulou uma briga, finalmente arrancando uma risada da menina.

— Meu pai é muito grande, Elisa. Você não conseguiria. — Ela encarou Elisa. — Mas você faria isso? Falaria com ele?

— Claro. O que eu tenho a perder? — Ela realmente não tinha nada a perder. Estava quase no fim das suas reservas e não tinha dinheiro para o próximo aluguel. Se não encontrasse um emprego, na próxima semana não teria o suficiente para comer e seria obrigada a voltar para o Brasil. Que importância faria gritar a um desconhecido que ela nunca mais veria, que ele era um péssimo pai? — Mas nós precisamos sair agora, porque se você não está congelando, eu estou.

Ela levantou e ofereceu a mão para menina. Victoria encarou a mão de Elisabeta e resolveu caminhar com ela, em silêncio.

—Eu moro em Kensington Palace Gardens. Elisa, você tem filhos?

—Não.

—É casada?

—Também não.

—Você está viajando aqui sozinha?

—Sim. — Elisabeta achou aquela pergunta curiosa.

—Eu queria poder fazer isso quando crescer.

—E por que não?

—Porque eu vou ter que me casar e ter filhos, ué.

—Claro que não. Você pode se casar e ter filhos, mas pode viajar o mundo sozinha também, se quiser.

Victoria refletiu em silêncio por um tempo. Na metade do caminho, ela resolveu segurar a mão de Elisabeta.

—Sabe Elisa, acho que gosto de você.

Este foi o último comentário que ela fez.